Blogues em debate 6 - Blogue e a grande imprensa

O abnegado Guilherme Roesler, do ótimo blogue Ação Humana, entra na conversação sobre blogues:
A questão dos blogues
O Bruno Garschagen iniciou um debate sobre os blogues. Bem, creio cada pessoa tenha uma noção variada da utilidade desse interessante recurso; para uns, serve basicamente para expor suas próprias idéias, debater com amigos, ou simplesmente comentar notícias veiculadas em grandes mídias. O fato é que existem centenas de milhares de blogues, e muito provavelmente uma fatia grande desse percentual não dure mais do que singelos doze meses.
Sobram, basicamente, após esse período de decadência, apenas os blogues que acrescentam algo que não é de interesse da grande mídia publicar. Mas existe um outro tipo de blogue que está crescendo, e, a meu ver, tem importância fundamental nesse processo informativo: os blogues de tradução ou veiculação de textos já “perdidos”, de livros não mais publicados ou qualquer outra excentricidade textual.
Este blogger não quer expor “suas” idéias, mas as idéias alheias que lhe fizeram a cabeça. Não quer sem um escritor, mas um panfletário; nada mais quer ser do que divulgador de idéias alheias. Assim, traduz textos que não são encontráveis em língua portuguesa, transcreve textos de obras com edições já esgotadas, comenta pensamentos já “esquecidos”, e, na maior parte dos casos, trabalha unicamente com ilusão que pode mudar alguma coisa de como as coisas agora estão.
E esse novo tipo de blogger não existe apenas no Brasil; existe em qualquer lugar onde não existe completa liberdade de acesso a obras literárias e políticas sobre determinados assuntos; a maioria desses jovens - não existem muitos senhores na rede com esse objetivo - quer discutir livremente, mas, pela falta de material básico, sacrifica uma parcela preciosa de seu tempo com a pretensão de fazer um pouco daquilo que seria o dever da grande imprensa: veicular todas as informações.
O ponto essencial apresentado pelo Guilherme é a vocação intrínseca do blogueiro de querer compartilhar, seja idéias próprias, seja o capital intelectual alheio (como há com música, vídeo, imagens etc.). Além desse interesse altruísta há, com isso, um desejo decorrente: ter com quem conversar.
É um projeto, também, de natureza pedagógica. Apresenta-se as obras para quem não as conhece e descobre-se mais gente que compartilha preferências por assuntos e autores. Posteriormente, uma conversação é estabelecida e as conjeturas partilhadas são expressas nos respectivos blogues.
Só discordo do Guilherme em dois aspectos que convergem no mesmo ponto: a mídia. Destaco as frases e comento:
a) “O fato é que existem centenas de milhares de blogues, e muito provavelmente uma fatia grande desse percentual não dure mais do que singelos doze meses. Sobram, basicamente, após esse período de decadência, apenas os blogues que acrescentam algo que não é de interesse da grande mídia publicar”.
Evito fazer essa relação entre interesse e função dos blogueiros com a função e interesse da grande mídia porque vejo uma dissociação muito grande na motivação, nos assuntos escolhidos e no tratamento dado pelos blogues na comparação com os veículos de comunicação. Os blogues são muito mais diversificados e cobrem uma gama de temas muito mais amplos do que qualquer publicação se atreveria a pensar. E a frase também dá a entender que que há uma preocupação dos blogueiros e dos leitores de selecionar os assuntos de acordo ou não com a pauta dos jornais e das revistas. O Dante, do Saudades do Presidente Figueiredo, comentou no dia 19:
Os meios tradicionais são de massa, o blog é aberto à massificação por conta de seu meio, a rede, e é o que têm em comum. (O que já é muito, permite que qualquer blog seja integrável, com os devidos salamaleques e castrações.) (…) A única função social dos blogs é frustrar expectativas. (O jornal tem de sair todo dia.) Todo o resto a mídia pode fazer.
Os blogueiros, em geral, salvo no caso dos jornalistas, ao escreverem os blogues não estão muito preocupados com a ordem do dia. Eu, por exemplo, também uso o conteúdo das grandes publicações para esboçar uma reflexão em pontos que não foram ou foram superficialmente abordados numa matéria, artigo ou ensaio. Mas isso é decorrência da minha atividade profissional. Geralmente, não é isso que acontece. E nem tem que ser. A graça dos blogues é justamente a diversificação criativa;
b) “(…) a maioria desses jovens - não existem muitos senhores na rede com esse objetivo - quer discutir livremente, mas, pela falta de material básico, sacrifica uma parcela preciosa de seu tempo com a pretensão de fazer um pouco daquilo que seria o dever da grande imprensa: veicular todas as informações”.
Além do que eu escrevi aí em cima, faço um adendo: nunca foi o dever da grande imprensa, por absoluta impossibilidade técnica, humana ou falta de interesse mesmo, veicular todas as informações. A intenção dos jornais sempre foi cobrir a maior gama de assuntos possíveis de interesse do leitor. Esse “interesse do leitor” é o recorte necessário para que um jornal possa ser produzido a contento. Acredito que no íntimo muitos jornalistas que exercem ou já exerceram a função de editor se sentiram mais ou menos frustrados por não conseguir dar conta de todos os assuntos do dia (no caso dos jornais) ou da semana (no caso das revistas) em períodos breves férteis de notícias.
Sou capaz de arriscar uma reflexão: a queda nas vendas dos jornalões devem-se, em parte, à vã tentativa de querer inserir o máximo de conteúdo numa edição diária ou semanal em vez de explorar bem determinados assuntos. Isso levou a explosão das publicações especializadas, que tratam de bijuterias, passando por penteados de cachorros a como produzir jujubas. Basta passar numa banca de jornal para ver a diferença brutal entre a quantidade de publicações generalistas (a grande imprensa) e as especializadas.
Os blogues podem mais. Muitos já estão avançando ao ponto de não serem mais identificados como blogues, o que é um equívoco. Num comentário do dia 19, a Raquel, do My Pillow Book, disse que não tinha mais certeza se o blogue do Reinaldo Azevedo, para ficarmos num exemplo, ainda poderia ser considerado um blogue. Se levarmos essa idéia adiante teremos que concordar necessariamente que há uma regra bem clara que define o que é e o que não é blogue. E o elemento extraordinário do blogue é poder ser o que quiser, dependendo das escolhas do seu autor.
PS: Ao longo dos dias pretendo estabelecer o mesmo diálogo com os demais comentaristas que gentilmente passaram por aqui e deixaram suas opiniões.
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Caro Bruno, vejo que na discussão sobre o papel dos blogs, o tema da relações blog x jornalismo é bastante recorrente. A quem interessar, deixo aqui a minha opinião sobre isso: http://cafeinado.blogspot.com/2008/04/urinando-na-pracinha.html
Um abraço desse seu antigo leitor que somente agora se manifesta.