Archive for the 'Imprensa' Category

Garschagen no Valor Econômico de hoje

_450px_eu-fim-de-semana-1-16-05-08.jpg

Saiu na edição de hoje do caderno Eu & Fim de Semana, do jornal Valor Econômico, texto meu: Liberdade para o desenvolvimento (assinante). O jornal está nas bancas.

No comments

Brasileiros: vícios ou virtudes?

Em Portugal não há “o” brasileiro. Há vários tipos de brasileiros. Como, aliás, no Brasil. O Brasil é um só país para efeitos de soberania. Na práctica, cada região, ou, dependendo da região, cada estado, é um país. Bahia e Espírito Santo, por exemplo, dois estados que fazem fronteira, têm cultura e maneiras de falar completamente diferentes. Mas, divago. Conheci, em Lisboa, vários brasileiros, cada qual com seus vícios e virtudes. E o vício, tal como a virtude, cresce em passos pequenos, já disse o dramaturgo francês Jean Racine, no que assino embaixo. Ainda há, nesses intrépidos compatriotas, em quase igual medida, uma demasiada esperança e um sem fim capital de queixas.

Quais seus vícios e virtudes? Antes de fazer esse esboço, divido os brasileiros em Portugal em quatro categorias: 1) trabalhador braçal que veio em busca de um padrão de vida melhor; 2) o estudante universitário ou de pós-graduação; 3) o estudante que veio, não concluiu o curso e aqui ficou trabalhando em subempregos; 4) o casal de brasileiros que veio estudar, conseguiu trabalho e preferiu viver numa capital segura a voltar para as grandes e violentas capitais brasileiras. Neste artigo falarei um pouco sobre o Tipo 1.

O trabalhador braçal imigrante é, regra geral, um ignorante consciente ou não, com baixo grau de escolaridade e uma indiferença brutal em relação a tudo o que não seja amealhar euros, pagar as contas, mandar dinheiro para familiares no Brasil e beber no fim de semana embalados por músicas brasileiras execráveis (sertaneja pop, pagode, samba et caterva).

Esse tipo é reconhecido a quilômetros de distância. Veste-se mal, deselegante nos gestos e não muito dado ao silêncio. Se descobre outro brasileiro, socorro!, quer logo abraçar, ficar íntimo. É capaz de virar amigo de infância em poucos minutos.

Outro de seu vício é decorrência de sua vontade em transformar sua morada em sucursal do Brasil. Por qual razão? Porque esse brasileiro médio nunca sairia do país se lá pudesse viver bem com os rendimentos de seu trabalho. O brasileiro é, antes de tudo, um provinciano. Por isso que, em outro país, procura a comida brasileira, a música brasileira e conserva as idiossincrasias e falta de educação brasileiras.

Para fazer do país de terceiros o seu próprio país tenta trazer todos os seus que, no Brasil, estão numa situação financeira nada boa. Primeiro vem o cônjuge; depois, os irmãos; depois, os tios; depois, os vizinhos; depois, as amantes; depois, os pais — e há quem traga animais de estimação (Já vi rafeiros aqui com passaporte brasileiro). Há sítios em Lisboa em que português é coisa rara, como em Arroios, onde brasileiros e africanos proliferam-se sem rédeas.

Virtudes? Esse tipo de brasileiro é de boa índole. Trabalha como mouro, a qualquer dia, hora e local, sem reclamar. Se houver trabalho e remuneração, estará lá, regiamente, segundo o combinado. Outra de suas virtudes é a disposição em ajudar. Se precisar dele, pode contar. Com sorriso largo no rosto, divide a própria refeição com quem precisa.

Além do mais, esse brasileiro, como nenhum outro, carrega na alma um patriotismo que o faz pensar e falar sobre o Brasil sempre com grande saudade e certo orgulho. O orgulho seria completo se não tivesse sido obrigado a sair de lá. Mas é importante notar que, a exemplo do que disse o crítico e poeta suíço Henri-Frédéric Amiel, “há dois graus no orgulho: um, em que nos aprovamos a nós próprios, o outro, em que não podemos aceitar-nos. Este provavelmente o mais requintado”. Acho que a alma desse tipo de brasileiro transborda, em maior ou menor grau, uma auto-aprovação combinada com uma impossibilidade inconsciente de auto-aceitação.

Em conversas que tive com brasileiros do Tipo 1 eles desfiaram um capital de queixas. O primeiro é o preconceito. Dizem ser maltratados pelos portugueses. Contaram-me casos nos quais patrícios recusaram-se a ser atendidos por funcionários brasileiros. E de proprietários que, ou se recusaram a alugar apartamentos, ou que, para alugá-los a brasileiros, tiveram que convencer os outros moradores.

Morei quase três meses na casa de uma amiga brasileira que passou por isso. E nos primeiros meses recebia toda semana as visitas do casal proprietário. Eles queriam constatar que, afinal, minha amiga e a irmã não eram as selvagens que imaginavam. Ao final de cada visita saíam com aquela cara aliviada como que a dizer: “tão educados! Nem parecem brasileiros…”. Nossa fama aqui não é nada boa.

PS: Texto publicado na edição de fevereiro da revista portuguesa Atlântico.

4 comments

Leituras de domingo

Sim, peão de obra trabalha aos domingos. Antes de iniciar a labuta e nos breves intervalos para o café (que não bebo) e o cigarro (que não fumo), fiz uma ronda de leituras pela internet. Divido com vocês. Enjoy it:

A edição deste mês da Prospect está ótima:

Christopher Hitchens

From ‘68 agitator to staunch supporter of George W Bush’s Iraq war—what explains Hitchens’s political journey? I spent three days with him in Washington trying to find out

Alexander Linklater

For most of his 40-year career, Christopher Hitchens’s notoriety has been confined to highbrow journalistic, literary and political circles. In the last 15 years, he has been familiar to readers of Vanity Fair and the Atlantic, and to viewers of the American current affairs shows that invite him on to say outrageous things in stylish phrases. His aptitude for the iconoclastic flourish—describing Princess Diana and Mother Teresa at their deaths, for example, as, respectively, “a simpering Bambi narcissist and a thieving fanatical Albanian dwarf”—sustained his currency as an intellectual shock troop of the left. Then, with his support for the invasions of Afghanistan and Iraq, and for George W Bush’s re-election in 2004, the left itself became a target of his polemics. But whichever side he took, he continued to file what were essentially minority reports to a specialist audience. Only God was able to promote him beyond such factional interests by providing the subject of a bestseller. While Hitchens has authored 16 books, including works on Henry Kissinger, Bill Clinton, the Elgin marbles, George Orwell, Thomas Paine and Thomas Jefferson, his assault on religion in God is not Great was the first occasion for which a publisher had arranged a serious US book tour.

1968: liberty or its illusion?

Anthony Giddens, Joe Boyd, Roger Scruton, Jean Seaton, Dominic Sandbrook & others

A special symposium on the legacy of 1968, expanded for our online edition. Many 68ers now feel ambivalent about their heritage. Was too much of value discarded? Were the hippies just carriers of a new strain of capitalism? Prospect writers give their views.

Is democracy winning?

Robert Kagan vs robert cooper
Is the world reverting to a struggle between great powers? Or is the democratising spirit of 1989 still alive?

tls_banner2.gif

Cranach’s Golden Age

A brilliant intelligence lies behind Cranach’s rhetoric of simplicity

Timothy Hyman

Cranach, at the Royal Academy of Arts, opens with a bang – or, more precisely, a thunderbolt: the miraculous shattering of St Catherine’s wheel in a seldom seen early masterpiece from the Raday Library of the Hungarian Reformed Church in Budapest. The jagged fire-from-heaven recalls Dürer’s Apocalypse woodcuts, but re-created with a viscous painterliness. Close-to, the figures in the overturned crowd are, puzzlingly, speckled with little grey patches, which at first sight seem to be surface damage, until they resolve themselves as grubby flakes – fallout from the explosion – scattered by the artist’s brush. In the foreground time zone, flake-free, the décolleté princess is about to be beheaded by an ogre-executioner, decked out in gorgeous skintight motley. Beyond, a cloud-capped city on a rock rises from the surrounding forest, the landscape that will reappear again and again throughout Lucas Cranach’s art.

Charlemagne
Europe’s Marxist dilemma

It is easier to influence a country before than after it joins the club

GROUCHO MARX once said that he did not care to belong to a club that accepted people like him as members. The European Union has a slightly different problem. Lots of countries want to get in, even though many of them, and indeed some that have already made it, are not fit to join. They seem to hope that EU membership will work miracles of its own, curing such ills as entrenched corruption, organised crime, judicial ineffectiveness and economic backwardness—all without their having to make painful reforms at home.

Consider Bulgaria, which joined the EU (with Romania) on January 1st 2007. The interior minister, Rumen Petkov, has just been forced to resign, after the 120th in a string of unsolved contract killings; he has admitted being in contact with suspected crime bosses. Last year the Romanian government dumped its bravely reforming justice minister, Monica Macovei, on the dubious argument that she was not a team player. Both countries do badly in the annual corruption rankings put out by Transparency International, a Berlin-based lobby group.

Javier Marías: “Sólo se puede contar cabalmente lo que nunca ha sucedido”

El novelista español realiza su discurso de ingreso en la Real Academia, donde ocupará el sillón ‘R’

Al escritor Javier Marías le gustan las paradojas y la que hoy desarrolló en su discurso de ingreso en la Real Academia Española perdurará en la memoria de los asistentes: pretender “narrar hechos reales es imposible” porque “sólo se puede contar cabalmente lo que nunca ha sucedido, lo inventado e imaginado”.

Marías lleva décadas entusiasmando a lectores de medio mundo con sus novelas, y era lógico que en su ingreso hiciera una encendida defensa de su oficio, dado que, a diferencia de “los historiadores, cronistas o biógrafos”, el novelista trabaja con plena libertad y la ficción no admite “correcciones ni añadidos ni supresiones ni desmentidos ni enmiendas”.

Por hoje chega, né? Bom domingo, meus caros!

1 comment

1ano_450px_c.JPG

4 comments

Que venha o Arrastão!

Ontem à tarde o jornalista Reinaldo Azevedo publicou o seguinte post:

Efeito Arrastão

É, meus caros, Janaina Leite não está deixando pedra sobre pedra. O que ela está trazendo à luz, antes de tudo, é um método. E certas coisas não resistem à luz.
Por Reinaldo Azevedo | 17:42 | comentários (43)

Reinaldo vem demonstrando, não só no específico “Caso Nassif”, como o método de transformar vítima em algoz é fartamente usado para desqualificar a vítima.

Li toda aquela maçaroca escrita pelo Nassif sob o apodo “Dossiê Veja” e depois conheci o blogue da jornalista Janaína Leite, espaço que me chamou a atenção antes mesmo de ela ser obrigada a se defender para provar que não estava envolvida em crime algum, numa clara inversão do ônus da prova garantida na esfera judicial pelo direito brasileiro.

Ontem recebi na caixa de comentários a gentil mensagem da jornalista, que não conheço pessoalmente mas já virei fã pela coragem e disposição:

Janaína Abril 24th, 2008 12:15 am Editar

Bruno,

seu texto é uma grata surpresa. Agradeço muito e convido você a, sempre que quiser, dar um pulo no Arrastão. Concordando ou não comigo, será sempre alguém bem-vindo.

Abs,
Janaína

Janaína, já sou visitante diário do seu blogue. Sua elegância e exercício do jornalismo têm sido impecáveis. Pode contar comigo pro que der e vier.

Ontem à noite a jornalista teve que aturar mais uma. Ela conta a história no post Luís Demarco: Janaína terá de provar o que diz em juízo.

Só não entendi uma coisa na resposta do sr. Demarco e talvez o leitor amigo possa trazer a luz a este frívolo e desatento blogueiro. Se o sr. Demarco diz que:

5) A senhora Janaína Leite não apresentará no seu blog qualquer email meu para ela a respeito de Rodrigo Andrade, simplesmente porque esse email não existe.

6) A senhora Janaína Leite será convocada para demonstrar em juízo a autenticidade dos emails que publicou, atribuídos a mim, alguns dos quais ela nem aparece como parte.

como pode encerrar sua carta dizendo?:

7) Ainda que autêntica, a publicação de qualquer correspondência privada, senão crime, certamente é uma descortesia pessoal e uma clara demonstração da pior prática do jornalismo, com a quebra do sigilo e da confiança de suas fontes jornalísticas.”

Se não há e-mail por que se preocupar com a publicação de uma mensagem “ainda que autêntica” (Isso me faz lembrar aquelas pessoas da universidade que falam coisas como “enquanto pessoa humana”)? Qual a estratégia? Demarco sabe que se a jornalista divulgar o e-mail no blogue não incorrerá em crime. Por qual razão, Garschagen? Veja o que diz o Código Penal:

SEÇÃO IV
DOS CRIMES CONTRA A INVIOLABILIDADE DOS SEGREDOS

Divulgação de segredo

Art. 153 - Divulgar alguém, sem justa causa, conteúdo de documento particular ou de correspondência confidencial, de que é destinatário ou detentor, e cuja divulgação possa produzir dano a outrem:

Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.

Se na carta Demarco desafia a jornalista a divulgar o e-mail e assim provar que diz a verdade há a justa causa exigida pela lei. Por saber que não há crime é que ele escreve “a publicação de qualquer correspondência privada, senão crime”. Pois bem, não havendo o crime a palavra só está ali citada para provocar algum tipo de efeito constrangedor. E se não há crime, o que fazer? Apelar, claro: “a publicação de qualquer correspondência privada, senão crime, certamente é uma descortesia pessoal e uma clara demonstração da pior prática do jornalismo”.

Tem gente que acha que ao dizer a um jornalista que algo demonstra “a pior prática do jornalismo” o profissional, mesmo tendo todas as provas para demonstrar a veracidade do que escreveu, ficará sensibilizado ou temeroso de parecer “o pior praticante do jornalismo”.

No mais, sempre acho excêntrico alguém dizer ou escrever “descortesia pessoal”. Acho bonito, juro, dá um toque de elegância à coisa. Mas embora dê um toque de elegância não tem o poder para transformar mentira em verdade.

3 comments

BLOGUE FAZ UM ANO!!!!!

1ano_450px_c.JPG

Este mês o blogue está completando um ano! Aceito congratulações, uísque, acepipes e dinheiro em moeda corrente.

Antes de vir para esta casa de campo eu tinha uma cobertura no Wunderblogs que atendia pelo nome de Vertigem.

Decidi inaugurar o novo espaço por uma razão simples: o que eu fazia no Vertigem era diferente do que eu queria começar a fazer. E fazer algo diferente com um blogue que já tinha uma certa identidade iria confundir um pouco as coisas. Além do mais, achava estranho quando alguém me apresentava a outro como o “Bruno Garschagen do Vertigem”. Agora posso ser apresentado só como Bruno Garschagen, que é, de fato, meu nome, desde o batismo.

Atualizei este blogue diariamente de abril a junho de 2007, mês em que decidi vir para Lisboa fazer o mestrado em ciência política. De lá para cá as postagens ficaram irregulares pela necessidade de me dedicar aos estudos e trabalhos. Demorou para conseguir me organizar, mas agora acho que vai.

Este mês que já se acaba logo comemorarei um ano de blogue. Não haverá muitas festas, mas o uísque é sempre garantido e agora também ofereço vinho para as visitas.

Você que me lê, desde o início ou não, agradeço imensamente a leitura. Espero continuar contando com a sua boa vontade.

Abraços do Garschagen.

PS: Com a mudança de servidor os meus links sumiram e não tive saco de colocá-los um por um. Mas vou fazê-lo, vou fazê-lo.

4 comments

Veja, Janaína Leite, Luís Nassif e teses revolucionárias

nassif.jpg

Semana passada troquei e-mails com um jovem estudante de jornalismo do interior do Brasil que eu havia conhecido pessoalmente antes de vir para Lisboa. Depois de trocas amistosas de e-mail, diante de uma crítica que fiz a uma entrevista feita por ele com um professor de jornalismo da UnB, perguntas e respostas recheadas daquelas críticas bobas e clichês à grande imprensa, além de citações de Paulo Henrique Amorim e Luís Nassif como figuras virtuosas do jornalismo pátrio, ele ficou aborrecido. Minha paciência com a burrice só não é maior do que a que tenho com a idiotice.

Entre outra qualificação que só cabe num e-mail, escrevi, com alma cândida, que os dois não podiam ser tomados como exemplo profissional. Ele replicou dizendo que a credibilidade das informações veiculadas por PHA e Nassif não seriam afetadas por possíveis interesses que eles pudessem ter em qualquer assunto. Encerrei a conversa e o contato com o moço dizendo que se ele acreditava mesmo nisso eu não teria muito o que dizer. Repito: minha paciência com a burrice só não é maior do que a que tenho com a idiotice.

Por que essa conversa agora, Garschagen? Acompanho com interesse um tanto mórbido a longa jornada ladeira abaixo dessas duas entidades, no sentido macumbês do termo, do jornalismo das Terras de Vera Cruz.

Antes, uma explicação: como todos os interioranos incautos aspirantes a jornalistas, sim, um dia eu achei que, entre alguns outros, Nassif, então importante colunista da Folha de S. Paulo, era uma referência jornalística. Bastou pouco tempo morando no Rio e conhecendo redações e outros profissionais do Rio e de São Paulo para que ele e outras “referências” jornalísticas caíssem no chão como frutas podres.

Voltando à vaca fria, desde o início do governo Lula e as colunas do Diogo Mainardi expondo os revolucionários do jornalismo pátrio e seus métodos o panorama começou a ser esclarecido. Dois jornalistas apontados por Diogo como Lulistas, por exemplo, estão agora servindo o governo que diziam não servir, notadamente Franklin Martins e Tereza Cruvinel. O trabalho do Reinaldo Azevedo também têm sido notável.

Além dos jornalistas revolucionários (e repare que não uso “de esquerda”) que agem por questões ideológicas há os que agem segundo outros interesses, mas se valem do mesmo método. E uso aqui os conceitos de revolução, mente e mentalidade revolucionárias utilizados pelo filósofo Olavo de Carvalho:

1) Revolução: a ação, meios e instrumentos utilizados com o fim de remodelar integralmente a sociedade, a cultura e a espécie humana visando um futuro perfeito;

2) Mente revolucionária: manifesta-se nos autoproclamados conhecedores dos caminhos sociais, culturais, políticos e históricos que devem ser explorados e percorridos para se atingir o estado de perfeição;

3) Mentalidade revolucionária: a certeza de um indivíduo ou grupo de que é o agente escolhido para construir um futuro perfeito, ou “o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remodelar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política”.

Janaína Leite algoz de Luís Nassif? Tá de brincadeira!

Vocês devem estar acompanhando a excelente cobertura que a jornalista Janaína Leite vem fazendo em seu blogue Arrastão (http://arrastao.apostos.com) do Caso das Teles que culminou no que vou chamar Dossiê Nassif.

Para não ser redundante e cair num pleonasmo vicioso retórico ao apontar as incongruências e falta de sustentação feitas por Nassif à jornalista, indico a leitura do texto de Gravataí Merengue. Ele apontou a fragilidade das acusações de Nassif contra Janaína, fragilidades essas que já estavam evidentes também no “Dossiê Veja” (de que trato numa outra ocasião). Só discordo do título que Gravataí deu ao próprio texto: JANAÍNA LEITE: O ASSASSINATO DE UMA REPUTAÇÃO POR LUÍS NASSIF. Não houve assassinato, mas uma tentativa, graças ao bom Deus, impedida pela reação de blogueiros como Gravataí. Entre a tentativa e a consumação vai uma diferença substancial que achei por bem destacar.

A inconsistência dos ataques de Nassif, seja contra a Veja seja contra Janaína Leite, segue um método de tentar aplicar uma a inversão moral com um giro de linguagem. Nassif atacou a jornalista dizendo que ela fazia parte do esquema jornalístico para beneficiar Daniel Dantas. Janaína vem se defendendo com provas e depoimentos. Aqui, um adendo: pela legislação brasileira o ônus da prova cabe a quem acusa. Neste caso, como em muitos outros, a vítima precisa provar que não é o bandido da história. Voltando à vaca fria, diante da defesa irretocável do ponto de vista do argumento e ancorada em provas documentais, Nassif esperneou. Assim como esperneou quando Janaína Leite revelou o contrato dele com o BNDES, cuja história nem vou entrar aqui.

Pelo que coletei na blogosfera, o telefonema para a vereadora Soninha, destilando acusações contra Janaína e cobrando uma atitude contra o texto do Gravataí Merengue, então chefe de gabinete da vereadora, é parte do método de pressionar pela calúnia. Envolver a vereadora faz parte do processo de alimentar e disseminar a confusão. Quanto maior for a balbúrdia e a incompreensão do que está sendo mais eficaz o resultado. O próprio Gravataí foi vítima da história ao ser colocado, não serviço de suas idéias, mas de sua ex-chefe, acusação iniciada por Nassif e manifestada pela sua claque no blogue Imprensa Marrom.

Mas ali se revelava também o desespero de quem vê uma estratégia ruir. Nassif, embora tenha um blogue há um tempo, tem a cabeça do antigo jornalista que acredita que os próprios textos se sustentam pela fama de quem escreve. Na internet isso não existe. Nassif parecia não contar com a reação contrária. Foi assim com a reação ao seu “Dossiê Veja”; está sendo assim com a reação às maledicências que lançou contra Janaína Leite.

E aqui aprofundo a constatação do método de uso da inversão moral com um giro de linguagem usado por Nassif na sua estratégia de náufrago. Nassif está a todo instante se colocando no papel de vítima. Ele acusa a Veja; ele acusa jornalista. Diante da reação natural de quem se sente atacado, o que ele faz? Apresenta-se, no que diz respeito a revista, como o Davi que enfrenta o Golias

A tese contra a revista pode até frutificar porque há tarados em todos os cantos em busca de teorias da conspiração. Contra a jornalista, que nem mais é funcionária da Folha de S. Paulo, ou seja, não tem uma empresa por trás para alimentar esse tipo de maluquice, ficou as acusações de um empresário que ainda se pretende jornalista contra uma jornalista que precisa se defender dos insultos apresentando as provas de sua eficiência profissional. Janaína Leite, pelas mãos de Nassif, deixa de ser a vítima para ser sua algoz. A mente revolucionária trabalha atribuindo à vítima o uso da violência. A mente revolucionária trabalha invertendo logicamente a relação entre sujeito e objeto e fazendo malabarismos retóricos, mais ou menos eficientes, mas sempre falaciosos, para culpar as vítimas e com isso desviar a atenção de seus próprios vícios. As culpas de suas ações são sempre dos outros. É por isso que o humanista Himmler, numa história lembrada por Olavo de Carvalho, chorava por ser obrigado, isso mesmo, obrigado, a matar os judeus. Nassif deve chorar ao ter que atacar Janaína Leite.

Comparando o que fez Nassif nos ataques à Veja e à jornalista, e uma vez revelada sua estratégia, é possível, a partir do método, verificar a inconsistência e falsidade de suas conclusões. Se você não se interessa por lógica, temos um segundo quadro: no caso de Janaína, as provas apresentadas por ela não deixam dúvidas sobre quem está com a verdade. No caso da Veja, que optou por se defender na esfera judicial, aqueles que ainda acham a tese de Nassif verossímil, terá que aguardar um pouco mais.

Embora com certo receio de cair numa citação clichê, lembro que Maquiavel explicou que um príncipe poderia recorrer à hipocrisia e seria bem sucedido porque o homem médio vê tudo de forma acrítica e a majestade do cargo lhe confere aparência de virtuoso. Nassif acha que seu passado como colunista da Folha e o apoio de sua claque de comentaristas conferem-no o direito de agir como age.

Como leitor da revista, gostaria muito de saber se uma mísera das várias acusações contra a direção e a postura editorial da Veja tem fundamento. Não há nada no “Dossiê Veja” que demonstre isso. Mas, como bom cético, aceito provas em contrário. E me penitenciarei aqui sem qualquer pudor. A mesma falta de pudor que podem me levar a elogiar quem me convença de algo contrário ao que penso.

Reconhecer os métodos revolucionários de Nassif ou de qualquer outro nos torna mais críticos e menos ingênuos. Nassif não me interessa enquanto indivíduo, mas como parte das engrenagens de um movimento que deve ser combatido.

Nassif agoniza nas teias cibernéticas. Vamos ver até quando o cadáver insepulto produzirá miasmas e odores.

3 comments

Será o fim da Atlântico?

Comunicado Atlântico

A direcção editorial da revista Atlântico decidiu suspender a sua publicação, depois de ter constatado a impossibilidade de garantir os investimentos em publicidade necessários. Apesar disso, devem todos aqueles que participaram neste projecto estar orgulhosos do que conseguimos fazer: uma revista independente, que se manteve durante três anos, saindo regularmente todos os meses, com uma tiragem e uma circulação que nenhuma revista de ideias tinha antes conseguido em Portugal. E se foi assim, tal deve-se em primeiro lugar a uma equipa de colaboradores dedicados e entusiastas, a quem agradecemos um empenho que nunca falhou. Convictos de que um projecto como o da Atlântico faz cada vez mais sentido, propõe-se a actual direcção editorial prosseguir todos os esforços para relançar a revista. Voltaremos.

A direcção editorial
Rui Ramos
João Marques de Almeida
Paulo Pinto Mascarenhas

Ainda hoje escreverei algo a respeito. Só para adiantar: isso é uma grande merda!

3 comments