Blogues em debate 4 - blogueiro e leitor
Numa conversa ontem sobre blogues com meu grande amigo e colega de mestrado Maurício Casarin disse-me ele, que não é do mundo blogueiro, algo interessantíssimo de tão óbvio: o blogue atrai leitores por causa dessa relação de intimidade que inexiste com os meios de comunicação tradicionais.
Sabem o que é curioso? Os meios de comunicação têm, em tese, a confiabilidade na transmissão da informação, mas, ao mesmo tempo, essa informação, mesmo que a matéria seja assinada, é impessoal ou, paradoxo dos paradoxos, o jornal ou revista são acusados de estarem a serviço de algum grupo político ou econômico - por conseqüência, tal e qual colunista ou jornalista também estariam operando nesse sentido (o Caso Nassif é um exemplo desse tipo de acusação que começa a vingar de forma perniciosa no mundo dos blogues, mas este assunto merece uma análise e desdobramento específico).
No caso dos blogues individuais (sim, há ótimos blogues coletivos) não há isso. E mesmo que, a priori, não haja confiança na informação (digo da opinião geral não, obviamente, dos leitores de um determinado blogue) o blogue não pode ser acusado de ser impessoal. A confiança, então, se dá pela via da identificação e, depois, nesse peculiar desenvolvimento da sensação de intimidade que se estabelece entre o leitor e o blogueiro, mesmo que nunca sequer tenham trocado e-mails.
O blogue para o leitor, disse-me Maurício, é uma espécie de amigo íntimo. Isso talvez explique porque os leitores entram em qualquer briga para ajudar seu blogueiro predileto e ficam indignados se o blogueiro não age da forma como eles esperam. É possível ver isso no dia a dia dos blogues. Quem é blogueiro sabe exatamente como é isso.
Para dar um exemplo extremo, lembram daquela briga entre Reinaldo Azevedo e Gerald Thomas? As pessoas brigam, se exaltam, dizem bobagens e, eventualmente, uma delas percebe que fez bobagem, que errou, blábláblá, volta atrás, pede desculpas, daí se estabelece ou não a conciliação e, quem sabe, uma amizade que nasce das feridas. Pois foi o que aconteceu e a grita foi quase geral. Teve gente que, não riam, disse que nunca mais leria o blogue. Reinaldo, claro, teve que se explicar. E aquilo foi um Deus nos acuda durante dias.
Como analisar esse comportamento senão como exemplo extremo do que chamei de sensação de intimidade? Mas é claro que leitores desse tipo acreditam com a certeza inabalável dos despudorados que são praticamente membros da família do blogueiro a quem cabem não só um julgamento moral mas uma condenação pública, se calhar virando as costas virtuais ou cuspindo milhares de mega bits por segundo.
A sensação de intimidade entre leitor e blogueiro não é, regra geral, algo ruim ou passível de lamentação. Pelo contrário. O leitor de blogue é, realmente, um elemento importante, que vai influir em maior ou menor grau na feitura, na continuação e no desenvolvimento do blogue.
Ainda há algo poderoso que é a objetiva aproximação e, em muitos casos, o estabelecimento de uma relação de amizade intensa e prazerosa com indivíduos de gostos, preferências, idiossincrasias, preconceitos etc., compartilhados.
A relação entre blogueiro e leitor é outro tema que podemos explorar nesta série Blogues em debate.
3 Comments so far
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Bruno,
por exemplo, eu não tenho mais certeza se a página do Reinaldo Azevedo é um blogue. Talvez minha concepção de blogue seja mais íntima como dizes acima, mais diário de senhoritas leitoras de Jane Austen ou aqueles cadernos com ilustrações dos antigos viajantes!
Agora percebi que a palavra “íntima” não combina com blogues! Nada na internet é íntimo, tudo é devassado! Ah, não sei mais nada, perdi meu raciocínio, se alguém o achar no Google, favor devolver, obrigada. Raquel
Os meios tradicionais são de massa, o blog é aberto à massificação por conta de seu meio, a rede, e é o que têm em comum. (O que já é muito, permite que qualquer blog seja integrável, com os devidos salamaleques e castrações.)
Meu blog sempre esteve à venda. Meu preço era 50 reais o post. Por 50 reais eu faria o post que o leitor quisesse. Contra. A favor.
Já os jornalistas vivem de informar e chatear, eu não. Precisam do dinheiro, eu só pensava no que me proveria com mais um dinheirinho. Mais um CD de tango, mais um vinho verde.
A única função social dos blogs é frustrar expectativas. (O jornal tem de sair todo dia.) Todo o resto a mídia pode fazer.
Os outros elementos sociais não são funções, mas alegrias e surpresas.
Sobre o cuspe, bom, molha o tornozelo, mas lubrifica o calcanhar. E entra mais fácil em quem está a pedir o devido julgamento moral.
A boa sensação de encontrar gente. É o mais divertido do blog.
Olá, Bruno!
Me chamo Fabrício, curso jornalismo, moro no Espírito Santo e sou leitor freqüente deste blog.
Não sei se o local é adequado, mas, se não tomar-lhe muito tempo, peço que responda a um questionário referente ao comportamento da imprensa na cobertura de casos dramáticos como o da menina Isabella (tem acompanhado o noticiário brasileiro?).
O conteúdo da “entrevista” será impresso numa matéria que fará parte do jornal “Primeira Mão”, escrito por estudantes de jornalismo da UFES, Universidade Federal de meu Estado.
Deve estranhar o pedido, né? Foi difícil encontrar fontes de jornalistas da direita liberal. Desconheço qualquer espécime capixaba, rsrs. Então, tive de recorrer a fronteiras mais distantes e acessíveis via internet. Vc e o Polzonoff são meus alvos “preferenciais”. É a vcs que recorro e peço este favor.
As perguntas seguem abaixo e, desde já, lhe agradeço a atenção dedicada.
Obs I: Precisarei do nome completo, idade e de um breve currículo acadêmico e profissional seus, ok?
Obs II: Pode enviar as respostas por meu email (falaercio@gmail.com) ou por este mesmo espaço.
…
O questionário:
1 - O que é o sensacionalismo? Como ele ocorre? Pode-se afirmar que a cobertura do caso Isabella foi feita de forma a criar espetáculo da notícia?
2 - Por que a cobertura de tragédias pela imprensa costuma ser tão intensa e fugaz? Há interesse mercadológico nesta equação?
3- A reação inflamada dos populares e da própria imprensa pode ser compreendida como sintoma de saúde cívica? Reflexos legítimos de uma comunidade que reage eticamente à quebra de um grande tabu civil e familiar (o infanticídio)?
4- Quando a intimidade das pessoas se torna passível de devassidão pública? Em quais circunstâncias a imprensa pode atuar?
5- A exposição “midiática” de tragédias, crimes ou atentados pode motivar alguma conseqüência negativa? Qual postura é recomendável à imprensa na cobertura destes casos?
6- Existe jornalismo ideal? Existe jornalismo idealista? São sinônimos?
7- Por que as críticas mais inflamadas à cobertura dita “sensacionalista” se originam, sobretudo, dos setores identificados com a esquerda (ou “contracultura”)? Há alguma inter-relação de causa e efeito? Algum interesse político oculto? Há exceções? Quais e onde?
8- A cura dos excessos e equívocos no jornalismo pode ser atingida pela censura “esterilizante”, “onisciente”, de um organismo regulador estatal, ou só pode ser atingida com a garantia de mais liberdade de imprensa (que transfere a responsabilidade do crivo ao público consumidor)? Alguma outra alternativa?
9- O espectador é um ente imaturo, incapaz de discernimento diante do conteúdo jornalístico? Quais as origens e as conseqüências deste raciocínio (ideologia?)?
10- Fica livre para acrescentar suas considerações finais (inclusive críticas ao questionário).
…
Mais uma vez obrigado e me desculpe por interferir no debate do post.