Archive for Julho, 2008
Transatlântico: Miguel Esteves Cardoso, um homem civilizado
Caros, vejam este vídeo. Sim, não é escolha; é uma ordem amigável: vejam este vídeo. Por qual razão, ó protoditador Garschagen? Porque durante 1h07min vocês vão conhecer um dos homens mais inteligentes e civilizados de Portugal. Miguel Esteves Cardoso, chamado carinhosamente de MEC, deixou há tempos de ser um indivíduo para se tornar uma instituição. É, mais do que escritor e jornalista, uma instituição refinada, witty. Autor de dois livros excelentes: A causa das coisas (seleção de artigos para jornais) e O amor é fodido (romance).
Mas deixem de lado este texto. Prometo escrever mais sobre o MEC depois. Corram para o vídeo. Agora!
COMUNICADO: o vídeo está novamente disponível. Divirtam-se!
13 commentsBatman de pijama, ou do Leitor Flamenguista e Corintiano

Ontem, na Folha (assinantes), João Pereira Coutinho enfureceu muitos leitores do jornal com um texto sobre o filme O cavaleiro das trevas. Em poucas horas recebeu centenas de e-mails enfurecidos. Por qual razão? Olha só:
Adultos em pijamas
(…)
Nada tenho contra vigilantes, repito. Mas também acrescento que os vigilantes têm de cumprir dois requisitos básicos.
Em primeiro lugar, só podem existir na tela, não na vida real. Na vida real, continuo a preferir o Estado de Direito, em que existem leis, polícia e tribunais, e não loucos ou beneméritos que gostam de fazer justiça com as próprias mãos.Mas mesmo os vigilantes das telas têm de cumprir um segundo requisito: não podem usar collants, máscaras, pinturas ou capas supostamente voadoras. Dizem-me que Batman, ou Super-Homem, é uma metáfora profunda sobre a nossa condição solitária e urbana; heróis derradeiros da pós-modernidade. Não comento. Exceto para dizer que morro de rir quando vejo um ator, supostamente adulto e racional, enfiado num pijama colorido e disposto a salvar a humanidade das mãos maléficas de um vilão tão ridículo e tão colorido quanto ele.
Sem falar dos fãs: homens feitos, alguns casados, que continuam a acreditar que um super-herói em pleno vôo compensa todas as ereções falhadas.
E foi assim que assisti ao último Batman, “O Cavaleiro das Trevas”, dirigido por Christopher Nolan.
(…)
Não tenciono polemizar com a sabedoria dos críticos, mas suspeito de que Heath Ledger morreu de overdose porque, depois de assistir ao resultado, não agüentou a vergonha. E quem o pode censurar?
(…)
Infelizmente para os criadores, a narrativa não é apenas infantil em sua pretensão política e filosófica; é incongruente quando Batman ou Coringa entram no enquadramento. Razão simples: se a fantasia já é difícil de engolir como fantasia, imaginem apresentá-la em tom “realista” e até “documental”.
Confrontado com Batman e Coringa, nenhum adulto equilibrado vê um super-herói e um super-vilão. Vê, simplesmente, dois dementes em pijamas que fugiram do asilo da cidade.
Há vários tipos de leitores. Um dos mais curiosos é o apaixonado. Para ser bem didático vou chamá-lo de Leitor Corintiano (para quem me lê de SP) e Leitor Flamenguista (para quem me lê do Rio). Esse tipo de leitor lê um texto como fosse um torcedor assistindo a uma importante partida do seu time. Ele reage contra o autor do texto com a mesma delicadeza com que o torcedor trata o juiz que não marcou o penâlti a favor. É esse leitor que compra todas as brigas do seu colunista predileto. E que se volta contra o colunista que revê ou volta atrás numa opinião como aquele torcedor que hostiliza violentamente o craque do time que vai jogar no time rival.
Ler a reação desses leitores é diversão garantida. Espero que JPCoutinho reproduza na próxima coluna alguns dos e-mails furiosos que recebeu.
7 commentsEcos sobre o otimista cultural
Alguns apontamentos que podem desenvolver a discussão inaugurada com o post logo abaixo:
No commentsBom, se me permite uma opinião, eu acho que o que me torna melhor é o conhecimento, e a busca dele. Sou das que pensam que a ignorância de fato é o mal, lembrando, se não me engano, Aristóteles, assim como acho que é impossível a algumas pessoas certas abstrações - e não concordo que essa impossibilidade as tornam melhores (como seria se não a tivessem?). Quanto às dúvidas, não consigo ver prazer em sua formulação, sinto, outrossim, ansiedade, que tento dirimir com a busca do que disse acima, e, taí, nisso sinto prazer.:-)
Carla CristinaOlá Bruno!
Mesmo que patifes se considerem reservas de sabedoria frente uma cambada de ignorantes (e eu acredito que exista essa cambada)e se achem no direito de exigir glórias ou, mais comum, financiamento, o melhor é saber separar o joio do trigo - velho clichê - nas intenções; um pouco fora do assunto meu comentário? Eu não queria repetir o comentário da Carla Cristina, que é também o que eu penso: a ignorância de fato é o mal.
ViniciusNão acredito, ao contrário da Carla Cristina e do Vinicius, que a ignorância seja o mal. Ser culto, na bela definição de Octávio Paz, Nobel de Literatura de 1990 é “pertencer a todos os tempos e lugares sem deixar de pentencer a nosso próprio tempo e lugar”. Ou seja, ser culto de verdade exige muito esforço. E nem sempre nos dá satisfação porque quanto mais culta uma pessoa é, mais ela tem condições de encontrar seu lugar no mundo; vou além: quanto mais culta uma pessoa, mais ela conhece seu lugar na estrutura do cosmo. Saber-se ínfimo quando comparado aos grandes homens e mulheres do passado e do presente pode nos dá uma depressão danada. Se não sabemos tanto, levamos nossa vidinha ordinária. Tudo tem seu preço.
Carlos Eduardo
Você é um otimista cultural?

O que nos faz melhores? Um amor? Uma paixão? Um familiar? Um amigo? Um livro? Um filme? Uma música? Uma bebida? Uma comida? Dez perguntas com a mesma origem: o que nos torna melhores?
Não paremos, não paremos porque essas indagações conduzem à outra questão, talvez mais séria porque mais profunda: é possível que algo externo a nós tenha esse poder pleno de conversão?
Não tenho respostas fechadas. Cada vez que penso no assunto ou provoco amigos nesse exercício de reflexão surgem mais dúvidas ao mesmo tempo em que solidifico algumas poucas possibilidades de certezas. Que nunca terei uma resposta adequada é uma dessas certezas. E uso “resposta adequada” por considerar que assim chego mais próximo de um debate mais franco e menos pernóstico do que se buscasse uma “resposta ideal”.
Tendo a acreditar de forma mais ou menos ingênua que os elementos externos a nós servem de combustível: são importantes, mas não fundamentais. Um carro pode andar sem gasolina, por exemplo, se puxado por um cavalo ou empurrado. Ou até mesmo na descisa de uma ladeira. Talvez eu tenha sido por um curto período um otimista cultural, daqueles que acham que o conhecimento, a erudição, a cultura, tornam as pessoas melhores (um lance meio trotskista, coisa que nunca fui).
Vou além: certas pessoas poderiam piorar se se tornassem intelectuais. Tenho amigos cujo encanto está justamente no fato de que não são eruditos. Não consigo imaginá-los como leitores regulares, a entabular conversas mais sofisticadas. Tornar-se-iam, por certo, chatos de galochas.
Mas, repare, também não embarco na canoa furada e, de certa forma, politicamente correta, de achar que a ignorância deve ser louvada e até estimulada. Não acho. Faço a defesa, sim, de que o conhecimento, a erudição, blábláblá, seja uma escolha, não uma imposição autoritária levada por um ideal de perfeição. Remodelar a espécie humana de acordo com um ideal de pureza e fatal; ação de mente revolucionária; coisa de Robespierre.
A leitura, o conhecimento, pode melhorar o indivíduo, como pode sofisticar-lhe a maldade. Achar que um idiota só é idiota porque nada leu é minimizar o poder da idiotice e valorizar o idiota.
Livro, literatura, filosofia, etc., se entendido como um bem de remição provoca o caos e perturba a compreensão. O exercício de reflexão deve não só ser um mergulho interior, mas um esforço para transcender a própria história individual rumo a uma avaliação honesta daqueles que nos cercam. É possível que a quantidade de dúvidas suscitadas se apresente numa escala maior e mais complexa do que as certezas possíveis. O prazer está na formulação de dúvidas não de opiniões graves com aparência de verdade objetiva.
Trata-se de um esplendoroso exame crítico para ser desenvolvido ao longo da vida, de forma mais ou menos intensa, a depender da abnegação e amor pelo conhecimento.
3 commentsUm filme, um livro, um CD

O sistema de comentários deu chabu e eu não faço idéia do que aconteceu. Não consigo publicar os comentários feitos no post aí de baixo. Assim que eu conseguir resolver isso os comentários serão liberados.
Saio para jantar agora. Tratar de assuntos profissionais. Volto mais tarde para escrever.
Só queria, antes de sair, sugerir três coisas (depois comento o por quê das recomendações):
1) a minissérie John Adams, da HBO;
2) o livro Outras opiniões. Ensaios de história, do historiador português Rui Ramos;
3) o CD Beethoven: Symphonies Nos. 5 & 7, com gravação regida pelo maestro venezuelano Gustavo Dudamel.
Divirtam-se! Até mais!
2 commentsSaudades do Brasil, samba, suor, carnaval e Dr. House
![]()
Saudades do Brasil? A pergunta repete-se de maneira intermitente. Pessoas conhecidas, novos conhecidos, a dúvida vem acompanhada de um olhar e de um sorriso ansiosos por uma resposta positiva. Alguns, sinto, juro, esperam que eu tire um cavaquinho do bolso e comece a tocar um samba e, insulto supremo, sambar. Para mim é extraordinário que alguém consiga fazer ambos ao mesmo tempo. Mas fazem. Impressionante.
O jornalista Joel Silveira dizia não haver coisa mais abominável do que ver um sujeito suado dançando cavaquinho. Tem sim: um sujeito suado, tocando cavaquinho e sambando. Eu já vi no Rio. Ainda hoje gasto parte dos meus rendimentos com psiquiatra e Vicodin (tá, minto, era para ser uma citação velada ao Dr. House).
Volto à vaca fria. Eu havia me programado para passar as férias do mestrado, iniciada na sexta passada, no Brasil. Não vai dar. Infelizmente. E quanto mais avança o verão e esse calor infernal — que me fazem achar que a morte não deve ser algo tão mal assim —, mais ouço a pergunta recorrente: “Saudades do Brasil?”
O que digo? Sinto saudades dos meus. Muita. Mas nenhuma falta do feijão com arroz, da dobradinha, dos aromas nativos, do calor igualmente infernal, do carnaval, do samba, do funk, do pagode, dos traficantes, dos escritores, da literatura, enfim. Exagero retórico para fazer uma graça? Antes fosse. A cada dia quando leio os jornais on line, a cada semana quando leio a Veja, a sensação desoladora só não é maior do que o temor da volta definitiva e irrevogável. E sou igualmente tomado por uma preocupação mortificante pelos meus que ficam.
Ao contrário do que possa parecer, não odeio o Brasil, onde nasci e nunca me reconheci. Aqui não vai qualquer bobagem psicológica derivada de desilusão. Minhas reclamações sobre o estado de coisas no país, especialmente na parte política, acredito, são justas. Mas não tenho um capital de lamúrias a dividir. Acho esse governo que está aí muito pior do que os brasileiros mereciam, mesmo que muitos deles tenham colocado, pelo voto, aquela gente lá.
Infelizmente, não poderei ir ao Brasil ver os meus. Só em janeiro. Até lá ficamos juntos aqui. Será divertido, às vezes penoso. E se as coisas são como são ainda há tempo de melhorá-las. A revista Dicta&Contradicta, que recebi no fim de semana, é uma lufada monumental de civilidade. Tenho escrito e dito para os próximos que o país está passando por uma transição. Os sintomas estavam começando a aparecer. Dicta&Contradicta é uma dessas maravilhas que me fazem ter orgulho e acreditar que é possível fazer algo de excelência sem se render à lamentação estéril.
A briga é boa. Estou na trincheira. Quem se habilita?
1 commentAGUARDEM: Garschagen volta no dia 28!
Caros, esta é a última semana de exames no mestrado de Ciência Política e Relações Internacionais que faço desde setembro do ano passado no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, aqui em Lisboa. É impossível parar para escrever algo merecedor da atenção de vocês.
Para não deixar o blogue parado estava reproduzindo em excesso textos que vinha lendo. De material inédito, nada.
O blogue não vai morrer. Tenho algumas mudanças e acréscimos planejados. Por isso mesmo gostaria de pedir as vossas digníssimas paciências um pouco mais de paciência. O blogue volta a ser atualizado diariamente e com o mesmo vigor de antes a partir do dia 28 de julho, segunda-feira da próxima semana. Até lá termino o último exame do semestre e tenho dois dias para pôr a casa em ordem. Não me abandonem, ok? Acho que vocês vão gostar dos planos que serão executados.
Um abraço e um alô para as respectivas famílias, que se ainda não lêem este blogue, por favor, né?, ainda temos até o dia 28 para convencê-las.
Saudações fraternas,
Bruno Garschagen
A nobre arte de furtar o capital intelectual alheio, ou como Garschagen logo terá um nervous breakdown
Caros, sei que não ando produzindo nada para cá. Tenho me excedido no furto da produção do capital intelectual alheio. O mestrado tem me exigido e, além do mais, estou em período de provas. Está sendo uma complicação administrar o tempo. A partir do dia 25 as coisas se acalmam com o fim dos exames.
Arranjar trabalhos como free lancer aí no Brasil é que está sendo uma tragédia (e vivo aqui sem bolsa de estudos, sem lenço, só documento, por causa da imigração). Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire. Enfim…
Em agosto, novidades no blogue. Espero que gostem das mudanças e acréscimos. Enquanto isso, vou lapidando a arte do furto do capital intelectual alheio.
4 commentsFernando Vallejo, o método de Ingrid Betancourt e meu Ortopé
Os fatos, não raro, se apresentam muito mais como provas do que como simples evidências.
No dia 4 de julho a Folha publicava o seguinte texto:
“Ingrid é uma oportunista”, afirma escritor
MARCOS STRECKER
ENVIADO ESPECIAL A PARATY“É escandaloso o espaço que estão dando para a libertação de Ingrid Betancourt”. A opinião é do polêmico escritor colombiano Fernando Vallejo, 66, um dos convidados da 6ª Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece na cidade fluminense até o próximo domingo. Para o autor, a ex-refém “é uma manipuladora, velhaca, horrível, oportunista”.
Na opinião de Vallejo, a ex-candidata à Presidência não é uma vítima das Farc, mas uma política ambiciosa que provocou a ação da guerrilha como forma de promoção política.Segundo ele, “ela e sua assessora e companheira de aventuras Clara Rojas [libertada em janeiro deste ano] são os únicos políticos que agiram para serem seqüestrados”. “Na época da captura, ela tinha ido com a assessora intencionalmente para um local em que havia esse risco”, afirmou Vallejo. Ingrid foi seqüestrada com Rojas em fevereiro de 2002, quando viajavam em campanha para San Vicente del Caguán, em uma região no sul da Colômbia tida então como bastião das Farc.
Reféns esquecidos
O autor se mostra indignado com a comoção que a política colombiana desperta. “Milhares já foram seqüestrados ao longo dos anos, agora várias centenas estão sofrendo em poder da Farc, mas só se fala dela.” As Farc mantêm centenas de reféns não-político pelos quais pede resgate em dinheiro.Para Vallejo não será surpresa se Betancourt concorrer novamente à Presidência, em 2010 -ela já abriu a possibilidade anteontem. Caso isso aconteça, o escritor acha que a ex-refém tem chances de ganhar as eleições. “O povo colombiano é tão ignorante que pode até elegê-la. Mas ela é francesa, tem dupla cidadania. Por que escolheu fazer política e concorrer a presidente da Colômbia? Por que ela não concorre na França, com [Nicolas] Sarkozy?”, questiona.
O escritor e cineasta é conhecido pelo romance “A Virgem dos Sicários” (Companhia das Letras) e vive hoje no México. Em sua obra, inclusive no recém-lançado “Despenhadeiro”, usa sua cidade natal, Medellín, a mesma do presidente Álvaro Uribe, como fonte para uma prosa realista e autobiográfica. Costuma fazer um retrato ácido da sociedade colombiana e de Medellín, fortemente impregnadas de religiosidade e afetadas pelo narcotráfico, pelo crime e pela corrupção.
Para o autor, as Farc estão derrotadas. “A Colômbia não gosta da organização, são um bando de assassinos, seqüestradores e narcotraficantes”, afirmou -antes dissera em coletiva que o grupo, “depois da Igreja Católica e de Uribe, é a maior praga da Colômbia”.
Grande crítico do atual presidente, Vallejo acha que se ele se reeleger depois de conseguir uma mudança constitucional, nada vai mudar. “Toda a classe política na América Latina só pensa em seus próprios interesses, quando não está claramente envolvida com o crime e com a corrupção.”
Hoje, também a Folha (assinante), publicou:
Ingrid dá guinada e passa a atacar Uribe
Ex-refém, que antes defendeu possibilidade de terceiro mandato, adota discurso social e aponta isolamento regional do país
Ex-candidata diz que é “de esquerda”, defende seu projeto político, e mostra-se incomodada com críticas aos mediadores europeus
ELIANE CANTANHÊDE
ENVIADA ESPECIAL A BOGOTÁMenos de uma semana depois de ser resgatada espetacularmente do cativeiro, a ex-candidata a presidente da Colômbia Ingrid Betancourt consolidou ontem a guinada iniciada na véspera em relação ao governo de Álvaro Uribe. Se em suas primeiras entrevistas foi pró-Uribe, admitindo até o terceiro mandato do presidente, ontem ela declarou que não teria votado nele e que “a Colômbia está isolada na região”.
“[A Colômbia] é o único país que tem guerrilha e por isso estamos na extrema direita. Quem elegeu Uribe foram as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o grupo que a fez refém]. Se não existissem as Farc, não existiria Uribe. Os colombianos votaram em Uribe porque estão até o pescoço com as Farc”, disse ela, numa nítida mudança de tom, na véspera de completar sete dias de libertação.
As declarações foram à BBC Mundo em Paris e não chegaram a surpreender o meio político e diplomático em Bogotá, onde ela já é vista como potencial opositora de Uribe e teve 31% de intenções de votos numa pesquisa publicada no último domingo. Mas esse percentual só existe num cenário: com o próprio Uribe fora da disputa. Com ele, ninguém tem a menor chance, nem ela.
Segundo Betancourt, sua “divergência fundamental com ele é a natureza da guerrilha: Uribe concebe o problema colombiano como uma crise de violência, de segurança, que cria um mal-estar social. Eu penso o contrário, que é porque há um mal-estar social que há violência”. Apesar disso, não classificou as Farc como de “esquerda”.
“Êxito ou fracasso”
Ela não descartou uma possível candidatura à Presidência: “Os espaços têm que se abrir naturalmente. Se vejo em algum momento que é bom para a Colômbia que eu esteja aí, aí estarei”, disse, posicionando-se no espectro político oposto ao de Uribe: “Sempre serei de esquerda”. Na véspera, ela dissera que o presidente precisa “abandonar a linguagem do ódio”.
CONTINUA…
Quando os fatos confirmam as suspeitas só penso numa música: Ortopé, Ortopé, tão bonitinho!
2 commentsJPCoutinho, Hayek, Dicta&Contradicta

Na Folha de hoje, João Pereira Coutinho, excelente como sempre, fala sobre a revista Dicta & Contradicta:
2 commentsHayek para o século 21
O Estado deve ser capaz de estabelecer as regras do jogo, mas não lhe cabe comandá-lo
AS MELHORES revistas são aquelas que nos obrigam a repensar. Lemos artigos, confrontamos sabedorias nossas. E depois reformulamos o conhecimento num processo invisível e contínuo. Creio que era essa a idéia que Hayek defendia ao falar da emergência e do florescimento da civilização ocidental: um processo epistemológico em que diferentes mentes interagem espontaneamente umas com as outras, sem interferência de um Estado central e centralista.
E se lembrei Hayek foi por causa de uma revista recentemente lançada no Brasil, um pequeno milagre de inteligência e bom gosto gráfico. A revista se chama “Dicta & Contradicta”, tem periodicidade semestral (que pena) e procura ser uma espécie de “The New Criterion” em língua portuguesa.
Caso não saibam, a “The New Criterion” é a bíblia conservadora e liberal da intelligentsia nova-iorquina, e a “Dicta”, na escolha e disposição dos temas (ensaios + perfis + artes + letras), emula, na perfeição, a irmã mais velha da Big Apple.
Talvez por isso o primeiro número, que conta, entre outros, com um ensaio notável de Luiz Felipe Pondé sobre o “Eclesiastes” (ensaio que me obrigará a reler “Herzog”, de Saul Bellow, com outros olhos), inclui também texto de Roger Kimball, um dos fundadores da “The New Criterion”, sobre Hayek, o austríaco nascido em 1899 e que acabaria por conhecer a fama internacional em 1944, com a publicação de “The Road to Serfdom”.
Kimball acerta ao afirmar que “The Road to Serfdom” é, ainda hoje, um dos mais poderosos libelos a favor da liberdade individual e contra o planejamento econômico que seria dogma nas economias européias do pós-guerra.
Mas, lendo Kimball e relendo Hayek, não estou inteiramente seguro de que todos os pontos do austríaco mantenham, ainda hoje, validade e pertinência.Para começar, não estou inteiramente certo de que a existência de um Estado social, capaz de garantir proteção e ajuda para os mais desfavorecidos, seja o primeiro passo para o “caminho da servidão” que Hayek denuncia no título da sua obra.
A Suécia ou a Dinamarca, para citar apenas dois exemplos em que o Estado participa generosamente nas economias internas, só por piada podem ser considerados Estados “totalitários”, comparáveis à Alemanha nazista ou à União Soviética comunista.
E, para ficarmos dentro da família conservadora, as reformas sociais de Disraeli ou Salisbury na Inglaterra, longe de restringirem as liberdades individuais, foram uma condição para o seu exercício no século 20.Por outro lado, relendo “The Road to Serfdom”, questiono se, como escreve Hayek, a educação e a inteligência promovem necessariamente o pluralismo político anti-autoritário. A história do século 20, por vezes, aponta para o inverso: intelectuais sofisticados, como Sartre ou Heidegger, aderiram a programas autoritários. Para mentes irrecuperavelmente monistas, a diferença pode ser vista como um vício, não como uma virtude.
Apesar disso, “The Road to Serfdom” ainda é válido para o século 21. Começa por ser válido ao relembrar, de forma expressiva (e corajosa), as semelhanças teóricas e práticas entre o fascismo, o nacional-socialismo e o comunismo, três tiranias gêmeas de vocação revolucionária que, ao procurarem recriar o “homem novo”, acabaram por degradar e destruir o “homem velho”.
Mas Hayek é sobretudo útil ao relembrar que o Estado não deve ser um agente moral: uma entidade dotada de capacidade e poder para impor sobre terceiros uma única visão da vida.
Isso implica, segundo Hayek, um respeito pelo indivíduo e pela capacidade deste de perseguir os seus interesses. O Estado deve ser capaz de estabelecer as regras do jogo, mas não lhe cabe comandar o jogo, muito menos estabelecer o resultado final desse jogo.
Como afirma Kimball, na passagem mais relevante do texto que a “Dicta & Contradicta” oferece agora aos leitores brasileiros, Hayek entendeu, como Tocqueville antes dele, que o efeito mais perverso do “paternalismo de Estado” é de natureza psicológica.
Ao tratar os seres humanos como eternas crianças, o governo permite que os seres humanos vejam a eles próprios como crianças. A interiorização desse sentimento faz com que os indivíduos se sintam crescentemente dependentes, sem autonomia e, no limite, sem caráter nem dignidade próprios. E nenhum adulto amante da liberdade aceita viver num jardim de infância.


