Série sobre blogues começa na quinta
Cheguei tarde de compromissos do mestrado. O texto sobre blogues ja está escrito e há comentários estimulantes. Amanhã, tão logo eu acorde, insiro aqui o primeiro da série. Abraços e boa noite.
1 commentQuem tem medo dos blogues, Mr. Albee?
Amanhã começo uma série de textos sobre blogues. Queria convidá-los a escrever o que pensam nos comentários e assim vou escolhendo os mais relevantes para publicar aqui.
A idéia é fazer um exercício de reflexão sobre as mudanças provocadas, as virtudes, os vícios e tentar debater o blogue, essa entidade, sob uma perspectiva não contaminada. Tentar estabelecer uma análise com um olhar novo, jovial e aberto, deixando de lado o cada dia mais inócuo e irrelevante debate comparativo com as mídias tradicionais. É importante que o blogue passe a ter uma análise própria e deixe de ser questão acessória para se tornar a principal.
Além de meus maravilhosos, encantadores, sofisticados e perfumados textos, quero entrevistar pessoas que fazem a blogosfera e aquelas que estão de fora, mas têm o que dizer, contrapondo, assim, impressões, posições, conceito e preconceitos. Talvez desse caldo saia um mocotó.
E aí, aceitam o desafio?
10 commentsAmericas Reporter: Chávez criou a sua própria crise
Por Bruno Garschagen, @mericas em Lisboa
O que está acontecendo com o governo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez? O que está havendo com o próprio Chávez? Em abril, os institutos de pesquisa Datos e Keller & Associados divulgaram pesquisa mostrando que a popularidade de Chávez, que era de 67% no início de 2006, tinha caído para 37%. O instituto Datanálisis também divulgou pesquisa indicando queda de 75% para 51,8% da popularidade do presidente da Venezuela. Em março, uma pesquisa do Keller & Associados já tinha revelado que, pela primeira vez desde que assumiu o poder em 1998, havia mais gente que se declarava contra do que a favor do governo: 47% de opositores contra 37% pró-Chávez.
Qual a explicação para essa perda de apoio, que, segundo os institutos, apresentavam tendência de queda ainda maior? Baseado nos dados coletados na pesquisa, Alfredo Keller, presidente do Keller & Associados, arriscara um diagnóstico: a população mais pobre cansou de esperar pelas melhorias das condições de vida prometidas pelo presidente venezuelano.
Ainda há de se colocar nessa conta a constatação de analistas políticos e econômicos de que a faixa da população em melhor condição social sentiu-se atacada em suas liberdades. É exemplar, sob esse aspecto, que o Cato Institute, dos Estados Unidos, tenha dado o Prêmio Liberdade “Milton Friedman” para o líder do movimento estudantil pró-democracia da Venezuela, Yon Goicoechea, de 23 anos, que vai receber US$ 500 mil num evento programado para o dia 15 de maio, em Nova York.
Tanto a frustração pela expectativa irrealizada como o desrespeito às liberdades individuais são mostrados analiticamente em dois estudos do economista venezuelano e professor assistente de estudos econômicos e latino-americanos da Wesleyan University, Francisco Rodríguez: The Price of Political Opposition: Evidence from Venezuela’s Maisanta e An empty revolution – The unfullfilled promisses of Hugo Chávez.
No commentsBulldog e Camilo Castelo Branco
Estão vendo minha cara aí em cima, né? Estou esbodegado. Por isso, deixo-vos com um trecho do livro Coisas que só eu sei, do gigante Camilo Castelo Branco.
1 comment- Meu anjo !… Que graça ! Pois eu ta conto. Como o poeta se chama não sei, nem importa. Imagina tu que és um poeta, fantástico como Lamartine, vulcânico como Byron, sonhador como MacPherson e voluptuoso como Voltaire aos 60 anos. Imagina que o tédio desta vida chilra que se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pitonissa descabelada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar um passatempo nestes passatempos alvares de um baile de Carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinária de espírito, um anjo de eloquência, um demónio de epigrama, enfim, uma destas criações miraculosas que fazem rebentar uma chama improvisa no coração mais de gelo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris ? Achas nova a expressão, não é assim ? Um coração de toucinho parece-te uma ofensa ao bom senso anatómico, não é verdade ? Pois, meu
caro dominó, há corações de toucinho estreme. São os corações, que resumam óleo em certas caras estúpidas… Por exemplo… Olha este homem redondo, que aqui está, com as pálpebras em quatro refegos, com os olhos vermelhos como os de um coelho morto, com o queixo inferior pendente, e o lábio escarlate e vidrado como o bordo de uma pingadeira, orvalhada de banha de porco… Esta cara não te parece um grande rijão? Não crês que este baboso tenha um coração de toucinho?- Creio, creio; mas fala mais baixo que o desgraçado está gemer debaixo do teu escalpelo…
Reinaldo Azevedo: “Para os petistas, tudo tem um preço, em dinheiro mesmo, e eles sempre estão dispostos a pagar”
É uma bênção para os brasileiros ter o jornalista Reinaldo Azevedo exercendo seu ofício na mais influente publicação de circulação nacional, a revista Veja. Ele pilota o blogue de comentários políticos que, inaugurado em 2006, é o mais visitado do país em sua área. O blogue começou independente, depois, naquele mesmo ano, foi contratado pela Veja, para a qual Reinaldo também escreve na edição impressa de forma irregular.
Reinaldo, hoje com 46 anos, foi trotskista nos tempos da ditadura militar no Brasil, período no qual muita gente boa foi capturada pela esquerda, como a maravilha chamada Otto Maria Carpeaux. Entrou, por acaso, na militância esquerdista na clandestinidade. “Eu tinha 14 anos, em 1975, e era dono de certa inquietude política. Não havia nada de propriamente ideológico. Era inconformismo”.
Os anos se passaram e o inconformismo deu lugar à insatisfação do modus pensandi e operandi da esquerda. O turning point se deu em 1982, quando da invasão das Ilhas Malvinas pela ditadura argentina. Reinaldo tinha 21 anos. “A minha organização puxou uma palavra de ordem: ‘Todo apoio à Argentina’. Eu quis saber por quê. Uma ditadura feroz, homicida, invade uma ilha inútil só para criar uma comoção nacional e mitigar seus próprios desastres, e eu devo apoiar isso? Foi demais pra mim. Vi ali que eu não estava ligado apenas a pessoas que eu já achava um tanto equivocadas quanto ao futuro. Elas eram também idiotas”. Ironia das ironias, Reinaldo confessa: “a direita me jogou para a esquerda, e a esquerda, para a direita”.
Eu sinto diariamente uma raiva e uma inveja monumentais quando o leio. Durante alguns meses auspiciosos no início de 2006, fui colaborador da revista Primeira Leitura, editada e dirigida pelo Reinaldo, junto com Rui Nogueira, hoje no jornal O Estado de S. Paulo, e que fechou sem explosão ou lamento, para usar a imagem de T. S. Eliot. Era uma revista inteligente e contestadora do statu quo esquerdista. Era irritante de tão boa. Mas a revista fechou, como eu disse, e a vida não acabou. Pelo contrário. Reinaldo, que já havia trabalhado na Folha de S. Paulo e, depois, como editor das revistas República e Bravo! até ser editor e dono da Primeira Leitura, foi contratado pela Veja, a revista de maior circulação e poder de fogo no Brasil. Reinaldo em um livro? Contra o Consenso - Ensaios e Críticas é coletânea de ensaios e resenhas publicados entre maio de 1998 e março 2005 na revista Bravo! e nas versões impressa e online do Primeira Leitura (um texto meu sobre o livro).
Mas nem tudo é festa. Ainda em 2006, Reinaldo tomou um susto com o diagnóstico médico. Tinha dois tumores no crânio. Em maio do mesmo ano submeteu-se a uma bem sucedida cirurgia. Desde então, aparece em público com um chapéu Panamá. “Não é por vaidade. É que os buracos na minha cabeça constrangem um pouco as pessoas. Em alguns casos, é pura curiosidade mitigada. Mas há quem não resista e comece a me dizer palavras de conforto e consolo… Não era raro, antes do chapéu, que me perguntassem se eu havia me tornado um homem melhor depois das cirurgias. Eu dizia que não por pura prudência e amor à humanidade, né? Acho irresponsável sugerir que extrair pedaços do crânio contribua para o aprimoramento moral…”.
Reinaldo é assim. Está sempre preparado para o ataque e para o contra-ataque, que não são poucos nem suaves. Um dos leitores raivosos escreveu que os médicos extraíram o cérebro e deixaram os tumores. Reinaldo se diverte e faz troça. Meus caros, é com orgulho indisfarçável que vos apresento Reinaldo Azevedo:
A capa da Atlântico com Che Guevara convertido em Hitler fez muito barulho em Portugal e, depois de seu post no blogue, ampliou a repercussão em terras portuguesas e rufou os tambores na blogosfera brasileira. Soube da repercussão? O que achou da imagem?
Reinaldo - Estou sabendo agora. É bom que assim seja, não é? Está na hora de enterrar este cadáver adiado da ideologia, que ainda procria. A imagem é muito boa. Infelizmente, anda não li o texto. Lerei. Ele teve uma vida facinorosa, e a alusão ao tirano-modelo lhe cai muito bem. Em Loués Soient Nos Seigneurs, Régis Debray, que foi seu colega de luta e de ideologia na Bolívia, diz o diabo a respeito do mártir. Guevara cumpriu o destino dos heróis da esquerda desde Robespierre. Destino, não, escolha: não é possível impor o comunismo se não for debaixo de porrete e sobre uma montanha de cadáveres. Então eles escolhem a tirania, que faz parte da essência do modelo. A esquerda pode tentar fazê-lo com cravos, como em Portugal. Como se vê, não dura muito. Se há liberdade, é claro que viceja o capitalismo, e a ilusão passa depressa. Do socialismo, sobram, no máximo, os interesses corporativistas disfarçados de interesse público.
Não conheço a realidade portuguesa, mas eu apostaria alguns bons tostões que os sindicatos são de esquerda. Quase sempre eles são. E o que garante a sua existência? Ora, o modelo com o qual eles gostariam de acabar se chegassem ao poder. Não se consegue ser esquerdista sem cultivar esse paradoxo, que “eles” chamam “dialética”. Dialética? Não reconheço esta senhora. A dialética é só esconderijo dos canalhas intelectuais que ou querem reescrever o passado ou tentam justificar seus erros de prospecção.
Explico-me: um “dialético” olha para o asqueroso pacto germano-soviético e procura extrair o bem do mal: “Ah, não fosse isso, a União Soviética não teria tido tempo de se preparar para o grande confronto”. Trata-se de uma mentira miserável. Ou, então, eles justificam com a dialética as bobagens que disseram sobre o futuro. Quantas vezes eles já anunciaram a crise terminal do capitalismo? E por que não acabou? Inventa-se qualquer coisa. Uma das boas piadas é que o comunismo chinês salvou o capitalismo. Comunismo? Do comunismo, há lá a tirania, mas comunismo não é. Ademais, se os interesses são antagônicos, salvou por quê? Deixasse morrer. “Ah, a dialética explica…
Mas voltemos ao porco fedorento. Ele é objeto de culto também de jovens neonazistas, sabia? Alguns mandam tatuar nos braços a foto de Alberto Corda, que decora até ceroulas e cuecas (“calcinha”, como dizemos no Brasil, é “cueca” por aqui, certo?). Convenha: a associação entre Che e Hitler é justíssima: afinal, o argentino também era um facínora individual e militante de um sistema de horror.
Che Guevara já tinha sido condecorado no Brasil, em 1961, com “Ordem do Cruzeiro do Sul”, a principal comenda do País, pelo presidente Jânio Quadros. No dia 23 de outubro (de 2007) o Senado brasileiro, que não destituiu seu presidente, Renan Calheiros, crivado de denúncias há várias semanas, vai homenagear Che Guevara. Os atos são reveladores ou sintomáticos?
Reinaldo – Revela o atraso ainda reinante no debate político brasileiro e é sintoma de uma brutal ignorância. A legislatura que está aí é a pior em 168 anos de história do Senado. Nem durante a ditadura a ignorância e a pusilanimidade desfilaram tão faceiras no salão. Imagine uma Casa presidida por Renan Calheiros (à época da entrevista ainda presidente do Senado), que não estaria à altura do desafio ainda que fosse um santo. Coisa que ele não é. A proposta foi feita por um senador da extrema esquerda, do PSOL, Partido do Socialismo… E foi aprovada com celeridade por Tião Viana (que se tornou presidente com a saída de Renan e foi substituído peo atual, Garibaldi Alves Filho), que presidia a Mesa, um senador do PT. O petismo, como sabemos, inventou o seu próprio socialismo.
Aliás, eis outra coisa curiosa. Quantas vezes já vimos os socialistas a dizer: “Ah, o socialismo real não era bom mesmo, mas não era o verdadeiro”. É mesmo? E qual era ou é o verdadeiro? Passarei a dizer isso a meus inimigos quando reclamam de alguma porrada: “Sabem o que é? Este Reinaldo não é muito bom mesmo, mas o verdadeiro…” A teoria socialista está fechada e consolidada. E é um horror. E as tentativas de botá-la em prática realizaram plenamente os seus piores defeitos e agregaram outros novos.
E qual é o socialismo petista? Do “verdadeiro socialismo”, como eles diriam, herdaram o desprezo pela democracia, a idéia de que um partido é um ente de razão que deve orientar o processo histórico, a suposição de que o que é ruim para o partido é ruim para a sociedade. Mas se adaptaram perfeitamente bem à sociedade de mercado — de fato, ao que ela tem de pior: o mercadismo. Para os petistas, tudo tem um preço, em dinheiro mesmo, e eles sempre estão dispostos a pagar. Desde que arranquem da sociedade um pouquinho mais de liberdade.
Nesse ambiente, foi aprovada a sessão especial em homenagem ao porco fedorento.
Sobre a homenagem, você escreveu que a “aprovação evidencia que a própria cultura democrática ainda não está devidamente entronizada no Parlamento brasileiro. Mesmo os que sabem que Guevara foi um assassino asqueroso silenciam”. Por que a cultura democrática ainda não está devidamente entronizada e por que o silêncio?
Reinaldo – Porque vivemos ainda, depois de tanto tempo, sob os efeitos do fim da ditadura militar. As pessoas que estão no poder e a maioria de seus adversários faziam oposição aos militares — que, dizia-se, eram de direita. Havia, sim, direita no poder. Mas era a minoria. Os militares eram estato-desenvolvimentistas. Ninguém criou mais empresas estatais no MUNDO do que o presidente-general Ernesto Geisel. Havia pouquíssimos liberais no governo. O regime militar foi, antes de tudo, nacionalista. E, evidentemente, era autoritário. A esquerda assumiu a hegemonia do debate público no fim do regime militar, ainda que não tivesse uma maioria de votos propriamente. E isso contribuiu para demonizar a direita, tomada como sinônimo de tudo o que é ruim. A grande massa não se importa muito com isso, mas a mídia, infiltrada de esquerdistas até a medula, se importa. E um político não quer aparecer como “direitista”. Então se cala diante do absurdo.
Por que a esquerda, ainda hoje, seduz jovens e continua a ser o cárcere de muitos adultos e velhos?
Reinaldo - A resposta mais ampla que consigo dar é esta: porque ela substitui a religião — às vezes, elas se casam. Toda religião é finalista e tem um horizonte escatológico. O comunismo também. Mais: o pensamento deixou-se capturar por uma farsa que é inteiramente da lavra de Marx: a marcha da história que conduziria a humanidade fatalmente ao socialismo, uma etapa da evolução, até a chegada, então, do fim da história, com o comunismo. Mas ele não se conformou em ser apenas um fatalista idiota. Era também um militante comunista. E, portanto, tinha seus inimigos: tudo aquilo que retardasse ou impedisse a marcha revolucionária deveria ser combatido da mesma forma como os grandes monoteísmos combatem as tentações.
E o que era isso? Ora, nada menos do que aquilo que a civilização havia produzido até ali. Lênin levou tal suposição ao paroxismo. Isaac Deutcher, biógrafo de Trotsky, relata a visita que o então jovem revolucionário fez ao guru do bolchevismo em Londres. Saíram para caminhar. E Lênin ia comentando: “Esta é a catedral deles, esta é a ponte deles…” Este “eles” era a burguesia. Esta idéia de construção de um novo homem tem lá o seu fascínio.
E, claro, há a justiça social. Nesse caso, trata-se mesmo de uma tragédia para o pensamento. E é antiga. O marxismo é só uma versão mais ampla — e com mais alcance teórico — do jacobinismo. Passou a ser uma verdade inquestionável, uma doxa, a suposição de que o principal objetivo da esquerda é fazer justiça social e de que a igualdade é seu bom norte moral. Como se o capitalismo fosse sinônimo de injustiça.
Se o capitalismo vingou e o socialismo fracassou, por que diabos o departamento de marketing esquerdista é mais competente?
Reinaldo – Porque tem mais generosidades abstratas a oferecer e porque boa parte dos esquerdistas se contenta em fazer justiça com a palavra. Um intelectual de esquerda jamais dirá que alguém pode ser pobre porque é incompetente. Sei que é pueril, mas isso lhes parece cruel.
Será que o povo, ele mesmo, é de esquerda? Eu diria que ele tende a ser conservador. Em qualquer país do mundo. Já os intelectuais… Ora, vejam Saramago. Onde quer que vá, lá está ele, com a reputação de escritor laureado, a atacar o capitalismo, a globalização, o mercado. E o que é Saramago? Um produto do capitalismo, da globalização, do mercado. Em 2003, quando Cuba executou, sem julgamento, três pessoas que cometeram o crime de tentar fugir da ilha, ele disse: “Até aqui fui com Cuba”, anunciando que dali não passaria. Que falta de escrúpulos, não? Até ali já era longe demais: Cuba já havia executado alguns milhares, criado um campo de concentração (aliás, obra do Porco Fedorento), estabelecido uma ditadura feroz.
Mas ele recuou do recuo. Dois anos depois, voltou a declarar: “Cuba irradia solidariedade”. Diga-me: o que Saramago faz de efetivo pelo socialismo? Nada! Ele apenas empresta o seu prestígio para ajudar a enterrar os corpos da ditadura de Fidel. Não vou dizer que o prefiro como escritor porque isso também não é verdade.
Você acompanha a política ou a cultura de Portugal?
Sou um leitor de autores portugueses — e acho que isso é insuficiente para dizer que acompanho a cultura. No caso da política, confesso, quase nada. O máximo que fiz foi entrevistar Durão Barroso, um homem inteligente, hábil, que deixou a esquerda, mas teme um pouco se dizer de direita. E que se note: sou mais um leitor de autores, digamos, antigos de Portugal do que dos modernos. Fazendo um pouco de galhofa, aceito o desafio de bons leitores portugueses de Camões, Padre Vieira, Eça, Herculano, Camilo, Pessoa.
Você vê alguma possibilidade na criação de um partido liberal-conservador no Brasil? Fico pensando se há gente suficiente para dar suporte e formar o quadro desse partido.
Reinaldo – Não vejo. Não tão cedo. Infelizmente. Se os pobres brasileiros são conservadores em muitos aspectos da política, no que respeita à economia, foram capturados pelo populismo e pelo estatismo. Um país que tem Getúlio Vargas como o principal estadista de sua história tem uma penca de problemas.
Mais: há muita gente fora do lugar. Onde estão hoje os nossos economistas liberais? Prestando serviços para Lula no Banco Central, por exemplo. E nem é ruim que o façam, ou a política monetária petista teria levado o país para o buraco. Mas é inegável que servem a um projeto autoritário. É um dos nossos paradoxos.
Outro: o programa Bolsa Família é o clássico receituário de medidas compensatórias para economias que passam por um ajuste liberal. No Brasil, não veio o ajuste, mais veio a bolsa… E não veio como compensação, não, mas como um chamado “direito”. Há porta para entrar no programa, mas não há para sair. Chega a 11 milhões de famílias, o que quer dizer quase 50 milhões de pessoas — o que corresponde a pelo menos uns 33 milhões de eleitores. Você acha que algum candidato à Presidência da República se atreveria a dizer que vai acabar com ele?
Num texto recente, você disse que ainda acredita na existência de direita e esquerda. Sabemos que existe esquerda no Brasil. Mas existe direita?
Deixe-me ver: eu, você, o Olavo de Carvalho [risos]… Acho que não lotamos um carro de cinco lugares… Direita organizada, esta não existe. Existem pessoas com idéias de direita. Já expus as razões.
Quais intelectuais brasileiros melhor entenderam e analisaram a política brasileira? Quais são os intelectuais e livros que você indica para quem se interessa por política?
- Gilberto Freyre – Casa Grande & Senzala
- Sérgio Buarque de Holanda – Raízes do Brasil e Visão do Paraíso
- Oliveira Viana – Populações Meridionais do Brasil e Raça e Assimilação
- Octávio Tarquínio de Souza – História dos Fundadores do Império do Brasil
Observe: cada um desses livros tem de ser devidamente contextualizado. Pegue-se o caso de Oliveira Viana. Tudo o que ele diz sobre raça, por exemplo, nos serve de norte? Não. Mas ele serve ao debate. Pode-se pôr na lista Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro? Claro. Desde que se faça a devida crítica do que há de fatalismo ali: “O Brasil é assim porque herdou o patrimonialismo ibérico”. É mesmo? E por que os ibéricos já não são mais assim? Formação do Brasil Contemporâneo, do esquerdista Caio Prado, tem de ser lido? Claro, desde que não seja tomado como dogma, o que aconteceu no Brasil por um bom tempo.
Quanto à política, em sentido mais amplo, o pensamento político propriamente, a minha lista seria imensa. E inclui muitos livros de esquerda. Que precisam ser lidos e devidamente “desmontados”, até para que se entenda como se formam determinados consensos. Vamos lá:
- A República – Platão
- A Política - Aristóteles
- O Príncipe – Maquiavel
- Leviatã – Thomas Hobbes
- Elogio da Loucura – Erasmo
- Candido – Voltaire
- Cartas Filosóficas – Voltaire
- Dicionário Filosófico – Voltaire
- Ética – Spinoza
- Tratado Teológico-Político – Spinoza
- Economia e Sociedade – Max Weber
- Ciência e Política – Duas Vocações – Max Weber
- Ética protestante e o Espírito do Capitalismo – Max Weber
- O 18 Brumário de Luís Bonaparte – Marx
- A Ideologia Alemã – Marx
- Cadernos do Cárcere – Gramsci
E sei lá mais quantos, estou citando livros nos quais aprendi muita coisa, ainda que detestáveis. Cada um requereria explicações, motivos. Mas acho que isso rende um bom samba — ou fado. A lista seria gigantesca.
Você costuma se definir como liberal e conservador num ofício (jornalismo) em que a maioria dos profissionais não revela publicamente sua opção política sob o véu da imparcialidade, mas quase sempre são de esquerda. Qual o preço que se paga pela sinceridade e o que é, no Brasil, ser um liberal-conservador?
Reinaldo – Preço? Enfrentar a patrulha; ser permanentemente demonizado pelos esquerdistas; sofrer a acusação de estar sempre a serviço de conspirações. Você sabe muito bem: já fui chamado de agente da “black” propaganda da CIA (imagine você…) e até do Mossad, o serviço secreto israelense. Tudo porque chamo terrorista islâmico de… terrorista islâmico. Eu não sou mesmo esquisito? Tentam nos desqualificar, a mim e aos que pensam mais ou menos como penso, o tempo todo. Mas isso é do jogo. Não reclamo. Até porque bato também.
Um liberal-conservador enfrenta no Brasil o que enfrenta no mundo inteiro: os tentáculos do estado. Aqui, é evidente, com todas as carências que temos (que foram, na maioria das vezes, criadas pelo próprio estado — veja que ironia!), as coisas são um pouco mais difíceis. Veja só: a educação brasileira é miserável, certo? Certo! E quem é o maior comprador de livros do mundo? Atenção: não se trata de uma hipérbole: falo de um fato objetivo. O maior comprador individual de livros no mundo é o… estado brasileiro.
Onde Voltaire acertou e errou ao sentenciar que a política tinha “sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano”?
Reinaldo – Como frase isolada, acertou no pessimismo, que é sempre saudável. Erro? Não sei se é erro. Sei que não há alternativa, tenha origem na perversidade ou não. Existe uma grandeza alheia à política? Existe, é claro. Mas, por alheia, não serve à política. Logo…
Ayn Rand, no excelente Quem é John Galt, mostra como o princípio marxista “de cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade” corrompe e fali uma sociedade. Por que ainda há tantos defendendo idéias inviáveis que, ao serem implantadas, se tornam criminosas?
Reinaldo – Aliás, acrescente-a à lista de autores essenciais. Pois é. Aquela tolice de “capacidade/necessidade” é a negação do espírito humano e do progresso. É uma besteira que contraria a civilização. E que tal: “Cada um acumula segundo a sua capacidade”? Aí já me parece bom, não é? De certo modo, já tratei disso. No núcleo militante da esquerda, há a religião sem Deus, substituído pela história e pelo porvir. Quanto ao crime, acho que faz parte da natureza do sistema pelo qual anseiam. Pense bem: se considero que sou portador do futuro, que tenho os instrumentos para chegar lá; que aquele lugar que almejo é um ponto de chegada na trajetória do homem, o que importam indivíduos, histórias pessoais, valores? Lembra-se do livro A Nossa Moral e a Deles, de Trotsky? Nada do que nos constrange — os que nos julgamos, enfim, parte da civilização ocidental — os constrange. E isso inclui o assassinato em massa.
Atentar para o que acontece e não para o que deve ser feito é uma das idéias centrais do pensamento político de Michael Oakeshott. Em Racionalismo e política, ele compara a atividade política à navegação; como não há porto seguro e o mar é ilimitado e sem fundo, é fundamental que o político seja hábil para “empregar os recursos de um comportamento tradicional de modo a transformar cada ocorrência hostil num amigo”. É possível analisar a política brasileira sob esse prisma?
Reinaldo – Gosto de Oakeshott mais do que desse trecho que você selecionou. Porque não fica claro se ele se limita à descrição normativa ou se propõe um norte. Como descrição, parece correto e, claro, isso se aplica ao Brasil e ao mundo democrático. Como norma, há um tanto aí de falência da convicção, que precisa sempre ser dosada, não é? Sempre digo que as duas éticas de Weber, a da convicção e da responsabilidade, não são atributos do trânsfuga e do político sem caráter, que vive do conchavo. Oakeshott tem, a meu ver, uma falha: entende direito a tradição como construção histórica, não como fatalismo místico, mas me parece que é um tanto superficial quando trata de ideologia.
Além dos comentários políticos, você é um arguto e igualmente polêmico comentarista cultural. Que avaliação você faz da cultura brasileira?
Reinaldo – Ah, bem, esta é uma das tragédias. Vivemos sob o signo da vulgaridade e do proselitismo. Bom pessimista que sou, posso indagar: “Mas já foi diferente?” Quais são os sinais que partem do governo, que financia boa parte da produção cultural? Os piores possíveis, com uma exceção aqui e ali. Os aparelhos privados que produzem cultura também não ajudam muito. Estamos todos mais ou menos reféns da idéia de que se produz uma cultura, com valores universais, que vem da pobreza e da periferia. Conversa mole; pura folclorização do atraso e do subdesenvolvimento. Mas essa verdadeira doença moral, política e estética que consiste em superestimar, como se fossem revelações, particularismos do que chamam “cultura do oprimido” se espalha pelo mundo inteiro.
O Brasil tem jeito? Eheheh!
Reinaldo – Veja, isso supõe um horizonte finalista, que não tenho. Não tenho uma utopia para o Brasil, um ponto de chegada. Potencialmente, qualquer país “tem jeito”. Vai sempre depender das escolhas que fizer. Estamos fazendo as melhores? Eu acho que não.
A entrevista acima foi feita para a revista portuguesa Atlântico no ano passado e publicada na edição de dezembro. Na edição impressa, por questões de espaço, foi preciso cortar boa parte dela, assim como o texto da introdução, que virou outro. Publico aqui porque algumas boas respostas tiveram que ficar de fora. Nas próximas semanas publicarei a íntegra das entrevistas feitas com Diogo Mainardi, Olavo de Carvalho e Nelson Ascher, a última antes de a revista ser suspensa. Espero que gostem.
6 commentsHoje não deu para vir. Amanhã tenho um presente especial para vocês que vêm graciosamente. Enquanto isso, vos deixo com uma foto minha trabalhando no meu bunker em Lisboa. Os amigos que me conhecem pessoalmente notarão pela imagem meus quilinhos a mais. Deu trabalho consegui-los. Mas continuo garboso, não acham?
Para não encerrar este post frívolo de forma frívola, reitero: Thomas Bernhard é grande! Grande! Leiam ou releiam o que puderem dele.
No commentsA gente se vê no Ano Dois
O selo da Campanha Blogue faz um Ano despede-se hoje. Logo haverá novidades aqui. Não percam!
1 commentBrasileiros: vícios ou virtudes?
Em Portugal não há “o” brasileiro. Há vários tipos de brasileiros. Como, aliás, no Brasil. O Brasil é um só país para efeitos de soberania. Na práctica, cada região, ou, dependendo da região, cada estado, é um país. Bahia e Espírito Santo, por exemplo, dois estados que fazem fronteira, têm cultura e maneiras de falar completamente diferentes. Mas, divago. Conheci, em Lisboa, vários brasileiros, cada qual com seus vícios e virtudes. E o vício, tal como a virtude, cresce em passos pequenos, já disse o dramaturgo francês Jean Racine, no que assino embaixo. Ainda há, nesses intrépidos compatriotas, em quase igual medida, uma demasiada esperança e um sem fim capital de queixas.
Quais seus vícios e virtudes? Antes de fazer esse esboço, divido os brasileiros em Portugal em quatro categorias: 1) trabalhador braçal que veio em busca de um padrão de vida melhor; 2) o estudante universitário ou de pós-graduação; 3) o estudante que veio, não concluiu o curso e aqui ficou trabalhando em subempregos; 4) o casal de brasileiros que veio estudar, conseguiu trabalho e preferiu viver numa capital segura a voltar para as grandes e violentas capitais brasileiras. Neste artigo falarei um pouco sobre o Tipo 1.
O trabalhador braçal imigrante é, regra geral, um ignorante consciente ou não, com baixo grau de escolaridade e uma indiferença brutal em relação a tudo o que não seja amealhar euros, pagar as contas, mandar dinheiro para familiares no Brasil e beber no fim de semana embalados por músicas brasileiras execráveis (sertaneja pop, pagode, samba et caterva).
Esse tipo é reconhecido a quilômetros de distância. Veste-se mal, deselegante nos gestos e não muito dado ao silêncio. Se descobre outro brasileiro, socorro!, quer logo abraçar, ficar íntimo. É capaz de virar amigo de infância em poucos minutos.
Outro de seu vício é decorrência de sua vontade em transformar sua morada em sucursal do Brasil. Por qual razão? Porque esse brasileiro médio nunca sairia do país se lá pudesse viver bem com os rendimentos de seu trabalho. O brasileiro é, antes de tudo, um provinciano. Por isso que, em outro país, procura a comida brasileira, a música brasileira e conserva as idiossincrasias e falta de educação brasileiras.
Para fazer do país de terceiros o seu próprio país tenta trazer todos os seus que, no Brasil, estão numa situação financeira nada boa. Primeiro vem o cônjuge; depois, os irmãos; depois, os tios; depois, os vizinhos; depois, as amantes; depois, os pais — e há quem traga animais de estimação (Já vi rafeiros aqui com passaporte brasileiro). Há sítios em Lisboa em que português é coisa rara, como em Arroios, onde brasileiros e africanos proliferam-se sem rédeas.
Virtudes? Esse tipo de brasileiro é de boa índole. Trabalha como mouro, a qualquer dia, hora e local, sem reclamar. Se houver trabalho e remuneração, estará lá, regiamente, segundo o combinado. Outra de suas virtudes é a disposição em ajudar. Se precisar dele, pode contar. Com sorriso largo no rosto, divide a própria refeição com quem precisa.
Além do mais, esse brasileiro, como nenhum outro, carrega na alma um patriotismo que o faz pensar e falar sobre o Brasil sempre com grande saudade e certo orgulho. O orgulho seria completo se não tivesse sido obrigado a sair de lá. Mas é importante notar que, a exemplo do que disse o crítico e poeta suíço Henri-Frédéric Amiel, “há dois graus no orgulho: um, em que nos aprovamos a nós próprios, o outro, em que não podemos aceitar-nos. Este provavelmente o mais requintado”. Acho que a alma desse tipo de brasileiro transborda, em maior ou menor grau, uma auto-aprovação combinada com uma impossibilidade inconsciente de auto-aceitação.
Em conversas que tive com brasileiros do Tipo 1 eles desfiaram um capital de queixas. O primeiro é o preconceito. Dizem ser maltratados pelos portugueses. Contaram-me casos nos quais patrícios recusaram-se a ser atendidos por funcionários brasileiros. E de proprietários que, ou se recusaram a alugar apartamentos, ou que, para alugá-los a brasileiros, tiveram que convencer os outros moradores.
Morei quase três meses na casa de uma amiga brasileira que passou por isso. E nos primeiros meses recebia toda semana as visitas do casal proprietário. Eles queriam constatar que, afinal, minha amiga e a irmã não eram as selvagens que imaginavam. Ao final de cada visita saíam com aquela cara aliviada como que a dizer: “tão educados! Nem parecem brasileiros…”. Nossa fama aqui não é nada boa.
PS: Texto publicado na edição de fevereiro da revista portuguesa Atlântico.
4 comments



