Que 2008 seja excelente, meus caros
Caros amigos e leitores,
Esta época do ano é assim mesmo. Escrevi aqui no Natal e lá vai eu de novo torrar as vossas paciências com esta mensagem de Feliz Ano Novo. Mas, antes das felicitações, gostaria de dizer umas coisinhas.
A primeira é que estou numa fase de bem-estar e certa felicidade. Como bom conservador, prefiro aquele bem-estar de que falava Aristóteles aos arroubos e oscilações da felicidade, que surge como uma explosão e acaba, invariavelmente, com certo lamento (uso aqui uma imagem do poema de T. S. Eliot). A certa felicidade de que falo é aquela que se pretende controlada, embora eu saiba o desvario que é tentar controlar a felicidade. Mas cada indivíduo sabe a melhor maneira de conduzir sua vida de forma a evitar sofrimentos desnecessários.
E lembro de como o primeiro semestre de 2007 foi, para mim, uma época de sofrimento. Primeiro profissional, depois pessoal, que teve como nota mais triste a morte de um amigo na sala do meu apartamento no Rio. Seguindo Blake, fiz com que a maldição me movesse. Antecipei um projeto pessoal antigo de morar fora do Brasil para estudar. Juntei os trapinhos e vim para Lisboa.
Dizer o que tem sido os últimos três meses aqui seria abusar ainda mais de vossas paciências, o que não farei de forma alguma. Só digo que estou muito bem, estudando muito, conhecendo pessoas interessantes, fazendo novas amizades de infância. E aqui enquanto escrevo lembro de um poema do nosso poeta maior, Bruno Tolentino, que diz assim:
In passim
Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.
E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:
intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,
pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.(O mundo como idéia. São Paulo: Globo)
Antes que algum de vocês ache esse poema niilista ou pesado demais, recorro ao que escreveu sobre o texto um amigo que é grande crítico de poesia: ao falar dos versos “Tudo vai-se acabando” e “tudo passa / do que é ao que era”, explica que “é mais razoável dizer que tudo passa do que é ao que será. Passa-se da potência ao ato”.
Pode se ver no poema o movimento da vida, o presente que se torna passado e, ao mesmo tempo, o futuro sendo desenhado em tempo real. Um dos grandes desafios da vida é transformar, da melhor forma, a potência em ato, pois não? Somos o que fazemos de nossas vidas, claro. Um caráter também se manifesta pela potência e pelo ato. E salta aqui ao meu lado uma frase de C. G. Lichtenberg: “O livro é um espelho: se um asno o contempla, não se pode esperar que reflita um apóstolo”. Se trocássemos a palavra livro por vida o aforismo ficaria ainda melhor.
Toda essa peroração para dizer a cada um de vocês que desejo um Feliz Ano Novo e um excelente 2008.
Abraços e beijos no coração,
Bruno Garschagen
2 Comments so far
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Só agora entro em seu espaço. Então, mesmo que atrasado, receba meus votos de um feliz 2008. Um beijo, Marie.
Tu não me conheces, mas vá lá..rs
Acordei em um péssimo dia, o que escrevestes me fez um bem primordial!
Só queria que soubesse.
Tenha um bom dia.