Para onde ia James Joyce?

Depois que James Joyce escreveu aquele monumento literário chamado Ulisses era natural que criasse, ao mesmo tempo, uma via de mão única. É extraordinário que o romance inaugural de um novo modelo de prosa é o mesmo que decreta o início e o fim de si mesmo. Para os outros era impossível imitá-lo ou tê-lo como manual do romance moderno; para Joyce, ou se superava enquanto escritor ou decretava a morte pública através de uma experiência radical de linguagem. E veio Finnegans Wake, “the illegible book”, nas palavras de um professor de inglês que tive em Cambridge.
Finnegans Wake é o atestado de óbito da invenção literária cuja causa mortis só era conhecida por Joyce, a mãe em estado puerperal. Já li e ouvi que Finnegans Wake não era um livro para ser lido. Alguns afirmam que aquilo sequer podia ser considerado uma obra literária, tamanho o delírio, tamanha a transgressão. Em carta, Joyce confessou seu desejo em voltar a escrever um romance na forma tradicional. Como imaginar o resultado literário do livro que sequer chegou a ser escrito depois dessas duas experiências abissais (Ulisses e Finnegans Wake)?
Num exercício de imaginação posso tentar uma aposta provocadora: sem a preocupação com a forma iria direcionar seu talento para a história e para os personagens. Mas ao escrever isso desvalorizo o trabalho de artesão feito por Joyce em Ulisses na construção e condução dos personagens e da história. Como seria o último livro do Joyce? Um Ulisses sem os experimentos? Um Dublinenses mais maduro e ainda melhor escrito? Será que Joyce, mesmo que não tivesse morrido, continuaria a escrever?
Perguntas sem respostas são igualmente interessantes e inúteis.
PS: O vídeo com o excelente Miguel Esteves Cardoso que inseri no post Transatlântico: Miguel Esteves Cardoso, um homem civilizado está novamente disponível. Se ainda não viu, corra lá!
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De minha parte eu ainda não li o Ulisses porque não consegui passar nem das primeiras páginas de “Grande Sertão:veredas” ainda. Garschagen, sua erudição é coisa que não se consegue do dia pra noite. Eu venho aqui pra aprender. Sigo muito suas dicas. Ulisses está anotado.Talvez em 2011 eu o leia, aos trinta anos, na respeitada tradução da Bernardina da Silveira Pinheiro.
Eu já li Ulisses. Três vezes. Um conselho para o Carlos Eduardo: a tradução da Bernardina é ótima, mas nada como ler o original. Aí o irlandês maluco vira só doidinho.
E Joyce continuaria a escrever, sim.
E não tem nada de errado com esse post, não. Você entende do riscado.
Caro Garschagen, não li Ulisses e por isso meu silêncio. Faço das minhas as palavras do Carlos Eduardo, com um adendo: talvez eu leia em 2011, aos 29 anos e com a bagagem dos clássicos.
Grato pela dica “P”. Meu inglês ainda é muito ruim. Mas estou melhorando, sempre aos poucos.
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Caro Ronalt: mais uma coincidência: meu plano de leitura é muito parecido com o seu: ler os clássicos. Estou lendo os clássicos já faz um tempo e daqui pros meus trinta anos (2011)_ você terá vinte e nove_ talvez eu esteja preparado pra encarar esse marco do modernismo que é Ulisses de J.Joyce.
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Garschagen: um pequeno texto seu foi revolucionário pra mim. Comecei a ler muito tarde, lá pelos dezoito, dezenove anos. Quandi li que você começou a se interessar tarde pela leitura, mas que foi direto ao que há de melhor,pensei que eu poderia tomar você como exemplo. E tenho tomado.
Abraço a todos.