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Number One 1948, de Jackson Pollock


Number One 1948, de Jackson Pollock
Eu tinha tudo para não gostar de Jackson Pollock. Mas gosto de sua fase action painting. Gosto muitíssimo. As séries de quadros feitas com essa técnica são profundamente magnéticas. Eu fico paralisado, absorto. É uma queda, muito mais do que um mergulho. Quedem-se por Pollock.
2 commentsRaffaello Sanzio Raphael


O triunfo de Galatea, c.1511, de Raffaello Sanzio Raphael
Hieronymus Bosch


O julgamento final, de Hieronymus Bosch
Sombrio, grave, soturno. Sempre amei Hieronymus Bosch. Com o passar dos anos a sensação aparente de gravidade lúgubre foi sendo lapidada para outros aspectos que exige um mergulho de apreciação. Como mergulhar num quadro? Escolha aquele (ou aqueles) que provoque um prazer estético e, em certa medida, psicológico. Ao longo do tempo, que vai variar de acordo com a dedicação à tarefa, será possível perceber a maravilhosa intimidade criada.
Alguns pintores, como Bosch, exigem um esforço mais intenso. Vale a pena.
Dica para apreciar o quadro que reproduzo aqui: olhe cada ser criado pelo pintor isoladamente. Depois que os tiver escrutinado, com paciência, individualmente, olhe o conjunto, mas forçando o olhar para que todos se destaquem, como se saltassem do quadro. Tendo uma idéia dos indivíduos terás uma compreensão mais aprofundada do conjunto. E assim verás que a aparência antes preponderantemente soturna ganha vivacidade com as nuances da descoberta pessoal.
1 commentCaravaggio e o silêncio dramático da descoberta

A primeira coisa que impressiona no quadro Chamado de São Mateus, de Michelangelo Merisi da Caravaggio, é o efeito da luz do sol que irrompe na sala sem rédeas, como se abrisse repetinamente a janela para descobrir lá dentro Levi (futuro apóstolo Mateus), coletor de impostos, com seus assistentes. Na sua frente Cristo e Pedro, que o identificam com um gesto. Levi, atônito com o jato de luz e o chamado, aponta para si mesmo, perplexo, numa pergunta em forma de gesto. Reparem:

O quadro apresenta o choque de dois mundos, o mundano (de Levi) e o da fé imortal (Cristo e Pedro). A cena tem o caráter imperativo do chamado e projeta um silêncio dramático da surpreendente descoberta. A partir dali Levi se converte em Mateus, que vai deixar de ser homem para virar santo.
O quadro, pintado entre 1599 e 1600, está na Capela Contarelli, na Igreja de San Luigi dei Francesi, em Roma.
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CEIA EM EMMAUS, de Jan Steen (1626–1679)
Jan Steen, pintor nascido em Leiden (Holanda), trabalhou uma imagem muito conhecida sob uma diferente perspectiva. O artista, conhecido pelo gênio pessoal e brilho social, preferiu compor a cena com os viajantes cansados após a longa caminhada seguida do jantar, cujos restos se vê à mesa. Ao contrário dos outros pintores que trabalharam a imagem, Steen faz com que os viajantes não percebam a presença do Espírito. Vejam:

Há um paralelo possível e interessante com os dias atuais: se no quadro a presença de Cristo é ignorada pelo cansaço, há tempos vivemos tempos em que o cansaço com a vida e consigo próprio faz com que o indivíduo ignore o Espírito e ignore a si mesmo no que há de substantivo. O resultado foi a construção de uma ortodoxia secularista, na feliz concepção de Robert P. George, autor de Choque de ortodoxias: direito, religião e moral em crise (editora Tenacitas), que venho lendo com prazer renovado. Ortodoxia secularista é a estrita separação entre a fé e o espaço público, aqui entendido de forma ampla, não como o governo ou a política. O livro é a defesa da tradição filosófica, moral e religiosa judaico-cristã como elemento racional superior para lidar e solucionar problemas éticos e políticos.
O quadro, independente de sua simbologia, é belíssimo. Reparem na expressão dos homens sentados, na posição dos braços, na expressão do corpo. Olhem como a moça que segura a cesta não está com cara de quem queria estar ali trabalhando.
Durante a vida, Steen produziu cerca de 800 telas. Morreu na sua cidade natal aos 53 anos.
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