Archive for the 'Delicatessen (sexta-feira)' Category
Uma delícia chamada Quinta do Além Tanha Vinhas Velhas 2004

Acabo de chegar de uma prova cega de vinhos na excelente loja Wine O’clock, que fica em Lisboa (por isso, adio a série sobre uísque).
Foram nove vinhos de diferentes regiões. Às marcas:
1- Fronteira Selecção do Enólogo 2003 (Portugal - D’Ouro);
2- Quartetto 2006 (Portugal - Alentejo);
3- L’Excellence de Bonasssia 2006 (Marrocos);
4- Quinta do Além Tanha Vinhas Velhas 2004 (Portugal - D’Ouro);
5- Nepenthe Pinnacle Zinfandel 2004 (Austrália);
6- Cono Sur 20 Barrel Pinot Noir 2006 (Chile);
7- Glen Carlou Gravel Quarry 2005 (África do Sul);
8- Chryseia 2006 (Portugal - D’Ouro);
9- Symmetria Best Alentejo 2006 (Portugal - Alentejo).
Os vinhos do D’Ouro dominaram a prova. Mas fiquei imensamente feliz por degustar todas as marcas. O único que eu conhecia era o inusitado e saborosíssimo L’Excellence de Bonasssia 2006. Inusitado porque fabricado no Marrocos, lugar que eu sequer imaginava ser possível ter água para irrigação, que dirá para produzir um vinho desse nível e extraordinária relação custo-benefício.
Mas no texto de hoje vou me limitar ao meu preferido da prova: o Quinta do Além Tanha Vinhas Velhas 2004, produzido na região do D’Ouro, em Portugal:

O aroma é uma excelente prévia do sabor que precede. É daqueles perfumes que preenchem o olfato e preparam o espírito para um sabor tocante. É um vinho forte sem ser rude. Explode na boca liberando felicidades frutadas.
Prefira taças grandes para potencializar a experiência. Além do mais, a bebida exige estar bem vestido e uma amiga/amigo que fale pouco. Para compartilhar esse vinho é necessário certa dose de silêncio contemplativo. E nada de comentários sobre as impressões iniciais. Tal vinho requer conversas prazerosamente frívolas para não macular a apreciação.
Desfrute e civilize-se. Volto na próxima semana.
2 commentsUísque da sexta: J&B 8 anos

Semana passada falei do Glenfiddich 12 anos, um uísque que me deixou bastante impressionado pela intimidade que estabelece prontamente. Mas acho que, antes de passar para os single malts (uísque produzido com apenas um malte) vou falar dos blendeds (uísques que podem levar até 40 tipos de maltes) que foram minha porta de entrada no maravilhoso mundo das delícias escocecas. Os blendeds são os uísques mais comuns. São muito mais baratos do que os single malts e sabores para vários paladares.
Hoje vou recomendar o J&B 8 anos. É um uísque saborosíssimo que eu freqüentava regularmente quando morava no Rio. Trata-se de uma, digamos, excelente relação custo/benefício. Tem um bom preço e estala na boca de tão bom (tão bom para um blended 8 anos, ok?).
O J&B 8 anos é um uísque levinho e perfumado. Para quem quer se iniciar nessa arte frívola e o paladar ainda não está preparado para o poder de fogo do líquido sagrado é uma ótima pedida. Pode-se degustá-lo de três formas:
a) com as tradicionais pedras de gelo (que não recomendo porque é impossível controlar a quantidade de água com a quantidade de bebida);
b) com água gelada, que recomendo porque dá para estabelecer a relação de dois dedos de uísque para um de água (essa é a minha medida quando está calor. Se quiser uma bebida menos forte é só adicionar mais água);
c) puro, que é o que tenho preferido cada dia mais.
É curioso como cada marca e idade de uísque me remete a um lugar. Eu sou transportado imediatamente para o jardim de uma casa de campo quando sorvo o J&B 8 anos. O aroma levemente adocicado e a suavidade do paladar pedem um dia claro, termômetros a 15 graus, uma cadeira confortável, chapéu panamá e um chinelo macio.
Boa sexta e portem-se bem.
4 commentsHoje é dia de uísque escocês

É curioso que eu tenha iniciado esta seção na semana passada escrevendo sobre um jantar e um vinho. Por qual razão? Criei esta seção para falar de uísque, meu amor etílico. Well, o dia chegou!
Hoje vou falar da minha mais recente paixão escocesa. A delícia atende pelo nome de Glenfiddich 12 anos. Vejam se, além dos predicados que já vou mencionar, não é uma bela ampola:

Gostaram? Eu também. Abrir uma garrafa desse uísque é uma experiência dos sentidos. Primeiro, a visão, logo agraciada pelo design da embalagem e garrafa e a poderosa cor que as abriga. O rótulo sedutor completa o maravilhamento estético.
Depois da contemplação visual passamos ao estímulo do segundo sentido, o tato. É preciso, no ato de abrir a ampola, tocá-la com as palmas das mãos até que elas cedam lugar aos dedos que vão iniciar a abertura. Tire a rolha com certo vagar, torcendo-a em espiral e quando a garrafa estiver aberta estaremos preparados para o terceiro sentido: olfato.
O aroma liberado imediatamente após a abertura logo mostra que estamos diante de algo de imenso valor. O perfume é refinado e encorpado. É impossível evitar que a língua toque o céu da boca preparando o corpo para essa experiência extraordinária. Ao servir o uísque no copo, de preferência num cálice pequeno próprio ou num taça para conhaque (minha escolha), mais um sentido é aguçado: a audição. Ouvir o líquido despencar da garrafa na taça ou cálice faz parte do momento e abre caminho para mais um sentido: o paladar.
Mas antes mesmo do paladar, ao erguer a taça (ou cálice) em direção à boca, há uma combinação plena e intensa dos cinco sentidos. Quando o Glenfiddich 12 anos toca a língua, que não o impõe rédeas, sela a boca antes conspurcada. Tocar a língua no palato e pressioná-la provoca uma explosão de aromas e sabores. Para prolongar essa sensação extraordinária basta inspirar e liberar o oxigênio com os lábios semicerrados. No segundo gole e repetição da experiência o sabor se intensifica. É como se o corpo já estivesse completamente preparado para tamanho estímulo sensorial.
O single malt produzido pela William Grant & Sons Ltd., proprietária de destilarias na Escócia, é envelhecido durante 12 anos em barris de carvalho americanos e europeus (a madeira dos barris de ambos os continentes influenciam diretamente no amadurecimento da bebida). Costuma-se definir o sabor do Glenfiddich 12 anos como complexo e elegante, com toques de pêra fresca. O problema dessas notas de degustação é que nem todo mundo conseguirá extrair esses elementos por razões específicas: ou porque não tenha os sentidos aprimorados ou, pelo fato de nunca terem participado de uma prova, desconheçam o tipo de exercício necessário para reconhecer as nuances da bebida.
É justamente por isso que, ao indicar um uísque, prefiro apelar aos sentidos mais básicos e, com isso, estabelecer uma ligação entre a bebida e quem pede a dica.
Recomendo vivamente o Glenfiddich 12 anos, que em 2007 ganhou medalhas de ouro no International Spirits Challenge (ISC) e no International Wine & Spirit Competition (IWSC). Quem provar e quiser compartilhar a experiência terei o maior gosto em reproduzir o texto na seção da próxima semana.
Antes da despedida, uma dica: bebam sempre para celebrar. Façam de cada gole uma celebração de todas as coisas importantes, das mínimas às grandiosas.
Boa degustação!
No commentsDelicatessen
Ontem à noite, logo após a palestra Natural Law, God and Humans Rights, do professor Robert P. George, da Princeton University, participei de um jantar cujo cardápio inaugura esta seção Delicatessen. Antes de falar sobre o jantar, uma saudação:
Numa mesa com os amigos brasileiros Maurício Casarin e Eduardo Schmidt Passos e os portugueses José Luiz e a colega Raquel (que voltou recentemente de um intercâmbio por Leiden, Paris e Oxford e retorna ao mestrado no IEP) provamos o vinho branco Planalto Reserva, produzido na região do Douro. É um branco de sabor de razoável para bom com acidez na medida certa. É palatável e refrescante com o gás mantendo o sabor no céu da boca proporcionando um retrogosto bastante interessante. Pela identidade descompromissada e o perfume tocante me fez lembrar livros de arte. Acho que seria um belo parceiro para folhear um livro com reproduções do Pancetti, especialmente as marinhas. Um exemplo? Olha só:

Lagoa do Abaeté (1952)
Nos foi servida como entrada uma boa sopa de alho. Pena que o pão, produto sempre apetitoso e bem produzido aqui em Portugal, não estava lá essas coisas. Em vez do crocante, uma dureza de fazer inveja a qualquer pão dormido. Concentrei-me na sopa para não me chatear.
E a conversa passeava por Brasil e Portugal, numa sempre produtiva conversa transatlântica, e as razões pelas quais nós três brasileiros salve! salve! viemos parar aqui e não nos Estados Unidos ou Inglaterra. Poupar-vos-ei das histórias individuais. Até porque o vinho parecia que ficava melhor a cada gole, o que, claro, era apenas uma impressão falseada pela ação do álcool, que nos deixa não só mais gentis, mas amolece nosso padrão de exigência.
Eis que o prato principal chega: espetada de lulas e gambas. As lulas estavam bem cozidas convertendo cada mastigada numa carícia no palato. As gambas (camarões encontrados em águas profundas do Mediterrâneo e do Atlântico) reforçavam o sabor das lulas, numa combinação bastante sedutora. Com o vinho se dava um casamento feliz e bem-sucedido. A única nota dissonante foi o aroma, praticamente inexistente naquela distância educada em que se olha o prato. Só quando levava o garfo à boca notava o perfume da iguaria.
Terminamos a espetada de lulas e gambas e continuamos a conversa na companhia do vinho branco Planalto Reserva. Mas a boa conversa, inesgotável, precisou ser encerrada com o fim da garrafa e o brinde geral a bordo de um vinho do Porto (que, por lapso, não anotei o nome). Feito isto, os amigos pediram café, que recusei para não macular o jantar deixando na boca aquele leve sabor de asfalto novo.
Assim encerro o primeiro Delicatessen. Desejo a vocês, meus caros, uma sexta-feira de felicidade gastronômica e boa conversa: Benedicto benedicatur.
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