Reinaldo Azevedo, Gerald Thomas e seus leitores
A discussão e conciliação entre Reinaldo Azevedo e Gerald Thomas irritou uma parte dos leitores dos blogues de ambos. No caso do Reinaldo, em maior escala pelo maior número de visitantes, alguns leitores sentiram-se traídos. Achavam, pelo que li, que Reinaldo nunca deveria ter atendido o telefonema do diretor de teatro; conversar e encontrar pessoalmente, então, um acinte.
O que dizer? Parte dos leitores de blogues se agarram ao que escrevem seus signatários como se a opinião fosse a sagrada escritura. E a admiração os leva a combater todos os combates daquele que admiram. Isso tem um preço para o blogueiro e para os leitores. O blogueiro enfrenta a poderosa patrulha a favor; os leitores, a constatação de que o blogueiro é um indivíduo cujas análises, decisões e comportamentos não seguem um receituário (e é bom que seja assim). Basta algo sair fora da expectativa, como foi o caso da conciliação entre Reinaldo e Gerald, para os leitores reagirem.
Na hora em que li a reação dos leitores o primeiro impulso foi de compreensão. Nada mais natural do que a decepção por parte daqueles que, por admiração, “compraram” uma briga que não era deles (como, de regra, acontece regularmente). Daí fui ler os textos do blogueiro e colunista de Veja sobre a conversa e a constatação de que havia entre os dois mais convergências do que divergências; e que, por isso mesmo, não teria mais sentido continuar uma briga - detonada por um texto infantil e idiota de Gerald - que se mostrava sem futuro. Por que os leitores ficaram tão chateados? Que tipo de reação é essa? Traição? Traição do quê? Reinaldo não tirou uma vírgula do que disse sobre Gerald; não derramou elogios sobre o profissional Gerald. Elogiou, sim, uma conduta admirável que é a de perceber que agiu de forma imbecil e buscar repará-la. Sem pieguices, choro ou vela. Sem manobras de bastidores. Continuo detestando os trabalhos de Gerald que vi (aquela montagem de Tristão e Isolda no Rio foi de lascar), mas me impressionou nele a nobreza de caráter nesse episódio. No último post do blogue dele, escreve o seguinte:
Seja como for, domingo passado eu lancei aqui no DR a coluna “Idiotas”. Mal sabia sabia eu que, atacando Reinaldo Azevedo (através de todas as vias tortas e tolas) quem era o “idiota” era eu.
Gerald, ao procurar Reinaldo, se retratava; Reinaldo, ao se dispor a conversar, descobriu mais um que está trincheira pelo bom combate. O não-inimigo estendeu a mão e Reinaldo retribui. Esse elemento surpresa em qualquer contenda intelectual não pode ser descartado. Os leitores, porém, não estavam preparados. É natural. Saem desse episódio mais maduros ou ainda mais juvenis.
Muitos leitores do blogue do Reinaldo agem e reagem impulsivamente. Não adianta o blogueiro de Veja recomendar um zilhão de vezes a reflexão crítica que se aplica, por que não?, também ao blogue. Quantas vezes Reinaldo escreveu não ser candidato à profeta, manipulador de opiniões ou arquiteto do pensamento único? Quantas vezes escreveu só obedecer à própria consciência e sugerir que os leitores fizessem o mesmo? O que, aliás, queriam aqueles leitores? Sangue? Que Reinaldo, contrariando todo o bom senso demonstrado no blogue, jogasse sua civilidade no lixo para manter uma briga que, depois dos e-mails e da conversa ao telefone, se revelou tola?
Nessa história, uma discussão que começou séria, depois da conciliação, foi vista por alguns como brincadeira de comadres. E, mal comparando, lembro a história da okupação esquerdista do blogue português O Insurgente que era uma brincadeira e foi tomado, depois de revelada a verdade, como uma coisa séria. Muitos ficaram extremamente chateados.
Acho que se deu muita importância a um episódio que, feita a conciliação, foi mais importante na esfera privada de Gerald e Reinaldo do que da esfera pública do blogue. Como Gerald diz “essa saga tem que terminar e, tanto ele (Reinaldo) quanto eu, temos uma vida a levar”. E nós também. Bilu, tetéia.
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No caso do Insurgente teve gente dizendo que a brincadeira foi um tiro no próprio pé. Quanta bobagem. Não se pode fazer uma brincadeirinha. Até quando, a ironia, o deboche, serão considerados insultos? Sobre este seu post só tenho a dizer que está perfeito. O Nelson Moraes escreveu um divertidíssimo, mas análise mesmo, só o seu.
Quanto à briga de RA e de Gerald Thomas, tenho a dizer que acredito em reconciliações e em esclarecimentos através do diálogo. A isso chamo civilização.
Quanto à brincadeira d’O Insurgente, considero-a de excessivo mau gosto (arte de Gerald Thomas pra baixo). O mau-estar que senti é inenarrável.
Mas os caras são bons no que se propõem fazer a sério, então continuo a lê-los.
Mas Gerald é um caso raro. Poucos fariam o que ele fez: reconhecer a própria estupidez. Dá para imaginar isto da perte do Mino Carta, Emir Sader, dentre outros. Nelson Motta num comentário diz que ambos saíram arranhados (ou algo parecido) da contenda. Bobagem, o que se viu foi uma humilhação total do Gerald pelo Reinaldo. Conforme disse Pedro Sette Câmara num post de seu blog, humilhar quer dizer tornar humilde. E parece que esta humilhação surtiu efeito com o Gerald. Segundo ele a conversa com Reinaldo teve um impacto grande sobre ele. Deve ser duro para ele, na idade em que está, reconhecer ter acreditado por anos em alguns erros que certamente o Reianaldo o ajudou a reconhecer. Imagina um sujeito já cinquentão percebendo que toda sua obra não passou de uma grande porcaria, que é um semi-analfabeto (não sei até que ponto ele reconheceu isto) e um pseudo-intelectual de miolo mole. Ele diz que chorou na conversa e isto dá para imaginar que algo tocou fundo na consciência dele. Esperamos que daqui para frente se torne um dramaturgo e “intelectual” melhor. Todos ganharemos.
Como não dá para apagar meu comentário aqui, peço perdão aos cultores língua portuguesa culta pelos erros de pontuação e a repetição de “ele”, “ele”, “ele”.