A transição está em curso III

Uma das grandes surpresas deste ano foi a entrada do escritor Aguinaldo Silva no debate político. Se você não faz idéia de quem seja vá no Google e pesquise. Vale a pena. Antes de se tornar escritor de novelas, Aguinaldo foi jornalista dos bons.

A entrada de Aguinaldo na discussão sobre a abominável pressão do pensamento único sobre o indivíduo deu-se porque ele passou a refletir o estado de coisas da cultura nacional pela sua novela Duas Caras. Foi ameaçado de morte pelo celular e insultado da forma mais vil em seu blogue e pela imprensa. Aguinaldo furou o consenso, estabeleceu o dissenso na dramaturgia da TV brasileira. Seus personagens passaram a exibir de forma caricatual e eficiente todos os chavões políticos que a esquerda brasileira tratou de incutir na cultura nacional via a estratégia gramsciana já identificada e explicada por gente competente que estudou o assunto.

Você me pergunta: mas por qual razão Aguinaldo Silva se calou antes e só agora resolveu mostrar a cara? Há duas respostas. A primeira, a dele próprio, que reproduzo:

Mas por mais sangrenta que fosse a ditadura, as aflições que então sofríamos por causa disso não tinham tanto peso quanto têm as aflições de hoje, quando somos supostamente livres. É que na época os militares até podiam impor arbitrariamente sua vontade. Mas pelo menos não eram fundamentalistas, não achavam que tinham a missão divina de reorganizar e assim salvar o mundo. E agora…

A segunda resposta cai na idéia da transição em curso. O dissenso de Aguinaldo Silva se dá nesse momento. O fato de aparecem publicamente intelectuais corajosos dispostos a brigar, a denunciar, a desmontar a fraude intelectual e a farsa cultural estabelecida no país, de revelar que essa gente da esquerda quer orientar ou tolher os modos de vida de cada um, permitiu que pessoas de bem como Aguinaldo se sentissem seguras para, finalmente, dizerem o que pensam, exercendo a liberdade de opinião que durante décadas foi solapada. O regime militar institucionalizou a censura pela via legal e pelo exercício da força. A violência explícita é mais fácil de combater. O inimigo tem face, nome e endereço certo. A esquerda usou a tática de incutir na cultura nacional, através da deseducação mediante o aparelhamento das escolas e universidades, a moral unívoca. Usaram direitinho a ditadura militar a seu favor. E enganaram de forma competente os brasileiros, que, horrorizados com o regime de exceção, foram levados a acreditar que os bonzinhos da história eram os representantes da esquerda.

Até hoje a sociedade brasileira sofre o paradoxo de encarar ex-guerrilheiros homicidas como salvadores da pátria e militares que lutavam contra a ditadura dentro dos quartéis como facínoras (isso sem mencionar indivíduos que hoje são militares, mas que na época do regime eram crianças ou sequer eram nascidos, e não raro ouvem insultos travestidos de piadinhas sobre aquele período). As responsabilidades e crimes de cada um (militares e esquedistas) foram enterrados com a anistia, mas cada um tem o seu travesseiro a lembrar-lhes o sangue escorrido. Aqui não é o caso de exumar cadáveres e culpas; é o caso de que a forma de tratamento em ambos os casos são diferentes porque a sociedade brasileira foi levada a crer numa falácia: a de que a esquerda é a heroína desse período da história nacional.

A catedral de vilanias foi tão bem arquitetada que durou muito até que as rachaduras começassem a ser percebidas e expostas publicamente. A catedral, agora, começa a ruir. A sociedade brasileira só terá a exata noção do que foi submetida quando a catedral for reduzida a pó. Ainda há muito a ser feito.

E por que é tão importante que Aguinaldo Silva se manifeste? Primeiro, por se revelar um homem inteligente e com antenas aguçadas para não só perceber o estado de coisas, mas pela coragem e integridade de revelá-lo ao grande público em sua novela e na conversa com as pessoas que visitam seu blogue. Abaixo reproduzo alguns textos que extraí de lá. Leia que vale a pena. Volto logo depois:

Em 1978, quando a ditadura já seguia em velocidade de cruzeiro e muitos intelectuais de esquerda haviam dado um jeito de mamar de novo nas tetas do governo que supostamente ainda condenavam, eu ganhei o I Prêmio Abril de Jornalismo no gênero “melhor reportagem individual”, com uma matéria intitulada “Pobres Homens de Ouro”.

Os Homens de Ouro, se vocês não sabem, era o ovo da serpente do qual nasceu o Esquadrão da Morte e seus afiliados da época, todos de sinistra memória. Então, aos olhos de todos, inclusive os meus, os mocinhos (ou seja, a polícia) eram os bandidos.
Esse foi um cacoete que adquirimos naqueles tempos difíceis, e do qual muitos não se livraram até hoje: para estes, a polícia não presta. E os bandidos, mesmo aquele psicopata sedento de sangue do ônibus 174, são apenas heróis românticos, justiceiros dispostos a expropriar o que lhes pertence e que nós, a chamada “elite”, lhes roubamos, porque temos o atrevimento de trabalhar e ganhar dinheiro.

Naquela época, os Homens de Ouro, que eram sete e incluíam o famoso Mariel Mariscot, era o que havia de mais temível. Ao escrever sobre eles, e mostrar como eles progrediram na vida através do terror e da mão grande, eu fui premiado, mas causei preocupação aos amigos, que me perguntavam a toda hora: “você não tem medo?”

Eu tinha. Então eu era – desculpem a falta de modéstia – uma das “estrelas” dos jornais alternativos Opinião e Movimento, para os quais fazia matérias semanais Muitas vezes eu saía de madrugada de minha casa no então ameno bairro de Santa Teresa para entregar meus textos na redação dos jornais no Jardim Botânico. E enquanto atravessava a Rua das Laranjeiras, o Cosme Velho e o Túnel Rebouças no meu Fusca, tinha a nítida sensação de que estava sendo seguido. Em geral estava. Mas as ameaças nunca passavam disso.

Então eu já tinha sido preso (fiquei 70 dias na Ilha das Flores, 45 dos quais incomunicável), e também fui processado três vezes, sempre por delitos de opinião, que permitiam ao então Ministro da Justiça, o dr. Armando “no coments” Falcão, me enquadrar na Lei de Imprensa.

Podia, por causa da prisão e dos processos, ter pedido indenização ao governo atual, como fizeram muitos. Mas não acho que o povo tenha que pagar pelos agravos que sofri em virtude de minhas convicções políticas. Por isso prefiro viver às minhas próprias custas. E se tem alguma coisa da qual vou me orgulhar na hora da morte é de sempre ter vivido do meu trabalho e jamais ter mamado nas tetas de nenhum governo.

Sim, na época eu tinha medo. Mas por mais sangrenta que fosse a ditadura, as aflições que então sofríamos por causa disso não tinham tanto peso quanto têm as aflições de hoje, quando somos supostamente livres. É que na época os militares até podiam impor arbitrariamente sua vontade. Mas pelo menos não eram fundamentalistas, não achavam que tinham a missão divina de reorganizar e assim salvar o mundo. E agora…

Agora os que não concordam com o que está aí também sentem medo. E são seguidos na calada da noite. E são ameaçados. E têm suas contas bancárias secretamente devassadas. E recebem telefonemas sinistros disparados de celulares com IDs privados. E morrem sim, porque alguns, como aquele prefeito lá de Santo André, são mortos nunca se sabe porquê nem como.
Digo a vocês sem maiores rodeios. Neste momento eu sinto medo, e tenho sérias razões pra isso. A julgar pelo que dizem os telefonemas disparados dos tais celulares com IDs privados, por motivos alheios à minha vontade posso até nem terminar a novela DUAS CARAS, que tanta discussão está gerando.

Mas fica o aviso: se eu parar não será por minha própria vontade. E embora, no final de contas, o que eu faço seja “apenas Chinatown”, ou seja, uma novela, se eu não puder terminá-la porque amanheci, como dizem os tais telefonemas: “com a boca cheia de formigas”, espero que um dia Mamãe História se pronuncie e alguém venha a ser responsabilizado por isso.
Mas não se preocupem. Isso ainda não é uma despedida. Até o próximo texto!

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Se a descompostura que Zapatero aplicou em Chavez fosse um filme, sabem que nome eu lhe daria? “Querida, encolhi as crianças!” O ditador venezuelano regrediu tanto enquanto ouvia o Homem Branco que, no final, parecia estar usando tanga e um cocar de penas e cantando: uga, uga, uga!

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Sabem a kryptonita, aquele metal extra-terrestre que era capaz de fazer o Super Homem virar um clone de Jabba the Hut? Pois eu descobri qual é a kryptonita de um esquerdista fanático. É só você chegar perto dele e murmurar três letras: “FHC!” E ele entra num processo químico-emocional que o transforma em poucos instantes numa espécie de lama cármica. É irremediável.

Mas é também estranho: porque os esquerdistas fanáticos têm tanto ódio de Fernando Henrique Cardoso, se o governo de Luís Inácio Lula da Silva (meu primo distante lá de Garanhuns) é a fiel continuação do governo dele, apenas com alguns defeitos agravados?

Eu também descobri a resposta para este mistério. Notei que os e-mails de ataque pessoal começaram a ser enviados para este blog a partir do instante em que a personagem de Susana Vieira em Duas Caras enumerou, dentre as vantagens da estadia de sua filha em Paris, o fato dela ter feito “o curso de verão do Fernando Henrique” na Sorbonne. No dia seguinte, os sinais de fumaça enviados por essas almas atormentadas começaram.

E, embora a maioria dos que me escrevem tratasse de ignorá-los, no que fizeram muito bem, eles continuaram… E num crescendo. Até que ontem uma mensagem, enviada por um senhor que se assina “Victoria Maria”, mas ao qual caberia melhor o codinome de “Francisco Derrota”, entrou aí embaixo e está lá até agora. Vou transcrevê-la, e espero que o Bloglog não veja nisso um problema, já que deixou que ela continuasse postada apesar das várias denúncias feitas por pessoas indignadas.

Trata-se de uma transcrição literal, inclusive com os erros de ortografia e gramática. Antes de ler, preparem o estômago:

“Seu viado facista tipicamente gay essas crises existenciais devem ser falta de pau no seu cu velho. Seu canalha imundo, respeite a democracia das pessoas que elegeram o presidente e as que não assistem essa merda de novela que você escreve, um lixo monumental, faz o seguinte, mata alguém e espera o último capítulo para revelar, quem sabe alguém vê… Você vive em que mundo em sua bichona afetada.”

Pronto: leram? Cuspiram de nojo? Pois agora eu vos digo: nesse texto eu vejo estampada de modo claríssimo a essência do pensamento de um esquerdista fanático, alguém cujo único contato com a realidade se faz através da negação do outro, da agressão e do insulto. Foi por causa desse texto que eu descobri a razão pela qual essas pessoas odeiam tanto Fernando Henrique Cardoso: é porque ele é um homem fino, culto e bem educado, alguém que está aberto a todas as idéias e todos os argumentos, que é a favor do livre debate… E, portanto, um homem muito perigoso.

Por que vocês pensam que o sr. Marco Aurélio Garcia usa aquela barba de dois dias e meio, tem aquela aparência de quem esqueceu os doze passos que levam ao chuveiro, e não faz um tratamento dentário? Porque ele precisa ser grosso, ou não parecerá um revolucionário. Quando Che Guevara falou aquela famosa frase: “tem que endurecer, mas sem perder a ternura”, eles entenderam assim: “você tem que ser revolucionário vinte e quatro horas por dia, mas de vez em quando pode fumar um charutaço”.

Alguém aí vai dizer que reproduzir o texto acima foi um ato de mau gosto. E eu direi que não – essa foi a melhor maneira que achei de exorcizá-lo. Ao longo dos meus 64 anos devo ter sido chamado de “viado” alguns milhares de vezes, e nas entonações mais diversas - inclusive as carinhosas, murmuradas ao pé do ouvido. Portanto, essa palavra, ao contrário do que pensa o sr. Derrota Maria, não é a minha kryptonita: arranja outra, querida…

Mas vou logo avisando a ele e aos outros: vocês precisam ter muita imaginação - o que me parece impossível - se quiserem achar essa palavra mágica. Pois nessa busca cometem um erro monumental: confundem espírito sensível com criatura fraca. Eu, como Fernando Henrique, sou um homem fino, culto e educado. Mas tenho o couro duríssimo! E não é com esse tipo de insultos que vocês vão conseguir arranhá-lo.

E tenho dito…

A não ser por mais uma tirada. Neste mundo ensandecido em que vivemos de repente os sinais foram trocados e a esquerda seguiu o caminho à direita! Querem um exemplo? Se Hugo Chavez aparecesse por aí usando chapéu de dois bicos, botas de cano alto e montado num cavalo seria considerado não a imitação farsesca de Mussolini, que ele é, mas a reencarnação de Simon Bolívar, e como tal seria endeusado…

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Li em algum lugar que o ministro Gilberto Gil receberá por estes dias o seu passaporte da Comunidade Européia, emitido pelo governo italiano. Ou seja: o cantor baiano será a partir daí um cidadão da Itália. Isso foi possível porque a mulher dele, Flora Gil, brasileira de ascendência italiana, tem dupla nacio-nalidade, o que, segundo as leis italianas, beneficia o cônjuge, seja ele ho-mem ou mulher. Parabéns ao Gil, que assim se torna, mais ainda, um cidadão do mundo.

O passaporte da Comunidade Européia é um dos documentos mais cobiçados da atualidade, principalmente por pessoas do Terceiro Mundo cujos pais ou avós vieram da Europa. Ele permite, entre outras coisas, que o portador circule livremente por todos os países daquele continente e trabalhe em qual-quer um deles. Dá direito também a entrada livre nos Estados Unidos, sem a necessidade de visto. E livra o portador de uma vez por todas, das humilhações que a arrogante migração inglesa dispensa aos turistas do terceiro mundo.

Ou seja: o passaporte da Comunidade Européia transforma você num cidadão de primeira classe, coisa que Gilberto Gil, Ministro da Cultura de um país importante como o Brasil, já é desde os tempos da Tropicália.

É por isso que ninguém que possa ter um deles pensa em dispensá-lo. A pró-pria dona Marisa, esposa do Presidente Lula, que é descendente de italianos, tirou o dela ano passado. E questionada a respeito, ao explicar porque se de-cidiu pela dupla nacionalidade mesmo sendo Primeira Dama de um país importante, etc., etc., respondeu com uma frase que qualquer mãe entenderia:

- Tenho que pensar no futuro dos meus filhos!

Pelo menos foi o que li nos jornais, mas não posso garantir que seja verdade, pois os jornais andam, segundo os adeptos de Renan Calheiros dizem por aí: exagerando.

Nos dois casos, ninguém fez nada de errado, pelo contrário. Eu mesmo, nestas minhas andanças portuguesas, tenha procurado uma lusa que aceite casar comigo e assim me conceda a possibilidade de tirar o passaporte português. Mas até agora só esbarrei com ucranianas, e bem… O que elas queriam era casar com um brasileiro e migrar para o Brasil – mas que malucas!

Mas no caso do Gilberto Gil eu andei pensando: de onde vieram os ancestrais dele? Talvez da Nigéria, ou da Guiné, não sei, mas sem dúvida Gil teria direito a passaporte de algum país africano. Como ele dá tanta importância à questão da negritude, eu pergunto: será que ele já tem um?

Seria Gil, além de brasileiro e italiano, também cidadão nigeriano? E estaria Flora Gil disposta a solicitar à Embaixada deste país africano a equivalência a que tem direito?

Pergunta boba, né não? Mesmo assim vamos estendê-la a todo aquele que, como Gil, apregoa o orgulho de ser afro-descendente: alguém aí pensou em ter dupla nacionalidade, quer dizer: ser brasileiro e também africano? Ou, se tivesse a chance, ia preferir ser brasileiro e italiano?…

Negros, brancos… Mas eu, que sou mulato, quando penso nesse tipo de coisas fico bege.

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Se Ciro Gomes for eleito o próximo Presidente com o apoio do Lula, eu aqui não fico. Vou curtir minha aposentadoria num lugar mais calmo e que não seja adepto da filosofia do “pobrismo”.

Quando você poderia imaginar que um escritor de novelas da Globo escrevesse e pudesse se expor à sanha da legião dessa forma? Eu nunca achei que fosse ver isso. E isso me deixa ainda mais contente e animado.

A batalha está longe de terminar e não será nada fácil implodir uma base arquitetônica tão funda como é a da catedral cultural construída pela esquerda brasileira. A briga é boa e já há muitos atuando nas trincheiras e outros tantos caminhando em direção à ela. Não defendo aqui a constituição de um grupo formal e nem a aceitação de regras de conduta, pensamento ou direcionamento de modo de vida. O que defendo é que as pessoas de bem lutem da forma como podem e acham que devem. Defendo que sejam preservadas as liberdades individuais de escolha, o que há décadas inexiste na sociedade brasileira.

2 Comments so far

  1. Fernando Sampaio Dezembro 18th, 2007 9:11 am

    Bruno,
    Sem militância nenhuma, blogs como o seu, como do Aguinaldo, como o do Reinaldo estão conquistando cada vez mais fãs! Acredito mesmo que a inteligência ainda não esteja morta no nosso país.
    Abraço
    Fernando

  2. Camila Dezembro 18th, 2007 12:32 pm

    De fato é um tanto “surreal” essa história do Aguinaldo… Quem diria?!
    A questão é que devemos ser mesmo todos finos, cultos, bem educados, mas de couro duro. Ah sim, isso é crucial.
    Abraço,
    Camila.

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