!Individual!
Mary McCarthy. Durante anos era para mim apenas a segunda mulher de Edmund Wilson, o intelectual americano que eu adorava. A imagem que eu tinha, extraída da biografia de Wilson, não era das melhores: uma mulher carente cujo enorme talento foi potencializado pelos maus tratos de um dos mais importantes e competentes críticos literários dos Estados Unidos. A história de que Wilson trancou-a no quarto dizendo que ela só sairia de lá quando terminasse um romance (cujo nome não lembro e estou sem o livro aqui para checar) é emblemática.
O primeiro livro que li foi Uma vida encantada (A charmed life), com um delicioso prefácio do Paulo Francis, que qualificava o texto da senhorita McCarthy de “arame farpado verbal”. Francis era um entusiasta do poder de fogo intelectual de Mary, que foi uma exigente crítica teatral, ensaísta e, claro, romancista. O livro? Sim, arame farpado verbal ao compor uma análise satírica e afiada de um grupo de artistas e escritores, egoístas irresponsáveis, de Cape Cod. Mary, como os grandes escritores americanos, sabe esmiuçar sutilezas de caráter sem adjetivar, só narrando a história.

O segundo livro que li foi O grupo (The group), a história de oito alunas do Vassar College, o tradicional colégio de elite de Nova York, um verdadeiro liberal arts college. Cruzar histórias sem oscilar os perfis e as caracterizações não é para qualquer um. Mary mantém o vigor da narrativa sem perder nuances, matizes e a violência moral própria de ambientes escolares. Anos depois as amigas se reencontram no funeral de uma delas, a Kay (não, essa informação não prejudica sua leitura.) O Grupo é a obra mais famosa da escritora, mas eu ainda prefiro A charmed life.
O terceiro livro dela que peguei, Pássaros da América (Birds of America) não me caiu bem na época. Achei monótono logo no início e fiz algo que não costumo fazer: abandonar uma leitura.
The Writing on the Wall foi o quarto livro que li. É uma coletânea de ensaios sobre vários escritores. Gosto especialmente do texto sobre Hannah Harendt, de quem Mary foi grande amiga (quem quiser avançar no diálogo intelectual entre as duas há o livro Between Friends: The Correspondence of Hannah Arendt and Mary McCarthy. Romendo também vivamente os textos sobre Salinger e Nabokov.
Quem se interessar, como eu, pelo caso Watergate, sugiro a leitura de The Mask of State: Watergate Portraits, onde ela faz o perfil dos homens do presidente Nixon (são imperdíveis ainda os livros Os últimos dias (The final days) e Todos os homens do presidente (All the president’s men), de Bob Woodward e Carl Bernstein, mas leia sabendo que ambos são democratas de carteirinha)
Confesso nunca ter lido as críticas teatrais de Mary e nem todos os romances. Quando quis ler meu inglês não dava nem para pedir um hot dog. Agora que dá a lista de leituras prioritárias já dobra o quarteirão.
Politicamente, McCarthy foi uma das corrompidas pelo esquerdismo. Mas era inteligente e highbrow demais para ser comunista. Apoiando-se nessa contradição psicoideológica, converteu-se numa escritora sofisticada com talento para avaliar o trabalho dos colegas e com um texto que aliava elegância e violência. Ela foi uma heroína cultural de uma geração, nas palavras da sofisticada (e igualmente violenta) crítica de cinema Pauline Kael.
Selecionei para vocês, no pouco material que garimpei na internet, uma lista de leituras sobre Mary (infelizmente, quase todos em inglês):
- Frases (imperdíveis);
- Breve perfil;
- Um perfil curto no Vassar College Libraries;
- Dois pequenos perfis em espanhol: aqui e aqui;
- Um perfil em português (o único que achei).
- Textinho em que Paulo Francis escreve sobre a face de crítica teatral de Mary McCarthy.
- Texto em que Alexandre Soares Silva “entrevista” Francis e cita Mary.
A intenção desta seção !Individual! é convidar-vos a ler um escritor, intelectual, filósofo etc, que faz parte da minha formação. Espero que gostem ou, pelo menos, absorvam algo de bom que todos oferecem, em maior ou menos grau. Desfrutem a leitura e bom sábado. Brindem por mim!
3 Comments so far
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Legal, Bruno, saber de Mary McCarthy, pois estou lendo Rumo à Estação Finlândia, de Wilson.
Quanto ao comunismo dela, pode ser impressão - ou ignorância - minha mas percebi, nesse livro de Wilson, certa empolgação n’algumas partes que versam sobre o advento do socialismo, digamos que nada imparcial.
[…] Austen é a segunda escritora desta seção inagurada na semana passada com a escritora americana Mary McCarthy. Amei seus livros antes de os ler. Era impossível não serem excelentes obras cujos títulos já […]
[…] Austen é a segunda escritora desta seção inagurada na semana passada com a escritora americana Mary McCarthy. Amei seus livros antes de os ler. Era impossível não serem excelentes obras cujos títulos já […]