Saudades do Brasil, samba, suor, carnaval e Dr. House

Saudades do Brasil? A pergunta repete-se de maneira intermitente. Pessoas conhecidas, novos conhecidos, a dúvida vem acompanhada de um olhar e de um sorriso ansiosos por uma resposta positiva. Alguns, sinto, juro, esperam que eu tire um cavaquinho do bolso e comece a tocar um samba e, insulto supremo, sambar. Para mim é extraordinário que alguém consiga fazer ambos ao mesmo tempo. Mas fazem. Impressionante.

O jornalista Joel Silveira dizia não haver coisa mais abominável do que ver um sujeito suado dançando cavaquinho. Tem sim: um sujeito suado, tocando cavaquinho e sambando. Eu já vi no Rio. Ainda hoje gasto parte dos meus rendimentos com psiquiatra e Vicodin (tá, minto, era para ser uma citação velada ao Dr. House).

Volto à vaca fria. Eu havia me programado para passar as férias do mestrado, iniciada na sexta passada, no Brasil. Não vai dar. Infelizmente. E quanto mais avança o verão e esse calor infernal — que me fazem achar que a morte não deve ser algo tão mal assim —, mais ouço a pergunta recorrente: “Saudades do Brasil?”

O que digo? Sinto saudades dos meus. Muita. Mas nenhuma falta do feijão com arroz, da dobradinha, dos aromas nativos, do calor igualmente infernal, do carnaval, do samba, do funk, do pagode, dos traficantes, dos escritores, da literatura, enfim. Exagero retórico para fazer uma graça? Antes fosse. A cada dia quando leio os jornais on line, a cada semana quando leio a Veja, a sensação desoladora só não é maior do que o temor da volta definitiva e irrevogável. E sou igualmente tomado por uma preocupação mortificante pelos meus que ficam.

Ao contrário do que possa parecer, não odeio o Brasil, onde nasci e nunca me reconheci. Aqui não vai qualquer bobagem psicológica derivada de desilusão. Minhas reclamações sobre o estado de coisas no país, especialmente na parte política, acredito, são justas. Mas não tenho um capital de lamúrias a dividir. Acho esse governo que está aí muito pior do que os brasileiros mereciam, mesmo que muitos deles tenham colocado, pelo voto, aquela gente lá.

Infelizmente, não poderei ir ao Brasil ver os meus. Só em janeiro. Até lá ficamos juntos aqui. Será divertido, às vezes penoso. E se as coisas são como são ainda há tempo de melhorá-las. A revista Dicta&Contradicta, que recebi no fim de semana, é uma lufada monumental de civilidade. Tenho escrito e dito para os próximos que o país está passando por uma transição. Os sintomas estavam começando a aparecer. Dicta&Contradicta é uma dessas maravilhas que me fazem ter orgulho e acreditar que é possível fazer algo de excelência sem se render à lamentação estéril.

A briga é boa. Estou na trincheira. Quem se habilita?

1 Comment so far

  1. Carlos Eduardo Julho 29th, 2008 11:44 am

    Garschargen volta em grande estilo!
    *
    Escrevendo cada vez melhor. Esperamos que você esteja no segundo número da Dicta&Contradicta meu caro. Seus textos e suas entrevistas são dignos da melhor revista da língua portuguesa.

    Grande abraço,
    C.E.

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