Archive for Fevereiro, 2008

Educação clássica no Brasil? Tem sim senhor!

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Dificilmente você encontraria no Brasil uma instituição de ensino que oferecesse um programa baseado na educação clássica, alicerçada na herança dos grandes livros, e em filósofos políticos da tradição da liberdade. A razão pela qual escolhi estudar em Portugal foi justamente porque o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa montou o programa do mestrado e doutorado em ciência política sobre o binômio educação clássica/tradição da liberdade.

O panorama, agora, começa a mudar. Está funcionando em São Paulo o Instituto Internacional de Ciências Sociais, que tem como coordenador do departamento de Humanidades o culto e abnegado Martim Vasques da Cunha.

A programação e a escolha dos professores estão ótimas. Aqui você pode ler sobre os Módulos de Educação Clássica - Uma introdução aos grandes livros da Civilização Ocidental e aqui a programação de 2008.

Nos Módulos de Educação Clássica os professores são Luiz Felipe Pondé, Martim Vasques da Cunha, Érico Nogueira, Marcelo Consentino, Gabriel Ferreira da Silva, Renato José de Moraes, Pedro Sette Câmara e Henrique Elfes.

Entre os cursos, A Literatura da Política - Porque a política é também uma arte, ministrado por João Pereira Coutinho em outubro, A Era do Estado Total - Os desafios do mundo globalizado, por José Nivaldo Cordeiro, Publicando Cultura - O mercado editorial no Brasil, por Alfred Bilyk da Barracuda, A Arte do Romance - Como os grandes escritores olham para o mundo, por Antonio Fernando Borges.

Vai perder?

PS: O blogue do site é imperdível!

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O que fazer para passar o Carnaval sem se valer de um Sonrisal?

O que faço no Carnaval? Um paper para o mestrado. Nos intervalos, avanço nessa leitura tão notável quanto extraordinária:

The simplest form of government is despotism, where all the inferior orbs of power are moved merely by the will of the Supreme, and all that are subjected to them directed in the same manner, merely by the occasional will of the magistrate. This form, as it is the most simple, so it is infinitely the most general. Scarcely any part of the world is exempted from its power. And in those few places where men enjoy what they call liberty, it is continually in a tottering situation, and makes greater and greater strides to that gulf of despotism which at last swallows up every species of government. The manner of ruling being directed merely by the will of the weakest, and generally the worst man in the society, becomes the most foolish and capricious thing, at the same time that it is the most terrible and destructive that well can be conceived. In a despotism, the principal person finds that, let the want, misery, and indigence of his subjects be what they will, he can yet possess abundantly of everything to gratify his most insatiable wishes. He does more. He finds that these gratifications increase in proportion to the wretchedness and slavery of his subjects. Thus encouraged both by passion and interest to trample on the public welfare, and by his station placed above both shame and fear, he proceeds to the most horrid and shocking outrages upon mankind. Their persons become victims of his suspicions. The slightest displeasure is death; and a disagreeable aspect is often as great a crime as high treason. In the court
of Nero, a person of learning, of unquestioned merit, and of unsuspected loyalty, was put to death for no other reason, than that he had a pedantic countenance which displeased the emperor. This very monster of mankind appeared in the beginning of his reign to be a person of virtue. Many of the greatest tyrants on the records of history have begun their reigns in the fairest manner. But the truth is, this unnatural power corrupts both the heart and the understanding.

Para passar o Carnaval sem se valer de um Sonrisal basta ler, como eu, o grande Edmund Burke. O trecho em questão faz parte do ensaio A view of the miseries and evils arising to mankind from every species of artificial society. Gênio, gênio!

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Garschagen em ritmo de samba

Soube pela internet que está rolando o Carnaval no Brasil. E penso: “uau! Como é bom não estar aí!”

Numa conversa na quinta-feira passada um grupo de conhecidos me perguntou sobre o que eu mais sentia falta do Brasil. Eu: “dos meus”. Só isso?, insistiram. Eu (plácido): “sim, só”.

Além do mais, deve ser muito difícil morar num país em que, além de ter que dar explicações por que não se gosta de carnaval, deve-se tomar cuidado com dengue, febre amarela e jegue nas estradas. Bilu.

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Na Folha, edição crítica dos Sermões do Padre Vieira

Vocês já leram hoje no caderno Mais!, da Folha, o texto que escrevi sobre o padre Antonio Vieira (só para assinantes)? Não? Ok, reproduzo, então, um trecho:

Para ouvir os sermões

EQUIPE DE PESQUISADORES PORTUGUESES LANÇA EDIÇÃO CRÍTICA DOS DISCURSOS DE ANTÔNIO VIEIRA; UM DOS OBJETIVOS É RESGATAR OS TEXTOS COMO FORAM APRESENTADOS ORALMENTE, E NÃO TRANSFORMADOS EM ALGO PARA SER LIDO

BRUNO GARSCHAGEN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM LISBOA

Depois que estudantes portugueses de Coimbra que defendiam a reinstalação da Inquisição queimaram uma efígie que o representava, o padre Antônio Vieira -que conseguira do papa a suspensão das atividades do Santo Ofício- ironizou em carta datada de 1682: “Não merecia Antônio Vieira aos portugueses, depois de ter padecido tanto por amor da sua pátria e arriscado tantas vezes a vida por ela, que lhe antecipassem as cinzas e lhe fizessem tão honradas exéquias”.

No quarto centenário de seu nascimento, que se completa na próxima quarta-feira, dia 6, Vieira teria que trocar o sarcasmo pelo agradecimento: seus compatriotas, agora, celebram não só a efígie como a vida e a obra, dedicando-lhe um ano de comemorações, o Ano Vieirino, cujo ponto alto será o lançamento da edição crítica dos três primeiros dos 15 volumes dos “Sermões”. A publicação sairá pela Imprensa Nacional/ Casa da Moeda de Portugal, a princípio sem previsão de chegar ao Brasil.

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Dr. Rimbaud, I presume?

Ophélie

I

Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…
- On entend dans les bois lointains des hallalis.

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux ;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.

Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle ;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile :
- Un chant mystérieux tombe des astres d’or

II

O pâle Ophélia ! belle comme la neige !
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté !
C’est que les vents tombant des grand monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté ;

C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure,
À ton esprit rêveur portait d’étranges bruits,
Que ton coeur écoutait le chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits ;

C’est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux ;
C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux !

Ciel ! Amour ! Liberté ! Quel rêve, ô pauvre Folle !
Tu te fondais à lui comme une neige au feu :
Tes grandes visions étranglaient ta parole
- Et l’Infini terrible éffara ton oeil bleu !

III

- Et le Poète dit qu’aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis ;
Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys

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Ofélia

Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus…
- Longe, no bosque, o caçador chamandoo a caca…

Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos; toda noite ela repassa
À brisa a romanca que em delírio murmura.

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o caniço à fronte sonhadora.

Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda; em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um vôo incerto…
- De astros dourados desce um canto misterioso…

II

Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
- É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

- É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

- É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
- E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor: - que sonho, que pobre louca!
Ante ele era a neve, desmaiado à luz;
Visões estrangulavam-se a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

III

- E o poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.

Arthur Rimbaud teve uma vida complicada. O pai dele, o capitão de infantaria Fréderic Rimbaud, culto e letrado, autor de livros que se perderam, mal parava em casa. Um dia, sem agüentar a mulher autoritária, cai fora e nunca mais aparece. Então que o nosso poeta Arthur, que nasce gênio, passa por maus bocados até conquistar amizades importantes e se deixar enlouquecer pelo consumo de entorpecentes.

Ele próprio vira soldado, junta-se aos comunistas, decepciona-se, foge várias vezes da família, tem uma relação dos diabos com Paulo Verlaine e acaba virando persona non grata entre a intelectualidade pelo comportamento tresloucado e pelos insultos que dirige com freqüência aos artistas e intelectuais que estavam ao seu redor nas festas. Renegado, vai vagando de lugar em lugar sem um tostão no bolso e chega a se isolar num sótão para escrever Uma temporada no inferno.

Essa é uma parte da história, cujos final e detalhes vocês devem conhecer. Eis que me intriga: a razão pela qual Rimbaud parou de escrever é um mistério. De fato? Sim, mas há vários indícios. Apesar do gênio, tenho cá minhas dúvidas se ele levava a literatura como algo fundamental à própria vida, como, deixa-me ver, ah, sim!, Faulkner. Faulkner concedeu à Paris Review a melhor entrevista que li até hoje. Dizia lá que o escritor era capaz de tudo para exercer o ofício, o que incluía roubar a própria mãe.

E o que aconteceu a Rimbaud, que fez a mãe pagar suas aventuras e a editar seu livro? Decepcionou-se de tal forma com a vida literária que resolveu dar outro rumo à sua vida. Mas ele podia ter continuado a escrever sem participar da vida literária? Desconfio se Rimbaud conseguia separar as duas coisas; enxergar o ofício de escritor dissociado da relação pessoal com os demais escritores, que, afinal, fizeram e faziam com que ele fosse publicado. Talvez essa incapacidade de separar a literatura da vida literária tenha feito com que ele se afastasse de ambas.

Mas Rimbaud, apesar da curta carreira, deixou uma obra extraordinária. E o que se vê ao longo da história da literatura é uma grande quantidade de escritores cujo legado se resume, não à obra, mas à vida literária. É o que se vê hoje; é o que se viu ontem. O que fazer? Reler O Cabotino, do Polzonoff. Se preciso, acertar O Cabotino na cabeça dos “lançadores de livros” - aquela categoria especialíssima que faz dos coquetéis de lançamentos e dos rapapés a razão de ser de sua existência.

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Atlântico de fevereiro nas bancas de Portugal

Hoje a edição de fevereiro da sempre excelente revista Atlântico, daqui de Lisboa, chegou às bancas. Preciso sair agora, mas quando retornar farei alguns destaques. A novidade é que passo a ser colunista da revista. A coluna chama-se Transatlântico. Foi batizada por João Pereira Coutinho, a quem agradeço imensamente. Está lá também na revista, como um dos Correspondentes de Guerra, Pedro Sette Câmara. Não percam!

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Não percam os caderno Mais! de domingo

Domingo sai um texto meu no caderno Mais! da Folha. Não percam, ok? Se gostarem, podem escrever, enviar charutos, uísque ou dinheiro escondido em envelopes. Se detestarem, claro, não me digam, eheheh! Sobre o que é o texto? Segredo. No domingo eu coloco aqui o trecho e falo de como foi escrevê-lo.

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Talento brasileiro em Washington

Se vocês ainda não ouviram falar do jornalista brasileiro Chico Mendez passem a prestar atenção em seus textos a partir de hoje. Chico faz mestrado em Georgetown, Washington, e trabalha lá como correspondente das rádios Band News e Bandeirantes. E também publica no Valor Econômico ótimos textos como esse:

A insustentável incerteza do ser

Loundoun County é o típico subúrbio de Washington DC. Localizado no Estado da Virgínia, a maioria dos seus residentes é branca, bem-educada e, de certo modo, conservadora. A comunidade desfruta de boas escolas e bons hospitais. Pode-se dizer que Loundoun County é o arquétipo da cidadezinha onde os americanos desejam ter filhos: pacata, próspera e familiar. Nos últimos meses, porém, o subúrbio tem aparecido nas páginas do noticiário local do jornal “The Washington Post” por causa de um problema que é crescente no Estado: o influxo de imigrantes ilegais, principalmente de mexicanos. Os moradores, preocupados com a superpopulação, a degradação da cidade e a queda do preço dos imóveis, resolveram criar uma associação para conter a presença dos ilegais. Apelidada de Help Save Loundoun, a associação distribui adesivos com os dizeres “This America speaks English” (esta América fala inglês) e se juntou a outras tantas organizações de moradores da Virgínia que tentam conter o problema.

O exemplo acima mostra o grau de polarização que o debate sobre a imigração nos Estados Unidos atingiu. Entre os principais assuntos discutidos com os aspirantes à Casa Branca, como a guerra no Iraque e a crise do setor imobiliário, a situação dos imigrantes ilegais no país é recorrente, além de ser uma questão estratégica para os pré-candidatos, já que os latinos representam 15% da população do país.

No auge das discussões sobre o tema, um dos maiores intelectuais da América Latina resolveu deixar a sua contribuição ao debate. Com grande conhecimento de causa e uma extensa pesquisa, o mexicano Jorge Castañeda lançou nos Estados Unidos o livro “Ex Mex: from Migrants to Immigrants” (The New Press).

Ex-chanceler do governo de Vicent Fox entre 2000 e 2003, Castañeda, que atualmente dá aulas na New York University, utilizou documentos restritos ao campo da diplomacia, pesquisas e estudos sobre o tema e adicionou as melhores conversas de bastidores com figurões da política americana para compor o livro. “É importante publicar o que eu tentei fazer enquanto chanceler. Quero divulgar a minha opinião aqui nos Estados Unidos, onde ocorre o debate”, disse em entrevista ao Valor.

Em breve o inteligente e talentoso Mendez inaugura um blogue sobre política internacional. Aviso quando estiver no ar.

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Garschagen está de volta!

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Dias de ausência compulsória. Exames no mestrado. Trabalhos para garantir o uísque das crianças. Enfim, de volta, agora, espero, para ficar e “rever os amigos que um dia…”

Garschagen está de volta (como diria o filósofo e governador da Califórnia Arnold Alois Schwarzenegger)!

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