A mentalidade revolucionária em ação
Sobre o post que escrevi ontem a respeito do “Caso Nassif”, apontando como o moço se vale da estratégia revolucionária para inverter a relação lógica entre sujeito e objeto, entre verdade e falsidade, Olavo de Carvalho, cujos estudos me baseei para escrever o texto, esclarece ainda mais o assunto na edição de hoje do JB:
Opinião - Psicose iluminista
Olavo de Carvalho
Um dos traços constitutivos da mentalidade revolucionária é a compulsão irresistível de tomar um futuro hipotético – supostamente desejável – como premissa categórica para a explicação do presente e do passado. Nessa perspectiva, a história humana é vista como o trajeto linear – embora entrecortado de abomináveis resistências – em direção ao advento de um estado de coisas no qual o curso total dos acontecimentos encontrará sua consumação e sua razão de ser.
Que haja nisso uma inversão psicótica da ordem das causas é algo que nem de longe rebrilha no horizonte da (in)consciência revolucionária, tão embevecida na contemplação estática das suas próprias lindezas que até a claridade máxima do óbvio se torna a seus olhos treva densa e impenetrável.
Mais cômica ainda, ou tragicômica, torna-se essa inversão quando, à maneira iluminista, o futuro esperado é descrito como o triunfo da racionalidade científica sobre o obscurantismo das crenças bárbaras. Pois a concepção futurocêntrica da História, virando de cabeça para baixo a hierarquia do necessário e do contingente já traz em seu bojo a destruição completa da lógica, do método científico e de toda possibilidade de compreensão racional da realidade. Não foi à toa que Paul Ilie, no seu magistral estudo The Age of Minerva (2 vols., University of Pennsylvania Press, 1995), caracterizou o estilo mental do Século das Luzes como “razão anti-racional”.
Não espanta que, mais de 200 anos depois de ter desencadeado a maior e mais duradoura epidemia de revoluções, tiranias e genocídios já registrada desde o início dos tempos, a vaidade iluminista ainda continue a se pavonear de campeã da liberdade e dos direitos humanos, como se fosse lícito a uma filosofia reconhecer-se a si mesma tão somente pelos ideais declarados na sua propaganda e não pelo desenrolar inevitável e previsibilíssimo da realização efetiva das suas premissas.
O ideal de uma sociedade regida pela “razão científica” é o cerne mesmo da proposta iluminista, e a ele deve-se o nascimento das duas tiranias mais sangrentas que o mundo já conheceu, uma fundada na biologia evolucionária, outra na ciência marxista da história e da economia. O mais recente e meticuloso estudo comparativo desses dois regimes, The Dictators: Hitler’s Germany, Stalin’s Russia, de Richard Overy (New York, W. W. Norton, 2004, especialmente pp. 637 ss.), destaca como primeira e essencial similitude entre eles o “culto da ciência”. Auschwitz e o Gulag são a utopia iluminista materializada.
E não me venham com aquela idiotice de que o iluminismo não gerou só ditaduras totalitárias, mas também a democracia americana. De um lado, o iluminismo britânico que influenciou a independência americana nada teve da rebelião voltaireana e enciclopedista contra a religião e as tradições (ver Gertrude Himmelfarb, The Roads to Modernity: The British, French and American Enlightenments, New York, Vintage Books, 2004).
De outro, mesmo essa versão suavizada do discurso iluminista não foi subscrita no todo pelos founding fathers, os quais a modificaram e cristianizaram em tal medida que praticamente não há na declaração da independência, na Constituição americana ou nas constituições dos Estados uma só afirmativa ou dispositivo legal cuja inspiração bíblica não esteja abundantemente documentada.
Nenhum argumento racional foi jamais apresentado contra a massa de provas reunida por Benjamin F. Morris nas mil e tantas páginas de The Christian Life and Character of the Civil Institutions of the United States em 1864. Tudo o que o partido iluminista pôde fazer, para tentar impor como puro constitucionalismo americano uma versão caricatural, “francesa”, do Estado leigo compreendido como Estado ateísta militante, foi dar sumiço a esse livro e depois entrar em pânico quando da sua reedição em 2007 pela “american vision”.
Viram só como a coisa funciona? Analisem o que Nassif escreve sob essa perspectiva e verão como “a crack in the tea cup opens a lane to the land of the dead” (bom, não da morte, mas o verso do W. H. Auden era bom e fechava bem a frase).
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Lhe mando o comentário também pelos dois posts em defesa da brava Janaína
“O ideal de uma sociedade regida pela “razão científica” é o cerne mesmo da proposta iluminista, e a ele deve-se o nascimento das duas tiranias mais sangrentas que o mundo já conheceu, uma fundada na biologia evolucionária, outra na ciência marxista da história e da economia.” (O.Carvalho)
Caro
O que vai acima pouco difere da crítica dos frankfurtianos ao iluminismo (razão instrumental), crítica que em boa parte alimentou o irracionalismo “pós-moderno” e as ultra-modernas festividades politicamente corretas.
Aliás, penso que o Olavo repercute neste texto a SPE SALVI. Bento XVI também repercute lá a crítica dos frankfurtianos ao iluminismo. Na encíclica, Bacon, alvo preferido de Joseph De Maistre, esse inimigo da democracia, recebe do papa violenta crítica.
Há um ótimo livro do Roberto Romano sobre as origens românticas do totalitarismo. “Conservadorismo Romântico. Origens do Totalitarismo”. Roberto discute neste livro o pensamento que ajudou a solidificar os totalitarismos com base nos sentimentos contra a ciência e a razão.
Você vai se surpreender ao ler escritos de conhecidos pensadores do romantismo explicando o triunfo iluminista como apenas mais um momento pelo qual a humanidade teve que passar na sua marcha irresistível rumo a um futuro “repleto de esperanças”.
Os totalitarismos do século XX, como querem nos fazer crer os frankfurtianos ( Adorno e Horkheimer na Dialética das Luzes) e os seus epígonos Bento XVI e o epígono do epígono Olavo de Cravalho não são obra da modernidade e das Luzes.
Aqui um apanhado do que vai no livro:
Com o elogio dos sentimentos contra a ciência e a razão, mais a recusa da moderna democracia, brota no terreno noturno a flor pestilenta do mal, a negação dos direitos humanos em prol do futuro, do povo, mesmo do ser divino. Este impulso rumo ao obscurantismo encontra sua potência nos românticos Novalis, De Bonald, Donoso Cortés. Por exemplo, para De Bonald, “a Revolução francêsa começou com a Declaração dos Direitos do Homem; só terminará com a Declaração dos Direitos de Deus” (Teoria do Poder político e religioso). E se proclama, a partir daí, no pensamento contrário à ciência e à democracia, que “a sociedade é a verdadeira e mesmo a única natureza do homem (…) os indivíduos só vêem os indivíduos como eles…o Estado só vê e só pode ver o homem em família, como ele só vê a familia no Estado”. Deste modo, o programa totalitário estava pronto, pois o essencial é, ainda cito De Maistre, para a harmonia impere, “conservar as familias e consumir os indivíduos”. A doutrina sobre o indivíduo, em De Bonald, é importante para se compreender a justificação moderna das ditaduras, inclusive a de Getúlio Vargas: o indivíduo, proclama De Maistre, “só tem deveres e não direitos. Ele tem deveres para com a natureza humana, para com a sociedade e para com Deus que tudo envolve …o direito do povo a governar a si próprio é um desafio contra toda verdade. A verdade é que o povo tem o direito de ser governado!”.
http://robertounicamp.blogspot.com/2007/12/discurso-de-agradecimento-b-nai-brith.html
Uma outra visada - que recusa o dogma como o limite da razão - para além dessa oposição proposta no texto do Olavo:
Mentira e Razão de Estado.
Como o poder político, a razão deve encontrar limites, caso contrário ela delira sem suportes na corporeidade humana. Se o conhecimento é o seu alvo, ela deve começar dando à sensibilidade o seu quinhão, partilhando seus poderes. Quando se imagina absoluta, a razão, enuncia Kant, torna-se despótica e vazia. A verdade necessita tanto de ingredientes raros e caros quanto das humildes fontes estéticas. Justo por tal motivo Kant defende a crítica da razão. Como diz o intróito da sua obra estratégica: “Nossa era é propriamente a era da crítica, a quem tudo deve ser submetido. A religião, por sua santidade e a legislação, por sua majestade, querem ser isentadas pela crítica. Mas então elas despertam suspeitas e não podem exigir o respeito sincero que a razão concede apenas ao que passa pela prova livre e pública”. (4) O trecho kantiano é um ataque direto ao dogmatismo trazido pela razão de Estado. Tanto a ordem religiosa quanto a civil buscam um estado de exceção para si mesmas, enquanto a crítica liga-se à continuidade no ordenamento público e republicano. Alí, a regra é efetivamente universal e não admite exceções, muito menos estados de exceção.
http://escolapge.blogspot.com/2007_03_01_archive.html#8375465921568058484
Paulo, você não citou a frase seguinte à que você comenta:
“O mais recente e meticuloso estudo comparativo desses dois regimes, The Dictators: Hitler’s Germany, Stalin’s Russia, de Richard Overy (New York, W. W. Norton, 2004, especialmente pp. 637 ss.), destaca como primeira e essencial similitude entre eles o “culto da ciência”.”
Paulo, você leu o livro citado?
Caro Bruno, Olavo de Carvalho ? Olavo de Carvalho está à direita da Ku Klux Klan ! Pega mais leve, por favor…
“Olavo de Carvalho está à direita da Ku Klux Klan”
Prova.