João Pereira Coutinho na Atlântico de janeiro
Vocês leram a revista Atlântico deste mês? Leiam porque está, como sempre, ótima. Reproduzo trecho da coluna do sempre excelente João Pereira Coutinho e que serve de inspiração para o comentário que faço no post aí de cima.
Saber, saber fazer, saber estar
COMO VAI O NOSSO ENSINO? Mal, muito obrigado. Não sigo as estatísticas, porque o governo, lamentavelmente, só continua a trabalhar para as ditas. Sigo a experiência pessoal. Há uns tempos, fui jantar a casa de uma amiga e colega de curso que, para infortúnio dela, licenciou-se em História e enterrou-se num liceu qualquer. Moral da história: está de baixa há três semanas (com depressão) quando o copo transbordou de vez. E como transbordou o copo? À mesa, ela resolveu partilhar com o cronista a última insanidade do Ministério. Segundo parece, os alunos do ensino básico não serão avaliados como antigamente.
A ideia, moderna e tão pedagógica, não passará por premiar, ou reprovar, os alunos que sabem, ou não sabem, História (ou Português, ou Matemática, ou Ciências). Saber História é apenas um pormenor para a classificação geral e vale, mostrou-me ela em folhas de gráfico, uns míseros 40% da nota. Os restantes 60% cabem direitinhos na rubrica “saber fazer” (40%) e “saber estar” (20%). E em que consistem estas misteriosas entidades? “Saber fazer” signifi ca que o aluno coloca dúvidas e dificuldades na aula; organiza o seu caderno diário com primor; utiliza a linguagem (?) adequada; mostra iniciativa e espírito de iniciativa; e etc. etc. etc. Mas o melhor vem nos 20% do “saber estar”, que por sua vez se dividem nas categorias de “responsabilidade”, “adequação da atitude” e “pertinência da participação”. “Saber estar” procurará inquirir se o aluno é pontual e assíduo; se respeita o material e o “património” (?); se entra e sai da sala de forma ordenada (sic); se respeita os colegas e os professores; se respeita outras opiniões; se não cospe em ninguém; se não se pendura no candeeiro. As duas últimas, concedo, foram inventadas. Mas não me espantaria encontrá-las na “grelha” de avaliação com que o Ministério pretende infantilizar e enlouquecer os professores. Para o Ministério, o aluno pode não saber o que foram as invasões dos bárbaros. Mas basta que o aluno não seja um para que os 60% de “saber fazer” e “saber estar” o aprovem a História. Desconheço as percentagens nas restantes disciplinas. Mas conheço a filosofia que sustenta esta aldrabice: sob a capa do “sucesso educativo”, que o eng. Sócrates gosta de proclamar sem pudor, sconde-se um crime pedagógico e produzem-se gerações de analfabetos polidos.
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