Archive for the 'Brasil' Category
Paulo Francis aqui, amanhã, neste blogue!
Amanhã publico aqui o texto que estou escrevendo agora sobre o romance Carne Viva do Paulo Francis. Voltem aqui amanhã, ok?
No commentsEscrever não é fácil e nada prazeroso
Tentei escrever o prometido post sobre o romance Carne Viva do Paulo Francis. Não saiu nada que prestasse. Em respeito a vocês e ao Francis apaguei o que havia escrito. Não achei o tom, as palavras exatas, o feeling do que senti com a leitura e o que achei do livro. Espero que amanhã o cérebro contribua para disfarçar minha falta de talento e aplaque o desprazer que sinto ao escrever (qualquer coisa). Sim, meus caros, escrever para mim não é fácil e nada prazeroso. Portem-se bem nesta noite de sexta-feira.
No commentsO dilema dos nomes, ou quem quer ser Wandercley?

Os nomes próprios em Portugal repetem-se com uma regularidade assustadora: Nuno, Miguel, Paulo, Pedro, João, Joana, Jorge, Maria, Filipa e lá vamos nós. Assustadora, claro, para quem é brasileiro e está acostumado com os vários tipos e nacionalidades de nomes de batismo. Sim, temos uma quantidade absurda de Joões, Jorges, Paulos, Pedros, mas temos em igual monta uma quantidade fenomenal de Charles, Brunos, Wanderleys, Wagners.
O que aqui pode ser visto como um padrão de escolha de nomes (parece um respeito pela preservação da cultura e idioma), no Brasil é o atestado público de identificação de um país de imigrantes, algo também evidente nos sobrenomes, aqui chamados de apelidos, como Garschagen.
Melhor? Pior? Se penso que a falta de diversidade leva a uma repetição, inclusive dos sobrenomes (coisa que num país como o Brasil levaria ainda mais homônimos para a cadeia por crimes cometidos por um bandido de mesmo nome, numa Operação Shylock Tropical), também penso que a diversidade é um sortilégio de sandices. Os bebês portugueses nunca vão correr o risco dos bebês brasileiros de serem batizados como Wandercley, Neosalau, Greycy Quelly, Cridence Cliuauder Rivaivol (como é possível notar sem qualquer esforço o pai era grande fã do grupo Creedence Clearwater Revival).
Um grande amigo brasileiro, Fernando Gomes, escreveu um texto que resume à perfeição o dilema dos genitores brasileiros:
“Eram um casal. Tiveram gêmeos: Singrid, Ingrid, Sísifo. Decididamente, não estavam preparados”.
1 commentTexto sobre romance do Francis só amanhã
Mais uma desculpa, que é menos esfarrapada do que honesta. Dia resolvendo problemas e com alguns compromissos, algo que certamente vocês já devem estar de sacola cheia de ler aqui.
E eu que me meti de escrever diariamente, quando não consigo, lá vou com minhas lamúrias. Mas a justificativa é uma forma de respeito, espero que entendam assim. Amanhã vem o texto sobre o romance Carne Viva, de Paulo Francis. Depois quero comentar os textos que foram escritos sobre o livro que reproduzi no post aí debaixo. Acho que vou comprar algumas brigas, mas, enfim, a maldição move, a bênção relaxa, já dizia Blake, cujo nome eu sempre esqueço de omitir e assim fazer parecer que a frase é minha. Damnit!
No commentsE o novo romance do Paulo Francis?

Acabo de ler o romance Carne Viva do Paulo Francis, presente do meu grande amigo FDR. Gostei, gostei mesmo. Mas nada vou escrever hoje. Estou um bagaço.
Mas para não deixar vocês sem terem o que ler fiz uma seleção do que foi escrito sobre o livro para fazer alguns comentários. Divirtam-se:

PAULO FRANCIS, O “LOBO HIDRÓFOBO”, RESSURGE EM “CARNE VIVA”
O nome de Francis voltou às páginas neste ano da graça de 2008 com o lançamento de um romance inédito que ele deixou, “Carne Viva”. É um presente para os fãs do auto-declarado “lobo hidrófobo” ( Uma vez, perguntei a ele como é que ele – que, quando criança, alegadamente exibia um ar de cão hidrófobo – se definiria na maturidade. Francis respondeu: “Que tal lobo hidrófobo” ? ) Publicado pelo selo Francis da Editora Landscape, este bem-vindo sinal de vida de Paulo Francis acaba de chegar às boas casas do ramo. Resenhistas já notaram que, quando personagens do romance abrem a boca para falar do estado geral das coisas, parece que é o próprio Francis quem fala. A “confusão” poderia parecer um defeito do romance. Mas eu diria que é uma virtude. Ainda bem que é possível ler de novo o que parece ser a voz de Francis. Há trechos do livro que – felizmente – parecem tirados da coluna fantástica que Francis publicou durante anos e anos na imprensa.
Carne Viva e Paulo Francis
Michel Laub
Não lembro quem disse que para escrever um romance é preciso ser um pouco burro. É uma boa frase, para além de seus efeitos publicitários: construir personagens e dramas que tenham o mínimo de vida demanda, antes de mais nada, não ter vergonha de deixá-los entregues ao ridículo que, em maior ou menor grau, está presente em qualquer trajetória humana. Se o autor fica o tempo todo mostrando que não faz parte desse ridículo, ou seja, que não é capaz de rir, chorar ou se maravilhar com os encantos mesquinhos e corruptos da vida, a tendência é que o leitor, também ele uma alma corrupta e mesquinha, não se identifique com nada do que encontra nessas histórias.
Isso é verdade na maioria dos casos, mas não em todos. Não dá para dissociar o romance satírico, por exemplo, do bem-vindo sentimento de superioridade de quem o escreve. Ou o romance de idéias, que abdica da narrativa e da empatia em favor de teses postas na boca dos personagens, de um tipo de prazer estético muito mais ligado à inteligência do que às emoções.
Tudo isso para dizer que o fracasso do só agora publicado Carne Viva (Francis, 2008, 264 págs.), de Paulo Francis, não se deve apenas à sensação de artificialidade da trama, que parece engendrada tão-somente para veicular as opiniões de seu autor sobre o Brasil, o mundo, o homem, os tempos. Embora seja um defeito bastante incômodo, que faz com que alguns diálogos soem constrangedores em seu esquematismo e inadequação, o problema maior são as idéias mesmo.
RODAPÉ
Daniel Piza
Li durante o vôo, com grande expectativa e saudade, o romance póstumo de Paulo Francis, Carne Viva. Ele morreu sem rever o texto, que era sua última tentativa de fazer sucesso como ficcionista, inspirada em autores como Rubem Fonseca, e sua viúva Sonia Nolasco decidiu publicá-lo agora, 11 anos depois de sua morte. Francis tentou abandonar o estilo de seus romances dos anos 70, Cabeça de Papel e Cabeça de Negro (que dizia influenciados por Joyce, mas que mais lembravam tentativas de um fã de Aldous Huxley e D.H. Lawrence), e escrever com mais brevidade e simplicidade. Infelizmente, não conseguiu.
Não há página que não tenha uma observação e uma citação que não sejam a cara do autor. Como aquele músico de Machado de Assis, Francis se sentava para escrever uma coisa diferente e… só saía o de sempre. O distanciamento, os silêncios do grande ficcionista não existem nessa história de um banqueiro, Francisco Guerra, que presencia o Maio de 1968 em Paris. Guerra é uma caricatura do próprio Francis, Paris mal se vê no romance, e as cenas de sexo são quase risíveis. Ele foi o maior jornalista de opinião do Brasil, e não é por este livro que o leitor saberá disso.
O livro-confusão de Francis
Chega às livrarias “Carne Viva”, romance inédito de Paulo Francis que teve sua publicação adiada por mais de dez anos e sofreu modificações
MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCALWaaal… Demorou dez anos, mas finalmente ficou pronto. Chega às livrarias no próximo dia 15 o aguardado romance inédito de Paulo Francis (1930-1997), prometido há mais de uma década e que fecharia o ciclo iniciado com “Cabeça de Papel” e “Cabeça de Negro”. Antes mesmo da sua publicação, “Carne Viva” já tem uma longa história. A começar pelo título, que originalmente seria “Jogando Cantos Felizes”.
Aos fatos. O livro, que agora será lançado pela Landscape (editora que comprou o catálogo da editora Francis, fundada em 2002), seria publicado em 1998 pela Companhia das Letras. Antes de morrer (em 1997), Francis mostrou os originais para o editor Luiz Schwarcz, que sugeriu modificações. Segundo a jornalista Sonia Nolasco, viúva de Francis, ele não concordou com todas as mudanças.
“Concordou com a maioria, que fez à mão. A editora Francis tem cópias, e também o Luiz. Como editora do livro, eu respeitei tudo”, afirma Nolasco. A versão que chega agora às livrarias, portanto, tem alterações que teriam sido decididas de comum acordo entre Francis e Schwarcz, executadas por Sonia Nolasco.
Luiz Schwarcz confirma e diz que “seria difícil avaliar se o resultado está próximo do sugerido”, pois afirma que não guarda mais o original. Há um ano, Roberto Nolasco, irmão de Sonia e então responsável pela editora Francis, já planejava a publicação do livro. Disse na época que cogitava chamar amigos do jornalista para que fizessem três finais para a obra. Sonia nega enfaticamente que o livro estivesse inacabado. “Carne Viva” foi completado, totalmente, muito antes da morte do autor”, afirmou à Folha.
A carne viva de Paulo Francis
Por César Fonseca em 15/4/2008
Carne viva, de Paulo Francis, 264 pp., Editora Francis, São Paulo, 2008
O dispositivo janguista que não disparou para evitar que os gorilas assaltassem o poder e nele ficassem 21 anos fazendo desaforos com o sonho democrático nacional representaria a vergonha e a covardia tupiniquins. Mexe com os nervos de cada um.
É uma das conclusões que poderiam ser levantadas pela leitura do instigante Carne viva, de Paulo Francis [Editora Francis, 264 pp., 2008], depois de observar o desvario mental de Almeida, personagem expulso por 1964 para viver no exílio em Paris, onde, em 1968, o personagem central do romance, o banqueiro Guerra, está acompanhando a revolução social democrata burguesa juvenil que abalou o mundo.
No commentsO 68 de Paulo Francis
Luís Antônio Giron
A trama de Carne Viva é uma reminiscência ficcional da viagem. Conta como o Maio de 68 revoluciona a vida de um banqueiro carioca, Francisco Guerra. As mensagens de amor livre e “imaginação no poder” preconizadas pelos estudantes calam fundo no herói. Como Francis, ele se encontra no calor dos protestos. Ao pôr à prova o sexo, idéias e preconceitos, assiste à implosão de sua visão de mundo. Poderia ter sido a ficção definitiva de Francis. Mas resultou numa entre tantas outras tentativas de jornalistas em conquistar a glória literária. Como fragmento, porém, revela o gênio do autor em narrar casos e interpretar corrosivamente seu tempo. Nesse testamento artístico, Paulo Francis prega a revolução pela resignação – sem abdicar do veneno.
Artigo para O Globo
Hoje ainda ou amanhã reproduzo a página de O Globo de hoje com meu artigo que fala de como a China, que sedia os Jogos Olímpicos, usa o desenvolvimento econômico para legitimar o governo autoritário.
No commentsCOMUNICADO: Garschagen na página de opinião de O Globo desta segunda
Amanhã, segunda-feira, deve sair um artigo meu na página de opinião do jornal O Globo. Leiam e, se tiverem vontade, venham cá me dizer o que acharam. Boa noite, meus caros.
2 commentsBandidos brasileiros, estudantes brasileiros e Oscar Wilde em Portugal (duvida?)

Quinta passada dois brasileiros tentaram assaltar uma agência do Banco Espírito Santo (BES) num lugar chamado Campolide, aqui em Portugal (veja as fotos aqui). Depois de algumas horas de negociação sem solução os snipers da polícia atiraram, mataram um e feriram o outro, que está internado o hospital. Por quê conto essa história? Porque as reações mais indignadas que ouvi não foram dos portugueses, mas de estudantes brasileiros de mestrado que moram aqui. Todos manifestavam a revolta dos justos: “malandro em vez de trabalhar (e trabalho há) inventa de roubar. Se o preconceito contra brasileiro aqui já é uma merda, imagine agora?” É claro que a indignação leva ao exagero retórico, mas é interessante notar como brasileiros, digamos, qualificados (na comparação com a maioria dos imigrantes das Terras de Vera Cruz que vem para cá ser trabalhadores braçais) reagem a esse tipo de situação e ao preconceito contra os imigrantes brasileiros, preconceito esse que quase todos eles nunca sofreram diretamente.
Mas daí me pergunto? Ouvir de um português um entusiasmado “você nem parece brasileiro!” (como ouvi algumas vezes) não é uma forma de discriminação positiva? Eu costumo reagir com um muxoxo esnobe porque a frase é, na aparência, um elogio, mas na essência, um insulto que não ousa dizer o nome (para usar o aforismo do senhor Wilde).
Os portugueses adoram os brasileiros, costumo ouvir por aqui. Mas os portugueses estão cansados dos imigrantes brasileiros mal-educados que fingem esquecer que estão num país que não o deles. No Brasil, a má-educação desses brasileiros é discriminada e reprovada, como aqui. Mas lá eles podem agir impunemente porque representam a si próprios. Eles têm o direito de ser os idiotas que são. E se cometerem crimes serão julgados e punidos. Num país estrangeiro o brasileiro não é dono de si próprio. Mesmo que não queira, mesmo que rejeite com todas as forças, mesmo que renegue a pátria por três vezes, como Pedro a Cristo, ele também representa os vícios e virtudes de sua nação. Os bandidos que tentaram assaltar o BES não eram apenas o Wellington Nazaré e o Nilson Souza (morto na ação); eram, acima de tudo, brasileiros que moravam ilegalmente em Portugal.
A indignação dos estudantes é uma reação demasiado humana: a agressividade é uma forma de estabelecer a diferença por causa do fator comum de ser brasileiro, que, em casos como esse, é uma espécie de marca da besta cravada na testa. Eu, pessoalmente, não me importo com a nacionalidade. Os idiotas são maioria em todos os lugares do mundo. Não tenho mais amigos no Brasil do que os que tenho aqui. Cinco amigos em cada lugar em que se mora é o máximo que uma existência civilizada suporta; é o máximo de gente que se pode reunir num restaurante e conversar sem que seja preciso berrar ou negligenciar qualquer um deles.
Os assaltantes eram brasileiros? Eram. É isso o que fica. Ser brasileiro é uma condição muito mais poderosa do que ser bandido.
No commentsQuantos escritores brasileiros vivos vocês já leram e se emocionaram?

O melhor de não estar no Brasil é não ser obrigado a acompanhar o que acontece na literatura nativa. O melhor de saber que existe a literatura brasileira contemporânea é ter a liberdade de se recusar a ler 98% do que é publicado.
Um desafio rápido: quantos escritores brasileiros vivos vocês já leram e se emocionaram? Viram ali um grande escritor? Eu conto em metade dos dedos de uma das mãos. Há pouco mais de um ano eu responderia, de imediato, dois nomes: Bruno Tolentino e Antonio Fernando Borges. Sobrou-me o Borges e mais três, que preciso lembrar antes de escrever aqui. Não é maldade, nem vontade de polemizar, mas a lembrança imediata é uma bela forma de identificar aqueles autores que te acompanham a todo momento.
E, claro, vocês hão de me perguntar: o que faz do escritor um grande escritor? Não há uma resposta simples nem breve. E é por isso mesmo que a resposta não vem hoje. A conversa continua.
PS: Ou ninguém que visita este blogue leu Ulisses ou ninguém dá qualquer importância ao livro ou, se calhar, escrevi bobagens tão monumentais que não valeram um mísero comentário. Damnit!
7 commentsJPCoutinho, Hayek, Dicta&Contradicta

Na Folha de hoje, João Pereira Coutinho, excelente como sempre, fala sobre a revista Dicta & Contradicta:
2 commentsHayek para o século 21
O Estado deve ser capaz de estabelecer as regras do jogo, mas não lhe cabe comandá-lo
AS MELHORES revistas são aquelas que nos obrigam a repensar. Lemos artigos, confrontamos sabedorias nossas. E depois reformulamos o conhecimento num processo invisível e contínuo. Creio que era essa a idéia que Hayek defendia ao falar da emergência e do florescimento da civilização ocidental: um processo epistemológico em que diferentes mentes interagem espontaneamente umas com as outras, sem interferência de um Estado central e centralista.
E se lembrei Hayek foi por causa de uma revista recentemente lançada no Brasil, um pequeno milagre de inteligência e bom gosto gráfico. A revista se chama “Dicta & Contradicta”, tem periodicidade semestral (que pena) e procura ser uma espécie de “The New Criterion” em língua portuguesa.
Caso não saibam, a “The New Criterion” é a bíblia conservadora e liberal da intelligentsia nova-iorquina, e a “Dicta”, na escolha e disposição dos temas (ensaios + perfis + artes + letras), emula, na perfeição, a irmã mais velha da Big Apple.
Talvez por isso o primeiro número, que conta, entre outros, com um ensaio notável de Luiz Felipe Pondé sobre o “Eclesiastes” (ensaio que me obrigará a reler “Herzog”, de Saul Bellow, com outros olhos), inclui também texto de Roger Kimball, um dos fundadores da “The New Criterion”, sobre Hayek, o austríaco nascido em 1899 e que acabaria por conhecer a fama internacional em 1944, com a publicação de “The Road to Serfdom”.
Kimball acerta ao afirmar que “The Road to Serfdom” é, ainda hoje, um dos mais poderosos libelos a favor da liberdade individual e contra o planejamento econômico que seria dogma nas economias européias do pós-guerra.
Mas, lendo Kimball e relendo Hayek, não estou inteiramente seguro de que todos os pontos do austríaco mantenham, ainda hoje, validade e pertinência.Para começar, não estou inteiramente certo de que a existência de um Estado social, capaz de garantir proteção e ajuda para os mais desfavorecidos, seja o primeiro passo para o “caminho da servidão” que Hayek denuncia no título da sua obra.
A Suécia ou a Dinamarca, para citar apenas dois exemplos em que o Estado participa generosamente nas economias internas, só por piada podem ser considerados Estados “totalitários”, comparáveis à Alemanha nazista ou à União Soviética comunista.
E, para ficarmos dentro da família conservadora, as reformas sociais de Disraeli ou Salisbury na Inglaterra, longe de restringirem as liberdades individuais, foram uma condição para o seu exercício no século 20.Por outro lado, relendo “The Road to Serfdom”, questiono se, como escreve Hayek, a educação e a inteligência promovem necessariamente o pluralismo político anti-autoritário. A história do século 20, por vezes, aponta para o inverso: intelectuais sofisticados, como Sartre ou Heidegger, aderiram a programas autoritários. Para mentes irrecuperavelmente monistas, a diferença pode ser vista como um vício, não como uma virtude.
Apesar disso, “The Road to Serfdom” ainda é válido para o século 21. Começa por ser válido ao relembrar, de forma expressiva (e corajosa), as semelhanças teóricas e práticas entre o fascismo, o nacional-socialismo e o comunismo, três tiranias gêmeas de vocação revolucionária que, ao procurarem recriar o “homem novo”, acabaram por degradar e destruir o “homem velho”.
Mas Hayek é sobretudo útil ao relembrar que o Estado não deve ser um agente moral: uma entidade dotada de capacidade e poder para impor sobre terceiros uma única visão da vida.
Isso implica, segundo Hayek, um respeito pelo indivíduo e pela capacidade deste de perseguir os seus interesses. O Estado deve ser capaz de estabelecer as regras do jogo, mas não lhe cabe comandar o jogo, muito menos estabelecer o resultado final desse jogo.
Como afirma Kimball, na passagem mais relevante do texto que a “Dicta & Contradicta” oferece agora aos leitores brasileiros, Hayek entendeu, como Tocqueville antes dele, que o efeito mais perverso do “paternalismo de Estado” é de natureza psicológica.
Ao tratar os seres humanos como eternas crianças, o governo permite que os seres humanos vejam a eles próprios como crianças. A interiorização desse sentimento faz com que os indivíduos se sintam crescentemente dependentes, sem autonomia e, no limite, sem caráter nem dignidade próprios. E nenhum adulto amante da liberdade aceita viver num jardim de infância.
