Quando a análise política se converte em diagnóstico médico

Robert Kagan
Leiam com atenção trechos do seguinte texto publicado na Folha (assinante) de hoje:
SUCESSÃO NOS EUA / ESTRATÉGIA DE GUERRA
Republicanos apostam em militarismo
Convenção vai explorar fantasma do 11 de Setembro e vender McCain como solução
Intenção é reforçar imagem de senador como líder das Forças Armadas; analistas vêem risco em insistência em tema lateral na disputa
DANIEL BERGAMASCO
ENVIADO ESPECIAL A DENVERUm certo cheiro de pólvora já se espalha pelos EUA a partir de Saint Paul (Minnesota), onde o Partido Republicano promove entre amanhã e quinta-feira sua convenção nacional, que oficializará a candidatura do senador do Arizona John McCain à Casa Branca.
A temática militar, de forma direta ou diluída, permeará a programação, desenhada não apenas para enfatizar que McCain será o “melhor comandante-em-chefe” -mas para dizer que, sete anos depois dos quase 3.000 mortos nos atentados do 11 de Setembro, o país ainda tem o que temer.Ex-oficial da Marinha, como o pai e o avô, prisioneiro no combate do Vietnã por quase seis anos, McCain é tido nos EUA como “herói de guerra”. Tornou-se famoso após uma entrevista que deu na prisão, em cenas históricas de sofrimento que pavimentaram seu caminho ao Senado, onde está há quase três décadas.
A convenção celebrará essa biografia. Com o tema-chave “O país primeiro”, será dividida entre os tópicos “serviço” (em benefício da pátria), “reforma”, “prosperidade” e “paz”. Sobre os discursos de abertura na segunda-feira, a programação oficial diz que “iluminarão o histórico de sacrifício de John McCain e refletirão seu comprometimento em servir uma causa maior que seus próprios interesses”.
(…)
Nas pesquisas de intenção de voto, McCain é tido como mais preparado para ser comandante-em-chefe do que Barack Obama, em percentuais que são quase o dobro dos obtidos pelo democrata. Por outro lado, a segurança nacional é apontada como preocupação secundária do eleitorado, mais interessado hoje em questões como recessão e o preço da gasolina.
“McCain enfatiza o assunto que é seu trunfo entre os eleitores, mas corre o risco de exagerar. Ele pode repetir o erro do [ex-pré-candidato republicano Rudolph] Giuliani, que falava tanto de sua atuação memorável no 11 de Setembro [quando era prefeito de Nova York] que deixou a percepção de que estava usando friamente a dor como jogo político”, disse à Folha o analista político Michael McDonald, do instituto Brookings, de Washington.
(…)
Sem dificuldade
Para David King, da Universidade Harvard, McCain tem em seu favor pouco questionamento sobre suas posições. “Ele condenou duramente a Rússia por invadir a Geórgia, e nem eleitores nem a mídia fizeram o paralelo óbvio da invasão do Iraque pelos EUA, que ele defende. Assim não fica difícil reviver o medo da Guerra Fria.”
Ao contrário de Obama, que continua contrário à Guerra no Iraque e propõe um cronograma para retirada das tropas do país, o republicano afirma que é possível sair de lá com “vitória”.
(…)
Agora leiam o texto abaixo, também da Folha (assinante):
ARTIGO
Não se iludam, Obama é um autêntico intervencionista
Candidato democrata à Presidência dos EUA usa retórica da Guerra Fria, prega ingerência externa e promete aumentar o orçamento das Forças Armadas
ROBERT KAGAN*
Os Estados Unidos devem “liderar o mundo na batalha contra os males imediatos e na promoção do bem último”.
Com essas palavras, Barack Obama pôs fim à idéia de que o suposto idealismo exuberante e a soberba “americanocêntrica” dos anos Bush estariam prestes a abrir caminho para um realismo novo, uma visão mais restrita e modesta dos interesses, capacidades e responsabilidades dos EUA.O discurso de Obama no Conselho de Assuntos Globais de Chicago foi puro John F. Kennedy, sem qualquer sinal de John Mearsheimer. Teve um clima proposital de “nova fronteira”, incluindo algumas referências da era Kennedy (”fomos berlinenses”) e até mesmo a idéia da Guerra Fria de que os EUA são “o líder do mundo livre”.
Ninguém fala em “mundo livre” hoje em dia, e a insistência de Obama de que não devemos “abrir mão de nossa posição de liderança nos assuntos mundiais” será vista como conceito anacrônico por muitos europeus, que já na década de 90 se queixavam da “hiperpotência” dominadora. Em Moscou e Pequim, confirmará as suspeitas sobre o desejo inerente de hegemonia dos EUA. Mas Obama acredita que o mundo deseja nos seguir, desde que recobremos nossa condição de dignos de sermos seguidos. Pessoalmente, gosto disso.
(…)
Quando ele disse “ouvimos falar muito nos últimos seis anos sobre como o objetivo mais amplo dos EUA no mundo é promover a difusão da liberdade”, você por certo esperava que ele se distanciasse desse idealismo supostamente desacreditado.
Em lugar disso, Obama disse “concordo”. Sua crítica não é que tenhamos exagerado na ingerência, mas que ela não tem sido suficiente. Construir a democracia não se limita a “depor um ditador e montar uma urna”, defende.(…)
Precisamos reforçar “a capacidade dos Estados mais fracos do mundo” e provê-los “do que eles necessitam para reduzir a pobreza, erguer comunidades saudáveis e instruídas, desenvolver os mercados, gerar riqueza, combater o terrorismo, frear a proliferação das armas mortíferas” e combater as doenças. Obama propõe que até 2012 sejam duplicados, para US$ 50 bilhões, os gastos anuais com esses esforços.
Não se trata de um desejo de fazer o bem em nível internacional. Para Obama, tudo e todos, em toda parte, são uma preocupação estratégica dos EUA. “Não poderemos esperar moldar um mundo em que as oportunidades pesem mais do que os perigos se não assegurarmos que cada criança, em toda parte, aprenda a construir, e não a destruir.” A “segurança da população americana está vinculada inextricavelmente à segurança de todos os povos”.
OK, diz você, mas, pelo menos, Obama está propondo essa atividade em estilo forças de paz como substitutas da força militar. Com certeza ele pretende reduzir o orçamento da defesa, que no ano passado ultrapassou US$ 500 bilhões, ou ao menos limitá-lo. E ele sabe que não existe solução militar para acabar com o terrorismo.
Na realidade, Obama quer aumentar os gastos com a defesa. Ele quer somar 65 mil soldados novos ao Exército e recrutar 27 mil fuzileiros. Para quê? Para combater o terrorismo.
Ele quer que as forças americanas “sigam na ofensiva, de Djibuti a Candahar”, e acha que “a capacidade de colocar militares em campo será crítica para a eliminação das redes terroristas”. Quer assegurar que continuemos a ter “as Forças Armadas mais fortes e mais bem equipadas do mundo”.
Em momento algum Obama diz que a força militar só deve ser empregada como último recurso. Em lugar disso, ele insiste que “nenhum presidente deve hesitar em empregar a força -de modo unilateral, se necessário”, não apenas “para nos proteger quando formos atacados”, mas também para proteger “nossos interesses vitais” quando eles sofrerem “ameaça iminente”.
Isso tem um nome: ação militar preventiva. E não vai tranqüilizar aqueles que, em todo o mundo, acham preocupante deixar um presidente americano decidir o que é um “interesse vital” e quando ele sofre “ameaça iminente”.As pessoas no mundo tampouco se sentirão reconfortadas ao ouvir que “quando usamos a força em situações outras que não a autodefesa, devemos fazer todos os esforços para conquistar o apoio e participação claros de outros”. Fazer todos os esforços?
Uma ausência notável nas declarações de Obama sobre o uso da força é formada por seis palavras: Conselho de Segurança das Nações Unidas. Obama fala sobre “países fora-da-lei”, “ditadores hostis”, “alianças robustas” e a manutenção de uma “dissuasão nuclear forte”. Fala sobre como devemos “aproveitar” o “momento americano”.Devemos “começar o mundo novamente”. Isso é política externa de esquerda? Pergunte a Noam Chomsky na próxima vez em que o encontrar. É claro que isso é apenas um discurso.
*ROBERT KAGAN é associado-sênior do Fundo Carnegie pela Paz Internacional, membro transatlântico do German Marshall Fund e assessor informal do candidato republicano John McCain. Seu livro mais recente é “The Return of History and the End of Dreams” (A volta da história e o fim dos sonhos). Este artigo foi publicado antes no “Washington Post” e distribuído pelo New York Times Syndicate
Robert Kagan é um arguto estudioso da política e das relações internacionais. Qualquer indivíduo interessado em política internacional já leu o seu Of Paradise and Power (Knopf, 2003). Reparem que a matéria do jonalista enquadra McCain como um intervencionista que age diplomaticamente pela via militar enquanto Obama, “continua contrário à Guerra no Iraque e propõe um cronograma para retirada das tropas do país”. McCain, segundo o jornalista, tolamente “afirma que é possível sair de lá com ‘vitória’”. Em quem o leitor deve confiar se não tiver referências prévias sobre o assunto? Primeiro, Kagan é identificado como “assessor informal do candidato republicano John McCain”. Assim, tudo o que escreva corre o risco de ser ignorado ou rechaçado porque, afinal, ele é assessor do adversário de bObama.
Seguindo essa linha de raciocínio, a matéria do jornalista da Folha reforça essa convicção: McCain é o candidato bélico; bObama, o estrategista sensato. Façam uma coisa: não acreditem em nenhum dos dois textos e busquem na internet por conta própria os discursos de bObama durante a campanha e cotejem com os de McCain. Se ao final da leitura vocês continuarem achando que bObama não é o intervencionista (como, aliás, é praxe entre os presidentes americanos do Partido Democrata), fecho este blogue e viro surfista na Califórnia (não que eu já não queira isso…).
Há uma certeza prévia de que os Republicanos são isso ou aquilo baseado numa confusa recepção das informações e na manipulação descarada das notícias pelas análises fraudulentas mais abjetas que se possam haver. Não tenho grandes simpatias por McCain. Se eu fosse americano, provavelmente, estaria naquela minoria que votou no congressista Ron Paul. Uma coisa, porém, é ter simpatia e outra é cometer um ato ardiloso para glorificar um partido e seus candidatos, não importa quem sejam.
O grande problema é que bObama está sendo festejado pelo que ele, decididamente, não é. Em muitas declarações sobre o que pensa a respeito da atuação dos Estados Unidos na esfera internacional ele é tudo aquilo que seus simpatizantes e defensores acusam o Partido Republicano (e a bola da vez é McCain) de ser/agir. Se McCain tivesse dito em discursos um terço do que bObama derramou em declarações públicas já tinha sido esmagado pela sociedade internacional, que, talvez por um complexo de culpa tão abjeto quando à causa que o originou, quer que os Estados Unidos eleja como presidente “o primeiro negro da história americana”. Não importam as credenciais; basta reunir as condições para ser enquadrado na cota.
Que sejam exaltadas as qualidades de bObama, vá lá. Que se crie uma peça de ficção para desqualificar e ignorar o que o próprio candidato diz publicamente, saímos de uma possibilidade de debate para a conversão dos interlocutores em objetos de estudo, como recomendava Voegelin (logo divido com vocês anotações que fiz da leitura do fundamental Reflexões autobiográficas). Assim, meus caros, saímos de um debate político para um diagnóstico médico. Deus seja louvado…
3 Comments so far
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Bruno, meu caro, creio que temos algumas discordâncias. Em primeiro lugar: até que tenho bastante simpatia pelo McCain. Quando ele fala sobre a permanência no Iraque, por exemplo, eu assino embaixo. No entanto achei extremamente condenável o populismo dele na questão Rússia X Geórgia. Se a política externa norte-americana fosse pautada pela cabecinha dele e, consequentemente, a Geórgia já integrasse a OTAN, os EUA estariam neste exato momento ingressando num confronto militar com uma potência nuclear. Not my idea of fun. Acho que falta ao McCain aquilo que Oakeshott descreveu como uma certa “disposição conservadora”. Eu acho que, sim, o candidato do GOP é (ou se mostra, pelo menos) excessivamente belicoso quando o assunto é Rússia. Ora, até mesmo Winston Churchill – em 1953, depois da morte de Stálin – percebeu a urgência de ter Moscou como interlocutora. Henry Kissinger – aquele mesmo acusado de crimes de guerra pelo Christopher Hitchens (ah, o furor revolucionário!) – já havia percebido isso ao aconselhar Richard Nixon a assinalar uma série de acordos militares com a União Soviética (a détente). Eu, sinceramente, tenho dificuldade em enxergar no McCain essa disposição de usar “soft power”. O contrário já se pode dizer do Obama. Não foi ele que disse, afinal, que estaria disposto a sentar com o Irã para negociar? Hoje em dia é impossível pensar uma solução para o Oriente Médio que não passe por Teerã. Aliás, Moscou também é essencial, não? Energia e combate ao terror. Acho que nós, conservadores, precisamos de mais pessoas influenciadas por Burke do que por esse pastiche de trotskismo chamado neoconservadorismo.
Grande abraço, rapaz.
Bem Garschagen, como a análise da campanha presidencial americana já foi comentada de forma excepcional pelo Gabriel Trigueiro, eu, de minha parte, fico aguardando ansiosamente seus comentários sobre “Reflexões Autobiográficas” do Voegelin, que foi um dos últimos livros que li e que me impressionou tremendamente.
[…] mas vamos lá. Gabriel Trigueiro, do Vaudevilleando, ao comentar o post Quando a análise política se converte em diagnóstico médico: Bruno, meu caro, creio que temos algumas discordâncias. Em primeiro lugar: até que tenho […]