Archive for the 'Brasil' Category

Andar desarmado com o estado à espreita? Tá de brincadeira!

Para ninguém esquecer: é impossível andar desarmado no Brasil com um estado ineficiente e gigantesco que cobra:

Cide -Combustíveis Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico
Cofins - Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social
CSLL - Contribuição Social sobre o Lucro Líquido
FGTS - Fundo de Garantia do Tempo de Serviço a União
ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
II- Imposto de Importação
INSS - constribuição ao Instituto Nacional de Seguridade Social
IOF - contribuição ao Instituto Nacional de Seguridade Social
IPI - Imposto sobre Produtos Industrializados
IPTU - Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana
IPVA - Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores
IR - Imposto sobre a Renda
ISS - Imposto sobre Serviços
ITBI - Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis
ITCMD - Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis ou Doação
ITR - Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural
PIS - Programas de Integração Social
PASEP - Programas de de Formação do Patrimônio do Servidor Público

Lista extraída do site da Veja onde pode ser ler quem cobra cada imposto, taxa e contribuição.

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Paulo Francis fala sobre o “Afeto que se encerra”

É sempre divertido ouvir Paulo Francis falando. Mas reparem em algumas opiniões:

1) Disse que não faria a menor diferença se o vencedor das eleições fosse Ronald Reagan, do Partido Republicano, ou Jimmy Carter, do Partido Democrata;

Nota: essa análise política foi de um primarismo monumental.

2) Disse que tudo indicava que Carter, presidente do país entre 1977 e 1981, perderia a eleição para Reagan;

Nota: A derrota se confirmou. Reagan venceu, assumiu o governo em 1981, foi reeleito, e deixou a presidência em 1989. Só não sei se foi uma opinião do Francis de acordo com a leitura que fez das informações disponíveis ou se repetiu a análise de seus colunistas preferidos dos grandes jornais americanos.

3) Afirmou que Reagan, a quem acusou de preguiçoso, seria um sub-Eisenhower.

Nota: Dwight D. Eisenhower foi o 34o. presidente dos Estados Unidos. Republicano, governou o país de 1953 a 1961. Reagan entrou para a história como um dos maiores políticos da história americana e foi um dos maiores responsáveis pelo Fim da Guerra Fria com a derrubada do muro de Berlim e a queda da União Soviética.

Apesar disso, voltem e revejam o vídeo. Olhem a roupa, o óculos e o cabelo. Reparem no que ele diz sobre o embaixador de Cuba. Divirtam-se, até mesmo com os equívocos monumentais.

PS: Ainda na Turquia. Dia atarefado, reuniões, corridas de lá para cá etc. Conheci a sede do jornal Zaman, o mais antigo do país. Depois, almoço com o diretor da maior emissora privada de TV. À noite, jantar com o presidente e o vice-presidente de uma das Câmaras de Istambul, o equivalente, no Brasil, a uma prefeitura. Estou tomando notas das conversas e das impressões. Ao longo da próxima semana vou colocando aqui em forma de posts. Até!

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Reinaldo Azevedo no Jô Soares

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Machado de Assis no Ação Humana

Guilherme Roesler, do sempre recomendável Ação Humana, também escreveu sobre Machado de Assis. Sugiro vivamente a leitura:

O que fazem de Machado de Assis?

Machado de Assis está sendo lembrado a todo instante graças ao centenário da sua morte. Não tenho certeza (pois estou fora desse circuito), mas selos postais, cadernos culturais, jornais de bairro e reuniões universitárias e de sindicatos, devem ter todas um quê da aura do antigo morador do Cosme Velho. Eu gosto da sua pessoa (um autêntico self-made man), apesar de não gostar tanto da sua literatura como nos obrigam desde o nascimento. O que me incomoda nem é tanto as constantes evocações ufanistas – julgadas por essa humilde pessoa como legítimas –, mas justamente o espírito que essas mensagens pró-machadianas parecem invocar. Ele foi um grande escritor? Sim, não tenhamos dúvida. Soube como poucos descrever o pathos brasileiro? Verdade, e não há razão para querermos desqualificar a sua obra nesse sentido. Mas uma coisa é apresentarmos o escritor Machado de Assis como um literato, homem das letras, e outra bem distinta é querermos vendê-lo – não encontro palavra melhor – como tendo sido um crítico político e qualificações do gênero.

Alguns querem fazer Machado de Assis um profeta das nações oprimidas da América Latina, cientista social, ou sei lá eu mais o quê. Digo isso porque essas tentativas de fazer de Machado de Assis um observador atento de todas as facetas da vida social brasileira é esvaziar de sobremaneira o conteúdo da sua obra literária. É deixar em segundo plano a sua literatura. Machado era um excelente literati, mas duvido que no momento em que ele estivesse escrevendo sobre Capitu ele também estaria pensando nas implicâncias sócio-familiares que uma suposta traição feminina ocasionaria numa sociedade conservadora e fortemente patriarcal. Essa espécie de interpretação normalmente parece ser construída com o intuito de usar Machado de Assis como autoridade dos pontos de vista daquele que interpreta sua obra. Isso para não fazermos referência ao universo que foi construído ao redor da sua pessoa.

Fortunas foram feitas e carreiras construídas não com base na análise sincera das suas obras (que abrangem a crônica, a poesia e o romance), mas apenas orientadas à busca de, nas suas páginas, encontrarem uma possível evocação (por menor que fosse, não importa) que justificasse o próprio ponto de vista daquele que as estudava. Nesse estágio de interpretação e análise o que menos importa é a literatura de Machado de Assis. O que importa não é tanto o que Machado de Assis escreveu, mas o que poderíamos pensar que ele tivesse escrito. Obvio que esse é um assunto estritamente psiquiátrico, mas pode ser estendido a qualquer autor imaginável. Se quiséssemos, por exemplo, investigar a obra Os Lusíadas de Camões até encontrarmos vestígios de uma crítica ao sistema mercantilista de exploração e dominação; se quiséssemos também considerar que as palavras proferidas pelo Velho de Restelo eram na realidade a opinião privada de Camões, e que ele não as disse por estar impedido por um sistema monárquico que reprimia cruelmente a opinião de poetas e intelectuais, tudo poderíamos, pois que não existem barreiras à imaginação. E teses e dissertações se alimentam dessas pequenas divagações.

Contudo, serão elas necessárias? Até certo ponto creio que não. Quando procuramos um Machado de Assis que foge ao entendimento daquilo que o próprio Machado tinha sobre a sua pessoa, o caminho tomado para se chegar ao autêntico autor deveria ser repensado. Ao contrário do que pretende essa espécie de crítico e intérprete literário que vemos diariamente nos meios de comunicação - onde que para cada problema possível Machado de Assis já elaborou uma respectiva reflexão embebida na mais fina e sublime ironia - os constantes atos de divulgação da sua obra apenas fazem o leitor que procura literatura de qualidade delas se afastar. A partir daí, toda a obra de Machado de Assis passa a ser compreensível apenas aos iniciados de seita por todos conhecida, cujo templo é sempre uma empoeirada academia.

Na mesma quarta-feira publiquei aqui o post Caso raro na medicina: escritor canadense queria que Machado de Assis fosse um mau escritor, a respeito de um texto publicado no TLS.

PS: Não conheço autor mais usado como arma de destruição em massa de leitores brasileiros do que Machado de Assis.

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Caso raro na medicina: escritor canadense queria que Machado de Assis fosse um mau escritor

Só hoje fui ler um texto publicado no TLS, em 8 de outubro, sobre Machado de Assis:

Realism from Brazil

The genius of Machado de Assis, Rio de Janeiro’s laureate of irony

Machado de Assis
A CHAPTER OF HATS AND OTHER STORIES
Translated by John Gledson
288pp. Bloomsbury. £16.99.

Stephen Henighan

The hills above Rio de Janeiro, now covered with shanty towns, were already poor, marginal districts in 1839, when Joaquim Maria Machado de Assis, a mulatto orphaned at an early age and raised by his black (or possibly mulatta) stepmother, was born. One of the many enigmas which surround Machado de Assis is how a writer whose sensibility is as finely pitched of that of Chekhov, who extended the possibilities of realist fiction through experiments with point of view as subtle as those of Henry James, and whose savage disenchantment might have earned him the respect of Jonathan Swift, emerged from an impoverished background in a tropical empire run on a regime of slavery. It is almost as if Tolstoy, rather than having inherited Yasnaya Polyana, had been born a serf.

Machado educated himself by eavesdropping on lessons given at the girls’ school where his stepmother worked in the kitchen. He persuaded an immigrant baker to teach him French, found an apprenticeship with a printer in order to learn about typesetting and books, taught himself to read English and German, and by the age of twenty-five had become a literary celebrity. Even though slavery was not abolished in Brazil until the year he turned forty-nine, Machado climbed the social ladder with ruthless efficiency. He made a sensible marriage to a cultured white woman from Portugal five years his senior and obtained a post in the Ministry of Agriculture, where he performed his duties with such diligence that he is held up as a model to modern Brazilian civil servants. Neither his early fiction, which followed the Romantic conventions of the day, nor his later works, which attacked convention with iconoclastic originality, waste much time on social commentary. It is not easy to know what Machado thought about the society in which he had been spared the injustice that was the common lot of people of his race and class. The richness of his fiction depends on the multiple potential interpretations afforded by his nearly bottomless irony.

To some extent Machado’s contradictions are those of Rio de Janeiro. He never travelled abroad and lived in a city which, after Napoleon’s invasion of Portugal in 1808, became the seat of the Portuguese monarchy and the capital of a global empire.Brazilian independence was declared in 1822 by the Prince Regent; where Spanish-speaking republics fought brutal wars of independence against the colonial power, Brazil was a self-proclaimed empire ruled by descendants of the Portuguese royal family. Having joined the elite, Machado accepted the dominant positivist ideology, derived from Auguste Comte and Charles Darwin, which in Brazil, as elsewhere in Latin America, acquired a virulent edge of racial determinism. It is likely that he internalized both the positivist tenet that people of colour were innately inferior and the evident truth that he was one of the most talented men of his generation. This intractable contradiction may explain why Machado never wrote a novel dramatizing the unstable position of the educated mulatto in Brazil, such as Bernardo Guimarães’s still-popular Romantic novel, A Escrava Isaura (1875; Isaura the Slave-Girl), about a very light-skinned mulatta born into slavery.

CONTINUA…

O texto é enorme, por isso não o reproduzi integralmente aqui. Primeiro: é muito bom que seja publicada mais uma edição em inglês com os contos do escritor. Segundo: que o livro seja resenhado no mais importante jornal literário da Inglaterra e um dos mais prestigiados do mundo, que é o TLS.

Mas o texto contém alguns equívocos imperdoáveis, como validar a história segundo a qual Machado aprendera francês na padaria de uma imigrante francesa no Rio. Trata-se de uma lenda já desmentida pelo francês Jean-Michel Massa em seu A juventude de Machado de Assis. O pior, porém, é a análise da obra feita pelo escritor canadense Stephen Henighan:

Neither his early fiction, which followed the Romantic conventions of the day, nor his later works, which attacked convention with iconoclastic originality, waste much time on social commentary. It is not easy to know what Machado thought about the society in which he had been spared the injustice that was the common lot of people of his race and class. The richness of his fiction depends on the multiple potential interpretations afforded by his nearly bottomless irony.

Machado não era panfletário, como Henighan gostaria que fosse. A sociedade brasileira da época, incluindo suas violências físicas e vícios morais, permeiam a obra. Não é fácil saber o que Machado pensava sobre as injustiças de seu tempo se: a) o leitor for disléxico; b) se o leitor não souber captar a parte substantiva do discurso nas nuances da história. Para o leitor médio, o segundo problema é perdoável e pode ser corrigido. No caso de um indivíduo que se apresenta como intelectual e escreve para o TLS, imperdoável.

Outra pérolas aos porcos:

Having joined the elite, Machado accepted the dominant positivist ideology, derived from Auguste Comte and Charles Darwin, which in Brazil, as elsewhere in Latin America, acquired a virulent edge of racial determinism. It is likely that he internalized both the positivist tenet that people of colour were innately inferior and the evident truth that he was one of the most talented men of his generation.

Ai, meus caracóis… Que Machado tinha vergonha de sua origem humilde e étnica, parece não haver dúvidas. E é preciso enquadrar tal sentimento na época. É claro que houve indivíduos e intelectuais que usaram as origens, de forma mais ou menos intensa, como instrumento de insurgência, mas acusar (sim, acusar) o escritor de seguidor de Comte e de Darwin e, por tabela, de pensar sob os grilhões de um virulento determinismo racial é estupidez (recomendo o capítulo de Hitler e os alemães, no qual Voegelin, ancorando-se em Musil, amplia a análise do conceito de estupidez).

Henighan recorre a uma firula para, no fim das contas, dizer implicitamente que Machado era um alienado. O inglês John Gledson, dentre outros, já desfez essa bobagem no livro Machado de Assis: impostura e realismo, Quanto às teorias cientificistas derivadas das obras dos senhores Comte e Darwin, Machado satirizou-as e forma mais evidente em, pelo menos, dois livros: O alienista e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Além do mais, se se pudesse enquadrar o escritor numa categoria seria como monarquista liberal.

Além do mais, não seria um contra-senso, Machado, um mulato, achar que negros eram inferiores e, portanto, se julgar igualmente inferior, e virar a prova concreta de que essa concepção era tão equivocada como absurda?

This intractable contradiction may explain why Machado never wrote a novel dramatizing the unstable position of the educated mulatto in Brazil, such as Bernardo Guimarães’s still-popular Romantic novel, A Escrava Isaura (1875; Isaura the Slave-Girl), about a very light-skinned mulatta born into slavery.

Entenderam a picaretagem? Henighan simula uma contradição para depois tentar resolvê-la afirmando que Machado nunca escreveu um romance sobre mulatos. Dio Santo! Ele queria que Machado fizesse de um mulato o personagem principal de um livro? Que esse personagem fosse reduzido aos sofrimentos das contingências da época? Que Machado renunciasse a seu gênio de mostrar as violências física e moral mediante um grandioso tratamento literário para elaborar um panfleto?

E quem o grande teórico de Machado cita como exemplo a ser seguido? Bernardo Guimarães. What? No Brasil, só se conhece a história porque virou novela da Globo. Não se conhece o livro nem seu autor (não falo de especialistas e departamentos de universidades, ok?). É um caso raro na literatura médica: o exemplo que diminui. Henighan queria um Machado piorado. É um caso raro, sem dúvida. E eu confesso andar sem entender muito algumas mentes brilhantes.

PS: Por falar em Machado, recebo agora o convite para Um mestre entre as ruínas: Machado de Assis (entrada franca), cujo objetivo é mostrar que o escritor “ultrapassa qualquer classificação ideológica”.

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As políticas de fé e de ceticismo de Michael Oakeshott (II)

Acrescentei no post As políticas de fé e de ceticismo de Michael Oakeshott o que havia de interessante no texto que eu havia escrito aqui mesmo de forma ligeira pela manhã antes de eu sair para dois eventos na Universidade Católica: um brown-bag lunch com Marc Platnner e uma conferência sobre o teólogo Hans Urs Balthasar.

Acabei perdendo o primeiro dia da conferência sobre Hans Urs Balthasar porque decidi ver o seminário do Plattner à noite, no mesmo horário. Enfim, amanhã terei os dois eventos em horários diferentes. Dependendo da hora em que eu chegar em casa escrevo algo aqui.

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As políticas de fé e de ceticismo de Michael Oakeshott

Hoje começou o curso A literatura da política que João Pereira Coutinho ministra nos dias 23, 24, 28, 29, 30 e 31 no Instituto Internacional de Ciências Sociais, cujo trabalho eu louvo, saúdo e divulgo entusiasticamente.

Enquanto escrevo este post a primeira aula está para além da metade. São 23h50 em Lisboa, 20h50 em São Paulo. A ementa do curso é a seguinte:

A LITERATURA DA POLÍTICA

Porque a política é também uma arte

Partindo do pensamento de Michael Oakeshott, o curso irá explorar a dimensão teórica e literária da política da fé e da política do ceticismo, tal como apresentadas na obra The Politics of Faith and the Politics of Scepticism. Iremos argumentar que os pólos em que se articulam a prática e o discurso políticos da época moderna, longe de se constituirem como um património da Teoria Política, permitem uma abertura à tradição literária e artística do Ocidente, que a enriquece e a clarifica.

Assim, as sessões serão articuladas da seguinte forma:

1. Apresentação da política da fé e da política do ceticismo em Michael Oakeshott.

2. Francis Bacon e Michel de Montaigne como paradigmas da política da fé e da política do ceticismo.

3. Edmund Burke e William Shakespeare: a importância das “compungidas visitas da Natureza”

4. Monistas e pluralistas: Isaiah Berlin e a apologia de Ivan Turgeniev

5. O ópio dos intelectuais: Raymond Aron e Jean-Paul Sartre

6. Bernard Williams, Paul Gauguin e Joseph Conrad: uma reflexão sobre a contingência

Gostaria de ter a sorte dos paulistanos para participar do curso. Embora esses assuntos sejam temas de conversas freqüentes é sempre educativo ouvir o João discorrer sobre esses temas, ele que na Universidade Católica dá aulas sobre Edmund Burke na cadeira de Tradição dos Grandes Livros para a graduação (aqui chama-se licenciatura) de Ciência Política (não é impressionante um curso ter uma disciplina que trata de obras de referência da cultura mundial?).

O tema principal que perpassa os autores escolhidos é a teoria de Oakeshott sobre política da fé e política do ceticismo. O que são?

A política de fé é baseada na idéia da perfeição humana. E a certeza de que o ser humano pode ser aperfeiçoado faz com que o indivíduo ou grupo que detenha o poder cometa toda sorte de atrocidades para moldar a sociedade de acordo com esse projeto de perfeição. Há alguns elementos que caracterizam a política de fé:

a) a crença de que para cada problema político há somente uma solução, que é a melhor;

b) o desenvolvimento de uma política de perfeição, não importa o método ou instrumentos necessários para sua implantação;

c) o estabelecimento de uma política de uniformidade, que em nome da igualdade aniquila o indivíduo e os avanços decorrentes do estímulo ao mérito, além de se converter numa fonte perversa de desigualdade;

d) se é preciso impor uma política de perfeição, conseqüentemente (mantenho o trema, apesar de sua degola pelo Acordo Ortográfico), sua irmã gêmea é a política da intolerância. A tolerância inviabiliza o projeto de reengenharia social;

e) o resultado final da política de fé é uma política de centralização absoluta do poder e da ação. Só assim o projeto pode se afirmar, se desenvolver e ser preservado.

A política de ceticismo também pode ser chamada de política de imperfeição. Esta não é uma política que se contrapõe à política de fé, embora sejam adversárias; antes é um princípio humano de que a política de fé é uma aberração.

O fato de a política de ceticismo ser cética em relação à idéia da perfeição humana, e por isso não ter qualquer projeto de remodelagem do indivíduo, faz com que não pretenda abolir a política de fé. Porque a defesa da extinção da patologia racionalista implica necessariamente na assunção do projeto de perfeição pela eliminação das idéias contrárias. Para citar um exemplo ilustrador: um revolucionário (comunista ou fascista) põe fim ao debate com uma bala na nuca do interlocutor; um liberal ou conservador aceita o contraditório e acha que a contraposição de idéias favorece os diferentes modos de vida numa sociedade.

A política de ceticismo tem como elementos substantivos:

a) a crença de que para cada problema político há uma solução que é a melhor sob determinadas circunstâncias. Portanto, não há uma única e perfeita decisão. Há, sim, decisões concorrentes que são aplicadas de acordo com a necessidade, conveniência e oportunidade;

b) a política de ceticismo é uma política de imperfeição porque rejeita a idéia de perfeição humana e, obviamente, todos os desdobramentos nefastos desse projeto;

c) desfrutar as conquistas do desenvolvimento humano e social estimulando e protegendo os diferentes modos de vida;

d) como decorrência do item anterior, há uma forte ligação com o presente porque não há a pretensão de se construir um futuro perfeito. Mas essa ligação com o presente não significa rejeitar (ou renegar) o passado e desconsiderar o futuro.

Há muitos teóricos que analisam a política de fé e a política de ceticismo como pólos desligados que se opõem. A leitura que faço de Oakeshott nesse aspecto é: a política de ceticismo é o grande círculo onde está contido a política de fé. É como revolucionários que vivem numa democracia e querem destruí-la seguindo uma política racionalista (de fé). Quanto à necessidade, ou condição, de haver equilíbrio entre as duas posições, vejo na política de ceticismo todos os elementos de tensão que permitem sua preservação e desenvolvimento ativos sem que seja preciso uma política de fé para desequilibrá-la.

Discordo do entendimento de ver a política de fé como um pólo de equilíbrio, como se a política de ceticismo não contivesse em seu cerne vários pontos de equilíbrio, tensão, oposição etc.

Acho que é possível desenvolver mais esse tema. Mas fica para um próximo post.

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Imperdível! Imperdível! João Pereira Coutinho palestra em SP


Edmund Burke

Todas as pessoas de bem têm um compromisso inadiável hoje no Instituto Internacional de Ciências Sociais:

O ESPÍRITO CONSERVADOR
Prof. João Pereira Coutinho
Quarta-feira, dia 22 de outubro de 2008

DESCRIÇÃO

O objetivo da conferência será questionar se o conservadorismo de expressão anglo-saxónica, tal como inicialmente expresso por Edmund Burke em Reflections on the Revolution in France (1790), pode ser entendido como uma “ideologia”. A questão adquire renovada importância porque não são apenas os críticos do conservadorismo que denunciam a ausência de um ideal substantivo (por oposição ao liberalismo ou ao socialismo); os próprios conservadores parecem igualmente avessos a uma defesa sistemática do conservadorismo, optando antes por apresentá-lo como uma “ideologia anti-ideológica” (Quinton), uma “disposição” (Oakeshott), um “espírito” (Buchan), um “instinto” (W. Elliot) ou uma “fé” (Baldwin).

Dessa maneira, abordaremos enfim um assunto polêmico e que até agora ninguém encontrou uma resposta adequada: existe ou não uma atitude que vai contra a tendência totalitária dos nossos dias?

ENTRADA FRANCA

CARGA HORÁRIA

A carga horária é de 2 horas e meia

Não é apenas escrevendo que João Pereira Coutinho é espirituoso e intelectualmente estimulante. Aqui em Portugal já estive em várias palestras que ele proferiu. É tão bom falando quanto produzindo as colunas para a Folha e para o Expresso, de Lisboa.

João vai tratar de um tema que lhe é caro e foi assunto de muitas conversas que tivemos: o espírito conservador. Tanto Burke, ponto de partida da palestra, como os demais autores que escreveram sobre o tema (Lord Cecil e Oakeshott), o espírito conservador é, justamente, um espírito, ou, na adequada definição de Oakeshott, uma disposição. Leiam, se puderem, o ensaio On being conservative (está em inglês e não achei na web qualquer tradução para o português. Em espanhol, achei esse resumo interessante da idéia).

Sem ser uma ideologia não há, então, no conservadorismo, um conteúdo programático, como existe, por exemplo, no liberalismo. É claro que partidos de cariz conservador se apropriaram de determinadas idéias para enfeixá-las em princípios ideológicos, mas trata-se aqui de uma apropriação de conetúdo e não da análise substantiva da disposição.

Entende-se de forma equivocada que o conservadorismo é contrário às mudanças e serviria como um freio às inovações e às mudanças. Ser conservador é desconfiar das mudanças; é ser sabiamente cético contra às tentativas vorazes de alterações permanentes, que servem como estratégicas desequilibradoras de todas as conquistas positivas do indivíduo na preservação e respeito aos diferentes modos de vida. Sempre lembro a frase de Jorge Luís Borges, que se assumia um conservador no sentido de que queria preservar as coisas boas e descartar as ruins.

Há muito a se falar sobre esse assunto que me estimula. Mas este post é apenas um aperitivo para o prato principal, que é a palestra do João.

Para finalizar, deixo dicas de livros sobre conservadorismo, caso alguém se interesse em avançar na leitura:

1- Conservatism, de LORD HUGH CECIL;

2- Reflections on the revolution in France, de EDMUND BURKE;

3- The Meaning of Conservatism, de ROGER SCRUTON;

4- The Conservative Mind: From Burke to Eliot, de RUSSELL KIRK;

5- A case for conservatism, de JOHN KEKES;

6- The Conservative Case, de QUINTIN HOGG.

7- Rationalism in politics and Other Essays, de MICHAEL OAKESHOTT;

8- Conservatism: an anthology of social and political thought from David Hume to the present, de JERRY Z. MULLER;

9- The Counter-Revolution, de THOMAS MOLNAR;

10- Who was the most right-wing man in history?, de PAUL JOHNSON (artigo para a The Spectator)

11- Por que não sou liberal, de OLAVO DE CARVALHO (artigo para o JB)

Há muitos outros livros sobre o assunto. Esses foram alguns dos que li e recomendo de forma entusiástica. Anotem as sugestões do João e depois me contem, se quiserem, para ampliarmos a lista.

PS: Amanhã falo sobre os temas do curso que o João vai ministrar entre os dias 23 e 31.

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Um livro ruim adotado pelo MEC? Excelente notícia!

Recebi semana passada o seguinte comentário de André Ramos:

Caro Bruno, acabei de saber que o livro Mastigando Humanos, do S. Nazarian foi adotado pelo governo federal. Está lá no blog dele, com o “escritor” comemorando a influência terá na próxima geração. Isso porque “obras” de Marcelino Freire e Férrez também já foram. O que fazemos? Estou começando a entender aqueles americanos que ensinam o filho em casa.

Honestamente, não tenho mais a menor pachorra de escrever sobre escritores, ou aspirantes a, que não valem uma rosca frita, literariamente falando. Ei já tratei desse moço no ano passado.

Não gostaria de voltar a fazê-lo, mas a informação me encheu de alegria. Por favor, não riam. Falo sério. Primeiro, tentei checar a veracidade da informação, que só constava no blogue do rapaz. Depois, o próprio André deu a dica e está tudo confirmado.

Que o livro do moço, assim como o de muitos outros cujos nomes não me apetece mais divulgar, seja usado nas escolas é uma excelente notícia. Assim, evita-se que grandes escritores como Machado de Assis continuem servindo para assassinar leitores em potencial. Se as crianças e jovens passarem a ser decapitados nas escolas por livros ruins (elaborados por escritores idem) é a normalização de uma situação antes aberrante.

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João Pereira Coutinho fala sobre brasileiros e portugueses

Caros, não resisto a reproduzir e dividir com vocês esse mordaz e divertido artigo do João Pereira Coutinho sobre portugueses e brasileiros publicado hoje na Folha de S. Paulo. Sim, estou ali no texto, mas diagonal e rapidamente, sem tempo de estragar a leitura. Leiam, leiam:

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Meu Brasil português

Estou a escrever novela sobre os brasileiros em solo luso; intitula-se “Felipão é nosso irmão”

MINHA VONTADE ERA MATAR Miguel Falabella. Não, não houve plágio. Apenas uma coincidência cósmica que me arruinou um projeto televisivo. Leio na imprensa portuguesa que Falabella escreveu telenovela para a Globo onde existe família de portugas. “Negócio da China”, eis o título, e na novela existe Belarmino, português com bigode, dono de uma padaria, casado com Carminda, que grita o dia todo. A completar o quadro, existem os filhos Celeste e Tozé e ainda uma aldeã vinda do interior de Portugal, que veste preto da cabeça aos pés (e usa bigode).

Desconheço se Falabella, como gênio criativo que é, não incluiu outros clichês divertidos sobre os meus compatriotas.
Pessoalmente, sugiro a Falabella uma empregada doméstica, a alentejana Maria das Dores, uma fadista nas horas vagas que gosta de imitar Amália Rodrigues durante a faxina.

Gastronomicamente, o prato da família seria bacalhau: salada de bacalhau, purê de bacalhau e ainda sorvete de bacalhau. E um dos filhos do casal lusitano (por exemplo, Celeste) começa a preocupar a família no dia em que revela que Nossa Senhora de Fátima costuma aparecer-lhe aos pés da cama, pedindo-lhe que conserve a virgindade até o dia do casamento. Pormenor importante: mesmo Nossa Senhora de Fátima usa bigode, mas um bigode dourado, celestial, que irradia conforto e luz.
Tozé, o rapaz, tem um único sonho: estudar direito em Coimbra e ser “doutor”, como seu herói Salazar.

Dizia que minha vontade era matar Miguel Falabella. A razão é simples e urgente: inspirado pelas observações hilárias e autoflagelantes do meu amigo Bruno Garschagen, um jornalista brasileiro que vive em Lisboa, também eu estou a escrever novela sobre os brasileiros em solo luso. Intitula-se “Felipão é nosso irmão” e pretende ser um retrato fiel dos brazucas, seus hábitos e suas vivências, em Portugal. A história tem como figuras centrais Ladislau e Rosicleide, jovem casal que cruzou o Atlântico em busca de vida melhor. Mas é um erro pensar que Ladislau e Rosicleide deixaram o Brasil para trás em busca de novas experiências ou conhecimentos; na verdade, eles arrastaram o Brasil com eles e, mesmo em Lisboa, o casal acredita genuinamente que continua a viver nos subúrbios do Rio.

Ladislau gosta de vestir verde e amarelo todo o dia, como se fosse uma bandeira humana em perpétua declaração de amor ao Brasil. A excentricidade fez com que os vizinhos portugueses o batizassem com o apelido de “Bandeirinha”; outros, de “Carmen Miranda”. Mas Ladislau não se importa e, todos os sábados, quando não trabalha na construção civil, ele acende uma vela por Nossa Senhora do Caravaggio, outra por Luiz Felipe Scolari e depois decide acordar o bairro inteiro com os grandes temas da música sertaneja.

Quando a polícia aparece em cena, pedindo respeito pelos vizinhos, Ladislau insulta a intolerância dos portugueses e a forma como Portugal trata os “irmãos” brasileiros. “É só preconceito!”, grita Ladislau, que considera seu direito bombardear seus vizinhos com potência sonora digna de Chernobyl.

A fúria de Ladislau só é aplacada quando Rosicleide prepara dez quilos de feijão para o almoço: salada de feijão, purê de feijão e ainda sorvete de feijão. Ladislau come tudo e, no final, levanta-se, coloca a mão sobre o peito e canta: “Deitado eternamente em berço esplêndido/ Ao som do mar e à luz do céu profundo…”. Adormece de seguida, roncando a tarde inteira. Os anos passam. Ladislau e Rosicleide vão perdendo as ilusões. Portugal é país caro; o regresso ao Brasil é uma impossibilidade econômica; e com o nascimento de duas crianças (Zézé e Ayrton, ambos de pais diferentes), Ladislau tem idéia luminosa: importar a família brasileira para Portugal. Dito e feito. A novela termina com os familiares de Ladislau e Rosicleide dormindo nas gavetas da sala e Ladislau, de calção e chinelo, fazendo churrasco na rua ao som de pagode. Os vizinhos portugueses já não protestam; fugiram do bairro nos últimos anos.

E agora? Como defender a originalidade do meu projeto? Eu só vejo uma solução: cruzar a minha história com a história de Falabella. Por cada cena de portugueses no Rio, eu daria a imagem inspiradora dos brasileiros em Lisboa. E, quem sabe, talvez fosse possível casar a Celeste de Falabella com o meu Ayrton, desde que Ayrton não abusasse no feijão.

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