Archive for Fevereiro, 2008
Garschagen volta domingo
Caros, queria ter escrito hoje, mas o dia foi pesado de trabalho e estudos. E amanhã terei aula o dia inteiro. Volto domingo para escrever um post sobre a história entre Reinaldo Azevedo e Gerald Thomas e a reação dos leitores do Reinaldo. Voltem domingo, ok?
2 commentsO engodo da revolução econômica de Chávez

Acabo de ler um ensaio do economista Francisco Rodríguez na atual edição da Foreign Affairs. Leiam. Ele, que foi economista chefe da Assembléia Nacional da Venezuela entre 2000 e 2004 e hoje é professor assistente de estudos econômicos e latino-americanos da Wesleyan Unversity, mostra como os propalados avanços sociais na Venezuela não passam de engodo político.
Destaco alguns trechos:
Although opinions differ on whether Chávez’s rule should be characterized as authoritarian or democratic, just about everyone appears to agree that, in contrast to his predecessors, Chávez has made the welfare of the Venezuelan poor his top priority. His government, the thinking goes, has provided subsidized food to low-income families, redistributed land and wealth, and poured money from Venezuela’s booming oil industry into health and education programs. It should not be surprising, then, that in a country where politics was long dominated by rich elites, he has earned the lasting support of the Venezuelan poor.
That story line may be compelling to many who are rightly outraged by Latin America’s deep social and economic inequalities. Unfortunately, it is wrong. Neither official statistics nor independent estimates show any evidence that Chávez has reoriented state priorities to benefit the poor. Most health and human development indicators have shown no significant improvement beyond that which is normal in the midst of an oil boom. Indeed, some have deteriorated worryingly, and official estimates indicate that income inequality has increased. The “Chávez is good for the poor” hypothesis is inconsistent with the facts.
My skepticism of this notion began during my tenure as chief economist of the Venezuelan National Assembly. In September 2000, I left American academia to take over a research team with functions broadly similar to those of the U.S. Congressional Budget Office. I had high expectations for Chávez’s government and was excited at the possibility of working in an administration that promised to focus on fighting poverty and inequality. But I quickly discovered how large the gap was between the government’s rhetoric and the reality of its political priorities.
Rodríguez sabe do que fala porque trabalhou lá e viu como age o governo Chávez. O que ele diz é impressionante pela clareza e nível de informação:
Chávez’s political success does not stem from the achievements of his social programs or from his effectiveness at redistributing wealth. Rather, through a combination of luck and manipulation of the political system, Chávez has faced elections at times of strong economic growth, currently driven by an oil boom bigger than any since the 1970s. Like voters everywhere, Venezuelans tend to vote their pocketbooks, and until recently, this has meant voting for Chávez. But now, his mismanagement of the economy and failure to live up to his pro-poor rhetoric have finally started to catch up with him. With inflation accelerating, basic foodstuffs increasingly scarce, and pervasive chronic failures in the provision of basic public services, Venezuelans are starting to glimpse the consequences of Chávez’s economic policies — and they do not like what they see.
(…)
The change can be broadly characterized as having four basic dimensions. First, the size of the state has increased dramatically. Government expenditures, which represented only 18.8 percent of GDP in 1999, now account for 29.4 percent of GDP, and the government has nationalized key sectors, such as electricity and telecommunications. Second, the setting of prices and wages has become highly regulated through a web of restrictions in place since 2002 ranging from rigid price and exchange controls to a ban on laying off workers. Third, there has been a significant deterioration in the security of property rights, as the government has moved to expropriate landholdings and private firms on an ad hoc basis, appealing to both political and economic motives. Fourth, the government has carried out a complete overhaul of social policy, replacing existing programs with a set of high-profile initiatives — known as the misiones, or missions — aimed at specific problems, such as illiteracy or poor health provision, in poor neighborhoods.
A vida melhorou na Venezuela? Não é o que diz Rodríguez baseado na enorme pesquisa que realizou:
Poverty and inequality statistics, of course, tell only part of the story. There are many aspects of the well-being of the poor not captured by measures of money income, and this is where Chávez’s supporters claim that the government has made the most progress — through its misiones, which have concentrated on the direct provision of health, education, and other basic public services to poor communities. But again, official statistics show no signs of a substantial improvement in the well-being of ordinary Venezuelans, and in many cases there have been worrying deteriorations. The percentage of underweight babies, for example, increased from 8.4 percent to 9.1 percent between 1999 and 2006. During the same period, the percentage of households without access to running water rose from 7.2 percent to 9.4 percent, and the percentage of families living in dwellings with earthen ?oors multiplied almost threefold, from 2.5 percent to 6.8 percent. In Venezuela, one can see the misiones everywhere: in government posters lining the streets of Caracas, in the ubiquitous red shirts issued to program participants and worn by government supporters at Chávez rallies, in the bloated government budget allocations. The only place where one will be hard-pressed to find them is in the human development statistics.
Que Chávez era um boquirroto todos já sabíamos. O ensaio de Rodríguez dá munição científica para dissecá-lo. Leiam o artigo e disseminem pelos sites, blogues, escolas, universidades.
2 commentsGeraaaaaaaaaaaaaaaaldo!

A Cabana do Pai Tomás num momento de pura maldade cênica
Vocês devem estar acompanhando o cacete (ops!) que o Reinaldo Azevedo vem aplicando no Gerald Thomas, vulgo Cabana do Pai Tomás. Fui crítico de teatro do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil durante quase um ano no Rio. Não foi uma boa experiência, como você pode ler aqui. O fato é que nunca vi um crítico ou diretor sério da área que tivesse uma boa impressão profissional do moço. A Cabana do Pai Tomás costuma morder os lábios e bater o pezinho nervosamente quando sofre críticas no Brasil. Saca logo do bolso seu currículo e gralha para quem quiser ouvir que “se fosse em qualquer país civilizado receberia críticas elogiosas”. É a grita do amante rejeitado, como diria Paulo Francis.
Reinaldo diz em seus textos publicados hoje que Barbara Heliodora, a crítica teatral que se converteu numa instituição canônica, nunca caiu na fanfarronice da Cabana do Pai Tomás. Num perfil sobre ela contei a história de quando o moço desejou publicamente sua morte:
O sempre combatido, e combatente, Gerald Thomas, ouriçado pelos textos da crítica, cometeu a deselegância irresponsável de desejar publicamente, em 1993, que dona Barbara morresse na próxima pneumonia que tivesse. “Espero ansiosamente pela sua próxima pneumonia e faço votos de que ela seja a derradeira”. Ela teve mais quatro depois da praga Geraldiana, que, como se vê, não funciona, a exemplo de alguns de seus trabalhos. Ela nem se abalou. Acha que não houve intenção mais séria.
Numa entrevista para a Veja Rio em 1996, indagada se era gênio ou impostor, disse que Gerald Thomas não era nem uma coisa nem outra. “É um bom diretor que infelizmente quer ser autor. E como autor ele faz muita asneira. Há muita gente que diante das peças dele diz com medo de ser chamada de burra: ‘Ah, não entendi’. Que história é essa? Desde quando um espetáculo teatral é para você ir e não entender?”. O incidente parece ter sido superado. Gerald, inclusive, entrevistou a crítica em 2001 para seu site no UOL.
Em março de 1993, durante a festa de entrega do Prêmio Shell de Teatro, no Rio, centenas de artistas explodiram em vaias quando o nome da crítica foi citado por um dos apresentadores. Barbara não estava. Recuperava-se, ainda no hospital, da 14ª pneumonia. A filha Patrícia, na platéia, ficou indignada. Dona Barbara não dá tanta importância ao fato, mas acha que a reação mais lógica seria debater suas críticas com argumentos. “Foram incidentes um tanto tolos”, resume. E nem se trata de uma demonstração cínica de diplomacia; ela nunca teve medo de suas opiniões, por mais contundentes.
Conceder a entrevista à Cabana do Pai Tomás foi apenas a manifestação do caráter de dona Barbara. Ela realmente não liga para o que pensam de suas críticas ou o que dizem a seu respeito. Pode ser o moço do derriére verde ou o encanador do Cosme Velho. Quando dona Barbara aceitou conceder a entrevista quem ficou mal publicamente? Dona Barbara continou pensando e escrevendo o mesmo sobre a Cabana do Pai Tomás, que cada dia dá mais provas de sua, digamos, sanidade mental e moral.
6 commentsO Insurgente: blogue português ocupado pela esquerda?
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Caros, o blogue português O Insurgente estava fora do ar há alguns dias e ontem voltou ao ar, mas com um texto esquisitíssimo batizado de O Insurgente capitulou; comemoremos, camaradas!, escrito em forma de manifesto e no qual o pessoal que fazia o blogue é insultado. O texto é apócrifo, mas defende, voilá, o socialismo. Não é uma fofura?
Algo estranho se passa na blogosfera portuguesa. Parece que O Insurgente foi invadido por hackers da esquerda limonada. O que aconteceu, de fato, ninguém sabe. São muitos os blogues daqui que especulam sobre o que aconteceu. Alguns acham que o O Insurgente foi tomado de assalto; outros acham que os próprios armaram o circo. O certo é que o texto é permeado por aquelas aleivosias e clichês esquedopatas (copyright Reinaldo Azevedo). É inacreditável que em 2008 alguém escreva coisas como:
Acreditamos que o Ser Humano é dotado de razão, consciência e responsabilidade. Com uma estupidificante arrogância religiosa e uma retórica alarve, os insurgentes conseguiam ser desprovidos de todas essas qualidades. Por isso, capitularam; por isso foram vencidos; por isso, foram exterminados! É o culminar do irreversível progresso da liberdade e da civilizazão e a vitória do socialismo!
Espero que essa situação se resolva e O Insurgente volte logo ao ar.
7 comments“Hoje em dia não é mais assim”? Vai catar coquinho!
Cansa-me a beleza ler velhotes e juvenis idealizando o passado, que o segundo sequer tem. Por que sempre que se elogia um escritor, intelectual ou o torneiro mecânico a frase vem acompanhada daquele horrendo “hoje em dia não é mais assim”? Por causa de genialidades ou maravilhas pontuais e circunstanciais converte-se um período do passado numa época perfeita.
O maior mito é o de que “antes” todo mundo lia e era mais inteligente do que hoje. Coisa nenhuma! A quantidade de adultos ou velhotes idiotas que já conheci só reforça a tese de que os idiotas têm garantida sua cota de existência na espécie humana. Se hoje há mais idiotas é porque há mais gente no mundo. Percentualmente, repito, acho que seja equivalente ao longo da história. E se o ensino “antes” era, de fato, melhor, os velhotes são piores do que os juvenis que serão velhotes amanhã ou depois de amanhã. Estes ainda podem jogar a culpa da burrice individual no sistema de ensino e vão sempre contar com a simpatia de seus pares, conhecidos ou não.
A partir de hoje passe a reparar em certos textos. Se o sujeito ou a sujeita terminar a frase com “antes isso não acontecia”, “antes é que era melhor”, deixe o texto de lado ou, como diria Dorothy Parker, atire-o para longe com toda a força.
Era o que eu tinha a dizer.
(PS: Gostei dessa frase final)
PS: Murilo me puxou a orelha e coloquei entre o “tinha” e o “dizer” um “a”, que, uau!, deveria estar lá! Obrigado, Murilo.
5 commentsThe Economist: beleza de capa, beleza de texto!

Rue the damage he has done. But lift the embargo against a sad, dysfunctional island
HE HAS been the great survivor of world politics. When Fidel Castro marched into Havana in January 1959 at the head of his troop of bearded revolutionaries, Dwight Eisenhower, Harold Macmillan and Nikita Khrushchev were all in power, and the Beatles were yet to come. Ensconced in his Communist-run island, Castro has weathered ten American presidents and their economic embargo against him. He has outlasted by almost two decades the cold war and his former sponsor, the Soviet Union—long enough to benefit from a new era of anti-Americanism in which Hugo Chávez in oil-rich Venezuela has come to his aid. And now, at last, he is stepping down as Cuba’s president, for reasons of age and ill-health, but of his own volition and with what he clearly hopes will be an orderly succession that preserves his revolution.
He will probably be replaced by his brother, Raúl, who has been running the government since Fidel underwent abdominal surgery in July 2006. Raúl Castro has given many signals that he intends to restart reforms that in the mid-1990s introduced some market mechanisms into the sclerotic, centrally planned economy (see article). Yet reform will at first be slow—not least because while Fidel remains alive, he will have something of a veto over change.
1 commentGarschagen recebe abaixo-assinado internacional pelo post sobre Cuba
Ontem recebi um abaixo-assinado com centenas de assinaturas repudiando de forma veemente o uso da foto da tartaruga no post abaixo para identificar o irmão-absolutista Raúl Castro. Os signatários, olha só, não são apenas daí do Brasil. Tem assinatura que veio da ilha de Galápagos. Não costumo dar pelota para abaixo-assinado. Mas nunca antes tantas e ilustres tartarugas se manifestaram dessa forma.
Calma, tartarugas, não queria ofendê-las. Confesso que nem pensei nas conseqüências do meu ato. E, de fato, reconheço que foi uma grande maldade com vossa tão nobre espécie.
Apresento aqui minhas desculpas sinceras e públicas para as tartarugas do mundo inteiro. Nada melhor do que representar o irmão-absolutista como ele é. Foi mal aí.
3 commentsFidel renuncia? Que bom! Mas Cuba continua onde sempre esteve

Raúl Castro após receber do irmão a notícia de que assumiria o trono de Cuba.
É uma pena ter que macular o post aí abaixo para falar de um ditador fedorento, mas é preciso comemorar, mesmo que de forma moderada, a renúncia de Fidel em Cuba.
A coisa muda? Duvido. “Minas (Gerais) está onde sempre esteve” é o antigo lema da astúcia política. Cuba continua onde sempre esteve enquanto Fidel for vivo. Não é à toa o governo dos Estados Unidos declarar que o embargo ao país está longe do fim (embora eu ache o embargo mais prejudicial do que benéfico para o fim do regime castrista).
Será bastante curioso se o fim do regime se der pelas mãos de Raúl, o irmão-absolutista, que, no mais, parece uma tartaruga de bigode.
Resta esperar a morte do homem da barba e do charuto e desejar muita sorte, saúde e longevidade aos cubanos.
3 commentsLink aberto para entrevista com Olavo de Carvalho na Atlântico
O site da revista Atlântico publica na íntegra a entrevista que fiz com o filósofo Olavo de Carvalho para a edição de janeiro. Espero que gostem.
“Há algo de trágico na história de Portugal”
Bruno Garschagen entrevista Olavo de Carvalho
Nos anos 90 do fim do século passado, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho inaugurou uma nova fase na filosofia e no debate intelectual do Brasil. Ao lançar obras filosóficas como Aristóteles em Nova Perspectiva e O Jardim das Aflições. De Epicuro à Ressurreição de César, entre outras, imprimiu no pensamento filosófico brasileiro um rumo completamente diverso da dominação doutrinária impingida pelos autoproclamados pensadores que eram (e são), apenas, professores universitários de esquerda. Na esfera pública, Olavo seguia (e segue), como já declarou, na tentativa de formar uma elite intelectual mediante aulas, cursos e divulgação de ideias pelos jornais, revistas e site (www.olavodecarvalho.org e www.midiasemmascara.org). Aos 60 anos, o filósofo mora com a família desde 2005 em Richmond, Estados Unidos, onde desenvolve os seus estudos, principalmente, sobre a mente revolucionária e a paralaxe cognitiva.
2 commentsDias ausentes, dias de guerra, dias de luta
Dias ausentes. Dias de trabalho, estudo, certa angústia e exasperação. O que é pior? Os dias em Portugal passam mais rápidos. O dia aqui não tem 24 horas, pode acreditar. E quanto menos tempo tenho mais tenho o que fazer; mais sou solicitado.
Os ricos inteligentes dizem que quem muito trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro. A frase faz muito sentido.
Fim de semana tentarei colocar a casa em ordem e passar a escrever diariamente, não só aqui, mas em lugares tão importantes quanto este, mas só digo futuramente.
Para quem ainda visita este cadáver insepulto, outrora vivo e pulsante, só peço que não me abandonem. Volto, em breve, com novidades. Abraços afetuosos.
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