Archive for the 'Transatlântico' Category

O dilema dos nomes, ou quem quer ser Wandercley?

Os nomes próprios em Portugal repetem-se com uma regularidade assustadora: Nuno, Miguel, Paulo, Pedro, João, Joana, Jorge, Maria, Filipa e lá vamos nós. Assustadora, claro, para quem é brasileiro e está acostumado com os vários tipos e nacionalidades de nomes de batismo. Sim, temos uma quantidade absurda de Joões, Jorges, Paulos, Pedros, mas temos em igual monta uma quantidade fenomenal de Charles, Brunos, Wanderleys, Wagners.

O que aqui pode ser visto como um padrão de escolha de nomes (parece um respeito pela preservação da cultura e idioma), no Brasil é o atestado público de identificação de um país de imigrantes, algo também evidente nos sobrenomes, aqui chamados de apelidos, como Garschagen.

Melhor? Pior? Se penso que a falta de diversidade leva a uma repetição, inclusive dos sobrenomes (coisa que num país como o Brasil levaria ainda mais homônimos para a cadeia por crimes cometidos por um bandido de mesmo nome, numa Operação Shylock Tropical), também penso que a diversidade é um sortilégio de sandices. Os bebês portugueses nunca vão correr o risco dos bebês brasileiros de serem batizados como Wandercley, Neosalau, Greycy Quelly, Cridence Cliuauder Rivaivol (como é possível notar sem qualquer esforço o pai era grande fã do grupo Creedence Clearwater Revival).

Um grande amigo brasileiro, Fernando Gomes, escreveu um texto que resume à perfeição o dilema dos genitores brasileiros:

“Eram um casal. Tiveram gêmeos: Singrid, Ingrid, Sísifo. Decididamente, não estavam preparados”.

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Transatlântico: Miguel Esteves Cardoso, um homem civilizado

Caros, vejam este vídeo. Sim, não é escolha; é uma ordem amigável: vejam este vídeo. Por qual razão, ó protoditador Garschagen? Porque durante 1h07min vocês vão conhecer um dos homens mais inteligentes e civilizados de Portugal. Miguel Esteves Cardoso, chamado carinhosamente de MEC, deixou há tempos de ser um indivíduo para se tornar uma instituição. É, mais do que escritor e jornalista, uma instituição refinada, witty. Autor de dois livros excelentes: A causa das coisas (seleção de artigos para jornais) e O amor é fodido (romance).

Mas deixem de lado este texto. Prometo escrever mais sobre o MEC depois. Corram para o vídeo. Agora!

COMUNICADO: o vídeo está novamente disponível. Divirtam-se!

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A culpa é de Portugal

Iniciei no texto Brasileiros: vícios ou virtudes? uma tentativa de elaborar perfis dos vários tipos de brasileiros que vivem em Portugal. Dividi-os em quatro categorias e fiz um esboço do tipo 1, o trabalhador braçal que veio em busca de um padrão de vida melhor.

Mas antes de retomar aquelas categorias, e pretendo fazê-lo contando histórias de indivíduos, imigrantes bem-sucedidos ou não, acho que devo falar de minha própria condição de brasileiro vivendo em Lisboa, Portugal. Vim para cá em outubro do ano passado para cursar o mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Daqui trabalho como jornalista freelancer de publicações brasileiras.

Estranha esta minha condição de indivíduo deslocado em país estrangeiro. Mas noto, antes, que também era assim no Brasil. Como assim, Garschagen? Em Terras de Vera Cruz, bastava eu dizer ter nascido em Salvador, na Bahia, para o interlocutor esperar que eu tirasse um tambor do bolso e começasse a tocar (sic) e a dançar. Não ria porque é verdade.

Aqui, nos lugares que freqüento, não costumo ser alvo de perguntas estereotipadas. Algumas e poucas vezes fui obrigado a responder se gosto de futebol. Diante de um sim sem qualquer convicção, gritos ou saltos com soquinhos no ar meu interlocutor vacila entre continuar ou não a conversa. Mas basta eu dizer que morava no Rio de Janeiro para que seus olhos voltem a brilhar. Gostava? Eu: “Sim, mas num dia sem sol e calor”. Praia? “Quatro vezes em quase cinco anos”. Por quê? “Muita gente, muita areia, muita água, muito sal. Como dizia minha bisavó, tudo o que é demais, excede”. Do lado do meu já relutante conviva, o silêncio do tédio. Sigo em frente, empolgado e sem rédeas: “Além do mais, estou com Paulo Francis: intelectual não vai à praia, intelectual bebe”.

Ao contrário do Brasil, aqui em Portugal há curiosidade sobre o país e os brasileiros. Nosso desinteresse, no entanto, é profundo. É raro ouvir brasileiro dizer que Portugal está incluído em seus planos de turismo pela Europa. Aliás, para uma parte dos brasileiros Portugal nem faz parte da Europa. A indiferença se traduz na imprensa. Sei que há correspondentes de jornais portugueses no Brasil. Do Brasil, aqui, salvo engano, não há algum.

Não temos idéia do que se passa em Portugal. Por qual razão? Sei lá, eu. Desconfio que se deva ao fato de nas escolas sermos ensinados que os portugueses descobriram nosso território, colonizaram o país e isso não foi nada bom. Pior. Foi uma catástrofe. A razão de nossa tragédia política e econômica é culpa de Portugal. Já vi diretor de empresa a vendedor de picolé responsabilizar a herança portuguesa por algo que deu errado. Não importa se a razão é de ordem econômica ou sentimental. Adultérios e homicídios já foram debitados na conta de Pedro Álvares Cabral e de D. João VI.

A família real e seus feitos, claro, também são motivos de chacota. Os dois menos satirizados são D. Pedro I, pela independência, e a Princesa Isabel, pela abolição da escravatura. Mas isto não os absolve. Uma das imagens mais engraçadas que já vi foi uma charge no Pasquim que reproduzia o quadro da Independência do artista Pedro Américo com D. Pedro II sobre o cavalo, espada em punho e um balãozinho no alto onde se lia: “eu quero é mocotó!”

Nosso desinteresse, acho, é mais fruto da ignorância, que leva à indiferença, do que propriamente algum tipo de reação psicológica de fundo histórico pela condição de colonizados. Basta que alguém num grupo de amigos saiba um pouco de história para, rapidamente, todos ficarem interessados. E é sintomático que um jornalista brasileiro como Eduardo Bueno tenha se tornado um bestseller com livros sobre a história Brasil/Portugal.

Voltando à vaca fria, ou seja, a mim mesmo, é gozado ouvir brasileiros falando de brasileiros, brasileiros falando de portugueses e portugueses falando de brasileiros (vou contando o que ouvi ao longo dos textos para o blogue). Porque dificilmente me reconheço nas características. E não vai aqui qualquer traço de esnobismo (está bem, está bem, mas só um pouquinho). O fato de ter morado em várias cidades brasileiras tirou-me as raízes, aquela sensação de pertencer a algum lugar.

Digo já que não sou caso raro entre compatriotas da terra avistada e avivada com notas de rodapé por Pero Vaz de Caminha. Conheço alguns que não são o, digamos, brasileiro típico, daqueles capazes de rir e tocar cavaquinho em velório de família. Não gosto de samba e de suas variações, acho carnaval uma chumbada, não vejo graça no folclore brasileiro, não jogo capoeira, não tenho qualquer santo protetor no candomblé, o calor me deixa com a sensação de que a morte, vá lá, não deve ser assim tão ruim quanto dizem.

Não existe, insisto, “o” brasileiro. Mas há, sim, idiossincrasias e interesses comuns que fazem de grupos de brasileiros o estereótipo daquilo que se convencionou chamar de “o” brasileiro típico. Com ou sem clichês.

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