Carne viva é o romance de um desiludido

Sim, Carne viva é o romance de um desiludido. Os personagens são espíritos agonizantes, frívolos, materialistas e obscenos que têm em comum um traço singular de desilusão. Talvez todos sejam um só. O grande personagem de Carne viva, sim, é a desilusão.

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Paulo Francis fazia questão de expressar seu descontentamento presente. Havia em seus textos e no que dizia na TV um sabor de ruína dos tempos, de uma melancolia de incompletude por tudo o que havia vivido quando jovem num Rio de Janeiro estimulante que ele viu se diluir antes de migrar para os Estados Unidos em 1971. A empolgação pela América também foi se esfacelando, apesar do sempre manifestado prazer de morar no centro do mundo e tudo aquilo que estava ao seu alcance.

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Carne viva é a representação literária daquele desalento que Francis expressou na frase “Eu me sinto tecnicamente morto”. E não era só o incômodo, o mal-estar, a indisposição com a sociedade de massas, segundo ele, filistina. Era chegar numa altura da vida e descobrir que a ambição individual não foi acompanhada pelos demais indivíduos. Num homem de grandes expectativas o futuro que se converte num presente de desejos irrealizados provoca uma desilusão monumental. Esse sentimento era mais um paradoxo na vida do homem contraditório, do ateu que, embora amasse a vida, não via saídas senão a morte em vida. Francis converteu-se num cadáver insepulto que fazia troça de si mesmo. Morrer não seria uma catarse, mas a extinção antecipada da entropia.

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Os ricos, frívolos e revolucionários personagens de Carne viva são a dimensão caricatural de como Francis via e processava em seu espírito a classe alta com a qual conviveu nos tempos do Rio de Janeiro. Eis um dos grandes problemas literários do romance: é fácil identificar nas pessoas reais os traços caricatos e vê-los dessa forma em suas vidinhas; na literatura, a caricatura só pode ser usada como efeito, não como substância do personagem. Se é uma delícia o ritmo do romance; um prazer a leitura de muitos parágrafos; uma satisfação identificar nas frases o histrionismo da verve jornalística; Francis naufragou no esforço de converter em literatura os ricos cariocas e aquela geração que transformou o maio de 1968 em França no veneno que corrompeu jovens e senis com a estupidez da revolução rumo ao nada.

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O escritor deve fazer uma escolha substantiva ao elaborar sua história: os personagens são ou não verossímeis. Combinar personagens verossimilhantes com personagens implausíveis só se transforma em literatura de boa qualidade na mão de gênios. Na mão de escritores medianos tal recurso manifesta-se como vício. Francis junta às vezes numa mesma cena personagens perfeitamente plausíveis, que dialogam deliciosamente, com outros inverossímeis, que falam como se fosse o Francis comentarista cultural da coluna Diário da Corte. O deslocamento de um dos dois é percebido imediatamente até por leitores não-treinados.

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A estrutura de Carne viva impressionou-me; eu que estava acostumado e acossado com a epilepsia literária dos Cabeças (Cabeça de papel e Cabeça de negro). Há uma coerência no vai-e-vem da história, na passagem e volta do tempo, que não imaginei que Francis usaria como recurso depois das experiências dos dois romances anteriores. Achei que, como Joyce, Francis seria ainda mais extremo ao testar uma certa deformidade radical de estilo e forma. As resenhas e matérias sobre o livro não informaram se essa estrutura foi uma escolha ou uma concessão aos que leram os manuscritos e sugeriram alterações. De um jeito ou de outro o que importa é o resultado. E, nesse aspecto, Francis foi bem-sucedido.

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A história se desenvolve entre Brasil e França, Rio e Paris. É coerente que Francis tenha optado por rechear o romance com expressões e frases no idioma de Villon, o que também provoca um saudável desconcerto para os leitores de suas colunas manifestamente anglófilas.

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Um conselho para quem ainda for ler o livro: ignorem, rasguem ou joguem fora o último capítulo “Guerra e paz” (referência óbvia ao personagem Guerra e ao título do livro de Tolstoi). Para usar uma frase do Francis sobre o livro Cenas de um casamento, de Ingmar Bergman: o final é xaroposo, parece último capítulo de novela da Globo. É como se Francis estivesse cansado do livro e quisesse livrar-se de uma vez da feitura da obra. É um final imprevisível no mal sentido: era inconcebível imaginar Francis tão descuidado, monótono e banal ao encerrar o romance.

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Gostei de ler o livro. Até para desgostar. Mas, tal qual seus personagens e autor, fui inoculado no fim da leitura com o veneno da desilusão. Não pela vida, pelas coisas, pelas pessoas, mas pelo jornalista que, tendo falhado em vida nas tentativas de ser um grande escritor, deixou uma obra que, lançada à sua revelia e sem o devido apuro, revela que poderia ter feito um bom romance, mas não o fez. Assim como as palavras dos mortos se modificam nas entranhas dos vivos (Auden), a publicação da obra de um escritor morto modifica a visão que temos de seu talento. Para o bem e para o mal.

1 Comment so far

  1. Carlos Eduardo Agosto 24th, 2008 3:19 pm

    Enfim, uma análise séria do livro. Os mornos comentários que a obra suscitou na imprensa - incluse da parte de pessoas que admiram Francis - fez com que eu não me empolga-se com o livro.

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    Mas lendo sua análise contundente da obra, caro Garschagen, é muito difícil não sentir vontade de ler. Não tendo passado das primeiras páginas de “Cabeça de Papel”, fiquei com um pé atrás com o Francis romancista. Carne Viva é a chance de, para o bem ou para o mal, eu conhecer essa outra faceta do jornalista Paulo Francis.

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