Archive for Dezembro, 2007
Impressões de Lisboa V
Quanto ao meu mestrado em Ciência Política, razão pela qual estou aqui, tudo excelente. O Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa conseguiu, com seu ensino de excelência, construir uma grande reputação mundo afora. Não é à toa que mantém convênio com as principais universidades em Oxford, Cambridge e nos Estados Unidos na área de ciência política e relações internacionais. Além das aulas, da estrutura e da razoável biblioteca, quase todas as semanas temos almoços com intelectuais, representantes de governos, professores estrangeiros etc. Aqui o movimento da história é percebido a tempo.
Há muitos livros que tenho que ler e muita coisa a escrever. Nem tanto de trabalhos para a faculdade, mas de idéias que surgem durante as aulas e que podem render bons textos. Muito mais do que a tese de mestrado, me interessam os papers e ensaios que quero desenvolver ao longo do curso para um livro que pretendo escrever (por enquanto, só um projeto em fase de maturação). O mais legal daqui é não se deixar se limitar pelos limites individuais.
Quanto à comida, puxa, provei uns 53 diferentes tipos de prato que levam bacalhau. Nem sei descrever o quanto é bom. Há também uns sanduíches de carne de porco (bifana) sensacionais. A grande notícia é que tanto o uísque quanto a cerveja são baratos. Tenho sempre no meu armário uma garrafa de single malt.
Essas são algumas das primeiras impressões após um mês em Lisboa. Tentarei, sempre que possível, colocar no blogue outras impressões sobre Portugal e os demais países que pretendo visitar. Não sou um acurado observador e escritor de viagens como meu amigo Rafael Lima, mas seguirei a regra maximin (maximizar o mínimo) para tentar lapidar, destilar e até extinguir algumas questões nessa nobre arte de cultivar preconceitos.
PS: Tenho fotografado bastante aqui, mas não consigo publicar as fotos no site, passando do computador para o Wordpress. Alguém aí sabe? Agradeço desde já.
2 commentsImpressões de Lisboa IV
Há muitos brasileiros em Portugal. Não, mais: há brasileiros em excesso em Portugal. Vê-se o brasileiro imigrante há quilômetros de distância: é o que fala e ri mais alto; e o que cheira a Leite de Rosas. Conversei com alguns imigrantes que reclamaram de preconceito dos portugueses. O português médio e mais velho é tão preconceituoso e chato como o dos demais países. Ou você nunca teve um vizinho intolerável? De um sensanto imigrante brasileiro ouvi a seguinte sentença: “boa parte dos preconceitos contra os brasileiros foram provocados pelos próprios imigrantes brasileiros. Daí sofre todo mundo”.
Mas, divago. Voltando à vaca fria, o grande problema dos imigrantes brasileiros que vêm para cá ganhar a vida e mandar dinheiro para o Brasil é não estarem nem aí para a própria educação numa fase em que poderiam fazê-lo. Passam a ganhar melhor, trazem os filhos, compram carro novo e nada de se educarem. Nem digo educação formal. Falo de aprender sobre o país, provar novas comidas, bebidas, conhecer outros países, pessoas, culturas. Nadica de nada.
O que se faz, normalmente, é tentar criar um Brasil virtual em seus guetos, mesmo que os guetos sejam as próprias casas. Investem tempo e rendimentos nos famigerados churrascos de fim de semana em que o pagode é consumido em abundância com carne e cerveja. Falo dos imigrantes brasileiros em Portugal, mas lembro dos imigrantes brasileiros nos EUA, por exemplo, que sequer aprendem o inglês. E se você entra no perfil do Orkut estão todos lá exibindo seus carros novos e fotos de… churrascos com outros brasileiros. A Europa está muito preocupada com o avanço dos muçulmanos no Ocidente e se esquecem o grande perigo representado pelos imigrantes brasileiros que fazem churrasco com pagode no fim de semana. Imagine se esse negócio contamina toda a sociedade e, daqui a dois séculos, a Europa vire um grande pandeiro fedendo a carne queimada. Deus seja louvado.
Há imigrantes de outros países que se comportam de maneira bárbara? Sim, claro, já ouvi falar, mas não os conheço.
No commentsImpressões de Lisboa III
Sobre a educação, olhando o currículo das escolas dá para perceber que se dá uma atenção primordial ao ensino de base, anterior à universidade, coisa que não temos no Brasil. Nossa mania de querer resolver tudo no fim da estrada fez (faz) com que se dê uma atenção muito maior às universidades dos que aos ensinos médio e fundamental.
O resultado é o que conhecemos: boa parte dos alunos de faculdade é analfabeta funcional (não sabe interpretar o que está escrito) ou semi-analfabeta (daqueles que trocam Ç por SS, ou vice-versa). E são umas grandíssimas bestas. Vocês viu a pesquisa da Datafolha publicada hoje? Leu essa nota do Reinaldo Azevedo?:
Um dado chamou a minha atenção na pesquisa. Num cenário em que Serra disputa (com Marta Suplicy como candidata do PT), Heloísa Helena (PSOL) obtém 19% de votos entre os universitários e só 9% entre os que têm ensino fundamental. Claro, os menos instruídos, tadinhos, não entendem patavina do que ela fala. O que me surpreende é que 20% dos que têm curso superior julguem entender… Aliás, ela e Serra têm tendências opostas nesse caso: o tucano conta com um percentual maior (38%) entre os de menos escolaridade, com 37% entre os de ensino médio e com 34% dos brasileiros com curso superior. Na disputa em que o candidato tucano é Aécio, a representante do PSOL fica com 22% dos mais instruídos…
Conheci aqui alguns brasileiros, de diferentes estados, que vieram também fazer mestrado, mas em outras faculdades que não a que estou (Católica Portuguesa). O fato é que no dia em que eu os conheci estavam chamando um do grupo de “o insolente”. Perguntei por quê. Disseram-me que “o insolente”, numa conversa de bar na semana anterior, havia proferido uma frase em que lascava a palavra insolência. Sabe o que aconteceu? Numa mesa de oito pessoas, ninguém sabia, e alguns desconheciam completamente a palavra, o significado de insolência. Daí eu penso: Waall, são esses os universitários brasileiros!
Aqui também se reclama muito da educação. Dizem que vai de mal a pior. Conheci portugueses que me falaram horrores de algumas faculdades. O fato é que estão tentando fazer uma grande reforma no sistema educacional de Portugal cometendo erros que nós no Brasil cometemos e estamos pagando, como aprovação automática e aceitação impune de faltas, sem falar na precedente imbecilização do currículo. Um dos sintomas mais graves daqui foi tirar Eça e Camilo Castelo Branco do programa escolar. Não há melhor meio de formação de caráter do que a leitura, mesmo que compulsória, de autores que dão um pau no próprio país, nas idiossincrasias de seus habitantes, na vulgaridade histórica de uma nação.
No commentsImpressões de Lisboa II
Portugal enfrenta vários problemas e as reclamações públicas, regra geral, são iguais às nossas. O ensino é uma tragédia, o governo gasta muito e mal, problemas de corrupção, de escutas telefônicas ilegais, altos impostos e por aí vai o rosário sendo desfiado. Qual é a diferença fundamental entre os problemas do Brasil e os daqui? Portugal já fez o dever de casa em muitas reformas que nem sequer elaboramos. E, atualmente, tem uma União Européia bafejando no cangote. Tem que andar na linha senão toma puxão de orelhas. Eu ia falar de bigodes, mas a coisa mais difícil de ver é português com bigode.
Aliás, um negócio interessante: a maioria esmagadora dos homens (e das mulheres também, dado o histórico e a tradição) tem as faces barbeadas. É raro topar com um português adulto de barba. Vejo, sim, jovens, com aquele ar desleixado que faz sucesso em faculdades de jornalismo; mas adultos e velhos, muito difícil. Aquele seu Manoel da padaria de bigodão, se calhar, só se encontra no Rio de Janeiro. E, para tristeza dos gozadores brasileiros, não há mais mulheres de bigode por aqui.
No commentsImpressões de Lisboa I
Dia desses vi uma imagem do Rio na TV. O pessoal da casa onde moro via uma novela brasileira. Puxa, o Rio é dessas cidades que o cabra já sabe que é linda quando está lá. E quando vê fotos ou imagens fica ainda mais impressionado por ver que ainda há muitas formas de se encantar com o lugar. Sinto saudades do Rio, mas não sinto falta. Acho que pelo fato de aqui estar ainda melhor do que eu esperava.
Lisboa é muitíssimo bonita e alguns lugares são bem cuidados, mas em alguns cantos há um certo quê de desleixo, de descuido, que não vi, por exemplo, no Porto, onde a cidade é velhíssima, mantém orgulhosamente essa característica e ainda consegue se mostrar cuidada, conservada.
Passeando pela margem do Rio D’Ouro vi as placas das fábricas de vinho do Porto: a maioria esmagadora é inglesa, de origem e propriedade ou, agora, só de nome mantido. O ar da cidade e dos habitantes está mais para Oxford do que para uma freguesia portuguesa. E eles parecem se orgulhar disso.
É uma cidade bastante interessante porque se apresenta como quatro cidades diferentes: há a parte antiga, belíssima; a parte que não é nova, mas também não tão antiga, que segue aquela arquitetura das antigas construções de Cabo Frio; uma parte sofisticada, o bairro dos riquíssimos, só de casas e sem uma mísera padaria por perto (e rico precisa de padaria na esquina para quê? É o que me pergunto); e uma parte na beira da praia badalada, cujas construções novas, principalmente prédios, e o ambiente me fizeram lembrar a Barra da Tijuca. Lá moram os jogadores de futebol, artistas e jovens com titica de galinha na cabeça. A praia é linda e há um farol que mergulha o cabra imediatamente na história.
Voltando à Lisboa, há regiões muitíssimo bonitas, parques enormes e pequenos onde é possível sentar para ler um livro ou só ficar matando o tempo (se não o tempo nos enterra, blábláblá…). Não há tão velhos como até a década de 1980, mas ainda os há para conferir a necessária e sóbria civilidade. O problema de não haver tantos velhos (e eu me nego a dizer “terceira idade”) é que há muitos jovens. Aturar tantos jovens, cujo nome é legião, cansa. O que me impressionou muito foi ver que são muito bonitos, o que, se não compensa a selvageria, dá um toque de beleza à coisa.
3 commentsEXTRA! EXTRA! Biografia de Rubem Braga será lançada hoje

Logo mais à noite, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, será lançada a biografia do cronista e jornalista Rubem Braga. O autor do livro, Marco Antonio de Carvalho, faleceu em junho deste ano deixando a obra pronta na Editora Globo.
O livro é excelente (leia trecho aqui). Marco se esmerou, estudou, reescreveu, lapidou. Trabalhava insanamente para atingir a perfeição que ele via em biografias que reputava ideais, como a de James Joyce, escrita pelo Richard Ellmann. Acompanhei de perto boa parte da feitura da obra, da pesquisa ao texto. Marco dedicou mais de 10 anos à biografia. Sem bolsa de pesquisa ou editora para bancá-lo, trabalhou para financiar seu sonho. Era um abnegado. Nunca lamentou - nem nos momentos de maior aperto financeiro. Seguiu em frente. Terminou e nos deixou o livro. Depois de tanto esforço e paixão, foi bebericar um uísque com Rubem Braga deixando como carta de despedida essa biografia que tem o mérito de mostrar como Braga tornou-se o maior cronista que já tivemos.
3 commentsDigam ao povo que “voltei para rever os amigos que um dia…”

Promessa é dívida, pois não? Garschagen volta oficialmente hoje depois de se instalar devidamente num bunker em Lisboa.
A cidade é belíssima, mestrado em Ciência Política correndo às mil maravilhas. Muita coisa para ler, outra tanta para escrever e ainda tenho que garantir o uísque das crianças. Não tenho bolsa de pesquisa. Estou aqui por conta própria. Até agora, consumindo umas parcas economias poupadas ao longo de anos. Se busquei bolsa do governo? Sai pra lá capeta! Só me interessa bolsa de estudo de instituição privada. Governo não tem que financiar projeto pessoal de ninguém. Já basta a legião que é bancada pelo nosso dinheirinho para fazer farra o exterior. Aqui, Farroupilha!
Voltando à vaca fria, não tenho mais o tempo que tinha para me dedicar ao blogue, o que significa dizer que a produção será bem menor do que você esta acostumado. Se eu conseguir fazer um post por dia está de bom tamanho. Enfim, chega de desculpas e vamos beber, digo, trabalhar. Estava com saudades daqui e vocês, caros leitora e leitor.
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