Blogues em debate 8 - Fim do monopólio da escrita

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Um dos aspectos formidáveis dos blogues foi acabar com o monopólio da escrita exercido de forma deliberada ou não por aqueles profissionais tradicionalmente ligados à escrita. Só quem aparecia publicamente era o jornalista, o escritor, e, em casos pontuais, à exceção dos colunistas regulares de jornais e revistas, economistas, advogados e gente das universidades. Era um sacolé de alcachofra. Se até os anos 1970 era possível abrir os jornais e ainda ler jornalistas e escritores com uma centelha de brilho e talento, a vaca foi indo serelepe para o brejo e chegamos aos anos 1990 com uns dois ou três gatos pingados para salvar as colunas de opinião das publicações impressas.

Os blogues acabaram com o monopólio, tão certo como a raiz quadrada de 5,76 ser 2,4. Por isso, todo blogue bom é, por princípio, liberal. E todo blogue excelente é liberal-conservador. Voltando à vaca fria, os melhores blogues que costumo ler são feitos por economistas, engenheiros, empresários, executivos, biólogos, enfim, de gente que há uma década receberia uma gargalhada na testa se ousasse oferecer seus textos para qualquer publicação, noves fora os casos em que o dito era amigo do dono do jornal ou do editor (e não estou dizendo que isso deixou de acontecer).

O fim do monopólio foi uma mudança crucial. O caminho foi aberto e mostrou que que havia muita gente fora da corriola que lê, pensa e escreve bem.

Um dos meus blogues e textos preferidos de sempre é o do Rafael Lima, engenheiro de formação que trabalha na área petrolífera. Não há nenhum colunista na imprensa do Rio de Janeiro que chegue perto. É o texto mais carioca, no bom sentido, quando o Rio ainda produzia um texto só seu. Rafael é imbatível ao escrever sobre jornalismo (new journalism, gonzo, etc.), livros e lugares. Seus relatos de viagens são tão sedutores quanto rigorosos. Tem também os perfis. Rafael também é imbatível escrevendo perfis, embora não se dedique muito à causa.

Um de seus textos mais recentes que destaco foi sobre a biografia de Rubem Braga:

Rubem Braga e eu

Rafael Lima

Nos anos em que acompanhei, trepado no cangote, a coluna semanal de Millôr Fernandes para o jornal O Dia, só o vi abrir a página para reverenciar morto uma vez: em 1995, nos cinco anos de falecimento de Rubem Braga. Conheci Rubem Braga a vida inteira. Li Rubem Braga a vida inteira. Não tem ninguém que eu tenha admirado mais do que Rubem Braga, dizia Millôr.

Rubem Braga não foi só capaz de arrancar uma declaração dessas do Millôr. A narrativa de sua vida, convertida na biografia de Marco Antonio de Carvalho, Um cigano fazendeiro do ar (Globo, 2007, 592 págs.), arrancou do exigente Daniel Piza a entrada na lista dos melhores livros do ano.

Há pelo menos cinco anos eu ouvia falar nesse livro ? quem me contou foi o Bruno Garschagen, logo depois de se mudar para o Rio; o Bruno era amigo do autor e está incluído na lista de agradecimentos. A própria história da feitura daria outro livro, no qual o autor se endivida duas vezes, cruza o país de cima a baixo atrás de entrevistas, se enturma com os amigos sobreviventes de Rubem e descobre algumas histórias imperdíveis.

Lembro especificamente do Bruno me contando, às gargalhadas, do convite feito a Sérgio Buarque de Holanda para ir a Cachoeiro do Itapemirim iniciar um jornal. Sérgio já era um intelectual de renome, sem ter escrito Raízes do Brasil, e ficara conhecido como Doutor Progresso. Mas ao chegar em Cachoeiro, caíra de amores pela cachaça local; e o jornal, nada de sair. Bruno também viera de Cachoeiro, sem que tivesse nascido por lá, o que talvez corrobore aquela história que a Lucia me contou, segundo a qual Cachoeiro do Itapemirim é a capital secreta do mundo. Quando você descobre que, além de Rubem Braga, Roberto Carlos e Carlos Imperial vieram de lá, uma teoria da conspiração imediatamente se forma.

Mais de uma vez tentei arrancar alguma história do Bruno, durante aquele período em que o livro estava pronto mas ainda sem editora, só que ele se negava a contar, no máximo dizendo que “o Rubem não era fácil”. Castigo: Bruno foi morar em Lisboa, perdeu o lançamento no Brasil ? e eu acabei lendo o livro antes dele. Quando a gente se esbarra na internet num desses programas de conversa em tempo real, o assunto é invariavelmente a biografia.

Não ligue para o fato de o texto me citar. Passe por cima para não achar que é coisa de comadres. Não é. Rafael foi meu primeiro amigo no Rio de Janeiro, quando cheguei em 2003. Temos mais horas de conversas sobre crônica e a vida carioca dos anos 1950 a 1970 do que sobre qualquer outro assunto. E a biografia do Rubem foi tema de várias conversas em diversos pontos da deliciosa Zona Sul.

Citei neste post o Rafael mas pretendo fazê-lo com outros blogueiros de minha predileção cujas formações acadêmicas saem do trivial da área de humanas.

PS: Período apertado de exames no mestrado. O tempo é curto, a vida é breve e… cadê meu uísque?

6 Comments so far

  1. Nita Julho 4th, 2008 12:11 pm

    … seu uísque está com o gelo derretido! :P
    Mas depressa arranjo, directamente do frigo! eheh

    Bons exames!

  2. Djabal Julho 7th, 2008 12:41 pm

    Concordo com você. Essa é uma grande conversa, aberta, prolífica e que nos levará adiante. Adiante dessa lagoa de água parada que estava se tornando nosso mundinho. E com referência à capital secreta do mundo, se depender de voto, Cachoeiro terá o meu. Sorte nos exames.Abs.

  3. Paulo Bentancur Julho 10th, 2008 2:40 pm

    Caro Bruno: soube que foste amigo de Marco Antonio de Carvalkho. Em 2005,2006 e 2007 trabalhei numa grande editora do Rio e já trocava e-mails com Marco que me falou de sua biografia. Sem lê-la (não sou assim tão burro), manifestei desejo em publicá-la. E ele me contou a novela que estava sendo a negociação para uma edição do livro. Tentei ajeitar as coisas, não consegui. Ele era uma figuraça. Foi no lançamento do meu livro “A Solidão do Diabo”, conto, ed. Bertrand Brasil, em 26 de setembro de 2006. Até ali, naquela noite, eu havia visto Marco Antonio umas 4 vezes, não mais. O suficiente para me impressionar com sua figura, sua febre dissimulada, sua consistência intelectual. Bem, mas esse é outro papo para outra hora. A questão é uma, específica: sabes algo que me ajude numa possível pesquisa em torno da amizade entre Rubem Braga e Pablo Neruda? Há arquivos do Rubem, acervo em algum lugar, correspondência à qual tenhamos acesso, e, mesmo, pistas deixadas pelo saudoso Marco Antonio quanto a este detalhe da vida do Rubem?

    Abração e parabéns pelo blog.

    Paulo

  4. Dr Plausível Julho 21st, 2008 2:45 pm

    Há tempos venho pensando em dizer em meu blogue o mesmo q vc diz aí, talvez com uma ênfase um pouco mais sarcástica no compadrio entre jornalistas, escritores, jornais e editoras. (Na verdade, acho difícil q fosse de outro jeito, visto os obstáculos e praticidades do dia-a-dia.) Não é só na escrita e nos blogues q surge essa desnepotização da produção intelectual e artística. Hoje já não vejo mais televisão e suas cartas marcadas, nem compro CDs. Só vejo YouTube. Lá tem gente “normal” dizendo coisas muitíssimo mais interessantes do q qqer telepessoa diria ou poderia dizer; ouço lá música muitíssimo mais variada e desobrigada do q a q aparece “na mídia”. E ¡sem anúncios!

  5. […] e leitor Parte 5 - A repercussão (ainda modesta) Parte 6 - Blogue e a grande imprensa Parte 7 Parte 8 - O fim do monopólio da escrita Parte 8 (continuação) - Questões […]

  6. W. Carneiro Abril 13th, 2009 8:20 pm

    Ola, Bruno
    Sou jornalista ha 24 anos e estou finalizando meu segundo livro (o primeiro foi uma coautoria com Sandra Almada em “Damas Negras” - Mauad Editora). Sou um veterano no jornalismo e to escrevendo sobre a Imprensa Marrom - como vc sabe, o termo se refere à imprensa sensacionalista. O que vc não sabe é que o adjetivo ‘marrom’ foi criado com o advento da morte do meu pai, o jornalista e cineasta Elzevir Pereira, vitima de chantagens feitas pelos gangsters do jornalismo. Outras personalidades da epoca (anos 50/60) depois q a noticia se espalhou: Angela Maria, Maisa, Ibrhaim Sued, Wilza Carla e outras 20 celebridades tb deram queixa contra os autores do crime.
    Para sber sobre mais detalhes, faça contato.
    Abrçs

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