Archive for the 'Mundo' Category

Suicídio, Europa, Rússia e Talleyrand

Excelente texto do cientista político português Bruno Maçães, professor no European College of Liberal Arts, no Diário Económico (Lisboa) de hoje:

O suicídio

O território entre Bucareste e Baku será ou europeu ou russo. Eis uma questão que já começou a ser decidida.

Bruno Maçães

Não restam dúvidas de que a invasão russa da Geórgia foi intensamente preparada durante todo o mês de Julho. As provas documentais são abundantes. De resto, dada a rapidez com que que a operação se processou, qualquer outra hipótese seria implausível. Tenho muito pouco interesse em examinar as acções do frívolo presidente georgiano ou dos seus generais, quase todos mais novos do que eu. O bombardeamento de Tskhinvali, um crime e um erro, foi sobretudo inútil.

Convém acrescentar que a tentação nesta altura é enorme de misturar as águas, apelar à confusão dos factos e nada fazer. Seria assim se esta fosse uma questão moral. Politicamente, o caso é outro. Nos anos trinta, políticos e populações em França e Inglaterra dividiram entre si a culpa de exibirem, em imprudentes manifestações de ansiedade e alívio, o quanto receavam a guerra. Hoje o mecanismo psicológico é sobretudo o receio do poder e do império. Putin espera que os europeus olhem para o caos e a barbárie a leste e decidam retirar.

Há outro facto, mais importante, sobre o qual não restam dúvidas: o território entre Bucareste e Baku será ou europeu ou russo. Eis uma questão que já começou a ser decidida. Há apenas um ano Parag Khanna dizia que garantir as artérias de petróleo e gás natural que correm do Cáspio e da Ásia Central exige a colonização europeia da Geórgia, Arménia e Azerbeijão. O processo de integração económica e cultural decorria mais ou menos alegremente e o resultado parecia inevitável. Esta semana vimos que em Moscovo o fim da história não era interpretado da mesma maneira. Foi ao processo de alargamento europeu que a invasão russa pretendeu pôr termo.

O que sucedeu? O que sucede sempre com esta Europa em que temos infelizmente de viver: hesitação, paralisia, uma vertiginosa ausência de inteligência e coragem. Sem qualquer explicação, a Turquia continuou a ser marginalizada. Mais recentemente, em Bucareste, os líderes francês e alemão deixaram cair as aspirações da Ucrânia e Geórgia. Foi o sinal de que Moscovo precisava. A situação é subitamente de acosso às actuais fronteiras europeias. Se há um ano era ainda possível falar de uma progressiva europeização das antigas repúblicas soviéticas, hoje é um ataque à Polónia, sugerido pelo influente general Nogovitsyn, que somos obrigados a discutir.

Reduzida às suas fronteiras actuais a Europa não pode sobreviver. Não sobreviverá a novas tensões militares, para as quais nunca se soube preparar. Não sobreviverá à extrema dependência energética em que se vai enredando. Embarcámos num suicídio colectivo.

Gostei especialmente da parte que trata da responsabilidade direta da Europa sobre o conflito entre Rússia e Geórgia. “Hesitação, paralisia, uma vertiginosa ausência de inteligência e coragem” são uma combinação perfeita para ter uma geopolítica externa não só malsucedida como perigosamente malsucedida. A omissão, por vezes, provoca uma acção, de conseqüências mais ou menos previstas.

Se a Rússia preparou a invasão da Geórgia durante o mês de julho e a Europa não se deu conta para prevenir o conflito que se seguiu é porque, naquela lista descrita pelo Bruno, falta, em primeiro lugar, inteligência.

Além do mais, ao colocar de lado Turquia, Ucrânia e Geórgia a Europa abriu os flancos ao avanço da Rússia, que, decididamente, tem menos força do que parte dos analistas crêem, mas mais do que acreditam representantes da União Européia. Cão ferido não é cão morto; há sempre o risco de morder a perna mais próxima.

A Europa, aliás, parece-me com os Bourbon, na frase de Talleyrand: “Não aprenderam nada; não esqueceram nada”.

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Nem Carla Bruni salva Sarkozy

Sarkozy, que prometia tanto, cometeu duas falhas políticas imperdoáveis: primeiro, ao aceitar Chávez como interlocutor das Farc na esperança de que o presidente da Venezuela fosse o anjo que garantiria a libertação da ignóbil Ingrid Betancourt; depois, como representante máximo da UE, deixar-se enganar pelo governo Russo:

Moscou usa termos do acordo para justificar ação militar

Andrew Kramer, The New York Times, Tbilisi

Rússia exigiu que suas tropas tivessem permissão para atuar como “força de paz” fora de regiões separatistas

Eram quase 2 horas de terça para quarta-feira em Tbilisi quando o presidente da França, Nicolas Sarkozy, que acabara de chegar de Moscou, anunciou ter conseguido o que parecia impossível: persuadir o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, e o da Rússia, Dimitri Medvedev, a aceitar um cessar-fogo. Apertos de mão e felicitações foram enviados de todas as partes, mas, quando o sol nasceu, tanques russos voltaram a avançar, tomando posições na cidade de Gori, no centro da Geórgia.

Logo ficou claro que o cessar-fogo de seis pontos proposto por Sarkozy não apenas tinha fracassado, mas dava a Moscou ferramentas para entrar ainda mais na Geórgia usando como pretexto as chamadas “medidas de segurança adicionais” incluídas no acordo.

Segundo um alto funcionário do governo da Geórgia, Sarkozy também fracassou ao tentar convencer os russos a aceitar um prazo para o fim das operações militares. (CONTINUA)

Sarkozy, que admiro tão-somente por ter se casado com aquele monumento chamado Carla Bruni, converteu-se na decepção política do ano.

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Invasão da Geórgia na The Economist

Acabo de ler a matéria de capa da The Economist desta semana. Sobre a invasão da Geórgia pela Rússia, que, segundo a revista, ganhou uma batalha numa espécie de renascimento da velha guerra contra os países ocidentais.

The war in Georgia

Russia resurgent

The war in Georgia is a victory for Russia. The West’s options are limited, but it needs to pursue them firmly

ON THE night of August 7th, Mikheil Saakashvili, Georgia’s president, embarked on an ill-judged assault on South Ossetia, one of his country’s two breakaway enclaves. Russian tanks, troops and aircraft poured across the border. Just five days later, after pulverising the Georgian armed forces, Russia announced that it was ending its operations.

This brutal and efficient move (see article) was a victory for Vladimir Putin, Russia’s president-turned-prime-minister, not just over Georgia but also over the West, which has been trying to prise away countries on Russia’s western borders and turn them democratic, market-oriented and friendly. Now that Russia has shown what can happen to those that distance themselves from it, doing so will be harder in future.

CONTINUA

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Como era vodka a minha Rússia

Ao invadir a Geórgia a Rússia demonstrara claramente o respeito que têm pela ONU. Ao desrespeitar o plano de paz proposto pela União Européia e também aceito dias antes pela Geórgia, o governo russo revelara o quanto valoriza a Europa.

Ontem, Sergei Ivanov, vice-primeiro-ministro da Rússia e ex-ministro da Defesa, afirmou que o país não reconhece o controle da Geórgia sobre seu próprio território. Soberania e independência sim, integridade territorial, não. Soberania sem integridade territorial? Argumento de Ivanov: Ossétia do Sul e a Abkházia nunca fizeram parte da Geórgia como país independente. Só sóbrio para um membro do governo russo elaborar uma afirmação tão complexa. Nosso Ivanovodka é um grande sujeito, não é mesmo?

Agora os EUA entraram na conversa. Ontem, o presidente americano, George W. BooBush, exigiu da Rússia o cumprimento da promessa de suspender as operações militares e ameaçou boicotar o país em instituições internacionais.

A pergunta é: a União Européia e a ONU caíram na conversa do governo russo por uma imperdoável ingenuidade ou por acreditarem de forma prepotente numa força que acreditavam ter?

PS: E lá vão os Estados Unidos infames imperialistas a salvar de novo a Europa.

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China, Olimpíadas e Raskolnikov

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Conforme prometido, eis o texto publicado em O Globo na segunda-feira passada (não consegui o PDF da página).

O Globo - Opinião - 11/08/2008

Sem liberdade

Bruno Garschagen*

Num dos mais vigorosos romances da literatura mundial (Crime e castigo, de Dostoiévski), o protagonista Raskolnikov legitimou a morte de uma velha usurária sob o argumento de que certas pessoas mereciam morrer pelo bem da humanidade. Estudante de medicina, ruminou uma teoria segundo a qual certos homens, por seu intelecto superior, estavam isentos de leis morais. Não deu outra: rachou o crânio da velhota com um machado.

Não é novidade na história a criação das teses mais infames para legitimar toda a sorte de iniqüidades. O grande perigo dessas idéias é que muitas têm um método lógico. Mas o método nem sempre conduz à verdade, já apontara Eric Voegelin no estupendo A nova ciência da política. Mais do que isso: a falácia transformou períodos da história num grande cemitério de vítimas úteis.

O fenômeno novo a se considerar é o desenvolvimento econômico usado por governos fortes para legitimar seus vícios, como o autoritarismo e a violação de liberdades civis e dos direitos humanos. O desempenho da economia foi convertido em instrumento de legitimação de poder.

A China, que sedia os Jogos Olímpicos 2008, é o exemplo claro de país cujo impressionante crescimento econômico é usado como habeas corpus perante a sociedade internacional e ao seu povo. Se antes o poder no país era legitimado na figura de Mao Zedong, as reformas econômicas sem democracia realizadas por Deng Xiaoping deslocaram a fonte de legitimidade para o desempenho da economia.

Qual é o busílis? Para além da repulsa que todo homem civilizado deve manter contra poderes que violam os indivíduos em nome de um projeto de reengenharia política e social, o impressionante crescimento econômico chinês sequer foi capaz de melhorar a vida da maior parte dos cidadãos, que chafurdam na miséria. Só uma pequena parcela dos indivíduos que vivem sob essa autocracia liberal (na precisa definição de Fareed Zakaria) é beneficiada pelos investimentos e aumento da renda per capita.

Nem as reformas e o crescimento fizeram da China um país com liberdade econômica. No índice 2008 da Heritage Foundation ocupa um vergonhoso 126° lugar; no Economic Freedom of the World, dos institutos Fraser e Cato, ocupa a 95ª posição. Liberdades civis e direitos políticos? Necas. Desde 1998 é classificado como um país not free (sem liberdade) pelo think thank Freedom House (The worst of the worst: the world’s most repressive societies 2008).

A China, quanto mais se fortalece economicamente, mais fragiliza as liberdades de seus cidadãos. Porque tratar o crescimento econômico como um fim em si mesmo abre uma vereda para todo tipo de ataque contra os indivíduos e os modos de vida (leiam O desenvolvimento como liberdade, de Amartya Sen). É o método do governo chinês para justificar a restrição dos direitos como garantia da unidade, paz e segurança do país. Os comunistas chineses, assim como Raskolnikov, se vêem como seres superiores e isentos de leis morais.

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Homenagem merecida: Solzhenitsyn na Economist e na Spectator

Escrevi aqui um post no dia 4 (Arquipélago Gulag) sobre Alexander Solzhenitsyn, que morreu um dia antes.

Esta madrugada recebo a newsletter da The Economist desta semana cuja capa (reproduzida aí em cima) é dedicada ao escritor e intelectual russo. Um trecho da reportagem que recomendo vivamente:

Alexander Solzhenitsyn

Speaking truth to power

Alexander Solzhenitsyn’s example—and the heirs who failed him

GEORGE KENNAN, the dean of American diplomats, called “The Gulag Archipelago”, Alexander Solzhenitsyn’s account of Stalin’s terror, “the most powerful single indictment of a political regime ever to be levied in modern times”. By bearing witness, Solzhenitsyn certainly did as much as any artist could to bring down the Soviet system, a monstrosity that crushed millions of lives. His courage earned him imprisonment and exile. But his death on August 3rd (see article) prompts a question. Who today speaks truth to power—not only in authoritarian or semi-free countries such as Russia and China but in the West as well?

The answer in the case of Russia itself is depressing. Russia’s contemporary intelligentsia—the should-be followers of the example of Solzhenitsyn, Sakharov and the other dissident intellectuals of the Soviet period—is not just supine but in some ways craven (see article). Instead of defending the freedoms perilously acquired after the end of communism, many of Russia’s intellectuals have connived in Vladimir Putin’s project to neuter democracy and put a puppet-show in its place. Some may genuinely admire Mr Putin’s resurrection of a “strong” Russia (as, alas, did the elderly Solzhenitsyn himself). But others have shallower motives.

In Soviet times telling the truth required great courage and brought fearful consequences. That is why the dissidents were a tiny minority of the official intelligentsia which the Soviet Union created mainly in order to build its nuclear technology. Today it is not for the most part fear that muzzles the intellectuals. Speaking out can still be dangerous, as the murder in 2006 of Anna Politkovskaya, an investigative journalist, showed. But what lurks behind the silence of many is not fear but appetite: an appetite to recover the perks and status that most of the intelligentsia enjoyed as the Soviet system’s loyal servant (CONTINUA)

Sugiro também a leitura do texto de Owen Matthews na Spectator desta semana.

Russia’s ignorant still hate Solzhenitsyn

Owen Matthews

In Russia, writers are more than just writers. Russians look to their literary heroes not simply for beauty and entertainment, but for a philosophy of life. Writers do more than simply tell the truth to the temporal power — they are Russia’s spiritual legislators. The stern old God of Orthodoxy provides an immutable baseline of good and evil. But it is in the works of Dostoyevsky and Tolstoy and Pushkin and Chekhov that Russians find their universal truths, the nuts and bolts of people wrestling with freedom and oppression.

Russians look to their writers not just to think but to live more deeply than ordinary mortals; the best ones end up crucified on crosses of their own weakness, or of the state’s disapproval. This was certainly true of Alexander Solzhenitsyn. Not only did he, in the pungent Russian phrase, experience the horrors of the Russian century ‘on his own hide’, but he was possessed with an overwhelming moral imperative to record what he saw and felt. The impulse was so strong that while he was in the Gulag he memorised thousands of lines of his own poetry and prose when there was no paper to write on; the rest he scribbled on pieces of cement and scrounged scraps of paper.

When Solzhenitsyn died, Vladimir Putin came to pay his respects at his lying-in-state at the Academy of Sciences, and President Dmitry Medvedev bowed to his grave at the Donstkoi monastery. Thousands of people — many of them older members of the intelligentsia, in shabby clothes and thick glasses — had queued in pouring summer rain to see his body and lay flowers. But though Russia’s new masters had bowed their heads to Russia’s greatest dissident, in truth Solzhenitsyn was largely ignored in the new Russia when he was alive. Television has, as is now customary, taken its lead from the Kremlin’s respectful line, and Russia’s newspapers are written by the intelligentsia who respected Solzhenitsyn the most. But dig a little deeper into the hinterland of Russia’s internet and there is a deep and ugly groundswell of vitriol. On mail.ru, Russia’s most popular free email site, users posted 233 comments below a wire story about Solzhenitsyn’s death; almost every one was viciously critical. ‘Good riddance: He shouldn’t have worked for the West,’ wrote DimaM; ‘He wasn’t a writer, he was a traitor,’ wrote Vlad; ‘Glory to Stalin, Glory to the Soviet Union,’ wrote KlanZh (CONTINUA).

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Arquipélago Gulag

Estava eu aqui fazendo pesquisas sobre a China para um texto quando me deparo com a notícia da morte de Alexander Solzhenitsyn, ontem, aos 89 anos. Sim, notícia atrasada. Ontem, como podem ver no post aí abaixo, eu só consegui ver Dr. House e sentir vontade de morrer por causa do calor africano que faz em Lisboa no verão.

Mas não vim perturbar-vos com uma notícia que vocês certamente já leram. Só escrevo para compartilhar a importância que Solzhenitsyn teve na minha formação de caráter e política. Meu amor pela liberdade é nato, mas foi a leitura de Arquipélago Gulag que me fez conhecer os horrores da ação da mentalidade e mente revolucionárias e detonou em meu espírito o ideal político pela liberdade e contra qualquer forma de poder que tenha por princípio remodelar a sociedade ou o indivíduo de acordo com um ideal de perfeição e de futuro perfeito.

Por causa desse livro, Solzhenitsyn foi massacrado pela imprensa francesa de esquerda. Essa história está no livro Le Terrorisme Intellectuel de 1945 à Nos Jours, de Jean Sévillia, redator-chefe do jornal parisiense Figaro (cheguei ao livro a partir da dica de Olavo de Carvalho).

Durante os anos do Processo Revolucionário em Curso em Portugal (PREC, de março a novembro de 1975) o lançamento do livro traduzido demorou meses por causa do boicote feitos pelos tipógrafos, segundo conta a Insurgente Patrícia Lança:

A nossa homenagem a Solzhenitzyn é de nunca esquecer como, nos anos do PREC, o PCP tudo fez para evitar que a tradução portuguesa do Arquipelago Gulag fosse publicada em português. Os tradutores foram José Augusto Seabra e Chico da CUF e a Bertrand a editora. Mas os tipógrafos, incentivados pela CGTP, boicotaram durante longos meses a edição. Felizmente essa “conquista” de Abril falhou e muitos portugueses ingénuos ficaram a conhecer a natureza da URSS e a grandeza do autor agora falecido.

Se não conhecem nada a repeito de Solzhenitsyn, leia o obituário do Telegraph. Se não leram Arquipélago Gulag, corram até à biblioteca ou à livraria. Se encontrarem também Gulag, da excelente jornalista Anne Applebaum, não titubeiem (para quem mora no Rio, ano passado comprei a edição brasileira numa banca de jornal por R$ 9,90).

PS: O calor permanece. A vontade de morrer idem.

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Standpoint: nova e altamente recomendável revista

Num post em que cita a revista Dicta&Contradicta, André Azevedo Alves, no sempre excelente O Insurgente, dá uma ótima dica de leitura:

Entretanto, ontem foi-me gentilmente oferecido um exemplar da Standpoint (confesso que, por uma combinação de falta de tempo e de nos dias que correm adquirir cada vez menos jornais e revistas em papel, ainda não tinha comprado a versão offline da revista). Fiquei bastante bem impressionado com o formato e o grafismo - muito texto, boa arrumação e poucas concessões - que julgo combina bem com uma publicação que visa marcar terreno à direita e tem obrigatoriamente de se distinguir do carácter mais light e popular da Spectator.

Estão de parabéns Daniel Johnson e, em especial, a Social Affairs Unit e os vários patrocinadores e mecenas que apostam na revista.

Ainda não vi a Standpoint nas bancas de Lisboa. Vou encomendar meu exemplar. Enquanto isso, fiquem, como eu, bisbilhotando o site da revista. Vai a dica de alguns textos que já li:

American Revolution

GERARD BAKER
July 2008

To the happy congregation in Barack Obama’s church of fervid believers, the presumptive Democratic nominee for US President is like none that has ever come before him. The soaring oratory, delivered at vast rallies that can seem unsettlingly fascistic at times, hails a new dawn in American politics.

“We are the change we have been waiting for!” he cries. To which the multitudes respond repeatedly with idolatrous passion, if not much of an ear for grammar: “Yes We Can!”

Outro:

How Kosovo Created its Own Liberal Islam

MICHAEL J. TOTTEN FROM PRISTINA
July 2008

On February 17, 2008, Kosovo declared independence from Serbia. Some are concerned about what NATO, the United Nations, and the European Union have nurtured there since the military and humanitarian intervention in 1999. James Jatras, a U.S.-based advocate for the Serbian Orthodox Community, put it bluntly last year when he said Kosovo was a “a beachhead into the rest of Europe” for “radical Muslims” and “terrorist elements.” It’s an assertion without evidence. “We’ve been here for so long,” said United States Army Sergeant Zachary Gore in Eastern Kosovo, “and not seen any evidence of it, that we’ve reached the assumption that it is not a viable threat.”

E mais outro:

Reclaiming the Intellectual Life for Posterity

ALAIN DE BOTTON
July 2008

If you went to any university in the country and said that you had come to study “how to live”, you would be politely shown the door – if not the way to an asylum. Universities see it as their job to train you either in a specific career (law, medicine) or to give you a grounding in “the humanities” – but for no identifiable reason, beyond the vague and unexamined notion that three years studying the classics or reading Middlemarch may be a good idea.

The contemporary university is an uncomfortable amalgamation of ambitions once held by a variety of educational institutions. It owes debts to the philosophical schools of Ancient Greece and Rome, to the monasteries of the Middle Ages, to the theological colleges of Paris, Padua and Bologna and to the research laboratories of early modern science. One of the legacies of this heterogenous background is that academics in the humanities have been forced to disguise both from themselves and their students why their subjects really matter – for the sake of attracting money and prestige in a world obsessed by the achievements of science and unable to find a sensible way of assessing the value of a novel or a history book.

E para encerrar:

Democrats v Autocrats

PAUL WOLFOWITZ
July 2008

Robert Kagan’s latest book is a short but powerfully written argument about the return of great power conflict and the danger of believing that history is moving towards a world of liberal democracies living at peace with one another. The prospect of “a new era of international convergence” has faded. “History has returned,” he announces, and — however embattled the democracies may be — they “must come together to shape it, or others will shape it for them”.

Kagan somewhat overstates his case when he suggests that great power competition has been on the increase in recent years and that a 19th-century diplomat would instantly recognise the “elaborate dances and shifting partnerships” of today’s great power competition. Great power competition did not disappear with the end of the Soviet Union, but it is not clear that it is getting worse in recent years.

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Garschagen em Bruxelas para visitar a OTAN

Caros,

hoje, domingo, viajo para Bruxelas. Passo o dia conhecendo a cidade. Amanhã, segunda, vou visitar a sede da OTAN numa excursão do mestrado de Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de Lisboa, onde estudo.

O blogue fica sem atualização até terça, quando já estarei de volta. Não me abandonem, ok? Portem-se bem.

PS: Não, realmente não vou provar as várias e deliciosas cervejas belgas.

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Até que enfim, né?

Florença quer revogar ordem de exílio de Dante

Mark Duff
De Milão

A cidade italiana de Florença deu o primeiro passo para revogar uma ordem de exílio imposta sobre o poeta renascentista italiano Dante Alighieri no século 14.

Sete séculos após ter condenado Dante a uma vida de exílio, sob pena de morte caso a ordem fosse desobedecida, a cidade resolveu voltar atrás.

O conselho municipal florentino aprovou uma moção pedindo que o autor da Divina Comédia seja reabilitado pelo prefeito da cidade em uma cerimônia pública.

Segundo a proposta, um dos descendentes do escritor seria presenteado com a honraria mais alta que a cidade pode conceder.

A cerimônia incluiria uma revogação formal da lei que enviou Dante ao exílio em 1302, por ele ter apoiado a facção política “errada”.

Mas nem todos concordam com a idéia de devolver o poeta à sua cidade natal.

Críticos argumentam que revogar postumamente o exílio de Dante Alighieri é um golpe publicitário - e ignora a importância da experiência (ser exilado) para a poesia do escritor, especialmente para o último volume da Divina Comédia.

Paraíso, terceiro e último volume da obra, foi concluído pouco antes da morte de Dante, em 1321.

O poeta, que durante todo o exílio sonhou com o retorno à terra natal, morreu e foi enterrado na cidade italiana de Ravena, onde sua tumba é hoje uma grande atração turística.

Florença, por sua vez, tem de se contentar com uma tumba vazia, instalada em uma de suas maiores igrejas, construída muito depois da morte do poeta.

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