Archive for Agosto, 2008

Paulo Francis aqui, amanhã, neste blogue!

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Amanhã publico aqui o texto que estou escrevendo agora sobre o romance Carne Viva do Paulo Francis. Voltem aqui amanhã, ok?

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Suicídio, Europa, Rússia e Talleyrand

Excelente texto do cientista político português Bruno Maçães, professor no European College of Liberal Arts, no Diário Económico (Lisboa) de hoje:

O suicídio

O território entre Bucareste e Baku será ou europeu ou russo. Eis uma questão que já começou a ser decidida.

Bruno Maçães

Não restam dúvidas de que a invasão russa da Geórgia foi intensamente preparada durante todo o mês de Julho. As provas documentais são abundantes. De resto, dada a rapidez com que que a operação se processou, qualquer outra hipótese seria implausível. Tenho muito pouco interesse em examinar as acções do frívolo presidente georgiano ou dos seus generais, quase todos mais novos do que eu. O bombardeamento de Tskhinvali, um crime e um erro, foi sobretudo inútil.

Convém acrescentar que a tentação nesta altura é enorme de misturar as águas, apelar à confusão dos factos e nada fazer. Seria assim se esta fosse uma questão moral. Politicamente, o caso é outro. Nos anos trinta, políticos e populações em França e Inglaterra dividiram entre si a culpa de exibirem, em imprudentes manifestações de ansiedade e alívio, o quanto receavam a guerra. Hoje o mecanismo psicológico é sobretudo o receio do poder e do império. Putin espera que os europeus olhem para o caos e a barbárie a leste e decidam retirar.

Há outro facto, mais importante, sobre o qual não restam dúvidas: o território entre Bucareste e Baku será ou europeu ou russo. Eis uma questão que já começou a ser decidida. Há apenas um ano Parag Khanna dizia que garantir as artérias de petróleo e gás natural que correm do Cáspio e da Ásia Central exige a colonização europeia da Geórgia, Arménia e Azerbeijão. O processo de integração económica e cultural decorria mais ou menos alegremente e o resultado parecia inevitável. Esta semana vimos que em Moscovo o fim da história não era interpretado da mesma maneira. Foi ao processo de alargamento europeu que a invasão russa pretendeu pôr termo.

O que sucedeu? O que sucede sempre com esta Europa em que temos infelizmente de viver: hesitação, paralisia, uma vertiginosa ausência de inteligência e coragem. Sem qualquer explicação, a Turquia continuou a ser marginalizada. Mais recentemente, em Bucareste, os líderes francês e alemão deixaram cair as aspirações da Ucrânia e Geórgia. Foi o sinal de que Moscovo precisava. A situação é subitamente de acosso às actuais fronteiras europeias. Se há um ano era ainda possível falar de uma progressiva europeização das antigas repúblicas soviéticas, hoje é um ataque à Polónia, sugerido pelo influente general Nogovitsyn, que somos obrigados a discutir.

Reduzida às suas fronteiras actuais a Europa não pode sobreviver. Não sobreviverá a novas tensões militares, para as quais nunca se soube preparar. Não sobreviverá à extrema dependência energética em que se vai enredando. Embarcámos num suicídio colectivo.

Gostei especialmente da parte que trata da responsabilidade direta da Europa sobre o conflito entre Rússia e Geórgia. “Hesitação, paralisia, uma vertiginosa ausência de inteligência e coragem” são uma combinação perfeita para ter uma geopolítica externa não só malsucedida como perigosamente malsucedida. A omissão, por vezes, provoca uma acção, de conseqüências mais ou menos previstas.

Se a Rússia preparou a invasão da Geórgia durante o mês de julho e a Europa não se deu conta para prevenir o conflito que se seguiu é porque, naquela lista descrita pelo Bruno, falta, em primeiro lugar, inteligência.

Além do mais, ao colocar de lado Turquia, Ucrânia e Geórgia a Europa abriu os flancos ao avanço da Rússia, que, decididamente, tem menos força do que parte dos analistas crêem, mas mais do que acreditam representantes da União Européia. Cão ferido não é cão morto; há sempre o risco de morder a perna mais próxima.

A Europa, aliás, parece-me com os Bourbon, na frase de Talleyrand: “Não aprenderam nada; não esqueceram nada”.

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Caros, não foi possível postar nada ontem e hoje. Compromissos profissionais. Volto amanhã.

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Dorival Caymmi (1914-2008)

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EUA: imperialismo do mal contra os trabalhadores

Os empresários americanos imperialistas não hesitaram em usar a polícia para impedir a justa manifestação dos trabalhadores por condições mais dignas de trabalho (e a reclamação nem era por causa do vestuário…):


O Mickey era o grande timoneiro da manifestação. Foi ele o responsável por cooptar a Branca de Neve, com quem nunca contracenou nos desenhos animados.


O Mickey, como bravo agente do Sindicato dos Ratos Profissionais, não escapou da ação truculenta do polícia (notem que, como resultado do multiculturalismo, tanto o Mickey quanto o polícia são mexicanos) .


A Branca de Neve, claro, não foi poupada. A policial, se bem repararem, antes de se tornar uma oficial da lei era a Malvada Rainha, que chegou a envenenar a Branca de Neve, sua enteada, e foi beneficiada pela delação premiada. Escapou da prisão após denunciar que fez o que fez a serviço da CIA.

Cinderela e Branca de Neve são presas em protesto na Disney

Polícia foi chamada para conter manifestação de funcionários da Disneylândia; eles pediam melhoras trabalhistas

O sindicato afirmou que as condições oferecidas por Disney em sua última oferta impedirão que muitos trabalhadores possam receber o seguro médico e geram desigualdade entre os empregados ao estabelecer duas categorias salariais. A empresa informou que as conversas para estabelecer o novo marco trabalhista ainda não terminaram, mas atribuiu a falta de acordo a que nos últimos seis meses o sindicato só tinha se sentado à mesa de negociações em 11 ocasiões, enquanto já tinha realizado 14 manifestações.

LOS ANGELES - Os visitantes que foram na quinta-feira, 14, passar um dia no mundo mágico criado pela Disney ficaram atônitos ao ver policiais prendendo Cinderela, Branca de Neve e Sininho. A polícia foi à entrada da Disneylândia em Anaheim, perto de Los Angeles, depois que um grupo de funcionários, alguns vestidos como os personagens imortalizados por Walt Disney, fizeram um protesto para reivindicar melhoras trabalhistas, informou a imprensa local.

Após uma manifestação que começou em um dos hotéis do complexo até a entrada do parque, alguns dos funcionários bloquearam por quase uma hora um cruzamento muito movimentado. O protesto desencadeou na detenção de 32 pessoas sob acusações de desobedecer a uma ordem de um oficial e cometer duas infrações de trânsito.

Os detidos devem ser libertados ao longo do dia. Os manifestantes representavam mais de dois mil funcionários dos hotéis Paradise Pier, Grand Californian e Disneyland Hotel, propriedade da empresa Disney, cujo convênio finaliza em fevereiro.

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Escrever não é fácil e nada prazeroso

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Tentei escrever o prometido post sobre o romance Carne Viva do Paulo Francis. Não saiu nada que prestasse. Em respeito a vocês e ao Francis apaguei o que havia escrito. Não achei o tom, as palavras exatas, o feeling do que senti com a leitura e o que achei do livro. Espero que amanhã o cérebro contribua para disfarçar minha falta de talento e aplaque o desprazer que sinto ao escrever (qualquer coisa). Sim, meus caros, escrever para mim não é fácil e nada prazeroso. Portem-se bem nesta noite de sexta-feira.

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Nem Carla Bruni salva Sarkozy

Sarkozy, que prometia tanto, cometeu duas falhas políticas imperdoáveis: primeiro, ao aceitar Chávez como interlocutor das Farc na esperança de que o presidente da Venezuela fosse o anjo que garantiria a libertação da ignóbil Ingrid Betancourt; depois, como representante máximo da UE, deixar-se enganar pelo governo Russo:

Moscou usa termos do acordo para justificar ação militar

Andrew Kramer, The New York Times, Tbilisi

Rússia exigiu que suas tropas tivessem permissão para atuar como “força de paz” fora de regiões separatistas

Eram quase 2 horas de terça para quarta-feira em Tbilisi quando o presidente da França, Nicolas Sarkozy, que acabara de chegar de Moscou, anunciou ter conseguido o que parecia impossível: persuadir o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, e o da Rússia, Dimitri Medvedev, a aceitar um cessar-fogo. Apertos de mão e felicitações foram enviados de todas as partes, mas, quando o sol nasceu, tanques russos voltaram a avançar, tomando posições na cidade de Gori, no centro da Geórgia.

Logo ficou claro que o cessar-fogo de seis pontos proposto por Sarkozy não apenas tinha fracassado, mas dava a Moscou ferramentas para entrar ainda mais na Geórgia usando como pretexto as chamadas “medidas de segurança adicionais” incluídas no acordo.

Segundo um alto funcionário do governo da Geórgia, Sarkozy também fracassou ao tentar convencer os russos a aceitar um prazo para o fim das operações militares. (CONTINUA)

Sarkozy, que admiro tão-somente por ter se casado com aquele monumento chamado Carla Bruni, converteu-se na decepção política do ano.

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Invasão da Geórgia na The Economist

Acabo de ler a matéria de capa da The Economist desta semana. Sobre a invasão da Geórgia pela Rússia, que, segundo a revista, ganhou uma batalha numa espécie de renascimento da velha guerra contra os países ocidentais.

The war in Georgia

Russia resurgent

The war in Georgia is a victory for Russia. The West’s options are limited, but it needs to pursue them firmly

ON THE night of August 7th, Mikheil Saakashvili, Georgia’s president, embarked on an ill-judged assault on South Ossetia, one of his country’s two breakaway enclaves. Russian tanks, troops and aircraft poured across the border. Just five days later, after pulverising the Georgian armed forces, Russia announced that it was ending its operations.

This brutal and efficient move (see article) was a victory for Vladimir Putin, Russia’s president-turned-prime-minister, not just over Georgia but also over the West, which has been trying to prise away countries on Russia’s western borders and turn them democratic, market-oriented and friendly. Now that Russia has shown what can happen to those that distance themselves from it, doing so will be harder in future.

CONTINUA

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Como era vodka a minha Rússia

Ao invadir a Geórgia a Rússia demonstrara claramente o respeito que têm pela ONU. Ao desrespeitar o plano de paz proposto pela União Européia e também aceito dias antes pela Geórgia, o governo russo revelara o quanto valoriza a Europa.

Ontem, Sergei Ivanov, vice-primeiro-ministro da Rússia e ex-ministro da Defesa, afirmou que o país não reconhece o controle da Geórgia sobre seu próprio território. Soberania e independência sim, integridade territorial, não. Soberania sem integridade territorial? Argumento de Ivanov: Ossétia do Sul e a Abkházia nunca fizeram parte da Geórgia como país independente. Só sóbrio para um membro do governo russo elaborar uma afirmação tão complexa. Nosso Ivanovodka é um grande sujeito, não é mesmo?

Agora os EUA entraram na conversa. Ontem, o presidente americano, George W. BooBush, exigiu da Rússia o cumprimento da promessa de suspender as operações militares e ameaçou boicotar o país em instituições internacionais.

A pergunta é: a União Européia e a ONU caíram na conversa do governo russo por uma imperdoável ingenuidade ou por acreditarem de forma prepotente numa força que acreditavam ter?

PS: E lá vão os Estados Unidos infames imperialistas a salvar de novo a Europa.

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China, Olimpíadas e Raskolnikov

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Conforme prometido, eis o texto publicado em O Globo na segunda-feira passada (não consegui o PDF da página).

O Globo - Opinião - 11/08/2008

Sem liberdade

Bruno Garschagen*

Num dos mais vigorosos romances da literatura mundial (Crime e castigo, de Dostoiévski), o protagonista Raskolnikov legitimou a morte de uma velha usurária sob o argumento de que certas pessoas mereciam morrer pelo bem da humanidade. Estudante de medicina, ruminou uma teoria segundo a qual certos homens, por seu intelecto superior, estavam isentos de leis morais. Não deu outra: rachou o crânio da velhota com um machado.

Não é novidade na história a criação das teses mais infames para legitimar toda a sorte de iniqüidades. O grande perigo dessas idéias é que muitas têm um método lógico. Mas o método nem sempre conduz à verdade, já apontara Eric Voegelin no estupendo A nova ciência da política. Mais do que isso: a falácia transformou períodos da história num grande cemitério de vítimas úteis.

O fenômeno novo a se considerar é o desenvolvimento econômico usado por governos fortes para legitimar seus vícios, como o autoritarismo e a violação de liberdades civis e dos direitos humanos. O desempenho da economia foi convertido em instrumento de legitimação de poder.

A China, que sedia os Jogos Olímpicos 2008, é o exemplo claro de país cujo impressionante crescimento econômico é usado como habeas corpus perante a sociedade internacional e ao seu povo. Se antes o poder no país era legitimado na figura de Mao Zedong, as reformas econômicas sem democracia realizadas por Deng Xiaoping deslocaram a fonte de legitimidade para o desempenho da economia.

Qual é o busílis? Para além da repulsa que todo homem civilizado deve manter contra poderes que violam os indivíduos em nome de um projeto de reengenharia política e social, o impressionante crescimento econômico chinês sequer foi capaz de melhorar a vida da maior parte dos cidadãos, que chafurdam na miséria. Só uma pequena parcela dos indivíduos que vivem sob essa autocracia liberal (na precisa definição de Fareed Zakaria) é beneficiada pelos investimentos e aumento da renda per capita.

Nem as reformas e o crescimento fizeram da China um país com liberdade econômica. No índice 2008 da Heritage Foundation ocupa um vergonhoso 126° lugar; no Economic Freedom of the World, dos institutos Fraser e Cato, ocupa a 95ª posição. Liberdades civis e direitos políticos? Necas. Desde 1998 é classificado como um país not free (sem liberdade) pelo think thank Freedom House (The worst of the worst: the world’s most repressive societies 2008).

A China, quanto mais se fortalece economicamente, mais fragiliza as liberdades de seus cidadãos. Porque tratar o crescimento econômico como um fim em si mesmo abre uma vereda para todo tipo de ataque contra os indivíduos e os modos de vida (leiam O desenvolvimento como liberdade, de Amartya Sen). É o método do governo chinês para justificar a restrição dos direitos como garantia da unidade, paz e segurança do país. Os comunistas chineses, assim como Raskolnikov, se vêem como seres superiores e isentos de leis morais.

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