Enfim, a final da Copa de Literatura Brasileira

Música perdida, de que está longe de ser um livro sequer recomendável, venceu o Copa de Literatura Brasileira. Votei nele. Seu concorrente, Um defeito de cor, trazia, digamos assim, muito mais do que um defeito de cor. Vá no site para ler todas as justificativas dos jurados. A minha vai logo abaixo:

Bruno Garschagen: Parece um metrônomo. Música perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil, parece seguir a marcação de um metrônomo. As frases duram o tempo preciso do andamento. Na maior parte do romance, com pêndulo acelerado. Faça o teste. Ligue um metrônomo e leia. Varie a velocidade do pêndulo entre 40 a 250 batidas por minuto e terá a medida dos parágrafos. Assis Brasil soube dosar a marcação com palavras curtas, que cabem na história e na música sem harmonia que compõe o livro.

Não há uma boa sonoridade no texto de Música perdida. A orquestra é desarmônica. Assis Brasil sabe escrever, mas não fez uma obra marcante. Tudo é marcado demais, direto, cru. O personagem principal é a música perdida ou o autor da obra? Cada leitor pode fazer sua escolha e mesmo assim não terá um personagem que prenda, que emocione, que fique reverberando após a leitura.

Sobre Um defeito de cor, já apontei aqui os muitos vícios, as poucas virtudes. Ana Maria Gonçalves não expõe em nenhum momento uma centelha que seja de talento literário, ao contrário de Assis Brasil, que mostrou, pelo menos, ser um escritor.

Apontei como qualidade no livro de Ana Maria o ambicioso projeto, mas que continha um problema técnico grave. Repito o que escrevi: sua personagem-narradora, Kehinde, se mostra a mesma tanto criança quando velha. A passagem do tempo só é percebida pelas datas, não pela maturidade do pensamento. O livro, além disso, vence o leitor pelo excesso, que se converte em chatice. Um defeito de cor, pelos defeitos conjugados com a extensão, se torna chato e penoso como a viagem de navio da África para o Brasil.

Não é, infelizmente, uma grande final — e ainda me pergunto por que diabos Memorial de Buenos Aires, de Antonio Fernando Borges, não está nesta final. Mas, pela centelha literária, Música perdida vence por 1 a 0.

PS: Obrigado, Lucas, pelo convite e idéia.

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