Blogues em debate 1 - O fim dos Wunderblogs
No dia de estréia da conversação sobre blogues uma nota triste, que acabo de ler pela pena de meu amigo Alexandre Soares Silva:
O fim dos Wunderblogs aconteceu não tanto porque paramos de dormir com a Gilda Radner, se bem que espero que tenhamos, mas porque um por um foi (fazendo dancinha de desprezo) ooooh, amadurecendo, conseguindo empregos, criando responsabilidades (estou dizendo essas palavras rebolando loucamente), e deixando os blogs morrerem aos pouquinhos, ou em alguns casos abruptamente.
Não sei como parece para quem está de fora, mas para mim toda a experiência de pertencer a esse grupo foi algo extraordinário. Quando estávamos no auge, no distante e mítico ano de 2004, nos encontrávamos todos os finais de semana - ou estou romantizando tudo? estou, né? -, visitávamos a casa um do outro, víamos filmes de Wes Anderson e Milos Forman e Lubitsch, entrevistas com Nelson Rodrigues, bebíamos e falávamos mal uns dos outros - por que não falamos mais mal uns dos outros pelas costas, hein? - e dormíamos com a Gilda Radner e com a mulher do Lorne Michaels em oh, tantas madrugadas adentro.
As pessoas falam mal de “grupos exclusivos”, “grupinhos de amigos”, “sociedades de admiração mútua”, “patotas” etc - quem senão um idiota usa esses termos? - em parte porque o prazer de pertencer a um grupo desses é excluir os outros, e não se deve esperar gratidão dos outros por isso. Metade dos nossos posts eram piadas internas. Às vezes bem mais do que metade; às vezes um exagero; mas eu gostava assim. Para mim os Wunderblogs eram como a Igreja Católica para Barbey D’Aurevilly: uma varanda de onde eu podia cuspir na plebe. Quando em 2006 fui dar uma palestra numa livraria, com quatro outros escritores, e durante a palestra esses outros escritores e a platéia começaram a desenvolver suas próprias piadas internas, espontaneamente, eu não conseguia evitar de pensar no quanto o nível das piadas era inferior ao dos meus amigos, que jamais ririam de coisas tão imbecis.
Nos últimos tempos o Wunderblogs foi sendo acabado por nós mesmos que fazíamos parte. Alguns bravos, entre eles o ASS, ainda continuaram firmes; outros, como eu, saíram para a carreira solo (embora tenha mantido meu Vertigem como um cadáver insepulto), ou, como o Ruy Goiaba e Fábio Danesi Rossi, para ficar em alguns exemplos, mudaram de condomínio.
O que aconteceu? Não sei. Um dia o ASS me disse quando saíamos do Estadão: “o problema do jornalismo atual é a falta de álcool”. Eu, claro, concordei. No caso dos Wunderblogs o álcool não era problema, mas deixou de ser compartilhado. Passamos a não nos falar internamente, com aquelas piadas internas citadas pelo ASS. O mais estimulante de fazer parte dos Wunderblogs era captar a piada, um jogo do tipo catch phrase. E quando um de nós não entendíamos de imediato nos consultávamos para saber o que se passava. Acho que o Dante era o campeão de insides jokes. Chegava a dar raiva.
Por que esfriou tanto (©Paulo Francis)? Não sei. Talvez o tempo e a idade tenham arrefecido o vigor de outros tempos. Talvez a mudança e ampliação na blogosfera tenha, de certa forma, contribuído. Talvez nenhuma dessas conjeturas seja plausível. Mesmo não está lá de forma regular, tenho o Vertigem como uma pequena chácara. É como se da noite para o dia alguém mandasse um e-mail dizendo: “Sr. Garschagen, sua propriedade deixar de ser porque o condomínio do qua faz parte deixa de existir. Bilu. Atenciosamente, Fulano de Tal”.
Escrevo este post ainda meio perturbado com a notícia. Por qual razão, Garschagen, já que nem lá mais estavas? Embora eu não estivesse mais espiritualmente, estava fisicamente. E mesmo se lá nem estivesse mais o Vertigem a labirintite seria de igual monta. Como bem definiu Ronalt em comentário no penúltimo post deste blogue, era um dos pilares da blogosfera. Era um pilar limitado pela extensão dos seus leitores e exerceu um grau de relativa influência no modo de blogar.
O que havia de honesto nos Wunderblogs era não se preocupar se o portal era ou não importante; se exercia maior ou menor influência. Nos bastávamos e isso era estimulante (o que também explica a quantidade extraordinária de piadas internas).
Lembro que nos áureos tempos muita gente torcia sem disfarçar, alguns chegaram a fazer lobby, para serem convidados a fazer parte do clubinho. Quem conseguia entrar festejava com sincera adaptação. Muitos críticos dos Wunderblogs chegaram a elaborar satiricamente uma caricatura do que era ser Wunderblogger: humor afetado, postura blasé, irreverência ácida, o gosto por usar expressões em inglês (claro que só selecionei aqui características que mais nos abonavam do que nos reduziam).
Falar sobre o fim dos Wunderblogs também é uma maneira de iniciar o debate sobre blogues partindo dos próprios blogues e dos seus autores. O fim do Wunderblogs enquanto, vá lá, instituição, não é o fim do portal como princípio. A idéia foi desenvolvida e disseminada pela rede. Hoje o portal mais representativo pela qualidade é o A Postos, cuja direção foi inteligente ao agregar ao portal, primeiro, meu caríssimo Ruy Goiaba, o primeiro a sair dos Wunderblogs, depois Filthy McNasty, em seguida meu grande amigo FDR. O Alexandre Soares Silva, ao que tudo indica, e apenas especulo, deve migrar também para lá.
O A Postos não será o que foi os Wunderblogs. Embora com blogueiros de extraordinários talentos oriundos dos Wunder, o insight é outro, a face é outra. O Wunder era um clubinho de amigos e de pessoas muito próximas. Tinha suas vantagens extraordinárias, tinha seus riscos abissais.
A questão que coloco para vocês, caros leitores, é a seguinte:
a) qual a vantagem de se ter um portal de blogues?
b) quais as vantagens de se estar integrado a um desses portais?
Vamos tentar avançar a conversa para além das obviedades de que um portal atrai mais visitantes e que um ou alguns blogues-membros atuem como aquele bom candidato que atrai uma imensa quantidade de votos para o partido e obtém o quociente eleitoral para eleger consigo outros candidatos da coligação. Acho que apronfudar esse ponto vai permitir compreender uma parte de por que um indivíduo decide ter um blogue e, depois, opta entre seguir com um blogue em carreira solo, como é o meu caso, ou se juntar a outros num portal.
PS: O portal Wunderblogs ainda está no ar. Mandei um e-mail para o Marcelo De Polli, wundermeister e idealizador do portal que, até a hora em que escrevo este texto, não me respondeu.
PS2: Vou tentar entrevistar alguns dos atuais e ex-Wunderbloggers para que as respostas deles nos permita aprofundar a discussão.
PS3: A idéia desta série é compreender o fenômeno blogue, tentando identificar critérios, métodos e o sentimento ou disposição que move os blogueiros.
4 Comments so far
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Estarei por aqui. Promete ser interessante. (E o A Postos é muito legal mesmo, não?) Bj.
Caro Garschagen,
Primeiro um agradecimento atrasadíssimo: obrigado pela entrevista com o João Pereira Coutinho. No momento mesmo em que você chegou a Portugal tive certeza que se nós_seus leitores_ lhe pedíssemos a antológica entrevista, ela viria, porque tem coisas que só você é capaz de realizar. Só lamento não podermos fazer Download dela.
Segundo ponto: lamento profundamente o fim dos Wunderblogs. Em 2004_ no momento máximo do portal_ comecei a acompanhar as postagens. Felipe Ortiz, meu caro Felipe Ortiz…ASS_ o Lord, um senhor Garschagen, que assinava um tal Vertigem, e a primeira frase que li no Vertigem foi:”Nunca tolerei conversas chatas, pessoas deselegantes, gritaria, mau-cheiro e funcionário público.” Virei leitor porque sabia que tinha encontrado mais um sujeito que me ajudaria a ser mais civilizado. Assim foi. Assim é.
Terceiro ponto: Júlio Lemos. Quanto tenho aprendido com esse senhor Júlio Lemos. Foi um “Wunder”. Mas não o acompanhei nessa fase. Quando me tornei leitor do “condomínio” ele já não residia mais lá. Por isso,caro Gaschagen, gostaria de deixar a sugestão de uma entrevista com Júlio Lemos_ discreto, culto, e civilizador_ talvez o mais hermético dos blogueiros de língua portuguesa. Nunca vi entrevista nenhuma dele. Júlio Lemos existe?
Esse debate sobre blogs será um marco na história da blogosfera e talvez sirva pra minha tese de Mestrado.
Grande abraço,
Há um outro portal de blogues, o Interney, mais recente e com muita gente de sucesso. Se bem que ali não há grande qualidade e muito menos a homogeneidade, aquela “liga” que tinha entre os wunders.
Eu acho legal estes portais Wunder e Apostos pela ordenação dos blogues, eles nos levam de um ao outro muito mais do que os meros links que ficam escondidos nas barras laterais.
Não sei se sem o Wunderblogs eu conheceria ou me interessaria por blogues como “Nibelunga do Cabelo Duro”
Caríssimo, obrigado pelas palavras generosas. Posso fazer reparo a uma frasezinha só? veja:
“O A Postos não será o que foi os Wunderblogs. Embora com blogueiros de extraordinários talentos oriundos dos Wunder, o insight é outro, a face é outra.”
Do jeito que você escreveu, o leitor corre o risco de entender que os “blogueiros de extraordinários talentos” no A Postos são só os oriundos do Wunderblogs. Imagino, claro, que a intenção não seja dizer isso: já havia craques quando entrei lá e, depois disso, incorporamos outros (como a Janaína Leite, que comentou aqui) que também não passaram pelo Wunder. De resto, subscrevo: o A Postos não será nem pretende ser o que o Wunderblogs foi. Não faria sentido -a cara é outras, as características do condomínio também.
E, ponderando tudo, foi ótimo para mim ter estado lá. Estou certo de que para você também. Abração.