Archive for Setembro, 2008
EXTRA! EXTRA! Novidades no blogue!!!

A partir da próxima segunda-feira o blogue terá seções fixas em dias determinados. Ficará, assim:
SEGUNDA
Ex-Libris: dicas de livros, revistas e blogues
TERÇA
3×4: uma seleção das fotos prediletas dos fotógrafos preferidos;
QUARTA
Metropolitan Garschagen Museum: seleção das pinturas preferidas dos meus pintores prediletos;
QUINTA
Ars Traductoris: a idéia é traduzir, com a ajuda de vocês, um livro para irmos “conversando” juntos com a obra;
SEXTA
Delicatessen, ou Planeta Sonho: dicas etílicas e gastronômicas:
SÁBADO
Bravo!: vou escolher um autor e publicar uma seleção de textos dele e sobre ele.
DOMINGO
Conversação: entrevistas exclusivas para o blogue com gente que admiro. A idéia também é tentar entrevistar gente da qual discordo radicalmente para ver como a conversa corre. Será, no mínimo, divertido.
PS 1: As seções fixas serão um acréscimo aos posts, digamos, normais do blogue. Quis estabelecer editorias como uma forma de estabelecer um compromisso definido com vocês e manter o blogue ativo diariamente, mesmo naqueles dias em que eu só puder inserir as seções. Espero que gostem e aprovem a idéia
PS 2: Assim que eu conseguir resolver problemas com hospedagem dos arquivos em áudio volto com a série Conversações.
9 commentsLudwig von Mises: o grande liberal

Sete décadas antes da antiga União Soviética agonizar na praça do Kremlin o economista austríaco Ludwig von Mises demonstrou antecipadamente a tragédia econômica que o socialismo iria patrocinar, claro, com dinheiro público. São dele três conclusões lapidares, publicadas no artigo “Economic Calculation in the Socialist Commonwealth”, em 1920:
1- o socialismo é desastroso para a moderna economia porque a ausência de propriedade privada (bens e capital) impede qualquer tipo de fixação racional de preço ou estimativa de custos;
2- a intervenção do governo na economia, ação estratégica do socialismo para controlar o mercado, é contraproducente e deve ser revogada;
3- a expansão dos livres mercados, a divisão do trabalho e o investimento do capital privado são os únicos caminhos possíveis para a prosperidade e o desenvolvimento da humanidade.
Mises, cujo aniversário de nascimento é comemorado hoje, foi um dos mais notáveis economistas liberais do século XX. E, nas ciências econômicas, um dos mais aguerridos defensores do indivíduo, massacrado em nome de uma massa despersonalizada. Ele via no laissez-faire irrestrito a única política econômica viável para o desenvolvimento de um país. Acreditava que o livre mercado e o exercício desobstruído do direito à propriedade privada eram garantias fundamentais do indivíduo. Ao governo caberia, restritamente, defender a pessoa e seus bens. Agora tentem imaginar uma coisa dessas no início da formação do império russo, quando o estatismo e o coletivismo (morte em massa) eram a bola da vez.
Sua obra tem por princípio um axioma fundamental, o de que o indivíduo age objetivamente para atingir as metas desejadas. Em “Ação humana – um tratado de economia”, de 1949, ele estabeleceu as bases desse pensamento econômico inovador.
Não foi do pai que o garoto Ludwig von Mises, nascido em Lemberg (ex-império Austro-Húngaro, atual Lvov) em 29 de setembro de 1881, herdou o espírito liberal. O legado parece ter vindo do tio materno, Joachim Landau, deputado pelo Partido Liberal no Parlamento Austríaco.
Mises cresceu em Viena. Na virada para o século 20, entrou para a universidade local. Era um esquerdista partidário do intervencionismo estatal, como muitos moleques de fraldas. Mas logo lhe caiu nas mãos o livro “Principles os Economics”, de Carl Menger, fundador da Escola Austríaca de Economia, o estopim para que se tornasse um entusiasta da economia de livre mercado. Liberal convicto, formou-se em direito e economia.
É de 1912 a obra “The Theory of Money and Credit”, na qual formula uma tese inovadora: o poder de compra do dinheiro é definido pela oferta e procura e numa economia de mercado os bancos devem se tratados como qualquer outra indústria. A tese, porém, sofreu críticas graves de seus colegas da Escola Austríaca. Em 1927, assenta as bases de sua filosofia política em defesa do laissez-faire em “Liberalismo”.
Com a ajuda de F. A. Hayek, outro grande expoente do moderno pensamento liberal, Mises desenvolveu a teoria do ciclo de negócios, nos anos de 1920. Com ela, avaliou que a permanente prosperidade daquela década era uma fraude e que o resultado inevitável daquela política econômica seria a depressão e a quebra do sistema financeiro. Em 1922, lançou uma pá de cal sobre o regime socialista. Em “Socialism”, fez a mais demolidora e abrangente crítica filosófica e sociológica já escrita contra o regime que apresentou ao mundo pacifistas do porte de Stálin, Mao, Pol Pot e Fidel Castro.
Como professor, Mises estimulou, na Europa, gente como o próprio Hayek, Gottfried von Haberler, John Van Sickle, Erich Voegelin etc. e, nos Estados Unidos, onde se exilou em 1940 para fugir do nazismo (era judeu e já havia escrito vários textos contra o nacional-socialismo), Henry Hazlitt, Murray N. Rothbard, Percy Greaves Jr. e Bettina Bien Graeves etc. É notável que tenha chegado aos Estados Unidos sem dominar o inglês e tenha publicado no idioma de Walt Whitman livros monumentais como “Theory and History – an interpretation of social and economic evolution”.
Até o final da década de 1960, o economista austríaco lecionou na Universidade de Nova Iorque. E foi na cidade lá que o velhinho morreu em 10 de outubro de 1973, praticamente esquecido. “A vida é cheia de piadas de mau gosto”, disse um amigo a Einstein ao saber que ele, jovem, batia cartão num órgão burocrático de patentes. Só isso explica que um ano depois de morrer a teoria elaborada com Hayek tenha dado, em 1974, o Nobel de Economia ao parceiro? Não só isso. O André Azevedo Alves me conta que muita gente estava convencida de que a morte de Mises era uma condição para Hayek ser considerado seriamente para o Nobel. E que, por várias razões, Hayek era a face aceitável dentre os intelectuais que demonstraram intelectualmente a falência intelectual do socialismo, do planeamento centralizado e do keynesianismo.
A partir daí, iniciou-se, então, a justa revalorização, com conferências e cursos da Escola Austríaca nos Estados Unidos, além da reedição e publicação dos ensaios de Mises traduzidos do alemão para o inglês. Vários desses textos estavam na biblioteca de seu apartamento em Viena, roubada pelos nazistas quando invadiram a Áustria e recuperada décadas depois do fim da guerra por Richard Ebeling, vejam só, num arquivo de Moscou. Como foi parar lá, só a KGB sabe.
Talvez o grande responsável pelo resgate da obra do economista austríaco tenha sido Llewellyn Rockwell Jr., um dos economistas mais admirados pelos jovens liberais no mundo ocidental. No Brasil, o primeiro site a divulgar Mises e Rockwell Jr. foi O Indivíduo. Rockwell criou em 1982 o Ludwig von Mises Institute, com sede em Auburn, Alabama, que publica livros, oferece cursos de economia segundo os princípios da Escola Austríaca e mantém um site que é uma referência (www.mises.org).
No Brasil, primeiro, graças ao trabalho do Instituto Liberal do Rio de Janeiro, tivemos acesso a seis obras de Mises traduzidas: “Ação Humana – um tratado de Economia”, “As seis lições”, “Intervencionismo – uma análise econômica”, “Liberalismo – segundo a tradição clássica”, “O mercado” e “Uma crítica ao intervencionismo”. “As seis lições“, um dos mais estimulantes e simples manuais introdutórios de economia já publicados, está disponível no site do OrdemLivre, assim como A ação humana. O OrdemLivre, como vocês devem ter visto, vem fazendo um excelente trabalho de divulgação da obra de Mises e de outros autores liberais.
É fato que na história do pensamento econômico ocidental o nome de Mises brilha por sua argúcia. Por pouco não ganhou o Nobel, mas deixou como legado uma obra devotadamente dedicada à liberdade do indivíduo e à consciência individual.
1 commentQuando as palavras são esvaziadas corremos o risco de pedir respeito e isso não significar absolutamente nada

Como é?
29/09/08 - 15h46 - Atualizado em 29/09/08 - 15h51
Lula sanciona reforma ortográficaNovas regras passam a valer a partir de 2009. Confira o que muda na língua escrita.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta segunda-feira (29) o decreto que estabelece a reforma ortográfica. As mudanças na escrita começam a valer a partir de 1º de janeiro de 2009. A solenidade ocorreu na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro.
A reforma da ortografia pretende unificar o registro escrito nos oito países que falam português - Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal.
De 2009 até 31 de dezembro de 2012, ou seja, durante quatro anos, o país terá um período de transição, no qual ficam valendo tanto a ortografia atual quanto as novas regras. Assim, concursos e vestibulares deverão aceitar as duas formas de escrita – a atual e a nova.
Nos livros escolares, a incorporação das mudanças será obrigatória a partir de 2010. Em 2009, podem circular livros tanto na atual quanto na nova ortografia.
O que muda na escrita
De acordo com especialistas, 0,45% das palavras brasileiras sofrerão alterações, ao passo que em Portugal haverá mudanças em 1,6% dos vocábulos. As regras que mudam são as seguintes:
Novas letras – há a incorporação do “k”, do “w” e do “y” ao alfabeto. O número de letras passa de 23 para 26.
Trema – deixa de existir. A grafia passa a ser: linguiça e frequente.
Acentos diferenciais – serão suprimidos acentos como o de “pára”, do verbo parar.
Acentos agudos de ditongos – somem os acentos de palavras como “idéia”, que vira “ideia”.
Acento circunflexo – somem os acentos de “vôo” ou de “crêem”.
Hífen – palavras começadas por “r” ou “s” não levarão mais hífen, como em anti-semita (ficará “antissemita”) ou em contra-regra (ficará contrarregra).
Pontos em aberto
O acordo não define todos os usos de hífens, por exemplo. Assim, palavras como pé-de-cabra, ainda não têm o rumo certo e dependem da elaboração de um vocabulário pela Academia Brasileira de Letras e pelos órgãos dos outros sete países signatários.
História do acordo
O acordo ortográfico da língua portuguesa foi assinado em Lisboa em 1990 e deveria ter entrado em vigor em 1994, o que não se concretizou. Em 1998, foi assinado em Cabo Verde um protocolo que modificava a data de vigência, que foi ratificado em 2002.
Sem que as mudanças se aplicassem, em 2004 foi assinado um novo protocolo modificativo, que previa a adesão do Timor Leste, independente desde 2002. Este novo protocolo previa que as mudanças na ortografia entrariam em vigor a partir da assinatura de três países.
O acordo ortográfico já foi ratificado por Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal, e, portanto, pode entrar em vigor. O processo de implementação em cada país pode variar.
Em Portugal, o acordo foi aprovado em maio e a nova ortografia deverá ser obrigatória dentro de seis anos.
Em muitos assuntos que desconheço tendo a partilhar a opinião de gente que admiro e é versado no tema. Em outros, mesmo que eu não seja versado especialmente no objeto em discussão, o entorno do debate permite uma avaliação mais ampla. Se me pedirem uma opinião sobre questões filológicas serei obrigado a recusar polidamente o desafio; se me vejo defrontado com uma decisão sobre minha língua materna o debate pode ser conduzido com instrumentos de análise muito mais amplos do que meros aspectos técnicos. O famigerado acordo ortográfico viola pela arbitrariedade; incomoda pela pretensão; irrita pelo descabimento.
Qual são, afinal, os argumentos favoráveis ao acordo? “Unificar o registro escrito nos oito países que falam português - Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal”. Para quê? Para facilitar a circulação de conhecimento? Para permitir que indivíduos dos países luso possam se comunicar pela via escrita da mesma forma? Há vários outros circulando por aí, um dos quais fazer com que o português se torne língua oficial de organização internacionais como a ONU.
Algumas questões se põem: um brasileiro alfabetizado não consegue ler um texto escrito em Portugal? Um português alfabetizado não consegue ler os livros produzidos no Brasil? Um diplomata brasileiro não consegue entender seu colega português? Percebam que transfiro a discussão do âmbito técnico para o da responsabilização individual. Se os brasileiros e portugueses que sabem ler não conseguem ler uns aos outros o problema está na ortografia? Alguém pode perguntar: “mas o acordo não se refere mais à elaboração de textos do que propriamente sua leitura?” Uma coisa, evidentemente, depende da outra. Dar-lhes-ei um exemplo de uma diferença de grafia: fato (ação ou coisa que se considera feita, ocorrida ou em processo de realização) em Portugal diz-se e escreve-se facto. Se algum português disser fato está se referindo ao nosso brasileiro terno (traje masculino, composto de paletó, calças e, ocasionalmente, colete, do mesmo tecido e cor). Ma se forem ao dicionário de português do Brasil verão que fato (sem a letra C) também tem o mesmo significado usado em Portugal. E que terno também pode significar sentimentos afetuosos, grupo, numeroso ou não, de pessoas (regionalismo de Minas Gerais) e conjunto das juntas de bois da carreta (regionalismo do Sul do Brasil).
O que se quer é uma abjeta padronização de uma língua de forma autoritária; o que se faz de forma débil é tirar das palavras o maravilhoso patrimônio de significados. A mensagem que chega até às pessoas é: “sejam burras que nós damos um jeito”. E completo, furtando as palavras do tradutor, ensaísta e escritor português Vasco Graça Moura, também acho que “a aplicação do Acordo não levará apenas ao caos no ensino nos oito países. Levará a que a língua portuguesa se cubra de ridículo no plano internacional“.
Num texto irretocável na Folha (só assinantes) de ontem João Pereira Coutinho é certeiro:
A língua é produto de uma história; e não foi apenas Portugal e o Brasil que tiveram a sua história, apresentando variações fonéticas, lexicais ou sintácticas; a África, Macau, Timor e Goa, que os sábios do acordo ignoram nas suas maquinações racionalistas, também têm direito a usar e a abusar da língua. Quem disse que o português do Brasil é superior, ou inferior, ao português falado e escrito em Luanda, Maputo ou Dili?
Meu princípio filosófico: a pluralidade é um valor que deve ser estudado e respeitado. Não me incomoda que os brasileiros escrevam “ator” e “ceticismo” sem usarem o “c” ou o “p” dos lusos. Quando leio tais palavras, sei a origem delas; sinto o sabor tropical em que foram forjadas.
Mas exijo respeito. Exijo que respeitem o “actor” português e o “cepticismo” luso com o “c” e o “p” que o Brasil elimina.
Quando as palavras são esvaziadas e a língua passa a ser tratada como uma peça de automóvel corremos o risco de pedir respeito e isso não significar absolutamente nada.
PS: Lula assinando um acordo ortográfico é a nota final dessa tragédia transatlântica.
4 commentsComo Rubem Braga encontrou William Faulkner

Como Rubem Braga encontrou William Faulkner
Texto: Bruno Garschagen, de Lisboa
lustração: Eduardo Souza LimaO escritor americano William Faulkner, o gigante que dizia só precisar de álcool, tabaco e papel para escrever, disse em célebre entrevista à “Paris Review” que “a única responsabilidade do escritor é para com sua arte”. Dizia mais, que o escritor “tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem que se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para que o livro seja escrito; se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará”.
Marco Antonio Carvalho, autor do excelente “Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar” e amigo querido, gostava dessa frase. Tanto que a usou na abertura da elogiada biografia lançada no ano passado. Mais do que gostar, Marco se identificava com a inscrição. A identificação fazia sentido para um escritor que durante 11 anos dedicou a saúde, as finanças, a vida pessoal e profissional à biografia, que nem viu ser publicada. Morreu em 25 de junho de 2007, alguns meses antes do lançamento.
Marco tinha o sonho de terminar a biografia. Isso o angustiou até poder se livrar dele. Não teve paz, orgulho, segurança e felicidade, embora, ao contrário da hipérbole proposta por Faulkner, tenha mantido a honra e a decência. A frase de Faulkner é a inscrição mais ou menos exata que marca o homem e o escritor. Se as palavras de um morto se modificam nas entranhas dos vivos, como dizia o poeta W. H. Auden sobre W. B. Yeats, o legado de quem parte também é corrompido por cada indivíduo que o recebe.
Marco morreu em junho, aos 57 anos, num apartamento da Rua Paissandu, no Flamengo, a 162 passos do Lamas, que ele adorava com sincera devoção. Junho foi um mês importante na vida de Rubem Braga. Era nas férias desse mês que Rubem e os irmãos, na pequena cidade de Cachoeiro de Itapemirim, sul do Espírito Santo, iam para fazendas perto da cidade onde podiam fazer longos passeios a cavalo. Era ali também que, em tempos politicamente incorretos, os adultos levavam os meninos para as caçadas.
Foi igualmente em junho (de 1928) que dois irmãos de Rubem, Armando de Carvalho Braga e Jeronymo Braga, criaram o “Correio do Sul”, jornal que publicaria os primeiros textos daquele que viria a se tornar um dos maiores estilistas da língua e responsável por converter a crônica em estilo literário.
Para não repetir aspectos já realçados nas várias e elogiosas resenhas e reportagens sobre a biografia, cuja leitura recomendo vivamente, exponho aqui alguns aspectos não destacados e que valem reflexão.
Um conceito de liberdade
Primeiro, a questão política. Espírito libertário, desses que não admitem intervenção e coerção de qualquer ordem, Rubem entendia a liberdade como aquela medida em que nenhum indivíduo ou conjunto de indivíduos interfira na atividade do outro. Quanto menor for a coerção de terceiros maior a liberdade individual. É a definição de liberdade negativa cunhada e revelada ao mundo em 1958 pelo filósofo Isaiah Berlin na famosa conferência “Os dois conceitos de liberdade”.
O paradoxo se impõe: como um homem que lutou desde sempre contra o governo autoritário de Vargas, assinou um manifesto contra o fascismo em 1942 e afastou-se dos comunistas ao sentir os primeiros odores de enxofre conseguiu se manter ligado à esquerda a ponto de participar da criação do Partido Socialista Brasileiro em 1946?
Pode-se alegar, como muitos, uma certa ingenuidade política que, numa circunstância que forçava tomadas de posição, obrigava moralmente alguns homens de bem se aliar e enxergar virtude no socialismo. O monumento chamado Otto Maria Carpeaux, para quem Rubem torcia o nariz, foi também um desses inocentes úteis de que os revolucionários desde sempre se aproveitaram, com o uso do trabalho ou da imagem, para avançar com o projeto abjeto de remodelagem social. O qualificativo “democrático” logo depois de termos como socialismo ou comunismo era e é um eufemismo tão burlesco quanto bizarro.
Escritor da roça? Nananinanão!
Segundo, a questão do homem simples. A biografia deixa claro que Rubem Braga era um ser urbano e cosmopolita. Ele tinha lá sua memória afetiva muito bem consolidada e alimentada, que o fazia se permitir a excentricidade de ter um jardim suspenso com árvores frutíferas e passarinhos. Rubem queria estar na cidade vendo a paisagem da infância no interior. O matuto nunca iria para a cidade; ou, uma vez feito carreira lá, voltaria correndo para sua vida rural.
Rubem, que exaltava nacionalmente uma Cachoeiro que só tinha em sua memória, aquela Cachoeiro formada por algumas ruas, familiares e amigos queridos, só foi lá algumas poucas vezes, talvez pela certeza interior de que o confronto com a realidade extinguiria de forma irremediável aquela cidade idealizada. Ele queria as árvores, o passarinho, a memória, mas desde que fosse em Ipanema, Rio de Janeiro, sua janela aberta para o mundo onde podia receber as mulheres, os amigos e ter uísque sempre à mão.
Um outro paradoxo se impõe: embora conhecido, reconhecido e lembrado por textos sobre passarinhos, frutas, mar etc., Rubem escrevia melhor sobre a natureza humana e os relacionamentos do que sobre frivolidades rurais ou questões sociais. Quando falava sobre mulheres, conversas, encontros, amores incompletos, decepções, era de um brilhantismo literário incomparável. Quando falava sobre frutas, aves e quetais, ou se aventurava na temática política ou do choque de classes, era de uma superficialidade constrangedora, que só não era pior porque o grande escritor sabe maquiar suas imperfeições.
“Rubem Braga – Um fazendeiro do ar” vale pela descrição minuciosa da vida do nosso grande cronista, pelo painel que esboça da cultura e da política do país no século XX, pelo texto que sincroniza de forma lapidar emoção e evento histórico. Rubem deixou um legado estilístico cujo conhecimento está restrito a alguns afortunados; Marco tentou resgatá-lo com essa obra admirável.
“A única responsabilidade do escritor é para com sua arte”, eis o lema de Faulkner, Rubem e Marco.
PS: O texto acima foi publicado no site da revista carioca Zé Pereira, editada pelo crítico de cinema Eduardo Souza Lima.
PS2: Amanhã falo sobre as mudanças no blogue. Hoje fiquei por conta de um ensaio sobre política americana para o mestrado.
1 commentDicas para a semana (só volto domingo, ok?)

Caros, desde o fim de semana estou assoberbado de trabalhos para o mestrado. Amanhã começa o semestre e já tenho aula. No fim da semana terei compromissos familiares. Eu já estava programando algumas novidades para o blogue que devo anunciar no domingo, quando volto a escrever. Até lá, se me permitem, gostaria de fazer algumas sugestões:
LIVROS
1- Reflexões Autobiográficas, de Eric Voegelin;
2- Fatal Purity, de Ruth Scurr;
3- The Collected Essays, Journalism and Letters: Volume I (Penguin), de George Orwell.
FILMES
1- Alan Clark Diaries;
2- The Browning Version;
3- John Adams.
Até domingo!
No commentsBiografia de Rubem Braga ganha o Jabuti

O livro Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho, foi escolhido vencedor do prêmio Jabuti 2008 na categoria Biografia. É uma excelente notícia. Estou particularmente feliz porque Marco, além de um amigo querido, trabalhou de forma rigorosa, honesta e abnegada para elaborar e finalizar a obra.
Meu único lamento é que, apesar de ter sido escolhida a obra vencedora, não vai levar o prêmio. Marco faleceu em junho do ano passado e o regulamento diz que:
7. A classificação final poderá ser alterada caso um dos vencedores seja falecido, conforme descrito em IV – DA PREMIAÇÃO, item 10 – ou se a obra sofrer algum tipo de impugnação julgada procedente pela Comissão do Prêmio.
IV – DA PREMIAÇÃO
10. Obras inéditas de autores falecidos, classificadas pelo júri entre os 3 primeiros lugares, serão transferidas para a seção Homenagem Póstuma da mesma categoria em que tenham sido inscritas, sendo premiadas apenas com o Troféu Jabuti, não concorrendo ao prêmio em dinheiro nem ao Livro do Ano. O lugar deixado vago pela transferência de seção será ocupado pela obra subseqüente na classificação geral da categoria.
Apesar disso, a escolha é um reconhecimento que agracia a obra e honra seu autor.
1 commentGarschagen no blogue da Atlântico
Além dos excelentes blogues O Insurgente (Portugal) e OrdemLivre.org (Brasil) também passo a colaborar com o blogue português Atlântico, que ontem, juntamente com o blogue da Dicta&Contradicta, foi citado pelo Reinaldo Azevedo.
É uma honra e orgulho poder fazer parte desses blogues que eu admiro.
3 commentsPaper, jantar e Turquia

Há alguns assuntos que quero tratar aqui, mas não consegui parar para escrever. Estou produzindo um paper que está dando mais trabalho do que eu inicialmente planejara. Está ficando bom, o que é ótimo. Prometo partilhar depois com vocês o tema do trabalho e onde ele será publicado.
*****
Hoje à noite fui jantar na Associação de Amizade Luso-Turca. Uma delícia de comida e uma gentileza dos membros da entidade que raramente se vê.
O encontro foi para definir a viagem de um grupo de jornalistas que vai à Turquia em novembro. A visita inclui idas à universidade, jornal, institutos, órgãos do governo e um passeio turístico por Istambul, uma das cidades mais belas do mundo.
Quero ver se, na volta, consigo fazer um resumo dos encontros e conversas que tive por lá.
2 commentsUm breve comentário de Dorothy Parker

Comment
by Dorothy Parker (1893-1967)
Oh, life is a glorious cycle of song,
A medley of extemporanea;
And love is a thing that can never go wrong;
And I am Marie of Roumania.
PS: Marie of Roumania: Marie Alexandra Victoria (1875-1938), born in Kent, England, the daughter of Alfred, Duke of Edinburgh and the former Grand Duchess Marie Alexandrovna of Russia, and granddaughter of Queen Victoria. She married Ferdinand of Romania in 1893, became Queen of the Romanians in 1914, and served as a nurse in World War I. They had six children. In November 1927 Marie made a triumphant tour of the United States, cut short because she had to return home for her dying husband.
No commentsLehman Brothers, clientes, governo e concorrência
Logo após o anúncio da falência do Lehman Brothers havia análises para todos os gostos. Mas havia em todas um tópico convergente: o governo deveria ou não agir para ajudar os clientes? Mesmo sem o governo, os depósitos dos clientes foram assegurados e os credores vão receber o devido com a venda dos ativos da holding.
Pegando o exemplo da falência do Lehman para falar da situação dos bancos de forma geral, há dois aspectos que merecem observação: o primeiro é o impulso em ver o governo como uma salvaguarda permanente; em segundo lugar, do ponto de vista do cliente, ter com o banco privado uma relação quase cega de confiança.
A confiança talvez seja o maior ativo de um banco. Uma vez estabelecida essa relação a empresa trabalha para preservá-la. E assim o cliente vê no banco uma solidez que é fictícia. No setor privado todas as empresas (incluindo os bancos) assumem o risco de serem bem sucedidas ou de irem à bancarrota.
Mas qual seria o impacto da mudança na relação de confiança por parte dos clientes? Numa situação hipotética (e ideal) só é possível conjecturar:
1- Sem mais a certeza de segurança os clientes passariam a exigir mais dos seus bancos;
2- Para modificar seu perfil e atender o novo tipo de cliente os bancos, inicialmente, precisariam aumentar as garantias, o que implicaria num aumento de custo;
3- Esse aumento de custo seria repassado aos clientes;
4- Uma parte dos clientes toparia bancar o aumento de custo para ter maior segurança;
5- Outra parte da clientela se recusaria a bancar um custo maior;
6- Um novo tipo de empresa surgiria no mercado para atender a demanda por um serviço que atendesse os consumidores que saíram do sistema bancário;
7- A entrada dessas empresas faria com que os bancos reagissem baixando os preços dos serviços para manter os atuais e reconquistar os antigos clientes;
8- A redução do preço dos serviços bancários beneficiaria aqueles que se mantiveram clientes dos bancos tradicionais e faria com que parte daquela clientela voltasse a usar o sistema.
9- Nesse sistema de concorrência, haveria empresas bem-sucedidas e malsucedidas em ambos os setores, com casos, inclusive, de falência.
Na hipótese de o governo intervir esse quadro hipotético com nove pontos seria reduzido a dois: 1) clientes receberiam o dinheiro que investiram; 2) os empresários do setor continuariam ter com o governo uma relação cega de confiança.
Os clientes do banco deveriam ficar desprotegidos face às empresas? Não, mas essa proteção tem que ser garantida pelo Estado na forma de um ordenamento legal e de um sistema jurídico eficaz (incluindo o acesso ágil à Defensoria Pública). Se o cliente foi lesado, que tenha condições de ser ressarcido na Justiça. Inaceitável é, por exemplo, o indivíduo que sequer tem dinheiro para abrir conta num banco pagar, como contribuinte, pelo fracasso empresarial ou pelo investimento frustrado de outros indivíduos.
Se o governo direciona recursos para salvar uma empresa privada o ato está longe de representar uma falha de mercado, em cujo bojo residem o sucesso e o insucesso; tratar-se-á, sim, para usar a expressão de Edward Crane sobre o caso Fannie Mae e Freddie Mac, de uma pura e simples falha de governo.
PS: Não há anjos em lado algum.
PS2: Os dois primeiros parágrafos do post foram modificados após a observação feita pelo RAF.
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