Archive for the 'Literatura' Category

Um breve comentário de Dorothy Parker

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by Dorothy Parker (1893-1967)

Oh, life is a glorious cycle of song,
A medley of extemporanea;
And love is a thing that can never go wrong;
And I am Marie of Roumania.

PS: Marie of Roumania: Marie Alexandra Victoria (1875-1938), born in Kent, England, the daughter of Alfred, Duke of Edinburgh and the former Grand Duchess Marie Alexandrovna of Russia, and granddaughter of Queen Victoria. She married Ferdinand of Romania in 1893, became Queen of the Romanians in 1914, and served as a nurse in World War I. They had six children. In November 1927 Marie made a triumphant tour of the United States, cut short because she had to return home for her dying husband.

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O senhor Mann na montanha mágica

Quando me perguntam sobre os melhores livros que li um deles salta logo dos lábios: A montanha mágica, de Thomas Mann. Divido com vocês um excerto da página 59 na clássica tradução de John E. Woods:

“Ha ha ha. What a sarcastic man you are, Herr Settembrini.”

“Sarcastic? You mean malicious. Yes, I am a little malicious,” Settembrini said. “My great worry is that I have been condemned to waste my malice on such miserable objects. I hope that you have nothing against malice, my good engineer. In my eyes it is the brightest sword that reason has against the powers of darkness and ugliness. Malice, sir, is the spirit of criticism, and criticism marks the origin of progress and enlightenment.” And all of a sudden he began to speak about Petrarch, whom he called the “Father of Modernity.”

PS: Há tradução brasileira. Consulte o trecho e aproveite. Bom domingo!

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Biografia de Rubem Braga finalista do Jabuti!

Grande notícia! O livro Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho, é finalista do Prêmio Jabuti 2008 na categoria Biografia.

Marco demorou cerca de 12 anos para elaborar o livro. Pesquisou e estudou incansavelmente a vida do Rubem e a história da época. Realizou 267 entrevistas. Esses anos todos não foram dedicados exclusivamente à obra. Marco foi trabalhando na biografia enquanto sobrevivia como jornalista e tradutor freelancer. Quebrou financeiramente umas três vezes para bancar o trabalho do próprio bolso. As eventuais ajudas financeiras que recebeu eram um pequeno paliativo na dolorosa missão que se incumbiu de escrever um livro à altura do biografado e do biógrafo.

Convivi com o Marco durante vários anos e acompanhei a maior parte de seu trabalho. Era um abnegado. Entregou-se à tarefa com uma disposição empolgante. Com ele aprendi que o jornalista devia ler tudo ou, na total impossibilidade, quase tudo o que um entrevistado havia escrito ou sobre o que se escreveu sobre ele. O mesmo procedimento se fosse escrever sobre algum livro. Marco era daqueles sujeitos que tornava melhor quem estava em torno dele. Era exigente de uma maneira extraordinariamente elegante. Era uma exigência exercida não por palavras, mas com seu próprio exemplo de empenho e dedicação.

Quando Marco falava sobre os muitos livros que havia lido para entrevistar alguma pessoa que seria fonte para a biografia era impossível sequer reagir de forma preguiçosamente humana: “era mesmo necessário ler isso tudo?” Porque antes dessa dúvida surgr ele ia contando que só conseguiu formular uma determinada e importante pergunta porque passou a conhecer bem o entrevistado. E havia algo, talvez, ainda maior: com o conhecimento acumulado Marco conseguia estabelecer uma relação tão íntima com o entrevistado que não havia questões sem respostas. Independente da importância da sua fonte de ocasião, ele conversava de igual para igual sem nunca passar uma imagem de soberba. Era um grande conversador. Só pelo que conversamos e bebemos no meu apartamento no Rio podíamos, perfeitamente, sermos patrocinados pelo J&B.

Minha impressão era de que ele sempre soube que faria um grande livro mesmo quando a obra ainda era um grande rascunho que passava pelas mãos de alguns poucos e sortudos amigos, cuja opinião ele respeitava com uma sobriedade incomum (e não me refiro especificamente a escritores).

Marco morreu em junho do ano passado sem ver publicada a biografia, entregue semanas antes à editora Globo. O grande livro que deixou, muito menor do que seu legado pessoal, recebe uma justa homenagem ao figurar entre os finalistas. Mas mesmo que a obra seja premiada, não vai levar, como, aliás, aconteceu no ano passado com o livro A imitação do amanhecer, do poeta Bruno Tolentino. O regulamento diz o seguinte:

7. A classificação final poderá ser alterada caso um dos vencedores seja falecido, conforme descrito em IV – DA PREMIAÇÃO, item 10 – ou se a obra sofrer algum tipo de impugnação julgada procedente pela Comissão do Prêmio.

IV – DA PREMIAÇÃO

10. Obras inéditas de autores falecidos, classificadas pelo júri entre os 3 primeiros lugares, serão transferidas para a seção Homenagem Póstuma da mesma categoria em que tenham sido inscritas, sendo premiadas apenas com o Troféu Jabuti, não concorrendo ao prêmio em dinheiro nem ao Livro do Ano. O lugar deixado vago pela transferência de seção será ocupado pela obra subseqüente na classificação geral da categoria.

Daqui de Lisboa, a torcida por um reconhecimento que agracia a obra e honra seu autor.

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O que deve fazer um “aspira” a escritor? Pedir para sair?

O bravo jornal Rascunho, de Curitiba, publica na edição corrente um bem sacado Decálogo ao escritor. Oito escritores (e não sete, como informa o texto de abertura) elaboraram conselhos aos aspirantes. Não deixa de ser sintomático que os conselhos sejam em maior e menor grau um reflexo da literatura que cada um deles faz. Senão, vejamos trechos que selecionei:

Decálogo - Luiz Antonio de Assis Brasil

1. Ler apenas quem escreve melhor do que nós.

3. Ler, ler muito. Escrever, escrever muito. Todos os dias.

4. Escutar os outros sobre nossos próprios textos. Mas esses outros precisam ter duas qualidades complementares: a) competência para análise de textos literários; b) sinceridade. É raríssimo encontrar pessoas com ambas qualidades.

8. Fugir da vida literária; isso só desintegra o fígado e cria inimigos, para além de ser uma colossal perda de tempo.

Decálogo - Ivana Arruda Leite

1. Leia, leia muito. Leia diariamente. Leia o máximo que seu tempo permitir. Devore todo tipo de literatura, exceto a de má qualidade.

8. Faça o possível para cair nas graças de alguém que coloque seu texto nas mãos de quem decide e faça-o interromper seus inúmeros afazeres para ler seu original.

9. Escolha com cuidado a pessoa a quem pedir opinião. Dê preferência a quem goste de literatura, mas que não escreva nem seja do ramo. Ouça com atenção tudo que essa pessoa lhe disser, pois ela será seu leitor no futuro.

Decálogo - Raimundo Carrero

5. Leia muito. Os clássicos, de preferência. Homero, Virgílio, Dante. Mas não esqueça os contemporâneos.

6. Um escritor deve conhecer bem o seu ofício. Estude muito. Estude sempre.

Decálogo - Miguel Sanches Neto

3. Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar.
Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso, você terá que ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que ele fique sempre melhor.

4. Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar.
O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer a sua literatura circular de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

9. Nunca passe recibo às críticas negativas.
Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios falsos. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas. O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas. Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento vendi 100, o gerente da livraria até elogiou - enfim uma vantagem de ter família grande.

Decálogo - Antonio Carlos Secchin

1) Amarás a literatura acima de todas as coisas.

3) Guardarás os fins de semana para escrever tudo aquilo que teu emprego não permite que escrevas nos outros dias.

Decálogo - Michel Laub

1. Tente viver intensamente: é na vida que está a maior parte do material literário.

2. Leia clássicos, crítica, livros técnicos sobre como escrever ficção, mas não deixe de ler o que você realmente gosta, na hora e no ritmo que quiser.

3. Escreva regularmente e deixe os textos descansando. Volte a eles de tempos em tempos e os reescreva. No início, isso é tão importante quanto escrever.

6. Também não leve a sério o que dizem mãe, irmã, namorada (o) ou amigos. O ideal é que seu primeiro leitor seja alguém mais ou menos do ramo, que tenha alguma relação com você, mas não íntima a ponto de influenciar os juízos.

9. Se receber críticas negativas, por mais tentador que seja encher o crítico de porrada, avalie com a isenção possível se ele tem argumentos que podem ajudá-lo a melhorar.

10. Em todas as etapas dessa carreira longa e difícil, mas também rica e divertida, saiba o momento de desprezar conselhos e buscar suas próprias respostas.

Decálogo - Nelson de Oliveira

1. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Os prosadores devem ler bons poemas. Os poetas devem ler boa prosa. Digo isso porque tenho notado que a maioria dos prosadores não aprecia a arte poética, assim como a maioria dos poetas não aprecia a arte da prosa. Isso não é sinal de inteligência. O escritor iniciante também precisa cultivar o gosto pela reflexão teórica. Livros de filosofia, de crítica e de história da literatura precisam freqüentar sua mesa de trabalho.

2. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler o passado e o presente, o cânone e a atualidade. Digo isso porque tenho notado que metade dos escritores iniciantes aprecia somente a literatura contemporânea, enquanto a outra metade aprecia somente os clássicos. Isso não é sinal de inteligência. O passado e o presente precisam estar em perpétuo diálogo.

3. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler os brasileiros e os estrangeiros, os daqui e os de lá. Digo isso porque tenho notado que metade dos escritores iniciantes aprecia somente a literatura brasileira, enquanto a outra metade aprecia somente os estrangeiros. Isso não é sinal de inteligência. Certo, eu confesso: eu pertenço ao primeiro time, esse mandamento vale pra mim. Aprecio muito mais a prosa e a lírica brasileiras do que a prosa e a lírica estrangeiras. Por isso tenho me obrigado, ao menos profissionalmente, a estar sempre em contato com os de lá. Minha tese de doutorado foi sobre a lírica portuguesa contemporânea.

10. Prosadores, evitem as formas consagradas, evitem o conto e o romance realista, inventem sua própria forma, a teoria do efeito único e concentrado (Poe e Tchekov) e a do iceberg (Hemingway e Piglia) pertencem ao passado glorioso. Poetas, evitem as formas clássicas, evitem o verso de medida fixa, inventem sua própria métrica, fujam da rima, o poema regularmente metrificado e rimado pertence ao passado glorioso.

Decálogo - Sonia Coutinho

1. Leia o mais que puder. Leia os clássicos mas, principalmente, procure ler os contemporâneos. E sempre guiado pelo prazer - quando a leitura parecer pura obrigação, esqueça.

3. É útil saber o que os outros escritores pensam sobre seu ofício. Descubra o que eles dizem a respeito em entrevistas e depoimentos. Se possível, converse com muitos deles, mesmo que tenha de vencer uma natural tendência dos literatos para a introversão e o isolamento.

5. É bom, por outro lado, lembrar que temos o direito e, em certas circunstâncias, o dever de parar de escrever. Rilke, em suas Cartas a um jovem poeta, aconselha: “Se você consegue viver sem escrever, não escreva”.

6. Tenha em vista que há dois tipos de motivação para o escritor - a extrínseca e a intrínseca. A primeira, a extrínseca, gira em torno da busca de aceitação e sucesso. A segunda, a intrínseca, diz respeito à necessidade interior de escrever - e é esta que, mesmo diante do eventual insucesso, leva o escritor a continuar. A necessidade intrínseca é mais importante e confere dignidade - apóie-se nela.

Há três conselhos comuns na maioria dos decálogos:

a) os aspirantes a escritor devem ler muito;

b) os aspirantes a escritor devem escrever muito como forma de treino e aperfeiçoamento;

c) os aspirantes a escritor devem conseguir alguém que avalie seu trabalho.

Não questiono e chego ao exagero de concordar com as três proposições. Mas fica a dúvida: será que eles próprios seguem o que recomendam? A única forma impura e débil de verificação é cotejar o(s) livro(s) de cada um deles com as sugestões que elencam. Mas, claro, aquele que tem um livro medíocre pode seguir todas as recomendações que sugeriu e nada resultar. Porque há algo substancial não mencionado: é preciso talento para ser escritor. Algumas lembranças são tão chatas porque óbvias. E se eu fizesse um décalogo? Nem seria decálogo porque só teria uma única proposição:

1) se você não for um idiota saberá logo se tem ou não talento. Daí é o caso de investir na vocação ou desistir da idéia de ser um gênio literário (para mim é um mistério insolúvel a quantidade de gente que carrega na alma a certeza inabalável da própria genialidade!); se for um idiota completo, bem, espero que tenha bons e sinceros amigos.

Dos oito escritores, conheço cinco, dentre os quais destaco somente Michel Laub e Miguel Sanches Neto. Ambos escrevem romances e são atuantes debatedores da literatura. Bom, bom! Quanto aos demais, sou tomado de um desânimo profundo para escrever qualquer coisa sobre.

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Se os escritores não discutem o ofício como podem aprofundar o próprio conhecimento e desenvolver seus trabalhos?

Admiro a abnegação de escritores como Luís Eduardo Matta. Conheci pessoalmente poucos no Brasil que trabalhavam arduamente e não se limitavam a seu ofício primeiro. Há nele uma vocação pedagógica admirável. Não só como escritor, mas como debatedor da literatura.

Uma das diferenças cruciais entre os escritores de hoje e aqueles que exerciam seu ofício até a metade do século passado era uma criativa, estimulante e muitas vezes violenta discussão pública e privada (cartas) sobre a literatura que não vejo hoje. A nota não é saudosista de um tempo que não vivi. O que me interessa é a retomada dessa conversa fundamental sobre o trabalho. Se os escritores não discutem o ofício como podem aprofundar o próprio conhecimento e desenvolver seus trabalhos? Um escritor quando vem a público (falo de Brasil e Portugal) é para escrever uma resenha ou se defender de alguma crítica. Não há mais a conversação, o grande diálogo que civiliza.

Quando o Luís inaugurou o trabalho e o debate sobre literatura popular achei que, finalmente, avançávamos para um novo momento. Mas, infelizmente, pouca gente percebeu a importância da discussão que ele propunha. A maioria limitou-se a encarar o tema na sua face aparente (os livros de literatura popular) e ignorar a parte substantiva da discussão que era, justamente, a necessidade de se haver um padrão médio muito mais elevado para a construção de obras literárias de alto padrão. A matéria que o Prosa&Verso fez na época foi a representação exata da mediocridade não só do caderno, mas a manifestação pública do que se converteu parte da “intelectualidade literária” do Rio. Ignoro se em outro momento da história o Rio esteve tão mal representado nessa área.

Exercito diariamente uma conjectura: se não sou exigente demais e se essa exigência talvez me impeça de dimensionar de forma mais ou menos exata a situação. Entre a conjetura e a posterior refutação sigo exercitando o espírito para não ficar encastelado num mundo ideal sem qualquer pé na realidade. Mas da mesma forma que fico entusiasmado com algumas proposições - como a proposta de elaboração e discussão de uma literatura popular -, a reação pálida e idiota que se seguiu enche meu plexo de desânimo. Mas de forma alguma cultivo um sentimento estéril de achar que tudo é uma tragédia e que não há jeito. Faço das decepções uma vereda para o estímulo de observar tudo com atenção e continuar a exigir que eu melhore, que todos melhorem. A maldição move, a bênção relaxa, eis o lema de Blake que carrego no espírito como uma bússola.

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Machado e Borges? Antonio Fernando Borges já apresentara os dois juntos

Ainda na Folha:

abaixo o modernismo paulista!

O crítico gaúcho Luís Augusto Fischer aproxima Machado e Borges, sobre os quais lança livro, e ataca a vanguarda de Mário e Oswald de Andrade

RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

Rio de Janeiro e Buenos Aires se encontraram em Porto Alegre. A síntese “geográfica” e intelectual não acontece num conto de Jorge Luis Borges, mas em um texto de que o autor argentino é personagem. Acaba de sair “Machado e Borges”, publicado pela gaúcha Arquipélago Editorial. Nele, Luís Augusto Fischer, 50, professor de literatura brasileira na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), traça relações entre os contextos de produção e a forma literária de suas obras. Mas e o modernismo paulista? O ansioso leitor, autor da pergunta, talvez prefira saltar os próximos dois parágrafos, que lhe parecerão inúteis. Borges e Machado de Assis, para Fischer, são grandes e decisivos porque conseguiram, melhor do que qualquer autor ou movimento literário, solucionar sua condição de escritores periféricos, embora herdeiros da tradição européia. Nem recusaram, nem aderiram ao centro, resolvendo de modo “dialético” o problema imposto aos escritores da América. E com seu realismo “desfocado”, encontraram forma para momentos de crise que os dois países atravessavam quando atingiram a maturidade. Nisso Machado, no Brasil, encontrou solução superior à do “modernismo paulista”, que, de acordo com Fischer, seguiu nacionalista nos temas e estritamente vanguardista na forma, recusando e aderindo ao centro, sem encontrar a síntese de que foram capazes Borges e Machado. Na entrevista a seguir, Fischer também questiona a posição central, “excessiva”, que o modernismo ainda ocupa “na definição que se faz da literatura e da cultura brasileira no século 20″.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas cadê os créditos ao escritor Antonio Fernando Borges que já fizera o encontro dos dois escritores no Memorial de Buenos Aires?

Recomendo, ainda, a leitura da palestra de Bruno Tolentino, reproduzida na edição da excelente Dicta&Contradicta (espero amanhã escrever sobre a revista, que recebi e já li e reli), em que ele fala de como o Brasil, mesmo sem a poderosa herança literária que a Argentina ganhara da Espanha, tivera Machado antes de Borges.

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Carne viva é o romance de um desiludido

Sim, Carne viva é o romance de um desiludido. Os personagens são espíritos agonizantes, frívolos, materialistas e obscenos que têm em comum um traço singular de desilusão. Talvez todos sejam um só. O grande personagem de Carne viva, sim, é a desilusão.

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Paulo Francis fazia questão de expressar seu descontentamento presente. Havia em seus textos e no que dizia na TV um sabor de ruína dos tempos, de uma melancolia de incompletude por tudo o que havia vivido quando jovem num Rio de Janeiro estimulante que ele viu se diluir antes de migrar para os Estados Unidos em 1971. A empolgação pela América também foi se esfacelando, apesar do sempre manifestado prazer de morar no centro do mundo e tudo aquilo que estava ao seu alcance.

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Carne viva é a representação literária daquele desalento que Francis expressou na frase “Eu me sinto tecnicamente morto”. E não era só o incômodo, o mal-estar, a indisposição com a sociedade de massas, segundo ele, filistina. Era chegar numa altura da vida e descobrir que a ambição individual não foi acompanhada pelos demais indivíduos. Num homem de grandes expectativas o futuro que se converte num presente de desejos irrealizados provoca uma desilusão monumental. Esse sentimento era mais um paradoxo na vida do homem contraditório, do ateu que, embora amasse a vida, não via saídas senão a morte em vida. Francis converteu-se num cadáver insepulto que fazia troça de si mesmo. Morrer não seria uma catarse, mas a extinção antecipada da entropia.

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Os ricos, frívolos e revolucionários personagens de Carne viva são a dimensão caricatural de como Francis via e processava em seu espírito a classe alta com a qual conviveu nos tempos do Rio de Janeiro. Eis um dos grandes problemas literários do romance: é fácil identificar nas pessoas reais os traços caricatos e vê-los dessa forma em suas vidinhas; na literatura, a caricatura só pode ser usada como efeito, não como substância do personagem. Se é uma delícia o ritmo do romance; um prazer a leitura de muitos parágrafos; uma satisfação identificar nas frases o histrionismo da verve jornalística; Francis naufragou no esforço de converter em literatura os ricos cariocas e aquela geração que transformou o maio de 1968 em França no veneno que corrompeu jovens e senis com a estupidez da revolução rumo ao nada.

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O escritor deve fazer uma escolha substantiva ao elaborar sua história: os personagens são ou não verossímeis. Combinar personagens verossimilhantes com personagens implausíveis só se transforma em literatura de boa qualidade na mão de gênios. Na mão de escritores medianos tal recurso manifesta-se como vício. Francis junta às vezes numa mesma cena personagens perfeitamente plausíveis, que dialogam deliciosamente, com outros inverossímeis, que falam como se fosse o Francis comentarista cultural da coluna Diário da Corte. O deslocamento de um dos dois é percebido imediatamente até por leitores não-treinados.

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A estrutura de Carne viva impressionou-me; eu que estava acostumado e acossado com a epilepsia literária dos Cabeças (Cabeça de papel e Cabeça de negro). Há uma coerência no vai-e-vem da história, na passagem e volta do tempo, que não imaginei que Francis usaria como recurso depois das experiências dos dois romances anteriores. Achei que, como Joyce, Francis seria ainda mais extremo ao testar uma certa deformidade radical de estilo e forma. As resenhas e matérias sobre o livro não informaram se essa estrutura foi uma escolha ou uma concessão aos que leram os manuscritos e sugeriram alterações. De um jeito ou de outro o que importa é o resultado. E, nesse aspecto, Francis foi bem-sucedido.

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A história se desenvolve entre Brasil e França, Rio e Paris. É coerente que Francis tenha optado por rechear o romance com expressões e frases no idioma de Villon, o que também provoca um saudável desconcerto para os leitores de suas colunas manifestamente anglófilas.

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Um conselho para quem ainda for ler o livro: ignorem, rasguem ou joguem fora o último capítulo “Guerra e paz” (referência óbvia ao personagem Guerra e ao título do livro de Tolstoi). Para usar uma frase do Francis sobre o livro Cenas de um casamento, de Ingmar Bergman: o final é xaroposo, parece último capítulo de novela da Globo. É como se Francis estivesse cansado do livro e quisesse livrar-se de uma vez da feitura da obra. É um final imprevisível no mal sentido: era inconcebível imaginar Francis tão descuidado, monótono e banal ao encerrar o romance.

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Gostei de ler o livro. Até para desgostar. Mas, tal qual seus personagens e autor, fui inoculado no fim da leitura com o veneno da desilusão. Não pela vida, pelas coisas, pelas pessoas, mas pelo jornalista que, tendo falhado em vida nas tentativas de ser um grande escritor, deixou uma obra que, lançada à sua revelia e sem o devido apuro, revela que poderia ter feito um bom romance, mas não o fez. Assim como as palavras dos mortos se modificam nas entranhas dos vivos (Auden), a publicação da obra de um escritor morto modifica a visão que temos de seu talento. Para o bem e para o mal.

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Paulo Francis aqui, amanhã, neste blogue!

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Amanhã publico aqui o texto que estou escrevendo agora sobre o romance Carne Viva do Paulo Francis. Voltem aqui amanhã, ok?

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Escrever não é fácil e nada prazeroso

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Tentei escrever o prometido post sobre o romance Carne Viva do Paulo Francis. Não saiu nada que prestasse. Em respeito a vocês e ao Francis apaguei o que havia escrito. Não achei o tom, as palavras exatas, o feeling do que senti com a leitura e o que achei do livro. Espero que amanhã o cérebro contribua para disfarçar minha falta de talento e aplaque o desprazer que sinto ao escrever (qualquer coisa). Sim, meus caros, escrever para mim não é fácil e nada prazeroso. Portem-se bem nesta noite de sexta-feira.

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Adiamento

“E o texto sobre o romance do Francis, Garschagen?” Pois é, enrolei e nada. Agora, só amanhã. Mas, enquanto isso, leiam o texto aí de cima e o outro aí de baixo.

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