Archive for Outubro, 2007
Uma das 10 melhores capas que já vi

No embalo da bela sacada que foi a capa da revista Atlântico deste mês, uma das 10 melhores capas que já vi é essa aí de cima, da The Economist, no período pré-eleição, que acabou vencida por Sarkozy.
No commentsDe escritores e cerveja ruins (eita, ferro!)

Reproduzo abaixo o bom texto de Ronald Robson sobre esse espécime em proliferação, o mau escritor brasileiro:
Só cerveja
Em geral, o escritor brasileiro contemporâneo está mais preocupado em dar boas entrevistas do que em escrever bons livros. A decepção do leitor é dupla. Livros de André Sant’anna, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira, para ficar com apenas três, não resistem a dez minutos de leitura precisamente porque seu tom não é o de quem está contando, mediando, gradativamente se apagando do corpo do texto para que o leitor fique a sós com ele. Ao contrário, parecem estar tagarelando enquanto se babam e cospem para todos os lados, estão apontando desesperadamente o rumo que a ficção tem de seguir, indo diretamente ao ponto, a todo minuto cutucando o ombro do leitor e dizendo ‘caramba, hein, porrada, né?’. E você que queria apenas ler no silêncio do seu cantinho se vê acuado diante da figura incoveniente, o escritor brasileiro contemporâneo, que agora não pára mais de falar e já começa a lhe conceder uma entrevista. ‘Sai, sai pra lá, jeca’, você diz, mas que nada. Ele insiste, permanece, e não é pequeno seu espanto quando percebe que ele já se abancou e acaba de abrir uma cerveja. O livro do estranho espécime que você tem em mãos está completamente desconectado da vida. Essa é a única explicação para que algo, além de ruim, seja repulsivo. Esta literatura de extremos (não foi um elogio) é artificial de cabo a rabo: não compreende que é impossível criar coisa alguma que preste só com Bukowski ou só com Mallarmé, só com Stanislavski ou só com Brecht, só com Dioniso ou só com Apolo (se bem que qualquer coisa que tenha Bukowski no meio merece defenestração sem estudo de causa). Seja o artificialismo estilístico aborrecedor de um Nelson, seja a pressa em enfatizar a naturalidade da expressão de um Marcelino, não importa: são dois extremos de um mesmo erro. (Já André Sant’anna é tão ruim que basta ele próprio para fazer campanha contra si; como escreveram recentemente, é nosso mais novo Paulo César Pereio. Se bem que tem o Mirisola…) Portanto a melhor coisa que você fez diante do livro que abriu e sobre o qual está sentado horrendamente a criatura incoveniente, o escritor brasileiro, aquele que só usa sandálias, aquele que só bebe cerveja (vinho jamais), aquele que enquanto escreve sonha dar entrevistas, a melhor coisa foi ter cedido suas orelhas a ele e guardado seu cérebro para si, a fim de elaborar uma desculpa pessoal que ocupe o vácuo da pergunta: ‘por que esses males no mundo, meu Deus?’. Você não chega a conclusão qualquer mas percebe que a espontaneidade é uma das formas prediletas da burrice e da falta de talento ingressarem nas artes. Cerebralismo demais, por outro lado, avacalha o texto, fazendo-o parecer coisa destinada a qualquer outro bicho que não um ser humano. O escritor brasileiro participa da primeira categoria, é claro, mesmo porque não estuda o suficiente para abrir a possibilidade de estar na segunda com um pouco de competência. Tudo isso passa por sua cabeça e o incomoda muito, muitíssimo mesmo. Mas a tensão é suavizada quando você recorda que Daniel Galera desistiu de dar entrevistas e está apenas escrevendo, que você nunca leu Bernardo Carvalho, e que a Argentina é bem aí ao lado e lá estão Rodrigo Frésan e Alan Pauls. Ahh.
PS: E eis que lembro de um post de abril de 2004 feito lá no Vertigem. Como era o post? Olha só:
No commentsLá pela 27ª long neck o vizinho coloca o acústico do Zeca Pagodinho. Aí, sabe como é, cerveja coisa e tal e o pé insiste em acompanhar a marcação do bumbo. Nananinanão. Voei para o armário, saquei um malte. Antes mesmo do gole assentar, já estava eu, lépido e fagueiro, imponentemente, cantarolando La Bohème e disputando com meu vizinho no volume de decibéis.
É a diferença básica entre as bebidas.
A melhor revista de Portugal fez a melhor capa sobre o porco fedorento

O responsável pela capa da edição de outubro da revista portuguesa Atlântico merece todos os vivas, saudações e cumprimentos. Numa pincelada, fez-se o bigode que amplia a compreensão da imagem e dá o recado exato e categórico. Um singelo acréscimo numa foto conhecida revela a personalidade perversa, cruel, atroz de um homem que passou a ser endeusado por muita gente com titica de galinha na cabeça. Duvido que se faça uma capa tão perfeita quanto essa nese período de efeméride de 40 anos da morte do porco fedorento.
Ainda não li essa edição de outubro, mas a Atlântico é uma boa revista de leitura imprescindível. O site da revista está em construção, ms o blogue está ativo.
3 commentsNão há nada mais civilizado do que café e livros

Eu não sei como conseguiram, mas é uma maravilha saber e, claro, ouvir, o Café Colombo, programa feito em Pernambuco e que trata de livros e idéias. É transmitido por lá pela Rádio Universitária FM (99.9 MHz) e, felizmente, temos acesso pela internet. Talvez seja o único programa de rádio no Brasil que tenha tratado de Hayek. E fez uma bela homenagem ao poeta Bruno Tolentino quando de sua morte.
O programa é comandado pelo inteligente e arguto Renato Lima, jornalista especializado em economia, com cursos na Foundation for Economic Education, de Nova Iorque, e na Fundación para el Análisis y Los Estudios Sociales, da Espanha, além de ser liberal fã de Hayek. Renato é dos meus: empolgado com o que faz, é desses indivíduos que colocam a mão na massa. Não há qualquer programa similiar, que eu saiba, no Rio ou em São Paulo.
Trato do programa porque recebi o livro Conversas no café - uma seleção de entrevistas do Café Colombo (pode ser comprado aqui). As conversas são boas. Boas entrevistas se fazem com boas perguntas e bons entrevistados. Destaco as entrevistas com Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho e Eduardo Bueno.
Amanhã, reproduzo trechos e faço comentários. Vale a espera.
No commentsA bênção que é termos Reinaldo Azevedo escrevendo

Já escrevi uma vez: é uma bênção termos hoje como colunistas da grande imprensa Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Olavo de Carvalho. Na época, esqueci de citar um, que não é regular, mas é preciso quando escreve: Ali Kamel. Chego tarde à historia da contaminação esquerdiota dos livros didáticos, que Ali Kamel expôs em dois artigos para o Globo e Reinaldo vem dissecando em seu blogue.
O assunto já está sendo bem tratado, portanto, o foco deste post é outro. Pastamos durante anos sem opções de leituras de colunistas em jornais e revistas. O politicamente correto era uma constante. A chatice e idiotice, idem. Depois, sem Francis, falecido em 1997, a coisa piorou. Neste momento, temos os quatro que nos trazem informação nova e análise. É de matar ler no dia seguinte o jornal que já foi “cantado” na noite anterior pelo Jornal Nacional.
Reinaldo é o jornalista que soube trabalhar mais do que qualquer outro no Brasil a potencialidade do blogue. Não fez como os demais que se arriscaram a trabalhar com a ferramenta e simplesmente levaram seus textos e modus operandi do jornalismo impresso para a internet. Reinaldo forjou um texto específico para o blogue, que oscila entre o mais solto e debochado ao mais sério, quando o assunto pede. Ele conseguiu detectar e adaptar a forma à temperatura do assunto. E não deixa o assunto morrer. Vai pesquisando, destrinchando, analisando, explicando e passando como um trator sobre os engodos que tentam ser vendidos como informação. O caso dos números de homicídios em SP divulgados pela ONU é exemplar.
E é com entusiasmo que vejo sua empolgação ao tratar e divulgar as passeatas de brasileiros sem ligação com partidos políticos contra o governo Lula e o PT; sua indignação com a burrice e idiotia travestida de temas pretensamente sérios, como a farsa racialista.
Eu poderia dizer que Reinaldo é um dos jornalistas mais cultos e bem humorados que já conheci, mas essa frase já foi usada para elogiar tantas bestas quadradas que, o que deveria ser elogio, vira ofensa. Mas a verdade é que ele é. Reinaldo não precisa de afagos, mas não elogiá-lo é, antes de tudo, deixar de premiar quem realmente merece. Tenho, pelo menos, quatro grandes dívidas com ele: o convite para ser colaborador de Primeira Leitura, as aulas de jornalismo nos apontamentos feitos sobre textos que enviei, a criação do blogue (fundamental na criação deste) e a amizade.
Minha fortuna, digo sempre, são os amigos que tenho.
PS: Ainda vou escrever sobre Diogo, Olavo e Kamel.
2 commentsTirem as crianças da sala: Garschagen voltou!

Mesmo com toda a correria por causa da minha mudança ainda não realizada para Portugal, sinto muita falta de escrever aqui. Ainda não vou conseguir manter a regularidade e produção de antes, mas tentarei, pelo menos, postar um texto por dia. Tirem as crianças da sala: Garschagen voltou!
1 comment