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"Marcha soldado, cabeça de papel…"
O povo americano, dizem-me os jornais brasileiros, ficou horrizado com as fotos dos soldados humilhando presos iraquianos. Não acredito. Acho que todo americano médio, o pior tolo entre todos os outros, pensou nessa possibiidade, nessa vontade que todos temos de dar um bico na canela de quem achamos “inferior”. Não bastava rifar Saddam Hussein. Era preciso reconstruir o Iraque. Reconstruir as cabecinhas dos iraquianos, colocar nas cabecinhas dos iraquianos as ideiazinhas dos soldadinhos americanos. Ratátátá.
O que me chocou profundamente foram as duas mulheres rindo entre homens nus. Porque é impossível rir diante de homens nus, a menos que o sujeito tenha menos três parafusos na cabecinha. Diante de homens nus só o que podemos a fazer é lamentar por deus, se é que existe, ter nos criado num dia de mau humor. Ou achá-lo um grande gozador, o que é pior. Se verdadeira a imagem bíblica de que ele nos fez à sua imagem e semelhança, minha nossa senhora, meu nome é Valdemar e nos ferramos bonitinho.
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assina ainda esta semana um decreto autorizando as Forças Armadas a atuarem no combate à violência no Rio” (O Globo, 10 de maio de 2004).
Já vi muita gente dizendo, otoridades inclusive, que se sente mais segura com a presença da polícia na rua. Eu não. Quando vejo alguém fardado , à exceção dos escoteiros, ou carros de polícia penso que alguma coisa está errada e vai começar a feder. Algo óbvio, claro. Porque os caras estão ali se não há nada de errado? Esse negócio de que a presença da polícia inibe a atuação dos bandidos e que a população se sente mais segura é conversa de garoto maroto, no diminutivo.
Diz a matéria que “enquanto vigorar o decreto, todas as forças de segurança que estiverem participando das ações, inclusive as polícias Militar e Civil, deverão se submeter ao Comando Militar do Leste, braço do Exército sediado no Rio”. Lascou-se. Alguém aí acha que as polícias civil e militar, que nunca se entendem e voltam e meia saem no tiro aqui no Rio, vão respeitar a turma de verde? Acho isso bastante ingênuo, para usar um eufemismo.
E não vejo porquê esse prurido em assumir que se trata mesmo de uma intervenção. Aliás, essa intervenção não deveria se limitar à segurança. O Executivo anda precisando de uns puxões de orelha, uns pitos e nada de de sair para brincar com os amiguinhos no final da tarde.
Bouvard e Pecuchet
Li os quatro livros publicados por Diogo Mainardi, que outro dia deu um cacete em figurinhas conhecidas da imprensa e chamou Ratinho de jornalista. Eh! Eh! Mainardi é um grande escritor, debochado, cruel e nem aí para as convenções. Há imagens mil em suas quatro obras, dessas que ficam martelando e podem ser contadas aos risos em qualquer conversa animada.
Duas para animar o papo: em Arquipélago, os sobreviventes da inundação da cidade estão tentando, de jangada, achar território. Um dos mastros cai sobre o braço de um deles, que grita desatinadamente. Não há jeito, cortam o braço. Perdidos há meses, qualquer indicação serve como referência para mudarem o curso. Não vacilaram ao ver que o braço mutilado que continuava debaixo da madeira apontava na diagonal: seguiram a indicação do dedo rígido, na beirola da putrefação. Em Polígono das secas, pai e filho ficam presos numa caverna. O filho morre. O pai, sem nada para fazer, cata pedrinhas e treina a mira na boca do menino teso.
Estou preparando um ensaio sobre seus livros e pretendo fazer um perfil. Vou balebando e conto quando der à luz.
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A pedido de um amigo fui buscar um documento com o filho do cronista Rubem Braga, Roberto, que ainda mora na famosa cobertura do pai. Fui para lá todo animado, achando que ia conhecer o lugar onde o PIB literário reunia-se para bebericar. Nada. Da escada, recebi um envelope pardo e um bom dia ligeiro que se perdeu nas costas de quem deveria ter sido um bom anfitrião. Eu sou um cara tão legal, poxa.
No commentsEla navegou
Minha vida tem cor, é azul e tem nome de mulher: M-I-C-H-E-L-L-E.
No comments…
Meu olho direito arde. Uma pequena bola de fogo aquece minha pálpebra cansada. Mantê-lo aberto é desconfortável e todas as imagens de um olho ganham sombras do outro. Um incômodo que nasce em algum ponto do estômago, enrijece a respiração, comprime a garganta e sobe a passos pesados até o olho direito. Sinto a voz oscilar trêmula e algumas sílabas engolidas sem querer. Uma conhecida tenta me convencer um médico. Pode ser grave, disse. E nem contei a ela o gosto de sangue que na certa creditaria à gengivite.
No commentsNas crusadas eu vou
Meu amigo Godofredo de Bouillon, que fez fama durante as Crusadas, finalmente aderiu ao espaço virtual. Promete ter um dos melhores endereços na internet.
Leiam a nota sobre programas de televisão. Não é verdade que eu estava lá, na votação, no compasso de um Clan MacGregor. Hi, hip, hurra!
Quid est est
Me dizem que o cérebro é o que há de mais importante no corpo humano. Errado. É a boca. O beijo, o sexo, o uísque. Nunca vi ninguém beber com a cabeça.
No commentsBeware your heads!
O homem voltou, mais violento, mais sangrento, mais misógino, mais afiado. Enfim, vão lá dar uma espiada no meu único amigo que fala grego, latim e português. Até que enfim, né Rafael!
No commentsEmoções demais dão enxaqueca
Lendo esta semana reportagens sobre o processo judicial enfrentado pelo cantor e compositor cachoeirense Roberto Carlos, acusado de plágio na música “O careta”, lembrei da minha sorte em não ter sido o visitante de número 50 mil da casa de cultura que leva o nome do cantor, localizada lá em Cachoeiro de Itapemirim, onde morei até o início de 2003.
Uma vítima, me diz o informativo da prefeitura, foi surpreendida com o alvoroço dos funcionários e com o diretor da casa que sacou o violão como uma pistola e desfiou o rosário, quer dizer, composições do tal rei (“Meu Pequeno Cachoeiro”, “Detalhes” e “Outra Vez”). Eu, que sou cardíaco, não resistiria a tamanha emoção.
O texto do informativo ainda diz que os funcionários ficaram muito emocionados. A emoção também foi a tônica da festa em comemoração ao aniversário de Roberto Carlos neste mês de abril (T. S Eliot estava certo quando em seu Waste land escreveu “abril é o mais cruel dos meses”). A reportagem do jornal local Folha do E. Santo do dia 19 de abril disse que a “cerimônia emocionou os fãs do Rei” e ainda “teve bolo, salgadinhos, refrigerante e muita música (sic)”. Eu, se prefeito, teria cortado o ponto de todo mundo. Fazer festa durante o expediente? Nananinanão.
A reportagem só me deixou intrigado com uma coisa: segundo informações dos funcionários, “dentre os visitantes, estavam presentes fãs de toda parte do país, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, além dos cachoeirenses, que também marcaram presença”. Está certo que Cachoeiro é a capital secreta, coisa e tal, mas não fazer mais parte do Espírito Santo é nova para mim. É, talvez seja até bom.
Outro fato que me deixou bastante emocionado foi a doação da coleção dos discos de vinil do cantor pelo prefeito municipal. Principalmente, pela justificativa do chefe do executivo, que, segundo o informativo do Município, disse ser “impossível ouvir as músicas em aparelhos modernos que só oferecem entrada para CDs e DVDs”. Disse mais: “Fico tranqüilo, sabendo que na Casa de Cultura Roberto Carlos os discos serão conservados”. É, sem aparelhos antigos para ouvi-los só resta mesmo serem conservados. Vocês, leitores, são muito maldosos mesmo. Se eu fosse o prefeito já teria doado essa coleção há muito tempo. Desde antes da invenção dos CDs ou da criação da tal casa.
Words, words, windows
Minhas palavras não abalam, não instigam, não perfuram nem ventilam. Minhas palavras não respiram, não transpiram, não debulham nem inspiram. Minhas palavras não afinam, não conquistam, não aproximam nem comovem. Minhas palavras não cortam, não sangram, não envergonham nem fazem corar. Minhas palavras não têm vida, não têm alma, não têm corpo nem odores da transpiração. Minhas palavras são como “as palavras de um morto que se modificam nas entranhas dos vivos”. Minhas palavras não são cruéis, bondosas, sarcásticas nem afiadas. Minhas palavras não têm gosto, sal, salitre ou breu. Minhas palavras não tem inteligência, charme, polidez ou sofisticação.
Minhas palavras, coitadas, não fazem encher nem essa caixa de comentários.