ENTREVISTA: Guilherme Rabello fala sobre a Dicta&Contradicta

Na próxima terça, vocês já sabem, será lançada a revista Dicta&Contradicta, cuja publicação é um dos grandes acontecimentos culturais do ano no Brasil. Para obter mais informações entrevistei por e-mail o presidente do Instituto de Formação e Educação (IFE), Guilherme Malzoni Rabello. O IFE é o instituto que idealizou e edita a publicação.
Primeiro, gostaria de saber qual a participação do IFE (Instituto de Formação e Educação) na revista e por que a entidade decidiu colaborar com o projeto.
A revista Dicta&Contradicta é inteiramente ideada, preparada e editada pelo IFE. Decidimos publicá-la como nossa primeira atividade de porte porque achamos que é um excelente meio de começar o trabalho e apresentar a nossa proposta.
O IFE existe há menos de um ano, mas na prática foi sendo criado desde que cinco pessoas decidiram se reunir para estudar filosofia a sério. No começo, não pensávamos que haveria um futuro nessa empreitada; o que fazíamos era basicamente dedicar algumas horas semanais à leitura de Platão. Com o passar do tempo, fomos percebendo que muita gente se interessava pelo que estávamos fazendo; o grupo foi crescendo aos poucos, até que um dia decidimos formalizar a nossa aventura, e o que era passatempo virou uma associação juridicamente reconhecida. O que queremos com ela é oferecer ao maior número de pessoas possível aquilo de que mais gostamos e de que mais sentimos falta: a formação nos valores básicos do ser humano e na grande cultura clássica e humanística.
Todos nós nos empenhamos nisto apenas por gosto, mas ao mesmo tempo temos a preocupação de tornar permanente o Instituto. Neste sentido, o primeiro passo foi dado com o patrocínio de duas instituições de peso, o Instituto Bovespa e o Banco Fator, a quem estamos muito agradecidos.
Qual é o perfil/identidade e ambição da revista? Há mesmo uma influência da New Criterion?
A melhor maneira que encontramos para definir Dicta&Contradicta é dizer que tem conteúdo acadêmico e abordagem jornalística. Queremos que seja profunda, universal, rigorosa cientificamente, mas preocupada com o leitor no estilo e no tamanho dos textos, bem como na apresentação gráfica. Vale a pena ressaltar que todas as ilustrações do primeiro número foram feitas pelo Paulo von Poser, o que deu um belo peso artístico à revista. E também gostaria de destacar que a revista começa com um texto que é um verdadeiro testamento: as três últimas aulas de Bruno Tolentino, que foram gravadas e editadas.
Quanto à The New Criterion, certamente foi a nossa inspiração. Tanto assim que a primeira coisa que fizemos ao preparar a publicação foi entrar em contato com eles para traduzir os artigos publicados por lá: neste primeiro número, temos o excepcional ensaio do Roger Kimball sobre Friedrich Hayek. Além da New Criterion, publicamos um artigo da First Things. Por outro lado, tivemos de fazer várias adaptações: a New Criterion é mensal (10 exemplares por ano), nós seremos semestrais no começo e trimestrais quando for oportuno; e a edição americana tem sempre algo em torno de 80 páginas, nós começamos com 212. Enfim, as diferenças são várias, mas o que nos move é a mesma paixão pelo pensamento e pela crítica honesta.
Qual é a sacada do nome? Como foi escolhido?
Enfim, como eu disse no começo, tanto o IFE quanto a Dicta surgiram de forma natural. Quando nos demos conta, tínhamos formado um instituto e estávamos apresentando o projeto de uma revista. Dicta&Contradicta foi escolhido, digamos assim, às vésperas do parto…
A inspiração vem de uma coletânea de aforismos do jornalista alemão Karl Kraus (NOTA: Há um livro dele no Brasil, Ditos e Desditos). É interessante, porque a influência de Kraus no IFE não vai além do fato de ele ser um jornalista extremamente honesto e atento ao que acontecia a sua volta. O que nos interessa é essa capacidade de ver mais de um lado de uma questão, os argumentos e os contra-argumentos.
Como foi feita a escolha dos colaboradores?
Além dos membros do IFE, que são colaboradores naturais, procuramos pessoas que pudessem contribuir com o nosso projeto. Várias delas são nossos amigos, outras foram gratas surpresas e esperamos que se tornem nossos amigos. Por exemplo, o prof. Mendo Castro, que nos surpreendeu a todos entregando um texto maravilhoso em tempo recorde. Outra enorme fonte de colaboração foram os blogs: basta uma olhada no índice para perceber que mais de um terço da revista é feito por pessoas que também mantêm blogs. E queremos deixar claro que nosso objetivo é expandir ao máximo o número desses colaboradores.
De que forma o conteúdo é definido?
A revista é composta por seções, várias delas com temas fixos. Isso nos dá uma moldura dentro da qual definimos o conteúdo e pensamos que colaboradores poderíamos convidar. Dentro de cada uma dessas seções, o conteúdo é absolutamente livre, com uma única condição: precisa ser bom.
A partir disso, fazemos um brainstorm: “Que tema seria interessante? Quem poderia escrever sobre isso?” ou, ao inverso, “Fulano escreve coisas muito pertinentes, vamos convidá-lo? Sobre o que ele poderia escrever?” Acho que não há nenhuma “inovação” no nosso método de trabalho: basicamente, fazemos uma reunião de pauta e fechamos o conteúdo. Se tudo correr bem, com o passar do tempo teremos mais opções do que tínhamos no começo.
Por que investir numa publicação impressa e não num site? Ainda é estratégico ter uma revista impressa?
Eu não vejo oposição entre publicação impressa e publicação eletrônica. Pelo contrário, acho que as duas são complementares e, cada vez mais, necessárias. No caso da Dicta, mais ainda! Estamos investindo fortemente no nosso site, www.dicta.com.br [deve ir ao ar nos próximos dias]. Será basicamente um blog, com algum conteúdo especial ligado ao primeiro número da revista; por exemplo, colocaremos no ar, como especial, a gravação das aulas do Bruno Tolentino que deram origem ao artigo impresso.
Se me permite um exemplo, quem melhor resumiu a relação entre publicações impressas e eletrônicas foi você, recentemente, no seu blog. Era um post com o link para um texto do Paul Johnson publicado no The Spectator sobre bibliotecas. É exatamente isto: adoramos a agilidade que a internet possibilita: um jornalista brasileiro, estudando em Portugal, recomenda um texto publicado naquela semana num periódico inglês… Mas nada disso impede que fiquemos fascinados com aquelas bibliotecas antigas, escondidas no interior da Irlanda…
Um dos problemas mais comuns em publicações mais exigentes intelectualmente é a falta de uma administração competente e de um marketing eficiente que consiga “vender” a revista para os anunciantes e chegar aos leitores sem se limitar a um gueto. Como a revista se preparou nesse sentido? Podemos acreditar que a publicação terá vida longa?
O que posso dizer é o seguinte: nós nem consideramos a possibilidade de lançar um projeto antes de elaborar uma planilha de custos. No caso da Dicta, o “segredo” foi minimizar os custos; por isso não pudemos começar com uma periodicidade maior, por exemplo. Outra preocupação fundamental foi conseguir expor aos patrocinadores o nosso projeto como um todo: não apenas viabilizar uma revista, mas começar um projeto cultural mais abrangente.
É claro que encontraremos dificuldades, mas isso faz parte do jogo. Estamos aí para jogar: em nenhum momento você nos ouvirá reclamando “do mercado”, “da falta de leitores”. Partimos do princípio de que nós é que precisamos entender o mercado, e de que os nossos leitores querem um bom produto, e só comprarão a revista se julgarem que ela é boa.
Eu espero que isso seja suficiente para acreditarem que a revista terá vida longa. Nós acreditamos! E se em algum momento fizermos algo de errado, vamos voltar atrás e tentar fazer melhor, porque é aquela coisa: “for us there is only the trying, the rest is not our business”.
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“cinco pessoas decidiram se reunir para estudar filosofia a sério. No começo, não pensávamos que haveria um futuro nessa empreitada; o que fazíamos era basicamente dedicar algumas horas semanais à leitura de Platão.”
Defina “estudar a sério”. COMO era essa leitura?
“e o que era passatempo”
Era passatempo ou estudo a sério?
[…] PS: Este editorial foi gentilmente antecipado ao blogue pelo presidente do Instituto de Formação e Educação (IFE), Guilherme Malzoni Rabello, cuja entrevista publicada aqui recomendo vivamente. […]
No post seguinte, o “editorial” da D&C Magazine ( http://brunogarschagen.com/2008/06/09/editorial-da-dictacontradicta/ ):
“como esse estudo é a sério, caminha lentamente”
Esclareceu um pouco. Agora, demorou porque vocês liam devagar, mas o tempo todo, ou porque vocês interrompiam a leitura várias vezes? E como era a leitura?
“nestes três anos, ainda não esgotamos Platão.”
Eu ia perguntar mesmo se vocês leram só Platão.
[…] por mim ontem em Bruno Garschagen : (o blog já foi atualizado desde ontem, mas o meu comentário não foi publicado até o momento […]
“como esse estudo é a sério, caminha lentamente”
Esclareceu um pouco. Agora, demorou porque vocês liam devagar, mas o tempo todo, ou porque vocês interrompiam a leitura várias vezes? E como era a leitura?
“nestes três anos, ainda não esgotamos Platão.”
Eu ia perguntar mesmo se vocês leram só Platão.
Eita que cara confuso. Ou chato.
[…] PS: Este editorial foi gentilmente antecipado ao blogue pelo presidente do Instituto de Formação e Educação (IFE), Guilherme Malzoni Rabello, cuja entrevista publicada aqui recomendo vivamente. […]