Archive for Julho, 2008
Blogues em debate 8 - Fim do monopólio da escrita
Um dos aspectos formidáveis dos blogues foi acabar com o monopólio da escrita exercido de forma deliberada ou não por aqueles profissionais tradicionalmente ligados à escrita. Só quem aparecia publicamente era o jornalista, o escritor, e, em casos pontuais, à exceção dos colunistas regulares de jornais e revistas, economistas, advogados e gente das universidades. Era um sacolé de alcachofra. Se até os anos 1970 era possível abrir os jornais e ainda ler jornalistas e escritores com uma centelha de brilho e talento, a vaca foi indo serelepe para o brejo e chegamos aos anos 1990 com uns dois ou três gatos pingados para salvar as colunas de opinião das publicações impressas.
Os blogues acabaram com o monopólio, tão certo como a raiz quadrada de 5,76 ser 2,4. Por isso, todo blogue bom é, por princípio, liberal. E todo blogue excelente é liberal-conservador. Voltando à vaca fria, os melhores blogues que costumo ler são feitos por economistas, engenheiros, empresários, executivos, biólogos, enfim, de gente que há uma década receberia uma gargalhada na testa se ousasse oferecer seus textos para qualquer publicação, noves fora os casos em que o dito era amigo do dono do jornal ou do editor (e não estou dizendo que isso deixou de acontecer).
O fim do monopólio foi uma mudança crucial. O caminho foi aberto e mostrou que que havia muita gente fora da corriola que lê, pensa e escreve bem.
Um dos meus blogues e textos preferidos de sempre é o do Rafael Lima, engenheiro de formação que trabalha na área petrolífera. Não há nenhum colunista na imprensa do Rio de Janeiro que chegue perto. É o texto mais carioca, no bom sentido, quando o Rio ainda produzia um texto só seu. Rafael é imbatível ao escrever sobre jornalismo (new journalism, gonzo, etc.), livros e lugares. Seus relatos de viagens são tão sedutores quanto rigorosos. Tem também os perfis. Rafael também é imbatível escrevendo perfis, embora não se dedique muito à causa.
Um de seus textos mais recentes que destaco foi sobre a biografia de Rubem Braga:
Rubem Braga e eu
Rafael Lima
Nos anos em que acompanhei, trepado no cangote, a coluna semanal de Millôr Fernandes para o jornal O Dia, só o vi abrir a página para reverenciar morto uma vez: em 1995, nos cinco anos de falecimento de Rubem Braga. Conheci Rubem Braga a vida inteira. Li Rubem Braga a vida inteira. Não tem ninguém que eu tenha admirado mais do que Rubem Braga, dizia Millôr.
Rubem Braga não foi só capaz de arrancar uma declaração dessas do Millôr. A narrativa de sua vida, convertida na biografia de Marco Antonio de Carvalho, Um cigano fazendeiro do ar (Globo, 2007, 592 págs.), arrancou do exigente Daniel Piza a entrada na lista dos melhores livros do ano.
Há pelo menos cinco anos eu ouvia falar nesse livro ? quem me contou foi o Bruno Garschagen, logo depois de se mudar para o Rio; o Bruno era amigo do autor e está incluído na lista de agradecimentos. A própria história da feitura daria outro livro, no qual o autor se endivida duas vezes, cruza o país de cima a baixo atrás de entrevistas, se enturma com os amigos sobreviventes de Rubem e descobre algumas histórias imperdíveis.
Lembro especificamente do Bruno me contando, às gargalhadas, do convite feito a Sérgio Buarque de Holanda para ir a Cachoeiro do Itapemirim iniciar um jornal. Sérgio já era um intelectual de renome, sem ter escrito Raízes do Brasil, e ficara conhecido como Doutor Progresso. Mas ao chegar em Cachoeiro, caíra de amores pela cachaça local; e o jornal, nada de sair. Bruno também viera de Cachoeiro, sem que tivesse nascido por lá, o que talvez corrobore aquela história que a Lucia me contou, segundo a qual Cachoeiro do Itapemirim é a capital secreta do mundo. Quando você descobre que, além de Rubem Braga, Roberto Carlos e Carlos Imperial vieram de lá, uma teoria da conspiração imediatamente se forma.
Mais de uma vez tentei arrancar alguma história do Bruno, durante aquele período em que o livro estava pronto mas ainda sem editora, só que ele se negava a contar, no máximo dizendo que “o Rubem não era fácil”. Castigo: Bruno foi morar em Lisboa, perdeu o lançamento no Brasil ? e eu acabei lendo o livro antes dele. Quando a gente se esbarra na internet num desses programas de conversa em tempo real, o assunto é invariavelmente a biografia.
Não ligue para o fato de o texto me citar. Passe por cima para não achar que é coisa de comadres. Não é. Rafael foi meu primeiro amigo no Rio de Janeiro, quando cheguei em 2003. Temos mais horas de conversas sobre crônica e a vida carioca dos anos 1950 a 1970 do que sobre qualquer outro assunto. E a biografia do Rubem foi tema de várias conversas em diversos pontos da deliciosa Zona Sul.
Citei neste post o Rafael mas pretendo fazê-lo com outros blogueiros de minha predileção cujas formações acadêmicas saem do trivial da área de humanas.
PS: Período apertado de exames no mestrado. O tempo é curto, a vida é breve e… cadê meu uísque?
5 commentsStandpoint: nova e altamente recomendável revista
Num post em que cita a revista Dicta&Contradicta, André Azevedo Alves, no sempre excelente O Insurgente, dá uma ótima dica de leitura:
Entretanto, ontem foi-me gentilmente oferecido um exemplar da Standpoint (confesso que, por uma combinação de falta de tempo e de nos dias que correm adquirir cada vez menos jornais e revistas em papel, ainda não tinha comprado a versão offline da revista). Fiquei bastante bem impressionado com o formato e o grafismo - muito texto, boa arrumação e poucas concessões - que julgo combina bem com uma publicação que visa marcar terreno à direita e tem obrigatoriamente de se distinguir do carácter mais light e popular da Spectator.
Estão de parabéns Daniel Johnson e, em especial, a Social Affairs Unit e os vários patrocinadores e mecenas que apostam na revista.
Ainda não vi a Standpoint nas bancas de Lisboa. Vou encomendar meu exemplar. Enquanto isso, fiquem, como eu, bisbilhotando o site da revista. Vai a dica de alguns textos que já li:
GERARD BAKER
July 2008To the happy congregation in Barack Obama’s church of fervid believers, the presumptive Democratic nominee for US President is like none that has ever come before him. The soaring oratory, delivered at vast rallies that can seem unsettlingly fascistic at times, hails a new dawn in American politics.
“We are the change we have been waiting for!” he cries. To which the multitudes respond repeatedly with idolatrous passion, if not much of an ear for grammar: “Yes We Can!”
Outro:
How Kosovo Created its Own Liberal Islam
MICHAEL J. TOTTEN FROM PRISTINA
July 2008On February 17, 2008, Kosovo declared independence from Serbia. Some are concerned about what NATO, the United Nations, and the European Union have nurtured there since the military and humanitarian intervention in 1999. James Jatras, a U.S.-based advocate for the Serbian Orthodox Community, put it bluntly last year when he said Kosovo was a “a beachhead into the rest of Europe” for “radical Muslims” and “terrorist elements.” It’s an assertion without evidence. “We’ve been here for so long,” said United States Army Sergeant Zachary Gore in Eastern Kosovo, “and not seen any evidence of it, that we’ve reached the assumption that it is not a viable threat.”
E mais outro:
Reclaiming the Intellectual Life for Posterity
ALAIN DE BOTTON
July 2008If you went to any university in the country and said that you had come to study “how to live”, you would be politely shown the door – if not the way to an asylum. Universities see it as their job to train you either in a specific career (law, medicine) or to give you a grounding in “the humanities” – but for no identifiable reason, beyond the vague and unexamined notion that three years studying the classics or reading Middlemarch may be a good idea.
The contemporary university is an uncomfortable amalgamation of ambitions once held by a variety of educational institutions. It owes debts to the philosophical schools of Ancient Greece and Rome, to the monasteries of the Middle Ages, to the theological colleges of Paris, Padua and Bologna and to the research laboratories of early modern science. One of the legacies of this heterogenous background is that academics in the humanities have been forced to disguise both from themselves and their students why their subjects really matter – for the sake of attracting money and prestige in a world obsessed by the achievements of science and unable to find a sensible way of assessing the value of a novel or a history book.
E para encerrar:
2 commentsPAUL WOLFOWITZ
July 2008Robert Kagan’s latest book is a short but powerfully written argument about the return of great power conflict and the danger of believing that history is moving towards a world of liberal democracies living at peace with one another. The prospect of “a new era of international convergence” has faded. “History has returned,” he announces, and — however embattled the democracies may be — they “must come together to shape it, or others will shape it for them”.
Kagan somewhat overstates his case when he suggests that great power competition has been on the increase in recent years and that a 19th-century diplomat would instantly recognise the “elaborate dances and shifting partnerships” of today’s great power competition. Great power competition did not disappear with the end of the Soviet Union, but it is not clear that it is getting worse in recent years.