ENTREVISTA: Guilherme Rabello fala sobre a Dicta&Contradicta

Na próxima terça, vocês já sabem, será lançada a revista Dicta&Contradicta, cuja publicação é um dos grandes acontecimentos culturais do ano no Brasil. Para obter mais informações entrevistei por e-mail o presidente do Instituto de Formação e Educação (IFE), Guilherme Malzoni Rabello. O IFE é o instituto que idealizou e edita a publicação.

Primeiro, gostaria de saber qual a participação do IFE (Instituto de Formação e Educação) na revista e por que a entidade decidiu colaborar com o projeto.
A revista Dicta&Contradicta é inteiramente ideada, preparada e editada pelo IFE. Decidimos publicá-la como nossa primeira atividade de porte porque achamos que é um excelente meio de começar o trabalho e apresentar a nossa proposta.

O IFE existe há menos de um ano, mas na prática foi sendo criado desde que cinco pessoas decidiram se reunir para estudar filosofia a sério. No começo, não pensávamos que haveria um futuro nessa empreitada; o que fazíamos era basicamente dedicar algumas horas semanais à leitura de Platão. Com o passar do tempo, fomos percebendo que muita gente se interessava pelo que estávamos fazendo; o grupo foi crescendo aos poucos, até que um dia decidimos formalizar a nossa aventura, e o que era passatempo virou uma associação juridicamente reconhecida. O que queremos com ela é oferecer ao maior número de pessoas possível aquilo de que mais gostamos e de que mais sentimos falta: a formação nos valores básicos do ser humano e na grande cultura clássica e humanística.

Todos nós nos empenhamos nisto apenas por gosto, mas ao mesmo tempo temos a preocupação de tornar permanente o Instituto. Neste sentido, o primeiro passo foi dado com o patrocínio de duas instituições de peso, o Instituto Bovespa e o Banco Fator, a quem estamos muito agradecidos.

Qual é o perfil/identidade e ambição da revista? Há mesmo uma influência da New Criterion?
A melhor maneira que encontramos para definir Dicta&Contradicta é dizer que tem conteúdo acadêmico e abordagem jornalística. Queremos que seja profunda, universal, rigorosa cientificamente, mas preocupada com o leitor no estilo e no tamanho dos textos, bem como na apresentação gráfica. Vale a pena ressaltar que todas as ilustrações do primeiro número foram feitas pelo Paulo von Poser, o que deu um belo peso artístico à revista. E também gostaria de destacar que a revista começa com um texto que é um verdadeiro testamento: as três últimas aulas de Bruno Tolentino, que foram gravadas e editadas.

Quanto à The New Criterion, certamente foi a nossa inspiração. Tanto assim que a primeira coisa que fizemos ao preparar a publicação foi entrar em contato com eles para traduzir os artigos publicados por lá: neste primeiro número, temos o excepcional ensaio do Roger Kimball sobre Friedrich Hayek. Além da New Criterion, publicamos um artigo da First Things. Por outro lado, tivemos de fazer várias adaptações: a New Criterion é mensal (10 exemplares por ano), nós seremos semestrais no começo e trimestrais quando for oportuno; e a edição americana tem sempre algo em torno de 80 páginas, nós começamos com 212. Enfim, as diferenças são várias, mas o que nos move é a mesma paixão pelo pensamento e pela crítica honesta.

Qual é a sacada do nome? Como foi escolhido?
Enfim, como eu disse no começo, tanto o IFE quanto a Dicta surgiram de forma natural. Quando nos demos conta, tínhamos formado um instituto e estávamos apresentando o projeto de uma revista. Dicta&Contradicta foi escolhido, digamos assim, às vésperas do parto…

A inspiração vem de uma coletânea de aforismos do jornalista alemão Karl Kraus (NOTA: Há um livro dele no Brasil, Ditos e Desditos). É interessante, porque a influência de Kraus no IFE não vai além do fato de ele ser um jornalista extremamente honesto e atento ao que acontecia a sua volta. O que nos interessa é essa capacidade de ver mais de um lado de uma questão, os argumentos e os contra-argumentos.

Como foi feita a escolha dos colaboradores?
Além dos membros do IFE, que são colaboradores naturais, procuramos pessoas que pudessem contribuir com o nosso projeto. Várias delas são nossos amigos, outras foram gratas surpresas e esperamos que se tornem nossos amigos. Por exemplo, o prof. Mendo Castro, que nos surpreendeu a todos entregando um texto maravilhoso em tempo recorde. Outra enorme fonte de colaboração foram os blogs: basta uma olhada no índice para perceber que mais de um terço da revista é feito por pessoas que também mantêm blogs. E queremos deixar claro que nosso objetivo é expandir ao máximo o número desses colaboradores.

De que forma o conteúdo é definido?
A revista é composta por seções, várias delas com temas fixos. Isso nos dá uma moldura dentro da qual definimos o conteúdo e pensamos que colaboradores poderíamos convidar. Dentro de cada uma dessas seções, o conteúdo é absolutamente livre, com uma única condição: precisa ser bom.

A partir disso, fazemos um brainstorm: “Que tema seria interessante? Quem poderia escrever sobre isso?” ou, ao inverso, “Fulano escreve coisas muito pertinentes, vamos convidá-lo? Sobre o que ele poderia escrever?” Acho que não há nenhuma “inovação” no nosso método de trabalho: basicamente, fazemos uma reunião de pauta e fechamos o conteúdo. Se tudo correr bem, com o passar do tempo teremos mais opções do que tínhamos no começo.

Por que investir numa publicação impressa e não num site? Ainda é estratégico ter uma revista impressa?
Eu não vejo oposição entre publicação impressa e publicação eletrônica. Pelo contrário, acho que as duas são complementares e, cada vez mais, necessárias. No caso da Dicta, mais ainda! Estamos investindo fortemente no nosso site, www.dicta.com.br [deve ir ao ar nos próximos dias]. Será basicamente um blog, com algum conteúdo especial ligado ao primeiro número da revista; por exemplo, colocaremos no ar, como especial, a gravação das aulas do Bruno Tolentino que deram origem ao artigo impresso.

Se me permite um exemplo, quem melhor resumiu a relação entre publicações impressas e eletrônicas foi você, recentemente, no seu blog. Era um post com o link para um texto do Paul Johnson publicado no The Spectator sobre bibliotecas. É exatamente isto: adoramos a agilidade que a internet possibilita: um jornalista brasileiro, estudando em Portugal, recomenda um texto publicado naquela semana num periódico inglês… Mas nada disso impede que fiquemos fascinados com aquelas bibliotecas antigas, escondidas no interior da Irlanda…

Um dos problemas mais comuns em publicações mais exigentes intelectualmente é a falta de uma administração competente e de um marketing eficiente que consiga “vender” a revista para os anunciantes e chegar aos leitores sem se limitar a um gueto. Como a revista se preparou nesse sentido? Podemos acreditar que a publicação terá vida longa?
O que posso dizer é o seguinte: nós nem consideramos a possibilidade de lançar um projeto antes de elaborar uma planilha de custos. No caso da Dicta, o “segredo” foi minimizar os custos; por isso não pudemos começar com uma periodicidade maior, por exemplo. Outra preocupação fundamental foi conseguir expor aos patrocinadores o nosso projeto como um todo: não apenas viabilizar uma revista, mas começar um projeto cultural mais abrangente.

É claro que encontraremos dificuldades, mas isso faz parte do jogo. Estamos aí para jogar: em nenhum momento você nos ouvirá reclamando “do mercado”, “da falta de leitores”. Partimos do princípio de que nós é que precisamos entender o mercado, e de que os nossos leitores querem um bom produto, e só comprarão a revista se julgarem que ela é boa.

Eu espero que isso seja suficiente para acreditarem que a revista terá vida longa. Nós acreditamos! E se em algum momento fizermos algo de errado, vamos voltar atrás e tentar fazer melhor, porque é aquela coisa: “for us there is only the trying, the rest is not our business”.

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Dicta&Contradicta na blogosfera

FDR (um dos melhores textos da blogosfera. Faz parte do meu Top 10 de blogues):

Dicta&Contradicta

Se eu fosse um empresário e alguém me apresentasse o projeto de uma revista chamada Dicta&Contradicta, com textos sobre o Eclesiastes, Bernard Lonergan e Friedrich Hayek, eu expulsaria o cretino a pontapés da minha sala, gritando: “Você está louco?”

Ainda bem que eu não sou empresário. E ainda bem que o Martim Vasques da Cunha é completamente louco. Foi ele quem editou, em conjunto com o Instituto de Formação e Educação, a única revista highbrow da nossa querida e repulsiva Terra Papagalis. Além dos textos sobre o Eclesiastes, Lonergan e Hayek, há a coluna “Anatomia do Poema”, do Pedro Sette Câmara, um conto inédito do Antônio Fernando Borges, um artigo do Paulo Ricardo de Almeida sobre os filmes de Max Ophüls, uma resenha de Marcelo Ferlin descendo o sarrafo no Ian McEwan, uma coluna do Ruy Goiaba e “muito mais”.

Julio Lemos (Grande JL, autor de um de meus blogues preferidos. Também integra o meu Top 10):

Parece que o bebé tomou corpo

Amici, a coisa saiu. Na próxima terça-feira (10-VI), como se pode ver no convite acima - dirigido aos leitores - teremos o lançamento da revista Dicta & Contradicta, na boa e velha Livraria Cultura.

Não há a pretensão de fazer algo ousado e inédito. Tampouco de estar kicking a dead pig. O fato é que não há uma revista de cultura com esse viés, vamos dizer assim, high brow, no Brasil. A inspiração (e não o modelo) é a New Criterion, cujo editor, Roger Kimball, tem um artigo traduzido na Dicta.

A iniciativa é do IFE, cujo site oficial foi lançado ontem (está no mesmo endereço do link ao lado). A revista já pode ser adquirida online aqui, na própria Livraria Cultura, que disponibiliza uma imagem da capa.

Logo depois do lançamento o site http://www.dicta.com.br/ será ativado.
É isso, meus caros. Vejo muitos de vocês lá. Podem divulgar o lançamento e a revista; ao que parece, algum barulho vai fazer.

Joel Pinheiro:

Evento em São Paulo

Como podem ver acima, haverá o coquetel de lançamento da revista Dicta&Contradicta (da qual faço parte como escritor de um artigo de filosofia e membro do conselho editorial), do Instituto de Formação e Educação ( http://www.ife.org.br/ ).

O que posso dizer sobre ela? Claro que sou suspeito, mas acho que o resultado final ficou muito bom. Temos, dentre os artigos principais, uma transcrição editada das últimas aulas do poeta Bruno Tolentino, e um ensaio literário do prof. Luiz Felipe Pondé.

Na seção de filosofia, além do meu artigo sobre o livre arbítrio, há um artigo do nosso editor, Henrique Elfes, sobre as severas limitações das ciências humanas hoje em dia, e um do prof, Luiz Antônio Lindo, da faculdade de Letras da USP, sobre a natureza da linguagem (palavras se referem a coisas na realidade, ou apenas umas às outras?).

Há uma seção de análise de poesia, feita, nesse número, pelo Pedro Sette Câmara, já notório por seu trabalho em ajudar muita gente a apreciar melhor essa arte.

Isso dá apenas uma pequena amostra do conteúdo da revista. Ao longo de suas páginas, há espaço para poemas, contos, resenhas de filmes e livros, ensaios traduzidos e até uma coluna humorística.

Enfim, todos os leitores deste blog estão convidados, e se conhecerem alguém que possa se interessar, que os tragam também!

Antonio Fernando Borges (no Top 10 antes mesmo de ser criado):

“A última loucura de Mel Brooks…”

..ou, melhor dizendo, a “mais recente loucura de Martim Vasques da Cunha” é, para quem ainda não sabe, o lançamento de Dicta&Contradicta , caso raro de uma revista brasileira sobre filosofia, literatura, idéias e negócios do espírito que não é feita por intelequituais — mas por adultos dispostos a tratar os leitores como adultos.

Editada pelo Instituto de Formação e Educação, sob a batuta de jovens de fibra como Henrique Elfes, Joel Pinheiro da Fonseca, Rodrigo Duarte Garcia e Martim Vasques da Cunha, Dicta&Contradita é um acontecimento de peso, na contramão da indigência reinante no Brasil-País-de-Todos.

Para não acharem que estou exagerando: você conhece outra revista, editada no Brasil, que trate de Ortega y Gasset, Hayek ou Samuel Johsonn, em textos assinados por Mendo Castro Henriques, Roger Kimball e Luiz Felipe Pondé? Um pequeno milagre — que traz ainda a transcrição da última aula do poeta Bruno Tolentino.

Nosso bravo portal também está presente neste “milagre”, com um conto inédito de Antonio Fernando Borges, um artigo do Paulo Ricardo sobre os filmes de Max Ophüls e um texto de humor do grande Ruy Goiaba.
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Quem estiver em São Paulo, não deve perder o lançamento de Dicta&Contradicta, nesta terça-feira, dia 10 de junho, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

E para aqueles que acham que a a vida-do-espírito no Brasil é uma causa para sempre perdida, faço minhas as palavras de Thomas Payne, que o Gordo Alegre adorava repetir: “As causas perdidas são as únicas pelas quais vale a pena lutar”.

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A tortura nem sempre é intolerável?

Hoje participei, pelo mestrado, da última aula do seminário “Os Direitos Humanos nas Relações Internacionais”. O último módulo de discussão tinha como tema A Pena de Morte e a Tortura. No fim das contas, baseado na sessões anteriores, algumas reflexões, com mais dúvidas do que certezas, que gostaria de dividir com vocês:

1) Com a queda da União Soviética achou-se que, com o “fim da história”, tudo ia dar certo e o caminho era paivmentado de tijolos de ouro que levava até Oz. Mas a ação humana não segue a teoria. Uma das falácias do racionalismo é achar que pode ter o controle dos eventos só porque chegou à conclusão antecipada de que 2 + 2 é igual a 4.

2) Como os acontecimentos pós Guerra-Fria mostraram que o mundo não era feito só de anjos e o comportamento dos países era mais complexo do que se desejava, veio o terrorismo e a necessidade de combatê-lo. Um dos instrumentos usados para obter informações é a tortura. E daí a segunda e exasperante descoberta: além de o mundo não ser feito só de anjos, havia situações em que precisaríamos nos comportar como demônios; não só houve a descoberta de que era preciso lançar mão da tortura como éramos capazes de cometê-la.

3) Nem a tortura nem a pena de morte são novidades na história humana. Mas a pena de morte obteve um status (ainda) não concedido à tortura. A pena de morte é institucionalizada em vários cantos do planeta; a tortura, embora se saiba onde ela é realizada, sempre está oculta em respeito ao pacto de silêncio estabelecido tacitamente entre autoridades e cidadãos. Acontece nas delegacias, nas prisões, nos campos de concentração. O debate sobre a tortura incomoda tanto porque expõe a face satânica da sociedade civil. De certa forma, achamos que a tortura é aplicável em alguns casos, mas não queremos saber quais são e nem mesmo se ela é realizada.

4) No caso da tortura usada contra terroristas com a finalidade de obter informações, que foi objeto da discussão na aula, o debate teve que vir a público. Em muitos casos, a discussão intelectual oscila entre as ponderações dos aspectos utilitários e dos fundamentos morais contra e a favor. No ensaio The Truth about Torture, Charles Krauthammer levanta um ponto importante ao abordar o caso de Khalid Sheikh Mohammed: diante do princípio de que a tortura nem sempre é intolerável o argumento não é se a tortura é sempre tolerável, mas quando será. E isso leva a uma questão moral que também está diretamente ligada à questão dos direitos humanos: se a tortura é utilizada sob certas circunstâncias, algumas indagações saltam da panela como pipoca:

a) Quando e como se legitima a tortura?

b) Em que momento a tortura é a alternativa?

c) Quem deve ser torturado?

d) Qual é o dilema moral das democracias liberais? Se os inimigos (terroristas) usam a tortura como método, nos é moralmente lícito usá-la como instrumento de defesa e prevenção?

Neste momento de estudos e análise só tenho indagações e esboços de respostas que vou dividindo com vocês ao longo de mais esta conversação.

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Lançamento da revista Dicta & Contradicta: uma excelente notícia!

Uma grande notícia no panorama intelectual brasileiro! Na próxima terça, dia 10, será lançada a revista Dicta & Contradicta, que tem entre um dos editores meu caro Martim Vasques da Cunha. Anotem: o lançamento será na Livraria Cultura da Avenida Paulista às 19h.

A revista, segundo havia me dito o Martim há uns tempos, se espelharia na exigência e rigor da New Criterion, que deve ser leitura obrigatória para qualquer indivíduo com o mínimo de ambição intelectual. No site da Cultura um texto curto explica:

Dirigida ao público intelectualmente desperto, desejoso de conteúdos mais profundos, com a finalidade de fornecer uma revista semestral de cultura, acadêmica sem academicismo, com excelente apresentação gráfica, a revista discute temas de pensamento, comportamento, filosofia, literatura e arte, além de analisar situações e fatos que mantenham interesse a longo prazo. Mais do que apresentar e comentar a programação cultural em cartaz, fornece leituras interessantes e bases para a formação cultural. O artista plástico Paulo von Poser assina as ilustrações e o acabamento gráfico da edição nº 1 da revista. Além disso, entre os colaboradores estão - Bruno Tolentino, Luiz Felipe Pondé, Mendo Castro Henriques e Roger Kimball.

Só de ver a capa já fiquei feliz e impressionado com os colaboradores e com o conteúdo. Olha o time que faz parte do primeiro número:

Bruno Tolentino, Renato José de Moraes, Henrique Elfes, Mendo Castro Henriques, Paulo Ricardo de Almeida, Antonio Fernando Borges, Pedro Sette Câmara, Jessé de Almeida Primo, Marcelo Ferlin Assami, Renato Jo Moraes, Guilherme Malzoni Rabello, Julio Lemos, Luiz Antonio Lindo, Rodrigo Garcia Duarte, Gabriel Navarro, Alberto de Genaro, Paulo von Poser, Martim Vasques da Cunha, Dionisius Amendola Valença, Luiz Felipe Estanislau Amaral, Joel Pinheiro Fonseca, Luiz Felipe Ponde, Roger Kimball e Ruy Goiaba.

O lançamento da Dicta & Contradicta é uma grande notícia para a inteligência brasileira. Como não poderei estar em São Paulo na data, convido todos para estarem lá e participar desse evento que tem uma importância fundamental. A revista, assim espero, vai inaugurar um novo nível intelectual entre as publicações impressas no país.

Há pouco conversei via Skype com Guilherme Malzoni Rabello, presidente do IFE (Instituto de Formação e Educação), instituto fundado por um grupo de estudiosos de filosofia que idealizou e edita a revista. A publicação, outra grande notícia, nasce com o patrocínio do Banco Fator e da Bovespa, duas empresas que eu, mesmo não fazendo parte da revista, agradeço por apoiar tal idéia.

O Guilherme concedeu-me uma ótima entrevista por e-mail onde explica como a revista nasceu e para onde a revista quer ir. A conversa será publicada no domingo. Aguardem que vale a pena.

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Livro importante e citação no blogue do Roberto Romano

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O texto de ontem sobre a palestra do João Pereira Coutinho rendeu uma nota gentil do professor Robert Romano em seu blogue. Quem deu a dica ao Romano foi o Alvaro Caputo, a quem agradeço imensamente.

Para esta nota não se limitar a uma autopropaganda estéril sugiro que quem estiver em São Paulo vá hoje ao lançamento do livro História da Paz, organizado pelo sociólogo Demétrio Magnoli e que reúne ensaios sobre acordos de paz.

História da Paz será lançado hoje na Saraiva

Livro organizado pelo sociólogo Demétrio Magnoli narra superação de conflitos armados

Hoje, o sociólogo Demétrio Magnoli e o professor Roberto Romano promovem o lançamento do livro História da Paz, na Saraiva Mega Store (Shopping Iguatemi, Av. Iguatemi, 777, Vila Brandina), às 19h. A obra reúne textos de especialistas em diversas áreas. São 15 artigos que narram os esforços diplomáticos que resultaram em acordos e mantiveram o mundo em harmonia, evitando novas guerras. São episódios poucos citados pela imprensa ou que sequer chegaram ao conhecimento do público, mas que mostram a importância dos diplomatas em um mundo cada vez mais próximo da destruição.

A noite de autógrafos será precedida de palestra com Magnoli e Romano. O bate-papo contará também com os comentários do doutor em Filosofia pela USP, Luiz Paulo Rouanet. Roberto Romano, que assina o capítulo Paz na Westfália, é professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor pela École de Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Ele também é colaborador do Correio Popular, onde publica coluna às quartas-feiras.

Dentre os autores que participam da coletânea estão nomes como Fernando Gabeira (Protocolo de Kyoto), Celso Lafer (Declaração Universal dos Direitos Humanos), Gilson Schwartz (Conferência de Bretton Woods), Maria Helena Valente Senise (Tratado de Nanquim), Elaine Barbosa (Conferência de Berlim), José Rivair Macedo (Concílios Ecumênicos Medievais), Flávio de Campos (Tratado de Tordesilhas), Mônica Herz (Carta da OEA) e Luiz de Alencar Araripe (Tratado de Versalhes), entre outros. A entrada é franca. (Da Agência Anhangüera)

PS: Roberto Romano concedeu à finada Primeira Leitura uma das melhores, ou a melhor, entrevistas publicadas pela revista.

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JPCoutinho: a possilidade de um segundo holocausto é mais real do que se imagina

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João Pereira Coutinho, colunista da Folha de S. Paulo e do jornal Expresso, fez ontem uma palestra dando pinceladas sobre o passado, presente e futuro de Israel estabelcendo links com o romance Operação Shylock, de Philip Roth. Na conversa de quase duas horas, incluindo debate com o público, tocou em pontos cardeais:

1) As famílias israelenses poderiam ser muito maiores do que são. Israel é um país dos vivos com seus fantasmas;

2) O anti-sionismo, por seu caráter persecutório e violento, é muito mais preocupante do que o anti-semitismo, que revela a idiotice de pessoas que cultivam um preconceito tão abjeto quando histórico;

3) O anti-semitismo não despareceu só mudou de método;

4) A possilidade de um segundo holocausto é mais real do que se imagina.

JPCoutinho citou dois elementos fundamentais para que tal tragédia ignominiosa venha a ocorrer: a) um processo de desumanização do outro (como se fez na Alemanha nazista, como se faz em países árabes em relação aos judeus); b) capacidade tecnológica para converter ódio em ato (o programa nuclear do Irã é muito mais do que apenas um indício de que a vaca já foi para o brejo).

5) A Europa, com sua compreensível posição pacifista, não está dando a devida atenção ao problema naquilo que JPCoutinho chamou de postura de negação. “Negar a realidade ou desacreditá-la não vai fazê-la desaparecer”, disse. Ele citou a matéria de capa da revista Foreign Policy, que ouviu 100 importantes intelecuais sobre a situação de Israel. Ninguém deu um pio sobre a ameaça representada por Teerã.

6) Sobre aqueles que defendem um equilíbrio nuclear com o Irã, JPCoutinho disse que é ingenuidade a Europa achar que é possível estabelecer um equilíbrio de força como na Guerra Fria. O colunista disse que não é possível confiar num regime fanático porque nunca se saberia o que planejava e o que era capaz de fazer. Além do mais, Irã não deverá atacar Israel na posição de Estado, mas vai agir, como já vem fazendo, através de grupos terroristas, como Hamas e Hezbollah, que recebem informalmente apoio e financiamento.

7) O fracasso nas negociações de Camp David em 2000: Barak, de Israel, entrou para negociar; Arafat, da Palestina, não. Isso ficou claro com as concessões feitas por Israel e, além de exigir que todos os pedidos fossem atendidos, para fechar a rosca, Arafat ainda propôs a volta de 3 milhões de refugiados palestinos para o Estado de Israel e não para o futuro Estado palestino. “Arafat queria eliminar Israel demograficamente. Queria dois Estados para um só povo”.

Num texto que fiz para o site Americas Reporter, o embaixador de Portugal em Argel, Luís de Almeida Sampaio disse que o diálogo entre Israel e palestinos já vinha sendo desenvolvido antes mesmo da Conferência de Anápolis, realizada em novembro do ano passado nos Estados Unidos. Destaco um trecho do meu texto (pode ser lido aqui):

Do encontro, com participação de 47 países, a maior já registrada numa conferência pela paz na região, saiu um documento que define pontos de um acordo para selar a paz e criar um Estado Palestino até o fim deste ano (Israel, no entanto, não quis estabelecer um prazo, mas acha que o acordo sai até dezembro). Também está prevista a formação de um comitê permanente de negociação com representantes dos dois povos e uma reunião quinzenal entre Olmert e Abbas.

Mas o fato de todas as questões de interesse entre palestinos e israelenses terem sido previamente discutidas não significa que haja consenso. Ainda é ponto de discórdia questões centrais como o problema dos refugiados que se arrasta desde 1948 (hoje são quatro milhões), o desmantelamento do muro e dos assentamentos, o controle da água, a libertação dos presos, o reconhecimento de Israel como Estado Judeu, a volta às fronteiras de 1967 com a retirada das tropas israelenses e a devolução da parte oriental de Jerusalém, conquistada naquele ano por Israel e que seria convertida na capital do futuro estado palestino.

“Como tudo vem sendo negociado pelos dois países não é preciso reinventar a roda. Precisa é negociar e decidir”, explica o embaixador português, para quem o que falta é vontade política para, em algum momento, fechar o acordo. “Mas é claro que não será um acordo satisfatório para nenhuma das partes. Israel vai reclamar, os palestinos vão reclamar e a comunidade internacional também. Mas, com todas as limitações, será o acordo possível e igualmente importante. Em cima desse acordo, depois, é possível avançar nos pontos divergentes”.

JPCoutinho deixou claro que o governo de Israel pode e deve ser criticado por suas ações, mas não pelo fato de defender seu povo e território. A confusão que geralmente se estabelece é vincular ações de defesa dos israelenses com a legitimidade da existência do Estado de Israel.

No fim da palestra pedi ao JPCoutinho que me enviasse o texto que ele preparou. Assim que eu recebê-lo publico aqui para vocês lerem os demais pontos abordados.

PS: Vou passar a comentar no blogue eventos que eu for por aqui. Acho que está faltando ao site falar sobre Portugal e do que há de relevante em tudo o que venho tendo acesso na terra de Camilo Castelo Branco.

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João Pereira Coutinho sobre história e atualidades de Israel

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Estou saindo agora para ver a palestra do João Pereira Coutinho sobre história e atualidades de Israel. O título da palestra Operação Shylock: ficções e realidades é uma referência ao grande livro do escritor americano Philip Roth.

Se eu chegar em horário hábil conto como foi.

Enquanto isso, fiquem com o texto dele publicado sábado passado na coluna Divinas Comédias, no jornal Expresso:

Otto Rahn, 32 anos, praxes

INFERNO

OTTO RAHN

As ditaduras totalitárias não se recomendam. Mas no meio da loucura e da desumanidade, existem histórias pícaras.

Uma delas é contada pelo “Sunday Telegraph” e merece partilha com os leitores. Falo do destino do alemão (e nazi) Otto Rahn. Quem? Precisamente. Otto Rahn, arqueólogo de ofício, nutria uma admiração sincera por Heinrich Schliemann, um seu colega e antecessor que, embalado pelas leituras de Homero, realizou escavações na Turquia e encontrou as ruínas do que acreditava ser a lendária Tróia.

Rahn imitou o gesto de Schliemann e, substituindo a “Ilíada” por “Parsifal”, um épico do século XIII, lançou-se na descoberta do Santo Graal, o cálice de Jesus na Última Ceia. Rahn partiu para o Languedoc porque, alegadamente, três reis cátaros, momentos antes de serem massacrados pelos cruzados, teriam escondido o Graal num castelo da zona. Rahn não encontrou o Graal (a sério?) mas alguns labirintos subterrâneos do castelo atiçaram-lhe a imaginação. O Graal existia, ele acabaria por encontrá-lo. E um livro da sua autoria sobre o assunto foi publicado em 1933.

Tudo terminaria aqui se o livro de Rahn não fosse lido, sublinhado e praticamente decorado por Himmler, outro adepto de fantasias que fez a Rahn uma proposta irrecusável: dinheiro abundante para pesquisas em troca do Graal. No dia em que Rahn o encontrasse, o cálice seria exposto num castelo da Vestefália propositadamente reservado para o efeito. A ladear o Graal, bustos de nazis ilustres (um oxímoro, eu sei). Rahn aceitou a proposta mas, para espanto dele, o Graal teimava em não aparecer. Até ao dia em que os nazis, cansados de esperar, decidiram terminar com a festa, terminando com a vida de Rahn.

E no fim, que dizer desta odisseia? Duas coisas. Primeiro, que a cabeça dos nazis tem tanto de infantil como de criminoso. E, depois, que as aventuras de Otto Rahn tiveram o mérito de inspirar um conhecido herói de cinema, especialista no chapéu, no chicote. E no Graal.

PURGATÓRIO

32 ANOS

Não vale a pena iludir: estou a envelhecer. E existem dois sintomas que normalmente denunciam o dilúvio na vida de um homem. O primeiro é observar a Selecção Nacional e concluir, com uma dor silenciosa e íntima, que os jogadores são todos mais novos do que ele. Não que eu pretenda lugar na equipa de Scolari: sou incapaz de chutar uma bola e 90 minutos atrás dela sempre me pareceram um clamoroso desperdício de tempo. Mas é sempre duro contemplar certos clubes onde, talento à parte, a entrada já nos está interdita. Biologicamente interdita.

O segundo sintoma acontece quando o número da roupa que nos acompanhou durante toda a juventude nos acena do outro lado da margem. Sim, havia sinais de que engordava sem retorno. Mas eu mentia a mim próprio, como um alcoólico em negação. E, com perícia de kung-fu, enfiava-me nas velhas calças. Enfiava-me, vírgula: rastejava para dentro delas, normalmente deitado no chão como uma lagartixa agonizante. Quando finalmente me enchouriçava no par, pedia ajuda para me levantarem e tentava não fazer certos gestos bruscos. Nem sempre conseguia, é certo, e a insensatez de alguns movimentos - como, por exemplo, caminhar - proporciona estrondo no sentido literal. E quando as calças aguentavam, não aguentava eu: a circulação sanguínea parava e o meu rosto adquiria um belíssimo tom púrpura. Na passada semana, e com um guarda-roupa irremediavelmente perdido, decidi actualizá-lo. E lá fui à loja da praxe, como um remador de Ben-Hur, disposto a esforço inglório para enganar o corpo. Mas o corpo não se deixa enganar: perante o riso da menina de serviço, que desaconselhou a repetição de erros recentes, experimentei calças e casacos dois números acima do habitual. Serviam-me. Ou, se quiserem, eu servia dentro deles, sem gemer de vergonha e dor. E agora? Agora, aguardo simplesmente pelo terceiro sintoma: o dia em que estarei mais gordo do que Figo, Rui Costa ou Fernando Couto. Tudo rapazes do meu tempo. E, como eu, reformados da Selecção.

PARAÍSO

PRAXES

Ah, as praxes… Ainda me lembro da minha, com lágrimas de saudade: terminou passados cinco segundos.
Eu era jovem, inocente, “caloiro”. E acabado de chegar à universidade, contemplei com fascínio uma manada efusiva que rastejava pelos prados verdejantes do entulho urbano. Foi então que um “veterano” se aproximou de mim e, confundindo-me com um canídeo, perguntou se eu era “caloiro”. Observei-o com a curiosidade típica que certos exploradores concedem aos selvagens. E quando ele, abismado com o meu silêncio, partiu para ameaças físicas, alguns amigos seguraram o “caloiro”, para que não fosse ele a “praxar” o “veterano”. A pergunta, que se repete desde esse tempo, é recorrentemente a mesma: como é possível que uma pessoa adulta e na razoável posse das suas faculdades mentais permita que um grupo de selvagens a humilhe, insulte e, às vezes, sove? E, no entanto, mais ninguém partilha esta extravagante inquietação: na “praxe”, só existe um culpado; quem se deixa “praxar”, não passa de uma vítima. Nos últimos dias, por exemplo, o país rejubilou com uma decisão da Justiça que não tolerou as “praxes” num instituto de Santarém. Há seis anos, os “veteranos” cobriram uma aluna com bosta; e a aluna, convém recordar, deixou-se ser coberta. Num país razoável, a pergunta seria a mesma: como é possível que uma aluna universitária, que presumivelmente atingiu um certo nível de maturidade pessoal e intelectual, se submete voluntariamente a estes espectáculos?

Não que eu proponha acabar com eles. Longe disso. Ao contrário do que se escreveu, as praxes académicas têm um inestimável valor pedagógico que as nossas universidades deviam reconhecer. Elas permitem identificar, de imediato, pessoas preparadas para o ensino superior; e pessoas que, humilhando ou deixando-se humilhar, manifestamente confundem a universidade com a pocilga. Estes últimos não deviam ter lugar no ensino superior. Porque são precisos dois para dançar o tango.

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Inseto na luta pela liberdade de expressão

Do Expresso, de Lisboa:

Congresso da Associação Mundial de Jornais na Suécia

Jornalista chinês premiado pela liberdade de expressão

Na abertura do 61.º Congresso da Associação Mundial de Jornais, na Suécia, Li Changqing foi premiado com a Pena de Ouro, maior galardão jornalístico. O ex-director-adjunto do diário Fuzhau esteve preso na China por ter dado o alerta para um surto de dengue.

O Rei Carlos Gustavo da Suécia abriu hoje os trabalhos do 61º Congresso da WAN (World Association of Newspaper) e do 15º Fórum Mundial de Editores (WEF) que reúne em Gotemburgo, na Suécia, cerca de 1800 directores e administradores de jornais em todo o mundo.

Durante a cerimónia, em que também usou da palavra Gavin O’Reilly, presidente da WAN, a Pena de Ouro, o maior prémio que consagra a defesa da liberdade de expressão, foi atribuído a Li Changqing, ex-director-adjunto do diário Fuzhau. Li esteve três anos preso na China, acusado de disseminar mentiras na Internet, embora apenas tenha alertado a opinião pública para um surto de febre de dengue na sua região, em 2005. Para a WAN, o jornalista chinês (que foi impedido de sair do país) é um exemplo de liberdade num país onde ela não existe. Aliás, a WAN, que pela segunda vez consecutiva concede a Pena de Ouro a um chinês (no ano passado entregou-a a Shi Tao, o jornalista que foi preso depois da Yahoo ter fornecido a informação que levou as autoridades chinesas a localizá-lo), decidiu lançar uma campanha pela libertação, antes dos jogos olímpicos, de todos os jornalistas chineses encarcerados.

Só mesmo o carácter simbólico, com a devida pressão moral intrínseca, explica um prémio pela liberdade de expressão dado a um jornalista que denunciou um surto de dengue. O senhor Aedes Aegypti devia ser igualmente condecorado.

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Novidades nesta semana

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Estou esbodegado. Hoje o dia foi de descanso e filmes. Esta semana teremos novidades. Prometo que conto. Bom descanso neste domingo que já fecha suas portas.

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Estudante venezuelano na Veja

No dia 16 de maio, o jornal Valor Econômico publicou um texto que fiz sobre a relação entre liberdades individuais e liberdade/desenvolvimento econômico. O gancho era a entrega do prêmio Milton Friedman ao estudante venezuelano Yon Goicoechea. A Veja desta semana traz uma bela entrevista com Goicoechea, cujos trechos, tirados do blogue do Reinaldo Azevedo, reproduzo aqui:

O líder estudantil que se opõe a Chávez

Por Camila Pereira:

Apesar da pouca idade – apenas 23 anos –, o estudante de direito Yon Goicoechea é hoje um dos principais líderes de oposição ao governo do presidente Hugo Chávez na Venezuela. Sua atuação à frente do movimento estudantil foi considerada pelos observadores decisiva para a derrota de Chávez no referendo que lhe teria conferido mais poder e limitado ainda mais a liberdade dos venezuelanos. Por sua luta em prol da democracia, Goicoechea recebeu, no mês passado, um prêmio de 500 000 dólares do instituto americano Cato, sediado em Washington. Ameaçado de seqüestro e até de morte pelos chavistas, ele passou a tomar algumas medidas de segurança em seu dia-a-dia. Não sai mais à rua sozinho e troca o número do celular a cada quinze dias, para evitar ser grampeado. Ainda assim, vive com medo de ser vítima de um ato violento por parte do governo. Na entrevista que concedeu a VEJA, Goicoechea se revela uma voz destoante no movimento estudantil: critica o fato de tais movimentos receberem dinheiro do governo, tal qual no Brasil, e é contra invasões de reitoria como forma de protesto.

Veja – Você acaba de ganhar um prêmio nos Estados Unidos por lutar pela liberdade em seu país. Qual foi a reação do governo?
Goicoechea – O Ministério da Comunicação usou a televisão estatal para difundir a tese de que, ao conceder o prêmio a um opositor do regime, os Estados Unidos estariam fazendo uma nova tentativa de desestabilizar os governos na América Latina. Uma baboseira ideológica que choca, antes de tudo, pelo anacronismo.

Veja – Qual é sua opinião sobre esse antiamericanismo?
Goicoechea – É inaceitável o fato de a filosofia antiamericanista ainda ter espaço num momento em que os países estão cada vez mais próximos uns dos outros. Enquanto eles se abrem e claramente se beneficiam disso, a Venezuela está isolada do mundo. Também não dá para entender de onde vem tanto ódio contra um modelo que, afinal, deu certo. Fiz palestras em Harvard e Georgetown, ambas nos Estados Unidos, e vi de perto como funcionam algumas das melhores universidades do mundo. Devemos é aprender com os americanos, em vez de repudiá-los. Repare que há muito pouco de objetivo nas críticas feitas por Chávez aos Estados Unidos – são pura retórica. Adoraria ver os venezuelanos vivendo tão bem quanto os americanos.

Veja – Você costuma ser criticado por outros estudantes ao defender tais idéias?
Goicoechea – Sim, o tempo todo. Essas críticas vêm de uma minoria de estudantes que ainda apóia Chávez. Estão motivados, basicamente, por um discurso ideológico de esquerda. Segundo esses estudantes, eu seria um típico representante da direita. Com uma discussão tão ultrapassada, eles deixam de prestar atenção na questão central: quem se opõe ao governo Chávez está lutando pela possibilidade de qualquer venezuelano defender o que bem entenda e acreditar nisso sem que seja punido, como é comum hoje. Para superar um cenário tão atrasado, é preciso pragmatismo – e a insistência no debate ideológico só atrapalha.
Assinante lê mais aqui.

E no blogue OrdemLivre.org você pode ler o relato do Diogo Costa, o editor do site que trabalha no Cato Institute em Washington, sobre a cerimônia de entrega do prêmio realizada no dia 15, um dia antes da publicação do meu texto no Valor.

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