JPCoutinho: a possilidade de um segundo holocausto é mais real do que se imagina
João Pereira Coutinho, colunista da Folha de S. Paulo e do jornal Expresso, fez ontem uma palestra dando pinceladas sobre o passado, presente e futuro de Israel estabelcendo links com o romance Operação Shylock, de Philip Roth. Na conversa de quase duas horas, incluindo debate com o público, tocou em pontos cardeais:
1) As famílias israelenses poderiam ser muito maiores do que são. Israel é um país dos vivos com seus fantasmas;
2) O anti-sionismo, por seu caráter persecutório e violento, é muito mais preocupante do que o anti-semitismo, que revela a idiotice de pessoas que cultivam um preconceito tão abjeto quando histórico;
3) O anti-semitismo não despareceu só mudou de método;
4) A possilidade de um segundo holocausto é mais real do que se imagina.
JPCoutinho citou dois elementos fundamentais para que tal tragédia ignominiosa venha a ocorrer: a) um processo de desumanização do outro (como se fez na Alemanha nazista, como se faz em países árabes em relação aos judeus); b) capacidade tecnológica para converter ódio em ato (o programa nuclear do Irã é muito mais do que apenas um indício de que a vaca já foi para o brejo).
5) A Europa, com sua compreensível posição pacifista, não está dando a devida atenção ao problema naquilo que JPCoutinho chamou de postura de negação. “Negar a realidade ou desacreditá-la não vai fazê-la desaparecer”, disse. Ele citou a matéria de capa da revista Foreign Policy, que ouviu 100 importantes intelecuais sobre a situação de Israel. Ninguém deu um pio sobre a ameaça representada por Teerã.
6) Sobre aqueles que defendem um equilíbrio nuclear com o Irã, JPCoutinho disse que é ingenuidade a Europa achar que é possível estabelecer um equilíbrio de força como na Guerra Fria. O colunista disse que não é possível confiar num regime fanático porque nunca se saberia o que planejava e o que era capaz de fazer. Além do mais, Irã não deverá atacar Israel na posição de Estado, mas vai agir, como já vem fazendo, através de grupos terroristas, como Hamas e Hezbollah, que recebem informalmente apoio e financiamento.
7) O fracasso nas negociações de Camp David em 2000: Barak, de Israel, entrou para negociar; Arafat, da Palestina, não. Isso ficou claro com as concessões feitas por Israel e, além de exigir que todos os pedidos fossem atendidos, para fechar a rosca, Arafat ainda propôs a volta de 3 milhões de refugiados palestinos para o Estado de Israel e não para o futuro Estado palestino. “Arafat queria eliminar Israel demograficamente. Queria dois Estados para um só povo”.
Num texto que fiz para o site Americas Reporter, o embaixador de Portugal em Argel, Luís de Almeida Sampaio disse que o diálogo entre Israel e palestinos já vinha sendo desenvolvido antes mesmo da Conferência de Anápolis, realizada em novembro do ano passado nos Estados Unidos. Destaco um trecho do meu texto (pode ser lido aqui):
Do encontro, com participação de 47 países, a maior já registrada numa conferência pela paz na região, saiu um documento que define pontos de um acordo para selar a paz e criar um Estado Palestino até o fim deste ano (Israel, no entanto, não quis estabelecer um prazo, mas acha que o acordo sai até dezembro). Também está prevista a formação de um comitê permanente de negociação com representantes dos dois povos e uma reunião quinzenal entre Olmert e Abbas.
Mas o fato de todas as questões de interesse entre palestinos e israelenses terem sido previamente discutidas não significa que haja consenso. Ainda é ponto de discórdia questões centrais como o problema dos refugiados que se arrasta desde 1948 (hoje são quatro milhões), o desmantelamento do muro e dos assentamentos, o controle da água, a libertação dos presos, o reconhecimento de Israel como Estado Judeu, a volta às fronteiras de 1967 com a retirada das tropas israelenses e a devolução da parte oriental de Jerusalém, conquistada naquele ano por Israel e que seria convertida na capital do futuro estado palestino.
“Como tudo vem sendo negociado pelos dois países não é preciso reinventar a roda. Precisa é negociar e decidir”, explica o embaixador português, para quem o que falta é vontade política para, em algum momento, fechar o acordo. “Mas é claro que não será um acordo satisfatório para nenhuma das partes. Israel vai reclamar, os palestinos vão reclamar e a comunidade internacional também. Mas, com todas as limitações, será o acordo possível e igualmente importante. Em cima desse acordo, depois, é possível avançar nos pontos divergentes”.
JPCoutinho deixou claro que o governo de Israel pode e deve ser criticado por suas ações, mas não pelo fato de defender seu povo e território. A confusão que geralmente se estabelece é vincular ações de defesa dos israelenses com a legitimidade da existência do Estado de Israel.
No fim da palestra pedi ao JPCoutinho que me enviasse o texto que ele preparou. Assim que eu recebê-lo publico aqui para vocês lerem os demais pontos abordados.
PS: Vou passar a comentar no blogue eventos que eu for por aqui. Acho que está faltando ao site falar sobre Portugal e do que há de relevante em tudo o que venho tendo acesso na terra de Camilo Castelo Branco.
8 Comments so far
Leave a reply


o Camilo é homem do norte. Não confundo o romancista com a mouraria ai de Lisboa.
Quanto à questão israelita, falta só referir um pormenor que os JPC’s desta vida se esquecem sempre de falar: a legitimidade moral originária para se criar um estado judaico naquela zona. E não me venham com o argumento histórico e demográfico(ambos discutiveis). É que, por essa ordem de ideias, temos de admitir um estado cigano por terras da Hungria.
Bruno
inicialmente parabens ao seu blog. Excelente.
Enviei este post ao professor Roberto Romano que o reproduziu no blog
http://robertounicamp.blogspot.com/
com um link ao seu blog.
um abraço
“legitimidade moral originária para se criar um estado judaico naquela zona”?
Os judeus foram expulsos da região dois mil anos antes. Vá ler!
“E não me venham com o argumento histórico e demográfico(ambos discutiveis)”.
Pelo que entendi os seus argumentos só servem aos palestinos. Sua lógica é terrível, ops!
“Os judeus foram expulsos da região dois mil anos antes. Vá ler!”
Correcto. Ainda que nunca tenham sido a população maioritária.Nem a noção de estado moderno, com aparelho estadual e um povo circunscrito a um território tivesse qualquer aplicação. Mas quer dizer com isso que a permanência, durante um periodo circunscrito da história, legitima a existência de um estado? Onde é está o Estado Kurdo? Porque não existe consenso à volta do Kosovo? Têm os ciganos direito a constituir um estado? E os bascos?
[…] Mais algumas informações para manter aceso o debate sobre post que fiz a respeito no dia 4 a respeito da palestra de João Pereira Coutinho sobre Israel. […]
[…] Mais algumas informações para manter aceso o debate sobre post que fiz no dia 4 a respeito da palestra de João Pereira Coutinho sobre Israel. […]