Veja, Janaína Leite, Luís Nassif e teses revolucionárias

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Semana passada troquei e-mails com um jovem estudante de jornalismo do interior do Brasil que eu havia conhecido pessoalmente antes de vir para Lisboa. Depois de trocas amistosas de e-mail, diante de uma crítica que fiz a uma entrevista feita por ele com um professor de jornalismo da UnB, perguntas e respostas recheadas daquelas críticas bobas e clichês à grande imprensa, além de citações de Paulo Henrique Amorim e Luís Nassif como figuras virtuosas do jornalismo pátrio, ele ficou aborrecido. Minha paciência com a burrice só não é maior do que a que tenho com a idiotice.

Entre outra qualificação que só cabe num e-mail, escrevi, com alma cândida, que os dois não podiam ser tomados como exemplo profissional. Ele replicou dizendo que a credibilidade das informações veiculadas por PHA e Nassif não seriam afetadas por possíveis interesses que eles pudessem ter em qualquer assunto. Encerrei a conversa e o contato com o moço dizendo que se ele acreditava mesmo nisso eu não teria muito o que dizer. Repito: minha paciência com a burrice só não é maior do que a que tenho com a idiotice.

Por que essa conversa agora, Garschagen? Acompanho com interesse um tanto mórbido a longa jornada ladeira abaixo dessas duas entidades, no sentido macumbês do termo, do jornalismo das Terras de Vera Cruz.

Antes, uma explicação: como todos os interioranos incautos aspirantes a jornalistas, sim, um dia eu achei que, entre alguns outros, Nassif, então importante colunista da Folha de S. Paulo, era uma referência jornalística. Bastou pouco tempo morando no Rio e conhecendo redações e outros profissionais do Rio e de São Paulo para que ele e outras “referências” jornalísticas caíssem no chão como frutas podres.

Voltando à vaca fria, desde o início do governo Lula e as colunas do Diogo Mainardi expondo os revolucionários do jornalismo pátrio e seus métodos o panorama começou a ser esclarecido. Dois jornalistas apontados por Diogo como Lulistas, por exemplo, estão agora servindo o governo que diziam não servir, notadamente Franklin Martins e Tereza Cruvinel. O trabalho do Reinaldo Azevedo também têm sido notável.

Além dos jornalistas revolucionários (e repare que não uso “de esquerda”) que agem por questões ideológicas há os que agem segundo outros interesses, mas se valem do mesmo método. E uso aqui os conceitos de revolução, mente e mentalidade revolucionárias utilizados pelo filósofo Olavo de Carvalho:

1) Revolução: a ação, meios e instrumentos utilizados com o fim de remodelar integralmente a sociedade, a cultura e a espécie humana visando um futuro perfeito;

2) Mente revolucionária: manifesta-se nos autoproclamados conhecedores dos caminhos sociais, culturais, políticos e históricos que devem ser explorados e percorridos para se atingir o estado de perfeição;

3) Mentalidade revolucionária: a certeza de um indivíduo ou grupo de que é o agente escolhido para construir um futuro perfeito, ou “o estado de espírito, permanente ou transitório, no qual um indivíduo ou grupo se crê habilitado a remodelar o conjunto da sociedade – senão a natureza humana em geral – por meio da ação política”.

Janaína Leite algoz de Luís Nassif? Tá de brincadeira!

Vocês devem estar acompanhando a excelente cobertura que a jornalista Janaína Leite vem fazendo em seu blogue Arrastão (http://arrastao.apostos.com) do Caso das Teles que culminou no que vou chamar Dossiê Nassif.

Para não ser redundante e cair num pleonasmo vicioso retórico ao apontar as incongruências e falta de sustentação feitas por Nassif à jornalista, indico a leitura do texto de Gravataí Merengue. Ele apontou a fragilidade das acusações de Nassif contra Janaína, fragilidades essas que já estavam evidentes também no “Dossiê Veja” (de que trato numa outra ocasião). Só discordo do título que Gravataí deu ao próprio texto: JANAÍNA LEITE: O ASSASSINATO DE UMA REPUTAÇÃO POR LUÍS NASSIF. Não houve assassinato, mas uma tentativa, graças ao bom Deus, impedida pela reação de blogueiros como Gravataí. Entre a tentativa e a consumação vai uma diferença substancial que achei por bem destacar.

A inconsistência dos ataques de Nassif, seja contra a Veja seja contra Janaína Leite, segue um método de tentar aplicar uma a inversão moral com um giro de linguagem. Nassif atacou a jornalista dizendo que ela fazia parte do esquema jornalístico para beneficiar Daniel Dantas. Janaína vem se defendendo com provas e depoimentos. Aqui, um adendo: pela legislação brasileira o ônus da prova cabe a quem acusa. Neste caso, como em muitos outros, a vítima precisa provar que não é o bandido da história. Voltando à vaca fria, diante da defesa irretocável do ponto de vista do argumento e ancorada em provas documentais, Nassif esperneou. Assim como esperneou quando Janaína Leite revelou o contrato dele com o BNDES, cuja história nem vou entrar aqui.

Pelo que coletei na blogosfera, o telefonema para a vereadora Soninha, destilando acusações contra Janaína e cobrando uma atitude contra o texto do Gravataí Merengue, então chefe de gabinete da vereadora, é parte do método de pressionar pela calúnia. Envolver a vereadora faz parte do processo de alimentar e disseminar a confusão. Quanto maior for a balbúrdia e a incompreensão do que está sendo mais eficaz o resultado. O próprio Gravataí foi vítima da história ao ser colocado, não serviço de suas idéias, mas de sua ex-chefe, acusação iniciada por Nassif e manifestada pela sua claque no blogue Imprensa Marrom.

Mas ali se revelava também o desespero de quem vê uma estratégia ruir. Nassif, embora tenha um blogue há um tempo, tem a cabeça do antigo jornalista que acredita que os próprios textos se sustentam pela fama de quem escreve. Na internet isso não existe. Nassif parecia não contar com a reação contrária. Foi assim com a reação ao seu “Dossiê Veja”; está sendo assim com a reação às maledicências que lançou contra Janaína Leite.

E aqui aprofundo a constatação do método de uso da inversão moral com um giro de linguagem usado por Nassif na sua estratégia de náufrago. Nassif está a todo instante se colocando no papel de vítima. Ele acusa a Veja; ele acusa jornalista. Diante da reação natural de quem se sente atacado, o que ele faz? Apresenta-se, no que diz respeito a revista, como o Davi que enfrenta o Golias

A tese contra a revista pode até frutificar porque há tarados em todos os cantos em busca de teorias da conspiração. Contra a jornalista, que nem mais é funcionária da Folha de S. Paulo, ou seja, não tem uma empresa por trás para alimentar esse tipo de maluquice, ficou as acusações de um empresário que ainda se pretende jornalista contra uma jornalista que precisa se defender dos insultos apresentando as provas de sua eficiência profissional. Janaína Leite, pelas mãos de Nassif, deixa de ser a vítima para ser sua algoz. A mente revolucionária trabalha atribuindo à vítima o uso da violência. A mente revolucionária trabalha invertendo logicamente a relação entre sujeito e objeto e fazendo malabarismos retóricos, mais ou menos eficientes, mas sempre falaciosos, para culpar as vítimas e com isso desviar a atenção de seus próprios vícios. As culpas de suas ações são sempre dos outros. É por isso que o humanista Himmler, numa história lembrada por Olavo de Carvalho, chorava por ser obrigado, isso mesmo, obrigado, a matar os judeus. Nassif deve chorar ao ter que atacar Janaína Leite.

Comparando o que fez Nassif nos ataques à Veja e à jornalista, e uma vez revelada sua estratégia, é possível, a partir do método, verificar a inconsistência e falsidade de suas conclusões. Se você não se interessa por lógica, temos um segundo quadro: no caso de Janaína, as provas apresentadas por ela não deixam dúvidas sobre quem está com a verdade. No caso da Veja, que optou por se defender na esfera judicial, aqueles que ainda acham a tese de Nassif verossímil, terá que aguardar um pouco mais.

Embora com certo receio de cair numa citação clichê, lembro que Maquiavel explicou que um príncipe poderia recorrer à hipocrisia e seria bem sucedido porque o homem médio vê tudo de forma acrítica e a majestade do cargo lhe confere aparência de virtuoso. Nassif acha que seu passado como colunista da Folha e o apoio de sua claque de comentaristas conferem-no o direito de agir como age.

Como leitor da revista, gostaria muito de saber se uma mísera das várias acusações contra a direção e a postura editorial da Veja tem fundamento. Não há nada no “Dossiê Veja” que demonstre isso. Mas, como bom cético, aceito provas em contrário. E me penitenciarei aqui sem qualquer pudor. A mesma falta de pudor que podem me levar a elogiar quem me convença de algo contrário ao que penso.

Reconhecer os métodos revolucionários de Nassif ou de qualquer outro nos torna mais críticos e menos ingênuos. Nassif não me interessa enquanto indivíduo, mas como parte das engrenagens de um movimento que deve ser combatido.

Nassif agoniza nas teias cibernéticas. Vamos ver até quando o cadáver insepulto produzirá miasmas e odores.

4 Comments so far

  1. Janaína Abril 24th, 2008 12:15 am

    Bruno,

    seu texto é uma grata surpresa. Agradeço muito e convido você a, sempre que quiser, dar um pulo no Arrastão. Concordando ou não comigo, será sempre alguém bem-vindo.

    Abs,
    Janaína

  2. Max Abril 24th, 2008 2:02 am

    Belo texto e oportuno.
    Entretanto, é importante ter em mente que os jornalistas de serviços caluniam, inventam conspirações e mentem para encher os bolsos de dinheiro vivo. São vaidosos, sim, arrogantes, tambem. Mas gostam é de dinheiro vivo!

  3. » A mentalidade revolucionária em ação Abril 24th, 2008 3:02 pm

    […] o post que escrevi ontem a respeito do “Caso Nassif”, apontando como o moço se vale da estratégia revolucionária para inverter a relação lógica […]

  4. […] - por conseqüência, tal e qual colunista ou jornalista também estariam operando nesse sentido (o Caso Nassif é um exemplo desse tipo de acusação que começa a vingar de forma perniciosa no mundo dos […]

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