Archive for Abril, 2008
25 de abril?
Hoje é dia 25 de abril. A data marca o fim do regime Salazarista em Portugal. Naquele dia, do ano de 1974, um grupo de militares derrubava o governo comandado por Marcello Caetano, que substituiu em 1968 António de Oliveira Salazar, incapacitado por lesões cerebrais após uma queda. Salazar assumiu o poder em Portugal em 1933. Instaurou um regime autoritário batizado de Estado Novo só possível porque o país já vivia sob um duro regime inaugurado com o golpe militar de 28 de Maio de 1926.
A queda de um governo autoritário deve ser sempre comemorada. O problema foi o que se seguiu a essa queda. Comunistas e socialistas aproveitaram o vácuo de poder e instaurou-se em Portugal o famigerado PREC (Processo Revolucionário em Curso) com ocupações de casas, terras, fábricas, apropriações, nacionalização de empresas. Quem não estava alinhado com a esquerda era perseguido. Um colega do mestrado contou-me que o pai, que nunca se envolveu politicamente com qualquer grupo, ficou dois anos impedido de continuar o curso de direito em Coimbra justamente por não ter se envolvido politicamente com a esquerda revolucionária.
Quem comandava o governo logo após o 25 de abril era o militar Vasco dos Santos Gonçalves. Ele fazia parte do grupo dos militares alinhados com o Partido Comunista Português, que deu as cartas durante o PREC. Gonçalves foi mentor da reforma agrária e das nacionalizações que atingiram os principais meios de produção privados no país.
Não sei até que ponto a história que se segue à derrubada do Salazarismo, romanticamente batizada de Revolução dos Cravos, é conhecida no Brasil. Assim como as perseguições e toda sorte de violência e maldades perpetradas pelos revolucionários portugueses, notadamente pelos membros do PCP, liderado pelo abjeto Álvaro Cunhal.
Fui parado em barricadas pela tropa fandanga e a minha viatura vistoriada. É verdade que quem não alinhasse pelo PREC (processo revolucionário em curso) era taxado de fascista. Nas empresas as pessoas eram perseguidas e saneadas, grande parte das vezes não por motivos políticos mas por vinganças pessoais. A mulher de um amigo meu trabalhava num banco e a pressão foi tanta que ela acabou por se suicidar.
Mas a Maioria Silenciosa não podia falar? Claro que podia, se se tivesse organizado em força colectiva e vindo para a rua exigindo a reposição da legalidade. Mas não, cada um foi ficando no seu canto com medo até da própria sombra.
Nessa altura fiz dezenas de viagens ao norte pela antiga E1 e, quando passava Rio Maior era como se entrasse em outro país.
A blogosfera portuguesa, claro, dividiu-se hoje sobre o 25 de abril. Data da liberdade ou o dia que marca o início de um período trágico para a história do país (felizmente, os comunistas não conseguiram o que queriam)? Gostei especialmente desse texto do Gabriel Silva no Blasfémias:
Ainda é Abril (3)
Uma das mais tristes (e idiotas) tradições que esta democracia foi criando ao longo dos tempos, é o facto de nas sessões solenes do parlamento, apenas os deputados que se designam de «esquerda» levarem um cravo na lapela. Os outros parecem fazer gala de se demarcarem de tal evento. Ok, é só um símbolo. Mas dá-me a ideia que é um símbolo de um dia que todos quantos apreciam a liberdade deveriam saudar. Esta triste tradição é sinal de uma outra, igualmente triste: a de que sempre que se fala do 25 de abril, quem não seja da dita «esquerda» como se sinta na obrigação de se demarcar dos «exageros», das tentativas de instauração de outras ditaduras, prefira realçar o «25 de novembro» e e demais nuances. A meu ver, fazem mal. Consolidam a entrega do 25 de abril a essa mesma dita «esquerda». O que é uma apropriação (e/ou renúncia) ilegítima.
Neste dia celebra-se o fim de um regime ditatorial. E quase não conheço ninguém (ok, um ou dois), que, independentemente de outras questões, defenda o regime anterior, ou que preferisse que o mesmo tivesse perdurado. Neste dia celebra-se o fim de um regime e o nascimento de outro: o actual, democrático e com liberdade. Nesse dia, o movimento responsável pelo golpe tinha, e assim o anunciou, um programa simples (forma única de congregar as normais divergências políticas): acabar com a ditadura, instaurar a democracia e acabar com a guerra colonial. Foi isso que a população compreendeu, festejou, celebrou e tomou como seu. É por isso um dia de todos, um dia que se festeja exactamente porque se deixou de ter alguém que dissesse o que se deveria fazer e nos limitasse a liberdade. Mas não é um dia de ninguém em especial. Nem sequer de quem o fez ou foi protagonista. É efectivamente o dia da liberdade.
O resto, a sequência e consequência, é já produto dessa liberdade, das disputas políticas, da saudável e desejável divergência de projectos de sociedade, das contingências internas e externas da época, dos episódios da luta entre quem queria novas ditaduras e todos quantos se lhes opunham. Mas que apesar de tudo, e por vontade da esmagadora maioria, veio a desembocar numa sociedade livre. Entregar o 25 de abril a essa esquerda (onde estão ainda alguns dos que quiseram acabar com essa liberdade), é não apenas triste, como também é entregar parte do exercício da liberdade, que é nossa e é de todos.
Deixar que a esquerda se apodere da data é permitir a apropriação do triunfo alheio. Os comunistas queriam uma ditadura comunista em Portugal, assim como os jovens revolucionários brasileiros queriam o mesmo a seguir a derrubada do regime militar.
Outro post interessante foi escrito em 2004 por Luís Aguiar Santos, no Causa Liberal, citado hoje pelo André Azevedo Alves no Insurgente:
Deverá um liberal festejar o “25 de Abril”?
Ano após ano, as comemorações do “25 de Abril” estão enredadas numa série de equívocos que seria pueril esperar que políticos ou jornalistas desfizessem. Supostamente, festejamos nessa data a “democracia”. Mas qual “democracia”? A que estava pressuposta no abraço frentista entre Álvaro Cunhal e Mário Soares dias depois do golpe de estado (que não seria muito diferente da dos oficiais da Coordenadora do M.F.A.)? Ou a que estava pressuposta na acção do general Spínola (e que, doa a quem doer, é aquela que hoje temos e quase todos defendem)?
Ao contrário do que possam pensar alguns distraídos, os liberais identificam-se com muito pouco no regime derrubado em 1974: não gostam de um figurino “constitucional” que limitara bastante as liberdades individuais instauradas no século XIX (e não na I República, como os mesmos distraídos pensam); não gostam da arbitrariedade com que o poder executivo se permitia violar as liberdades restantes; não gostam do monopólio político e sindical que o Estado patrocinava (União Nacional e estrutura corporativa); não gostam do regime económico profundamente regulado e proteccionista que fôra herdado do passado, mas que Salazar aperfeiçoara, sistematizara e tornara ainda mais pesado; não gostam da férrea regulação da educação e das actividades culturais que a burocracia e a polícia impunham.
Talvez tenham alguma simpatia pela geral ordem financeira em que o Estado vivia e pela política do “escudo forte”; mas, convenhamos, é pouco quando tanto estava tão mal. No que os liberais divergem dos “democratas de Abril” é no pouco entusiasmo com que olham para a cultura política que surgiu em 1974 como alternativa ao Estado Novo.
O “25 de Abril” não se fez em nome da experiência histórica do liberalismo que o republicanismo, primeiro jacobino e depois autoritário, interrompeu; fez-se em nome de uma míriade de socialismos coligados que iam fundar um “país novo” e que chegaram ainda a apresentar-se como nova “União Nacional democrática” no defunto M.D.P. (PCP+PS-PPD), como se ainda se vivesse, trinta anos depois, no equívoco frentismo anti-fascista de 1945.
Se essa “frente popular” tivesse seguido o seu curso, sem que a “maioria silenciosa” da sociedade civil tivesse forçado políticos como Mário Soares a corrigirem as suas opções, seria difícil aos liberais dizerem com clareza que a mudança valera a pena. Escolher entre a frente popular e Marcelo Caetano daria que pensar… No que ao “25 de Abril” em concreto diz respeito, a imagem de marca folclórica do frentismo socialista ficou-lhe colada e tem-se revelado impossível festejar “outro 25 de Abril”.
Este monopólio esquerdista em torno da data tem tido vários efeitos inaceitáveis: a glorificação dos militantes comunistas opositores de Salazar, como se este fosse pior que o totalitarismo que os primeiros defendiam; a impossibilidade de se assumir os erros gravíssimos cometidos nas antigas províncias ultramarinas, entregues pela Coordenadora do M.F.A. aos aliados locais da União Soviética, numa estratégia que o P.C.P. manobrou e poucos à excepção dos spinolistas tentaram contrariar; a repetição ad nauseam da boutade da “revolução sem sangue” (claro que os que morreram nas provncias ultramarinas só em 1974-75 e que foram muitos mais do que as baixas dos dois lados durante a guerra de 1961-74 não são contabilizados porque já não são portugueses…); a dura verdade de que o país viveu em regime de ditadura militar e não em “democracia” nos anos de 74 e 75, com prisões arbitrárias, sem sistema judicial nem respeito pela propriedade privada, numa situação que só teve paralelo nas outras duas ditaduras oficialmente inexistentes da nossa história, as dos “governos provisórios” e das assembleias de partido único de 1820-1823 e 1910-1913; o esquecimento conveniente da incontornável verdade que a “obra social” do novo regime foi uma pura continuação dos programas sociais já delineados pelo Estado Novo, com a diferença da rédea livre dada à despesa pública.
Se quisessemos, como os liberais franceses do século XIX tentaram fazer com a revolução de 1789, distinguir no “25 de Abril” entre uma fase inicial, imaculada e generosa, e uma posterior degeneração jacobina (ou, neste caso, socialista), ficaríamos limitados a uma nesga de tempo que dificilmente permitiria comemorar “outro 25 de Abril”. É que logo a 1 de Maio, quando a esquerda (melhor dizendo, os comunistas) tomou as ruas, ficou patente quem teria força para imprimir à revolução a direcção e a cor que lhe construiriam a identidade.
Apesar da resistência civil à esquerda militar e militante, a normalização de 1976 veio a fazer-se com uma vitória ideológica inequívoca do socialismo, que só o pragmatismo dos políticos e a realidade das coisas foi forçando a esbranquiçar em sucessivas revisões constitucionais. Onde, nesta “herança de Abril”, os liberais se podem situar não é nada claro. Em Spínola? Na tímida e lenta liberalização do regime?
Mas será isso ainda o “25 de Abril”?
No blogue da Atlântico, o editor Paulo Pinto Mascarenhas deu o tom bem-humorado lembrando eventos importantes de 25 de abril de outros anos, como a estréia da ópera Turandot, de Giacomo Puccini no Teatro La Scala, em 1926, o nascimento da atriz americana Renée Kathleen Zellweger, em 1969 (belo ano…), o nascimento da modelo e atriz Letícia Birkheuer, em 1978. Paulo também relembra um texto do historiador Rui Ramos na edição da Atlântico de dezembro de 2006:
O desafio à revolução: Sá Carneiro e o 25 de Novembro
Por RUI RAMOS
É curioso que as direitas comemorem, simultaneamente, o golpe de 25 de Novembro de 1975 e a memória de Francisco Sá Carneiro. O 25 de Novembro evitou uma guerra civil? Sem dúvida. Mas evitou também, através de um pacto de transição, a ruptura com o património do Período Revolucionário Em Curso (PREC), logo a seguir constitucionalizado. A revolução parou, mas não recuou. Foi contra esse património revolucionário, naquilo que significava de tutela militar e limitação da iniciativa dos cidadãos, que lutou Sá Carneiro. Aqueles que nele se revêem deveriam talvez comemorar outro Novembro, o de 1977, quando Sá Carneiro, ao abandonar a presidência do PSD, iniciou a ruptura com o pacto de transição instituído em Novembro de 1975. Uma ruptura que a morte de Sá Carneiro, a 4 de Dezembro de 1980, impediu fosse totalmente consumada.
Falar de um evento histórico com um impacto político tão profundo num país que não é o seu, em que se está há tão pouco tempo como é o meu caso em Portugal, há sempre o risco de soar raso, superficial e, o que é pior, leviano. Minha opinião? O regime de Salazar tinha que ser derrubado pelo fato de ter sido autoritário. Feito isso, a extrema-esquerda (assim como qualquer esquerda) nunca poderia ter tido a chance de influir ou ditar os rumos do poder. Mas embora Portugal não seja governado por um partido de extrema-esquerda (essas entidades malignas chamadas PCP ou Bloco de Esquerda) é governado pelo Partido Socialista, do primeiro-ministro Sócrates.
25 de abril? Dia de trabalho intenso dentro de casa e aturando um brasileiro dos arredores querendo dividir com a humanidade seu mau gosto musical.
PS: Claro que não coloquei neste post blogueiros da esquerda portuguesa. Aqui não entram. Xô capeta!
No commentsO senhor Wordsworth como companhia
Estou trabalhando neste momento. Um calor incivilizado em Lisboa. Enquanto não dá tempo de postar (estou trabalhando neste momento) deixo vocês na companhia do senhor William Wordsworth:
No commentsLines written when sailing
Written when sailing in a Boat At EVENING.
How rich the wave, in front, imprest
With evening twilights summer hues,
While, facing thus the crimson west,
The boat her silent path pursues!
And see how dark the backward stream!
A little moment past, so smiling!
And still, perhaps, with faithless gleam,
Some other loiterer beguiling.Such views the youthful bard allure,
But, heedless of the following gloom,
He deems their colours shall endure
‘Till peace go with him to the tomb.
–And let him nurse his fond deceit,
And what if he must die in sorrow!
Who would not cherish dreams so sweet,
Though grief and pain may come to-morrow?
Que venha o Arrastão!

Ontem à tarde o jornalista Reinaldo Azevedo publicou o seguinte post:
É, meus caros, Janaina Leite não está deixando pedra sobre pedra. O que ela está trazendo à luz, antes de tudo, é um método. E certas coisas não resistem à luz.
Por Reinaldo Azevedo | 17:42 | comentários (43)
Reinaldo vem demonstrando, não só no específico “Caso Nassif”, como o método de transformar vítima em algoz é fartamente usado para desqualificar a vítima.
Li toda aquela maçaroca escrita pelo Nassif sob o apodo “Dossiê Veja” e depois conheci o blogue da jornalista Janaína Leite, espaço que me chamou a atenção antes mesmo de ela ser obrigada a se defender para provar que não estava envolvida em crime algum, numa clara inversão do ônus da prova garantida na esfera judicial pelo direito brasileiro.
Ontem recebi na caixa de comentários a gentil mensagem da jornalista, que não conheço pessoalmente mas já virei fã pela coragem e disposição:
Janaína Abril 24th, 2008 12:15 am Editar
Bruno,
seu texto é uma grata surpresa. Agradeço muito e convido você a, sempre que quiser, dar um pulo no Arrastão. Concordando ou não comigo, será sempre alguém bem-vindo.
Abs,
Janaína
Janaína, já sou visitante diário do seu blogue. Sua elegância e exercício do jornalismo têm sido impecáveis. Pode contar comigo pro que der e vier.
Ontem à noite a jornalista teve que aturar mais uma. Ela conta a história no post Luís Demarco: Janaína terá de provar o que diz em juízo.
Só não entendi uma coisa na resposta do sr. Demarco e talvez o leitor amigo possa trazer a luz a este frívolo e desatento blogueiro. Se o sr. Demarco diz que:
5) A senhora Janaína Leite não apresentará no seu blog qualquer email meu para ela a respeito de Rodrigo Andrade, simplesmente porque esse email não existe.
6) A senhora Janaína Leite será convocada para demonstrar em juízo a autenticidade dos emails que publicou, atribuídos a mim, alguns dos quais ela nem aparece como parte.
como pode encerrar sua carta dizendo?:
7) Ainda que autêntica, a publicação de qualquer correspondência privada, senão crime, certamente é uma descortesia pessoal e uma clara demonstração da pior prática do jornalismo, com a quebra do sigilo e da confiança de suas fontes jornalísticas.”
Se não há e-mail por que se preocupar com a publicação de uma mensagem “ainda que autêntica” (Isso me faz lembrar aquelas pessoas da universidade que falam coisas como “enquanto pessoa humana”)? Qual a estratégia? Demarco sabe que se a jornalista divulgar o e-mail no blogue não incorrerá em crime. Por qual razão, Garschagen? Veja o que diz o Código Penal:
SEÇÃO IV
DOS CRIMES CONTRA A INVIOLABILIDADE DOS SEGREDOSDivulgação de segredo
Art. 153 - Divulgar alguém, sem justa causa, conteúdo de documento particular ou de correspondência confidencial, de que é destinatário ou detentor, e cuja divulgação possa produzir dano a outrem:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
Se na carta Demarco desafia a jornalista a divulgar o e-mail e assim provar que diz a verdade há a justa causa exigida pela lei. Por saber que não há crime é que ele escreve “a publicação de qualquer correspondência privada, senão crime”. Pois bem, não havendo o crime a palavra só está ali citada para provocar algum tipo de efeito constrangedor. E se não há crime, o que fazer? Apelar, claro: “a publicação de qualquer correspondência privada, senão crime, certamente é uma descortesia pessoal e uma clara demonstração da pior prática do jornalismo”.
Tem gente que acha que ao dizer a um jornalista que algo demonstra “a pior prática do jornalismo” o profissional, mesmo tendo todas as provas para demonstrar a veracidade do que escreveu, ficará sensibilizado ou temeroso de parecer “o pior praticante do jornalismo”.
No mais, sempre acho excêntrico alguém dizer ou escrever “descortesia pessoal”. Acho bonito, juro, dá um toque de elegância à coisa. Mas embora dê um toque de elegância não tem o poder para transformar mentira em verdade.
3 commentsA mentalidade revolucionária em ação
Sobre o post que escrevi ontem a respeito do “Caso Nassif”, apontando como o moço se vale da estratégia revolucionária para inverter a relação lógica entre sujeito e objeto, entre verdade e falsidade, Olavo de Carvalho, cujos estudos me baseei para escrever o texto, esclarece ainda mais o assunto na edição de hoje do JB:
Opinião - Psicose iluminista
Olavo de Carvalho
Um dos traços constitutivos da mentalidade revolucionária é a compulsão irresistível de tomar um futuro hipotético – supostamente desejável – como premissa categórica para a explicação do presente e do passado. Nessa perspectiva, a história humana é vista como o trajeto linear – embora entrecortado de abomináveis resistências – em direção ao advento de um estado de coisas no qual o curso total dos acontecimentos encontrará sua consumação e sua razão de ser.
Que haja nisso uma inversão psicótica da ordem das causas é algo que nem de longe rebrilha no horizonte da (in)consciência revolucionária, tão embevecida na contemplação estática das suas próprias lindezas que até a claridade máxima do óbvio se torna a seus olhos treva densa e impenetrável.
Mais cômica ainda, ou tragicômica, torna-se essa inversão quando, à maneira iluminista, o futuro esperado é descrito como o triunfo da racionalidade científica sobre o obscurantismo das crenças bárbaras. Pois a concepção futurocêntrica da História, virando de cabeça para baixo a hierarquia do necessário e do contingente já traz em seu bojo a destruição completa da lógica, do método científico e de toda possibilidade de compreensão racional da realidade. Não foi à toa que Paul Ilie, no seu magistral estudo The Age of Minerva (2 vols., University of Pennsylvania Press, 1995), caracterizou o estilo mental do Século das Luzes como “razão anti-racional”.
Não espanta que, mais de 200 anos depois de ter desencadeado a maior e mais duradoura epidemia de revoluções, tiranias e genocídios já registrada desde o início dos tempos, a vaidade iluminista ainda continue a se pavonear de campeã da liberdade e dos direitos humanos, como se fosse lícito a uma filosofia reconhecer-se a si mesma tão somente pelos ideais declarados na sua propaganda e não pelo desenrolar inevitável e previsibilíssimo da realização efetiva das suas premissas.
O ideal de uma sociedade regida pela “razão científica” é o cerne mesmo da proposta iluminista, e a ele deve-se o nascimento das duas tiranias mais sangrentas que o mundo já conheceu, uma fundada na biologia evolucionária, outra na ciência marxista da história e da economia. O mais recente e meticuloso estudo comparativo desses dois regimes, The Dictators: Hitler’s Germany, Stalin’s Russia, de Richard Overy (New York, W. W. Norton, 2004, especialmente pp. 637 ss.), destaca como primeira e essencial similitude entre eles o “culto da ciência”. Auschwitz e o Gulag são a utopia iluminista materializada.
E não me venham com aquela idiotice de que o iluminismo não gerou só ditaduras totalitárias, mas também a democracia americana. De um lado, o iluminismo britânico que influenciou a independência americana nada teve da rebelião voltaireana e enciclopedista contra a religião e as tradições (ver Gertrude Himmelfarb, The Roads to Modernity: The British, French and American Enlightenments, New York, Vintage Books, 2004).
De outro, mesmo essa versão suavizada do discurso iluminista não foi subscrita no todo pelos founding fathers, os quais a modificaram e cristianizaram em tal medida que praticamente não há na declaração da independência, na Constituição americana ou nas constituições dos Estados uma só afirmativa ou dispositivo legal cuja inspiração bíblica não esteja abundantemente documentada.
Nenhum argumento racional foi jamais apresentado contra a massa de provas reunida por Benjamin F. Morris nas mil e tantas páginas de The Christian Life and Character of the Civil Institutions of the United States em 1864. Tudo o que o partido iluminista pôde fazer, para tentar impor como puro constitucionalismo americano uma versão caricatural, “francesa”, do Estado leigo compreendido como Estado ateísta militante, foi dar sumiço a esse livro e depois entrar em pânico quando da sua reedição em 2007 pela “american vision”.
Viram só como a coisa funciona? Analisem o que Nassif escreve sob essa perspectiva e verão como “a crack in the tea cup opens a lane to the land of the dead” (bom, não da morte, mas o verso do W. H. Auden era bom e fechava bem a frase).
4 commentsBLOGUE FAZ UM ANO!!!!!
Este mês o blogue está completando um ano! Aceito congratulações, uísque, acepipes e dinheiro em moeda corrente.
Antes de vir para esta casa de campo eu tinha uma cobertura no Wunderblogs que atendia pelo nome de Vertigem.
Decidi inaugurar o novo espaço por uma razão simples: o que eu fazia no Vertigem era diferente do que eu queria começar a fazer. E fazer algo diferente com um blogue que já tinha uma certa identidade iria confundir um pouco as coisas. Além do mais, achava estranho quando alguém me apresentava a outro como o “Bruno Garschagen do Vertigem”. Agora posso ser apresentado só como Bruno Garschagen, que é, de fato, meu nome, desde o batismo.
Atualizei este blogue diariamente de abril a junho de 2007, mês em que decidi vir para Lisboa fazer o mestrado em ciência política. De lá para cá as postagens ficaram irregulares pela necessidade de me dedicar aos estudos e trabalhos. Demorou para conseguir me organizar, mas agora acho que vai.
Este mês que já se acaba logo comemorarei um ano de blogue. Não haverá muitas festas, mas o uísque é sempre garantido e agora também ofereço vinho para as visitas.
Você que me lê, desde o início ou não, agradeço imensamente a leitura. Espero continuar contando com a sua boa vontade.
Abraços do Garschagen.
PS: Com a mudança de servidor os meus links sumiram e não tive saco de colocá-los um por um. Mas vou fazê-lo, vou fazê-lo.
4 commentsVeja, Janaína Leite, Luís Nassif e teses revolucionárias
Semana passada troquei e-mails com um jovem estudante de jornalismo do interior do Brasil que eu havia conhecido pessoalmente antes de vir para Lisboa. Depois de trocas amistosas de e-mail, diante de uma crítica que fiz a uma entrevista feita por ele com um professor de jornalismo da UnB, perguntas e respostas recheadas daquelas críticas bobas e clichês à grande imprensa, além de citações de Paulo Henrique Amorim e Luís Nassif como figuras virtuosas do jornalismo pátrio, ele ficou aborrecido. Minha paciência com a burrice só não é maior do que a que tenho com a idiotice.
Entre outra qualificação que só cabe num e-mail, escrevi, com alma cândida, que os dois não podiam ser tomados como exemplo profissional. Ele replicou dizendo que a credibilidade das informações veiculadas por PHA e Nassif não seriam afetadas por possíveis interesses que eles pudessem ter em qualquer assunto. Encerrei a conversa e o contato com o moço dizendo que se ele acreditava mesmo nisso eu não teria muito o que dizer. Repito: minha paciência com a burrice só não é maior do que a que tenho com a idiotice.
Por que essa conversa agora, Garschagen? Acompanho com interesse um tanto mórbido a longa jornada ladeira abaixo dessas duas entidades, no sentido macumbês do termo, do jornalismo das Terras de Vera Cruz.
Antes, uma explicação: como todos os interioranos incautos aspirantes a jornalistas, sim, um dia eu achei que, entre alguns outros, Nassif, então importante colunista da Folha de S. Paulo, era uma referência jornalística. Bastou pouco tempo morando no Rio e conhecendo redações e outros profissionais do Rio e de São Paulo para que ele e outras “referências” jornalísticas caíssem no chão como frutas podres.
Voltando à vaca fria, desde o início do governo Lula e as colunas do Diogo Mainardi expondo os revolucionários do jornalismo pátrio e seus métodos o panorama começou a ser esclarecido. Dois jornalistas apontados por Diogo como Lulistas, por exemplo, estão agora servindo o governo que diziam não servir, notadamente Franklin Martins e Tereza Cruvinel. O trabalho do Reinaldo Azevedo também têm sido notável.
Além dos jornalistas revolucionários (e repare que não uso “de esquerda”) que agem por questões ideológicas há os que agem segundo outros interesses, mas se valem do mesmo método. E uso aqui os conceitos de revolução, mente e mentalidade revolucionárias utilizados pelo filósofo Olavo de Carvalho:
1) Revolução: a ação, meios e instrumentos utilizados com o fim de remodelar integralmente a sociedade, a cultura e a espécie humana visando um futuro perfeito;
2) Mente revolucionária: manifesta-se nos autoproclamados conhecedores dos caminhos sociais, culturais, políticos e históricos que devem ser explorados e percorridos para se atingir o estado de perfeição;
3) Mentalidade revolucionária: a certeza de um indivíduo ou grupo de que é o agente escolhido para construir um futuro perfeito, ou “o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remodelar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política”.
Janaína Leite algoz de Luís Nassif? Tá de brincadeira!
Vocês devem estar acompanhando a excelente cobertura que a jornalista Janaína Leite vem fazendo em seu blogue Arrastão (http://arrastao.apostos.com) do Caso das Teles que culminou no que vou chamar Dossiê Nassif.
Para não ser redundante e cair num pleonasmo vicioso retórico ao apontar as incongruências e falta de sustentação feitas por Nassif à jornalista, indico a leitura do texto de Gravataí Merengue. Ele apontou a fragilidade das acusações de Nassif contra Janaína, fragilidades essas que já estavam evidentes também no “Dossiê Veja” (de que trato numa outra ocasião). Só discordo do título que Gravataí deu ao próprio texto: JANAÍNA LEITE: O ASSASSINATO DE UMA REPUTAÇÃO POR LUÍS NASSIF. Não houve assassinato, mas uma tentativa, graças ao bom Deus, impedida pela reação de blogueiros como Gravataí. Entre a tentativa e a consumação vai uma diferença substancial que achei por bem destacar.
A inconsistência dos ataques de Nassif, seja contra a Veja seja contra Janaína Leite, segue um método de tentar aplicar uma a inversão moral com um giro de linguagem. Nassif atacou a jornalista dizendo que ela fazia parte do esquema jornalístico para beneficiar Daniel Dantas. Janaína vem se defendendo com provas e depoimentos. Aqui, um adendo: pela legislação brasileira o ônus da prova cabe a quem acusa. Neste caso, como em muitos outros, a vítima precisa provar que não é o bandido da história. Voltando à vaca fria, diante da defesa irretocável do ponto de vista do argumento e ancorada em provas documentais, Nassif esperneou. Assim como esperneou quando Janaína Leite revelou o contrato dele com o BNDES, cuja história nem vou entrar aqui.
Pelo que coletei na blogosfera, o telefonema para a vereadora Soninha, destilando acusações contra Janaína e cobrando uma atitude contra o texto do Gravataí Merengue, então chefe de gabinete da vereadora, é parte do método de pressionar pela calúnia. Envolver a vereadora faz parte do processo de alimentar e disseminar a confusão. Quanto maior for a balbúrdia e a incompreensão do que está sendo mais eficaz o resultado. O próprio Gravataí foi vítima da história ao ser colocado, não serviço de suas idéias, mas de sua ex-chefe, acusação iniciada por Nassif e manifestada pela sua claque no blogue Imprensa Marrom.
Mas ali se revelava também o desespero de quem vê uma estratégia ruir. Nassif, embora tenha um blogue há um tempo, tem a cabeça do antigo jornalista que acredita que os próprios textos se sustentam pela fama de quem escreve. Na internet isso não existe. Nassif parecia não contar com a reação contrária. Foi assim com a reação ao seu “Dossiê Veja”; está sendo assim com a reação às maledicências que lançou contra Janaína Leite.
E aqui aprofundo a constatação do método de uso da inversão moral com um giro de linguagem usado por Nassif na sua estratégia de náufrago. Nassif está a todo instante se colocando no papel de vítima. Ele acusa a Veja; ele acusa jornalista. Diante da reação natural de quem se sente atacado, o que ele faz? Apresenta-se, no que diz respeito a revista, como o Davi que enfrenta o Golias
A tese contra a revista pode até frutificar porque há tarados em todos os cantos em busca de teorias da conspiração. Contra a jornalista, que nem mais é funcionária da Folha de S. Paulo, ou seja, não tem uma empresa por trás para alimentar esse tipo de maluquice, ficou as acusações de um empresário que ainda se pretende jornalista contra uma jornalista que precisa se defender dos insultos apresentando as provas de sua eficiência profissional. Janaína Leite, pelas mãos de Nassif, deixa de ser a vítima para ser sua algoz. A mente revolucionária trabalha atribuindo à vítima o uso da violência. A mente revolucionária trabalha invertendo logicamente a relação entre sujeito e objeto e fazendo malabarismos retóricos, mais ou menos eficientes, mas sempre falaciosos, para culpar as vítimas e com isso desviar a atenção de seus próprios vícios. As culpas de suas ações são sempre dos outros. É por isso que o humanista Himmler, numa história lembrada por Olavo de Carvalho, chorava por ser obrigado, isso mesmo, obrigado, a matar os judeus. Nassif deve chorar ao ter que atacar Janaína Leite.
Comparando o que fez Nassif nos ataques à Veja e à jornalista, e uma vez revelada sua estratégia, é possível, a partir do método, verificar a inconsistência e falsidade de suas conclusões. Se você não se interessa por lógica, temos um segundo quadro: no caso de Janaína, as provas apresentadas por ela não deixam dúvidas sobre quem está com a verdade. No caso da Veja, que optou por se defender na esfera judicial, aqueles que ainda acham a tese de Nassif verossímil, terá que aguardar um pouco mais.
Embora com certo receio de cair numa citação clichê, lembro que Maquiavel explicou que um príncipe poderia recorrer à hipocrisia e seria bem sucedido porque o homem médio vê tudo de forma acrítica e a majestade do cargo lhe confere aparência de virtuoso. Nassif acha que seu passado como colunista da Folha e o apoio de sua claque de comentaristas conferem-no o direito de agir como age.
Como leitor da revista, gostaria muito de saber se uma mísera das várias acusações contra a direção e a postura editorial da Veja tem fundamento. Não há nada no “Dossiê Veja” que demonstre isso. Mas, como bom cético, aceito provas em contrário. E me penitenciarei aqui sem qualquer pudor. A mesma falta de pudor que podem me levar a elogiar quem me convença de algo contrário ao que penso.
Reconhecer os métodos revolucionários de Nassif ou de qualquer outro nos torna mais críticos e menos ingênuos. Nassif não me interessa enquanto indivíduo, mas como parte das engrenagens de um movimento que deve ser combatido.
Nassif agoniza nas teias cibernéticas. Vamos ver até quando o cadáver insepulto produzirá miasmas e odores.
4 commentsBLOGUE VOLTA NA QUARTA!

Depois de um mês me desdobrando para dar conta de tudo e ainda garantir o uísque das crianças (olha na foto aí de cima como estou esbodegado) volto a postar diariamente na quarta-feira.
Novidades, petelecos, chineladas, informações, gelo e o uísque de sempre.
Alguns temas pipocando e algumas brigas para comprar.
Não me abandonem, ok?
No commentsEXTRA! EXTRA! Blogue volta a ser atualizado diariamente
Semanas de estudos para exames do mestrado, leituras mil, problemas a resolver, contas a pagar blábláblá.
Semana que vem este blogue volta a ser atualizado diariamente, faça chuva, faça sol, Deus e o diabo na terra do sol. E vamos que vamos!
No commentsDan Dediu, Dvorák e Shostakovich. Êita, nós!
Garschagen de volta. Um tanto mais feliz depois de ter ido, horas atrás, a um concerto na Fundação Calouste Gulbenkian aqui em Lisboa. No programa, Études-Motto, de Dan Dediu; Concerto para Violoncelo em Si menor, op.104, de Antonín Dvorák; e Sinfonia Nº 1, em Fá menor, op.10, de Dmitri Shostakovich.
O solista da peça de Dvorák, que eu desconhecia, foi o violoncelista chinês Jian Wang. Que música, que músico!
PS: Foto tirada durante o concerto.
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