As políticas de fé e de ceticismo de Michael Oakeshott

Hoje começou o curso A literatura da política que João Pereira Coutinho ministra nos dias 23, 24, 28, 29, 30 e 31 no Instituto Internacional de Ciências Sociais, cujo trabalho eu louvo, saúdo e divulgo entusiasticamente.
Enquanto escrevo este post a primeira aula está para além da metade. São 23h50 em Lisboa, 20h50 em São Paulo. A ementa do curso é a seguinte:
A LITERATURA DA POLÍTICA
Porque a política é também uma arte
Partindo do pensamento de Michael Oakeshott, o curso irá explorar a dimensão teórica e literária da política da fé e da política do ceticismo, tal como apresentadas na obra The Politics of Faith and the Politics of Scepticism. Iremos argumentar que os pólos em que se articulam a prática e o discurso políticos da época moderna, longe de se constituirem como um património da Teoria Política, permitem uma abertura à tradição literária e artística do Ocidente, que a enriquece e a clarifica.
Assim, as sessões serão articuladas da seguinte forma:
1. Apresentação da política da fé e da política do ceticismo em Michael Oakeshott.
2. Francis Bacon e Michel de Montaigne como paradigmas da política da fé e da política do ceticismo.
3. Edmund Burke e William Shakespeare: a importância das “compungidas visitas da Natureza”
4. Monistas e pluralistas: Isaiah Berlin e a apologia de Ivan Turgeniev
5. O ópio dos intelectuais: Raymond Aron e Jean-Paul Sartre
6. Bernard Williams, Paul Gauguin e Joseph Conrad: uma reflexão sobre a contingência
Gostaria de ter a sorte dos paulistanos para participar do curso. Embora esses assuntos sejam temas de conversas freqüentes é sempre educativo ouvir o João discorrer sobre esses temas, ele que na Universidade Católica dá aulas sobre Edmund Burke na cadeira de Tradição dos Grandes Livros para a graduação (aqui chama-se licenciatura) de Ciência Política (não é impressionante um curso ter uma disciplina que trata de obras de referência da cultura mundial?).
O tema principal que perpassa os autores escolhidos é a teoria de Oakeshott sobre política da fé e política do ceticismo. O que são?
A política de fé é baseada na idéia da perfeição humana. E a certeza de que o ser humano pode ser aperfeiçoado faz com que o indivíduo ou grupo que detenha o poder cometa toda sorte de atrocidades para moldar a sociedade de acordo com esse projeto de perfeição. Há alguns elementos que caracterizam a política de fé:
a) a crença de que para cada problema político há somente uma solução, que é a melhor;
b) o desenvolvimento de uma política de perfeição, não importa o método ou instrumentos necessários para sua implantação;
c) o estabelecimento de uma política de uniformidade, que em nome da igualdade aniquila o indivíduo e os avanços decorrentes do estímulo ao mérito, além de se converter numa fonte perversa de desigualdade;
d) se é preciso impor uma política de perfeição, conseqüentemente (mantenho o trema, apesar de sua degola pelo Acordo Ortográfico), sua irmã gêmea é a política da intolerância. A tolerância inviabiliza o projeto de reengenharia social;
e) o resultado final da política de fé é uma política de centralização absoluta do poder e da ação. Só assim o projeto pode se afirmar, se desenvolver e ser preservado.
A política de ceticismo também pode ser chamada de política de imperfeição. Esta não é uma política que se contrapõe à política de fé, embora sejam adversárias; antes é um princípio humano de que a política de fé é uma aberração.
O fato de a política de ceticismo ser cética em relação à idéia da perfeição humana, e por isso não ter qualquer projeto de remodelagem do indivíduo, faz com que não pretenda abolir a política de fé. Porque a defesa da extinção da patologia racionalista implica necessariamente na assunção do projeto de perfeição pela eliminação das idéias contrárias. Para citar um exemplo ilustrador: um revolucionário (comunista ou fascista) põe fim ao debate com uma bala na nuca do interlocutor; um liberal ou conservador aceita o contraditório e acha que a contraposição de idéias favorece os diferentes modos de vida numa sociedade.
A política de ceticismo tem como elementos substantivos:
a) a crença de que para cada problema político há uma solução que é a melhor sob determinadas circunstâncias. Portanto, não há uma única e perfeita decisão. Há, sim, decisões concorrentes que são aplicadas de acordo com a necessidade, conveniência e oportunidade;
b) a política de ceticismo é uma política de imperfeição porque rejeita a idéia de perfeição humana e, obviamente, todos os desdobramentos nefastos desse projeto;
c) desfrutar as conquistas do desenvolvimento humano e social estimulando e protegendo os diferentes modos de vida;
d) como decorrência do item anterior, há uma forte ligação com o presente porque não há a pretensão de se construir um futuro perfeito. Mas essa ligação com o presente não significa rejeitar (ou renegar) o passado e desconsiderar o futuro.
Há muitos teóricos que analisam a política de fé e a política de ceticismo como pólos desligados que se opõem. A leitura que faço de Oakeshott nesse aspecto é: a política de ceticismo é o grande círculo onde está contido a política de fé. É como revolucionários que vivem numa democracia e querem destruí-la seguindo uma política racionalista (de fé). Quanto à necessidade, ou condição, de haver equilíbrio entre as duas posições, vejo na política de ceticismo todos os elementos de tensão que permitem sua preservação e desenvolvimento ativos sem que seja preciso uma política de fé para desequilibrá-la.
Discordo do entendimento de ver a política de fé como um pólo de equilíbrio, como se a política de ceticismo não contivesse em seu cerne vários pontos de equilíbrio, tensão, oposição etc.
Acho que é possível desenvolver mais esse tema. Mas fica para um próximo post.
2 Comments so far
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Pelo visto meus comentários serão desnecessários. Você já tem a pauta de antemão!
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Embora não tenha lido os textos em que se fundamenta o curso, assisti à aula e, portanto, acredito que posso fazer algumas observações sobre seu post.
1) Um dos traços diferenciais entre Oakeshott e outros pensadores conservadores é o fato de que ele não se tornou um conservador apenas de maneira reativa. Sua teoria política é uma espécie de implicação lógica de sua epistemologia, tal como traçada em “Experience and its modes”, de 1933.
2) Parece-me que a sua caracterização da política do ceticismo está otimista demais e não aponta sua vulnerabilidade. Nesse sentido, foram destacados dois problemas: o quietismo político, que, se bem entendi, é a incapacidade de reagir ante as ameaças (pensemos, por exemplo, na dificuldade de lidar com o terrorismo. O Ocidente está, de certa forma, indefeso ante tal ameaça); e o relativismo.
Na conclusão da aula de hoje, Coutinho procurava apontar os polos opostos não como uma oposição implacável, mas como uma “concordia discors”. É necessário haver equilíbrio entre uma posição e outra.
Estou ainda digerindo o que foi dito. Talvez até o final do curso eu consiga ter uma idéia um pouco mais clara.
Seja como for, o curso tem sido ótimo.
[…] no post As políticas de fé e de ceticismo de Michael Oakeshott o que havia de interessante no texto que eu havia escrito aqui mesmo de forma ligeira pela manhã […]