Archive for the 'Portugal' Category
O dilema dos nomes, ou quem quer ser Wandercley?

Os nomes próprios em Portugal repetem-se com uma regularidade assustadora: Nuno, Miguel, Paulo, Pedro, João, Joana, Jorge, Maria, Filipa e lá vamos nós. Assustadora, claro, para quem é brasileiro e está acostumado com os vários tipos e nacionalidades de nomes de batismo. Sim, temos uma quantidade absurda de Joões, Jorges, Paulos, Pedros, mas temos em igual monta uma quantidade fenomenal de Charles, Brunos, Wanderleys, Wagners.
O que aqui pode ser visto como um padrão de escolha de nomes (parece um respeito pela preservação da cultura e idioma), no Brasil é o atestado público de identificação de um país de imigrantes, algo também evidente nos sobrenomes, aqui chamados de apelidos, como Garschagen.
Melhor? Pior? Se penso que a falta de diversidade leva a uma repetição, inclusive dos sobrenomes (coisa que num país como o Brasil levaria ainda mais homônimos para a cadeia por crimes cometidos por um bandido de mesmo nome, numa Operação Shylock Tropical), também penso que a diversidade é um sortilégio de sandices. Os bebês portugueses nunca vão correr o risco dos bebês brasileiros de serem batizados como Wandercley, Neosalau, Greycy Quelly, Cridence Cliuauder Rivaivol (como é possível notar sem qualquer esforço o pai era grande fã do grupo Creedence Clearwater Revival).
Um grande amigo brasileiro, Fernando Gomes, escreveu um texto que resume à perfeição o dilema dos genitores brasileiros:
“Eram um casal. Tiveram gêmeos: Singrid, Ingrid, Sísifo. Decididamente, não estavam preparados”.
1 commentBandidos brasileiros, estudantes brasileiros e Oscar Wilde em Portugal (duvida?)

Quinta passada dois brasileiros tentaram assaltar uma agência do Banco Espírito Santo (BES) num lugar chamado Campolide, aqui em Portugal (veja as fotos aqui). Depois de algumas horas de negociação sem solução os snipers da polícia atiraram, mataram um e feriram o outro, que está internado o hospital. Por quê conto essa história? Porque as reações mais indignadas que ouvi não foram dos portugueses, mas de estudantes brasileiros de mestrado que moram aqui. Todos manifestavam a revolta dos justos: “malandro em vez de trabalhar (e trabalho há) inventa de roubar. Se o preconceito contra brasileiro aqui já é uma merda, imagine agora?” É claro que a indignação leva ao exagero retórico, mas é interessante notar como brasileiros, digamos, qualificados (na comparação com a maioria dos imigrantes das Terras de Vera Cruz que vem para cá ser trabalhadores braçais) reagem a esse tipo de situação e ao preconceito contra os imigrantes brasileiros, preconceito esse que quase todos eles nunca sofreram diretamente.
Mas daí me pergunto? Ouvir de um português um entusiasmado “você nem parece brasileiro!” (como ouvi algumas vezes) não é uma forma de discriminação positiva? Eu costumo reagir com um muxoxo esnobe porque a frase é, na aparência, um elogio, mas na essência, um insulto que não ousa dizer o nome (para usar o aforismo do senhor Wilde).
Os portugueses adoram os brasileiros, costumo ouvir por aqui. Mas os portugueses estão cansados dos imigrantes brasileiros mal-educados que fingem esquecer que estão num país que não o deles. No Brasil, a má-educação desses brasileiros é discriminada e reprovada, como aqui. Mas lá eles podem agir impunemente porque representam a si próprios. Eles têm o direito de ser os idiotas que são. E se cometerem crimes serão julgados e punidos. Num país estrangeiro o brasileiro não é dono de si próprio. Mesmo que não queira, mesmo que rejeite com todas as forças, mesmo que renegue a pátria por três vezes, como Pedro a Cristo, ele também representa os vícios e virtudes de sua nação. Os bandidos que tentaram assaltar o BES não eram apenas o Wellington Nazaré e o Nilson Souza (morto na ação); eram, acima de tudo, brasileiros que moravam ilegalmente em Portugal.
A indignação dos estudantes é uma reação demasiado humana: a agressividade é uma forma de estabelecer a diferença por causa do fator comum de ser brasileiro, que, em casos como esse, é uma espécie de marca da besta cravada na testa. Eu, pessoalmente, não me importo com a nacionalidade. Os idiotas são maioria em todos os lugares do mundo. Não tenho mais amigos no Brasil do que os que tenho aqui. Cinco amigos em cada lugar em que se mora é o máximo que uma existência civilizada suporta; é o máximo de gente que se pode reunir num restaurante e conversar sem que seja preciso berrar ou negligenciar qualquer um deles.
Os assaltantes eram brasileiros? Eram. É isso o que fica. Ser brasileiro é uma condição muito mais poderosa do que ser bandido.
No commentsJPCoutinho, Hayek, Dicta&Contradicta

Na Folha de hoje, João Pereira Coutinho, excelente como sempre, fala sobre a revista Dicta & Contradicta:
2 commentsHayek para o século 21
O Estado deve ser capaz de estabelecer as regras do jogo, mas não lhe cabe comandá-lo
AS MELHORES revistas são aquelas que nos obrigam a repensar. Lemos artigos, confrontamos sabedorias nossas. E depois reformulamos o conhecimento num processo invisível e contínuo. Creio que era essa a idéia que Hayek defendia ao falar da emergência e do florescimento da civilização ocidental: um processo epistemológico em que diferentes mentes interagem espontaneamente umas com as outras, sem interferência de um Estado central e centralista.
E se lembrei Hayek foi por causa de uma revista recentemente lançada no Brasil, um pequeno milagre de inteligência e bom gosto gráfico. A revista se chama “Dicta & Contradicta”, tem periodicidade semestral (que pena) e procura ser uma espécie de “The New Criterion” em língua portuguesa.
Caso não saibam, a “The New Criterion” é a bíblia conservadora e liberal da intelligentsia nova-iorquina, e a “Dicta”, na escolha e disposição dos temas (ensaios + perfis + artes + letras), emula, na perfeição, a irmã mais velha da Big Apple.
Talvez por isso o primeiro número, que conta, entre outros, com um ensaio notável de Luiz Felipe Pondé sobre o “Eclesiastes” (ensaio que me obrigará a reler “Herzog”, de Saul Bellow, com outros olhos), inclui também texto de Roger Kimball, um dos fundadores da “The New Criterion”, sobre Hayek, o austríaco nascido em 1899 e que acabaria por conhecer a fama internacional em 1944, com a publicação de “The Road to Serfdom”.
Kimball acerta ao afirmar que “The Road to Serfdom” é, ainda hoje, um dos mais poderosos libelos a favor da liberdade individual e contra o planejamento econômico que seria dogma nas economias européias do pós-guerra.
Mas, lendo Kimball e relendo Hayek, não estou inteiramente seguro de que todos os pontos do austríaco mantenham, ainda hoje, validade e pertinência.Para começar, não estou inteiramente certo de que a existência de um Estado social, capaz de garantir proteção e ajuda para os mais desfavorecidos, seja o primeiro passo para o “caminho da servidão” que Hayek denuncia no título da sua obra.
A Suécia ou a Dinamarca, para citar apenas dois exemplos em que o Estado participa generosamente nas economias internas, só por piada podem ser considerados Estados “totalitários”, comparáveis à Alemanha nazista ou à União Soviética comunista.
E, para ficarmos dentro da família conservadora, as reformas sociais de Disraeli ou Salisbury na Inglaterra, longe de restringirem as liberdades individuais, foram uma condição para o seu exercício no século 20.Por outro lado, relendo “The Road to Serfdom”, questiono se, como escreve Hayek, a educação e a inteligência promovem necessariamente o pluralismo político anti-autoritário. A história do século 20, por vezes, aponta para o inverso: intelectuais sofisticados, como Sartre ou Heidegger, aderiram a programas autoritários. Para mentes irrecuperavelmente monistas, a diferença pode ser vista como um vício, não como uma virtude.
Apesar disso, “The Road to Serfdom” ainda é válido para o século 21. Começa por ser válido ao relembrar, de forma expressiva (e corajosa), as semelhanças teóricas e práticas entre o fascismo, o nacional-socialismo e o comunismo, três tiranias gêmeas de vocação revolucionária que, ao procurarem recriar o “homem novo”, acabaram por degradar e destruir o “homem velho”.
Mas Hayek é sobretudo útil ao relembrar que o Estado não deve ser um agente moral: uma entidade dotada de capacidade e poder para impor sobre terceiros uma única visão da vida.
Isso implica, segundo Hayek, um respeito pelo indivíduo e pela capacidade deste de perseguir os seus interesses. O Estado deve ser capaz de estabelecer as regras do jogo, mas não lhe cabe comandar o jogo, muito menos estabelecer o resultado final desse jogo.
Como afirma Kimball, na passagem mais relevante do texto que a “Dicta & Contradicta” oferece agora aos leitores brasileiros, Hayek entendeu, como Tocqueville antes dele, que o efeito mais perverso do “paternalismo de Estado” é de natureza psicológica.
Ao tratar os seres humanos como eternas crianças, o governo permite que os seres humanos vejam a eles próprios como crianças. A interiorização desse sentimento faz com que os indivíduos se sintam crescentemente dependentes, sem autonomia e, no limite, sem caráter nem dignidade próprios. E nenhum adulto amante da liberdade aceita viver num jardim de infância.
XVI Encontro Internacional de Estudos Políticos: direitos humanos em foco
Cheguei de Bruxelas e não houve hipótese de parar para escrever algo sobre a viagem. E amanhã vou para Estoril, um balneário perto de Lisboa, para o XVI Encontro Internacional de Estudos Políticos cujo tema será Human Rights Today: 60th Anniversary of the Universal Declaration of Human Rights. Por isso, fico off line até segunda. Deixo-vos com um texto bastante interessante sobre a palavra liberdade:
3 commentsFreedom vs. Liberty
by Joseph R. Stromberg
English is a language blessed, or cursed, with an overflowing wordhoard. 30% or so of our vocabulary comes to use from Old English (with some reinforcement from Old Norse). To this Germanic base, the Norman Conquest added tens of thousands of Norman French words – very roughly 60% of the whole vocabulary. There was a constant trickle of new borrowings from Scandinavian languages, Low German, and Dutch down the centuries. The Renaissance encouraged borrowing of learned terms from Latin and Greek. These last make up a good part of the last ten or so percent of our usable words. To tangle things even more, English explorations and conquests brought in words from India, the Americas, and Australia.
If we wish to speak of the ruler, we have a choice of “regal” (Latin), “royal” (French
I begin on the ground of etymology: "Liberty" derives from Latin libertas, from liber, "free."
A curious aspect of this word is that Romans used liberi (plural) to mean "children." The French linguist Émile Benveniste explains this on the basis of a Roman marriage formula, which gave the procreation of more free persons as the purpose of marriage ("to obtain free [beings]"). Such children would be free as members of a class or community of free persons (as opposed to slaves).
What are the wider connections of liber? It seems the word arises from common Indo-European *leudhos, from which came Greek eleutheros, "free," as in Eleutherian. There is an allied verb in Germanic: Gothic luidan and Old English leodan, meaning "to grow." German Leute, "people," stems from this verb, as did Old English leod, which lives on in poetry as "leed." Slavic ljudu and Lithuanian liáudis both mean "people" and reflect *leudhos. Hence, the original or ur-meaning had to do with growth, specifically the growth of a kin group, within which one was free.
English got "liberty" as Norman-French liberté
Turning to our Germanic (Old English) words, "free" and "freedom," we find their source in Indo-European *priyos, meaning "dear" or "one’s own." Cognate (kin) words include Sanskrit priyas and Persian (Avestan) fryo, both meaning "dear," Sanskrit prináti, "pleases," and Slavic prijatel, "friend." By the time we reach the Celtic and Germanic tongues, we find ourselves on home-ground with Welsh rhyyd, "free," and in Germanic – Gothic frijon, "to love," freis, "free," and freihals, "freedom." Old English freo and feols answer to the last two Gothic terms.
Freihals is interesting in that it literally means "free-neck" (hals, "neck," lives on in German Hals and Scots hawse), that is, the status of one who does not bend the neck or wear the collar of servitude, or as Winfred Lehmann puts it, "one who is possessor of his own neck as opposed to a slave who is the property of his master." Very literal-minded, these ancestors of ours! Given the root meanings of *priyos, it is not shocking to find that Gothic frijonds, Old English freond, English friend, and German Freund, and so on, are also built on that stem. There is also, apparently, a connection with Old English frith and German Frieden, "peace." With differing suffixes are built German Freiheit (= "free-hood") and English "freedom." (The Old English suffix -dom comes from Indo-European *dhê-, "set, settle, establish," which yields Greek thesis and thema ["theme"] and probably Sanskrit dharma, not to mention English "deem" and "doom.")
This is a striking field of meanings: "dear," "one’s own," "friends," "peace," "freedom," and so forth. As with *leudhos, "freedom" seems wholly bound up with life in small communities. Can republican theory and radical decentralization be far behind? Benveniste, who is very helpful on the etymologies, believed that they showed that freedom is granted by the community. As a follower of Marcel Mauss, and therefore of Durkheim, he could not have done otherwise. It makes more sense to say that "freedom" is only meaningful in society: "Freedom is a sociological concept. It is meaningless to apply it to conditions outside society: as can be well seen from the confusions prevailing everywhere in the celebrated free-will controversy" (Ludwig von Mises, Socialism [Jonathan Cape, 1936], p. 191).
A third word root of some interest here is Indo-European *s(w)e-, "self." Derivatives include Greek ethos, ethic- (<*swedh-), Latin sodalitas, "religious society" (<*swed-), and English "sib" and "self" (all with various suffixes added to *s(w)e-. One could add Greek idios, "one’s own," "private," (<*s(w)id-, with different vocalism) whence "idiot," the man who thinks of nothing but his own interest). *S(w)e- is the basis of most reflexive and many third-person possessive pronouns in the Indo-European languages, including Latin, se, suus, sua, suum, Spanish su, and Slavic svoj-. The latter is interesting, as it seems to provide the first syllable of the pan-Slavic word for freedom: svobodá. Only the lack of a good Slavic etymological dictionary keeps me from dogging its footsteps further.
It is just as well to stop the word-kinship quest here. Otherwise, I would be tempted to make a purely etymological argument for freedom-as-self-ownership ("possessor of his own neck") and the philosophers would become very cross indeed. As for the semantic range of "liberty" and "freedom," as they have come down to us, it seems that our native word is looser than the French/Latin one. We speak of "free play" (in mechanics), "free will," "free stuff," "free fall," and iceboxes that are "frost-free" (where "free" = "unburdened with"). It is easy to see how confusion might creep in. Careless thinkers might take freedom to mean getting goodies from the state.
Even so, "freedom" seems a bit more world-bound or concrete than "liberty." The latter conjures up the abstract public liberty in relation to the state. I expect that in practice we shall go on using the two words rather interchangeably, even if they are not exact synonyms in their full semantic range. It is said that Chinese has no word, as such, for freedom. That would be interesting, if true, but I am more than ready to be set right on this point, if not. Ancient Sumerian had ama-gi, the cuneiform script for which you will find all over the endpapers of any book published by Liberty Fund.
Communal, decentralized, republican or otherwise, liberty and freedom are very old notions with a pedigree at least as impressive as those of any opposing concepts. It would be premature, then, to agree with the song-wright who claimed that “freedom’s just another word for nothing left to lose.” Freedom might well be the very “thing” it is most important not to lose.
Note: This essay grew out of a discussion around the imaginary water cooler and got completely out of hand. Works consulted include Émile Benveniste, Indo-European Language and Society (University of Miami Press, 1973), pp. 262-272, Winfred P. Lehmann, A Gothic Etymological Dictionary (E. J. Brill, 1986), pp. 127-129 and 234-235, and Calvert Watkins, ed., The American Heritage Dictionary of Indo-European Roots (Houghton Mifflin, 1985), pp. 37 (*leudh-2) and 53 (*prî-).
Joseph R. Stromberg [send him mail] is the JoAnn B. Rothbard Historian in Residence at the Ludwig von Mises Institute and a columnist for Antiwar.com.
“As memórias procriam como se fossem pessoas vivas”

Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidos. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas.
Trecho de Antes do Degelo, da excelente Agustina Bessa-Luís.
2 commentsJPCoutinho: a possilidade de um segundo holocausto é mais real do que se imagina
João Pereira Coutinho, colunista da Folha de S. Paulo e do jornal Expresso, fez ontem uma palestra dando pinceladas sobre o passado, presente e futuro de Israel estabelcendo links com o romance Operação Shylock, de Philip Roth. Na conversa de quase duas horas, incluindo debate com o público, tocou em pontos cardeais:
1) As famílias israelenses poderiam ser muito maiores do que são. Israel é um país dos vivos com seus fantasmas;
2) O anti-sionismo, por seu caráter persecutório e violento, é muito mais preocupante do que o anti-semitismo, que revela a idiotice de pessoas que cultivam um preconceito tão abjeto quando histórico;
3) O anti-semitismo não despareceu só mudou de método;
4) A possilidade de um segundo holocausto é mais real do que se imagina.
JPCoutinho citou dois elementos fundamentais para que tal tragédia ignominiosa venha a ocorrer: a) um processo de desumanização do outro (como se fez na Alemanha nazista, como se faz em países árabes em relação aos judeus); b) capacidade tecnológica para converter ódio em ato (o programa nuclear do Irã é muito mais do que apenas um indício de que a vaca já foi para o brejo).
5) A Europa, com sua compreensível posição pacifista, não está dando a devida atenção ao problema naquilo que JPCoutinho chamou de postura de negação. “Negar a realidade ou desacreditá-la não vai fazê-la desaparecer”, disse. Ele citou a matéria de capa da revista Foreign Policy, que ouviu 100 importantes intelecuais sobre a situação de Israel. Ninguém deu um pio sobre a ameaça representada por Teerã.
6) Sobre aqueles que defendem um equilíbrio nuclear com o Irã, JPCoutinho disse que é ingenuidade a Europa achar que é possível estabelecer um equilíbrio de força como na Guerra Fria. O colunista disse que não é possível confiar num regime fanático porque nunca se saberia o que planejava e o que era capaz de fazer. Além do mais, Irã não deverá atacar Israel na posição de Estado, mas vai agir, como já vem fazendo, através de grupos terroristas, como Hamas e Hezbollah, que recebem informalmente apoio e financiamento.
7) O fracasso nas negociações de Camp David em 2000: Barak, de Israel, entrou para negociar; Arafat, da Palestina, não. Isso ficou claro com as concessões feitas por Israel e, além de exigir que todos os pedidos fossem atendidos, para fechar a rosca, Arafat ainda propôs a volta de 3 milhões de refugiados palestinos para o Estado de Israel e não para o futuro Estado palestino. “Arafat queria eliminar Israel demograficamente. Queria dois Estados para um só povo”.
Num texto que fiz para o site Americas Reporter, o embaixador de Portugal em Argel, Luís de Almeida Sampaio disse que o diálogo entre Israel e palestinos já vinha sendo desenvolvido antes mesmo da Conferência de Anápolis, realizada em novembro do ano passado nos Estados Unidos. Destaco um trecho do meu texto (pode ser lido aqui):
Do encontro, com participação de 47 países, a maior já registrada numa conferência pela paz na região, saiu um documento que define pontos de um acordo para selar a paz e criar um Estado Palestino até o fim deste ano (Israel, no entanto, não quis estabelecer um prazo, mas acha que o acordo sai até dezembro). Também está prevista a formação de um comitê permanente de negociação com representantes dos dois povos e uma reunião quinzenal entre Olmert e Abbas.
Mas o fato de todas as questões de interesse entre palestinos e israelenses terem sido previamente discutidas não significa que haja consenso. Ainda é ponto de discórdia questões centrais como o problema dos refugiados que se arrasta desde 1948 (hoje são quatro milhões), o desmantelamento do muro e dos assentamentos, o controle da água, a libertação dos presos, o reconhecimento de Israel como Estado Judeu, a volta às fronteiras de 1967 com a retirada das tropas israelenses e a devolução da parte oriental de Jerusalém, conquistada naquele ano por Israel e que seria convertida na capital do futuro estado palestino.
“Como tudo vem sendo negociado pelos dois países não é preciso reinventar a roda. Precisa é negociar e decidir”, explica o embaixador português, para quem o que falta é vontade política para, em algum momento, fechar o acordo. “Mas é claro que não será um acordo satisfatório para nenhuma das partes. Israel vai reclamar, os palestinos vão reclamar e a comunidade internacional também. Mas, com todas as limitações, será o acordo possível e igualmente importante. Em cima desse acordo, depois, é possível avançar nos pontos divergentes”.
JPCoutinho deixou claro que o governo de Israel pode e deve ser criticado por suas ações, mas não pelo fato de defender seu povo e território. A confusão que geralmente se estabelece é vincular ações de defesa dos israelenses com a legitimidade da existência do Estado de Israel.
No fim da palestra pedi ao JPCoutinho que me enviasse o texto que ele preparou. Assim que eu recebê-lo publico aqui para vocês lerem os demais pontos abordados.
PS: Vou passar a comentar no blogue eventos que eu for por aqui. Acho que está faltando ao site falar sobre Portugal e do que há de relevante em tudo o que venho tendo acesso na terra de Camilo Castelo Branco.
8 commentsJoão Pereira Coutinho sobre história e atualidades de Israel
Estou saindo agora para ver a palestra do João Pereira Coutinho sobre história e atualidades de Israel. O título da palestra Operação Shylock: ficções e realidades é uma referência ao grande livro do escritor americano Philip Roth.
Se eu chegar em horário hábil conto como foi.
Enquanto isso, fiquem com o texto dele publicado sábado passado na coluna Divinas Comédias, no jornal Expresso:
No commentsOtto Rahn, 32 anos, praxes
INFERNO
OTTO RAHN
As ditaduras totalitárias não se recomendam. Mas no meio da loucura e da desumanidade, existem histórias pícaras.
Uma delas é contada pelo “Sunday Telegraph” e merece partilha com os leitores. Falo do destino do alemão (e nazi) Otto Rahn. Quem? Precisamente. Otto Rahn, arqueólogo de ofício, nutria uma admiração sincera por Heinrich Schliemann, um seu colega e antecessor que, embalado pelas leituras de Homero, realizou escavações na Turquia e encontrou as ruínas do que acreditava ser a lendária Tróia.
Rahn imitou o gesto de Schliemann e, substituindo a “Ilíada” por “Parsifal”, um épico do século XIII, lançou-se na descoberta do Santo Graal, o cálice de Jesus na Última Ceia. Rahn partiu para o Languedoc porque, alegadamente, três reis cátaros, momentos antes de serem massacrados pelos cruzados, teriam escondido o Graal num castelo da zona. Rahn não encontrou o Graal (a sério?) mas alguns labirintos subterrâneos do castelo atiçaram-lhe a imaginação. O Graal existia, ele acabaria por encontrá-lo. E um livro da sua autoria sobre o assunto foi publicado em 1933.
Tudo terminaria aqui se o livro de Rahn não fosse lido, sublinhado e praticamente decorado por Himmler, outro adepto de fantasias que fez a Rahn uma proposta irrecusável: dinheiro abundante para pesquisas em troca do Graal. No dia em que Rahn o encontrasse, o cálice seria exposto num castelo da Vestefália propositadamente reservado para o efeito. A ladear o Graal, bustos de nazis ilustres (um oxímoro, eu sei). Rahn aceitou a proposta mas, para espanto dele, o Graal teimava em não aparecer. Até ao dia em que os nazis, cansados de esperar, decidiram terminar com a festa, terminando com a vida de Rahn.
E no fim, que dizer desta odisseia? Duas coisas. Primeiro, que a cabeça dos nazis tem tanto de infantil como de criminoso. E, depois, que as aventuras de Otto Rahn tiveram o mérito de inspirar um conhecido herói de cinema, especialista no chapéu, no chicote. E no Graal.
PURGATÓRIO
32 ANOS
Não vale a pena iludir: estou a envelhecer. E existem dois sintomas que normalmente denunciam o dilúvio na vida de um homem. O primeiro é observar a Selecção Nacional e concluir, com uma dor silenciosa e íntima, que os jogadores são todos mais novos do que ele. Não que eu pretenda lugar na equipa de Scolari: sou incapaz de chutar uma bola e 90 minutos atrás dela sempre me pareceram um clamoroso desperdício de tempo. Mas é sempre duro contemplar certos clubes onde, talento à parte, a entrada já nos está interdita. Biologicamente interdita.
O segundo sintoma acontece quando o número da roupa que nos acompanhou durante toda a juventude nos acena do outro lado da margem. Sim, havia sinais de que engordava sem retorno. Mas eu mentia a mim próprio, como um alcoólico em negação. E, com perícia de kung-fu, enfiava-me nas velhas calças. Enfiava-me, vírgula: rastejava para dentro delas, normalmente deitado no chão como uma lagartixa agonizante. Quando finalmente me enchouriçava no par, pedia ajuda para me levantarem e tentava não fazer certos gestos bruscos. Nem sempre conseguia, é certo, e a insensatez de alguns movimentos - como, por exemplo, caminhar - proporciona estrondo no sentido literal. E quando as calças aguentavam, não aguentava eu: a circulação sanguínea parava e o meu rosto adquiria um belíssimo tom púrpura. Na passada semana, e com um guarda-roupa irremediavelmente perdido, decidi actualizá-lo. E lá fui à loja da praxe, como um remador de Ben-Hur, disposto a esforço inglório para enganar o corpo. Mas o corpo não se deixa enganar: perante o riso da menina de serviço, que desaconselhou a repetição de erros recentes, experimentei calças e casacos dois números acima do habitual. Serviam-me. Ou, se quiserem, eu servia dentro deles, sem gemer de vergonha e dor. E agora? Agora, aguardo simplesmente pelo terceiro sintoma: o dia em que estarei mais gordo do que Figo, Rui Costa ou Fernando Couto. Tudo rapazes do meu tempo. E, como eu, reformados da Selecção.
PARAÍSO
PRAXES
Ah, as praxes… Ainda me lembro da minha, com lágrimas de saudade: terminou passados cinco segundos.
Eu era jovem, inocente, “caloiro”. E acabado de chegar à universidade, contemplei com fascínio uma manada efusiva que rastejava pelos prados verdejantes do entulho urbano. Foi então que um “veterano” se aproximou de mim e, confundindo-me com um canídeo, perguntou se eu era “caloiro”. Observei-o com a curiosidade típica que certos exploradores concedem aos selvagens. E quando ele, abismado com o meu silêncio, partiu para ameaças físicas, alguns amigos seguraram o “caloiro”, para que não fosse ele a “praxar” o “veterano”. A pergunta, que se repete desde esse tempo, é recorrentemente a mesma: como é possível que uma pessoa adulta e na razoável posse das suas faculdades mentais permita que um grupo de selvagens a humilhe, insulte e, às vezes, sove? E, no entanto, mais ninguém partilha esta extravagante inquietação: na “praxe”, só existe um culpado; quem se deixa “praxar”, não passa de uma vítima. Nos últimos dias, por exemplo, o país rejubilou com uma decisão da Justiça que não tolerou as “praxes” num instituto de Santarém. Há seis anos, os “veteranos” cobriram uma aluna com bosta; e a aluna, convém recordar, deixou-se ser coberta. Num país razoável, a pergunta seria a mesma: como é possível que uma aluna universitária, que presumivelmente atingiu um certo nível de maturidade pessoal e intelectual, se submete voluntariamente a estes espectáculos?Não que eu proponha acabar com eles. Longe disso. Ao contrário do que se escreveu, as praxes académicas têm um inestimável valor pedagógico que as nossas universidades deviam reconhecer. Elas permitem identificar, de imediato, pessoas preparadas para o ensino superior; e pessoas que, humilhando ou deixando-se humilhar, manifestamente confundem a universidade com a pocilga. Estes últimos não deviam ter lugar no ensino superior. Porque são precisos dois para dançar o tango.


