E o novo romance do Paulo Francis?

Acabo de ler o romance Carne Viva do Paulo Francis, presente do meu grande amigo FDR. Gostei, gostei mesmo. Mas nada vou escrever hoje. Estou um bagaço.
Mas para não deixar vocês sem terem o que ler fiz uma seleção do que foi escrito sobre o livro para fazer alguns comentários. Divirtam-se:

PAULO FRANCIS, O “LOBO HIDRÓFOBO”, RESSURGE EM “CARNE VIVA”
O nome de Francis voltou às páginas neste ano da graça de 2008 com o lançamento de um romance inédito que ele deixou, “Carne Viva”. É um presente para os fãs do auto-declarado “lobo hidrófobo” ( Uma vez, perguntei a ele como é que ele – que, quando criança, alegadamente exibia um ar de cão hidrófobo – se definiria na maturidade. Francis respondeu: “Que tal lobo hidrófobo” ? ) Publicado pelo selo Francis da Editora Landscape, este bem-vindo sinal de vida de Paulo Francis acaba de chegar às boas casas do ramo. Resenhistas já notaram que, quando personagens do romance abrem a boca para falar do estado geral das coisas, parece que é o próprio Francis quem fala. A “confusão” poderia parecer um defeito do romance. Mas eu diria que é uma virtude. Ainda bem que é possível ler de novo o que parece ser a voz de Francis. Há trechos do livro que – felizmente – parecem tirados da coluna fantástica que Francis publicou durante anos e anos na imprensa.
Carne Viva e Paulo Francis
Michel Laub
Não lembro quem disse que para escrever um romance é preciso ser um pouco burro. É uma boa frase, para além de seus efeitos publicitários: construir personagens e dramas que tenham o mínimo de vida demanda, antes de mais nada, não ter vergonha de deixá-los entregues ao ridículo que, em maior ou menor grau, está presente em qualquer trajetória humana. Se o autor fica o tempo todo mostrando que não faz parte desse ridículo, ou seja, que não é capaz de rir, chorar ou se maravilhar com os encantos mesquinhos e corruptos da vida, a tendência é que o leitor, também ele uma alma corrupta e mesquinha, não se identifique com nada do que encontra nessas histórias.
Isso é verdade na maioria dos casos, mas não em todos. Não dá para dissociar o romance satírico, por exemplo, do bem-vindo sentimento de superioridade de quem o escreve. Ou o romance de idéias, que abdica da narrativa e da empatia em favor de teses postas na boca dos personagens, de um tipo de prazer estético muito mais ligado à inteligência do que às emoções.
Tudo isso para dizer que o fracasso do só agora publicado Carne Viva (Francis, 2008, 264 págs.), de Paulo Francis, não se deve apenas à sensação de artificialidade da trama, que parece engendrada tão-somente para veicular as opiniões de seu autor sobre o Brasil, o mundo, o homem, os tempos. Embora seja um defeito bastante incômodo, que faz com que alguns diálogos soem constrangedores em seu esquematismo e inadequação, o problema maior são as idéias mesmo.
RODAPÉ
Daniel Piza
Li durante o vôo, com grande expectativa e saudade, o romance póstumo de Paulo Francis, Carne Viva. Ele morreu sem rever o texto, que era sua última tentativa de fazer sucesso como ficcionista, inspirada em autores como Rubem Fonseca, e sua viúva Sonia Nolasco decidiu publicá-lo agora, 11 anos depois de sua morte. Francis tentou abandonar o estilo de seus romances dos anos 70, Cabeça de Papel e Cabeça de Negro (que dizia influenciados por Joyce, mas que mais lembravam tentativas de um fã de Aldous Huxley e D.H. Lawrence), e escrever com mais brevidade e simplicidade. Infelizmente, não conseguiu.
Não há página que não tenha uma observação e uma citação que não sejam a cara do autor. Como aquele músico de Machado de Assis, Francis se sentava para escrever uma coisa diferente e… só saía o de sempre. O distanciamento, os silêncios do grande ficcionista não existem nessa história de um banqueiro, Francisco Guerra, que presencia o Maio de 1968 em Paris. Guerra é uma caricatura do próprio Francis, Paris mal se vê no romance, e as cenas de sexo são quase risíveis. Ele foi o maior jornalista de opinião do Brasil, e não é por este livro que o leitor saberá disso.
O livro-confusão de Francis
Chega às livrarias “Carne Viva”, romance inédito de Paulo Francis que teve sua publicação adiada por mais de dez anos e sofreu modificações
MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCALWaaal… Demorou dez anos, mas finalmente ficou pronto. Chega às livrarias no próximo dia 15 o aguardado romance inédito de Paulo Francis (1930-1997), prometido há mais de uma década e que fecharia o ciclo iniciado com “Cabeça de Papel” e “Cabeça de Negro”. Antes mesmo da sua publicação, “Carne Viva” já tem uma longa história. A começar pelo título, que originalmente seria “Jogando Cantos Felizes”.
Aos fatos. O livro, que agora será lançado pela Landscape (editora que comprou o catálogo da editora Francis, fundada em 2002), seria publicado em 1998 pela Companhia das Letras. Antes de morrer (em 1997), Francis mostrou os originais para o editor Luiz Schwarcz, que sugeriu modificações. Segundo a jornalista Sonia Nolasco, viúva de Francis, ele não concordou com todas as mudanças.
“Concordou com a maioria, que fez à mão. A editora Francis tem cópias, e também o Luiz. Como editora do livro, eu respeitei tudo”, afirma Nolasco. A versão que chega agora às livrarias, portanto, tem alterações que teriam sido decididas de comum acordo entre Francis e Schwarcz, executadas por Sonia Nolasco.
Luiz Schwarcz confirma e diz que “seria difícil avaliar se o resultado está próximo do sugerido”, pois afirma que não guarda mais o original. Há um ano, Roberto Nolasco, irmão de Sonia e então responsável pela editora Francis, já planejava a publicação do livro. Disse na época que cogitava chamar amigos do jornalista para que fizessem três finais para a obra. Sonia nega enfaticamente que o livro estivesse inacabado. “Carne Viva” foi completado, totalmente, muito antes da morte do autor”, afirmou à Folha.
A carne viva de Paulo Francis
Por César Fonseca em 15/4/2008
Carne viva, de Paulo Francis, 264 pp., Editora Francis, São Paulo, 2008
O dispositivo janguista que não disparou para evitar que os gorilas assaltassem o poder e nele ficassem 21 anos fazendo desaforos com o sonho democrático nacional representaria a vergonha e a covardia tupiniquins. Mexe com os nervos de cada um.
É uma das conclusões que poderiam ser levantadas pela leitura do instigante Carne viva, de Paulo Francis [Editora Francis, 264 pp., 2008], depois de observar o desvario mental de Almeida, personagem expulso por 1964 para viver no exílio em Paris, onde, em 1968, o personagem central do romance, o banqueiro Guerra, está acompanhando a revolução social democrata burguesa juvenil que abalou o mundo.
O 68 de Paulo Francis
Luís Antônio Giron
A trama de Carne Viva é uma reminiscência ficcional da viagem. Conta como o Maio de 68 revoluciona a vida de um banqueiro carioca, Francisco Guerra. As mensagens de amor livre e “imaginação no poder” preconizadas pelos estudantes calam fundo no herói. Como Francis, ele se encontra no calor dos protestos. Ao pôr à prova o sexo, idéias e preconceitos, assiste à implosão de sua visão de mundo. Poderia ter sido a ficção definitiva de Francis. Mas resultou numa entre tantas outras tentativas de jornalistas em conquistar a glória literária. Como fragmento, porém, revela o gênio do autor em narrar casos e interpretar corrosivamente seu tempo. Nesse testamento artístico, Paulo Francis prega a revolução pela resignação – sem abdicar do veneno.
No comments yet. Be the first.
Leave a reply