Archive for Outubro, 2007
Garschagen só volta amanhã
Achei que fosse possível escrever mais hoje. Nada. Mas volte amanhã que estarei aqui, ok?
1 commentUma boa matéria sobre blogues literários

Por conta do turbilhão de resoluções e trabalhos, acabei esquecendo de reproduzir uma matéria sobre blogues literários feita pelo jornalista Eduardo Passos e publicada em 26 de agosto no Jornal de Jundiaí. Olha só:
Letras na rede
Tec. Tec. Tec. Hoje o barulho da literatura é outro. Não é o barulho da ponta do lápis quebrando, da folha se amassando, ou da ponta da caneta que desliza pelas linhas da página. Agora os dedos dos escritores batem em teclas. A partir dos teclados dos computadores e da necessidade da solidão, na hora de escrever, os blogs surgiram e se espalham a uma velocidade impressionante. Para quem gosta de literatura há vários blogs que são um ´prato cheio´. Um desses casos é o blog do carioca Antonio Fernando Borges - como ele mesmo diz, ‘da safra de 1954′ (www.antoniofernandoborges.com).
O veterano escritor que já publicou os livros ‘Que fim levou Brodie?’ (contos, Editora Record / 1996 - Prêmio Nestlé de Literatura de 1997), ‘Braz, Quincas & Cia.” (romance, Companhia das Letras / 2002), ‘Não perca a prosa’ (didático, Versal Editores / 2004) e ‘Memorial de Buenos Aires’ (romance, Companhia das Letras / 2006), entrou definitivamente no mundo virtual há alguns meses, depois de algumas colaborações em outros sites. “Já havia escrito para alguns sites e, durante dois dias e três posts, aventurei-me numa página que iria se chamar “As Farpas”, inspirada na coluna dos portugueses Eça de Queirós (1845-1900) e do Ramalho Ortigão (1836-1915). A viagem durou pouco - era uma primeira abordagem, e a canoa afundou”, conta o blogueiro e escritor. Borges acrescenta ainda que com o seu novo ´puxadinho´, pretendeu abrir uma clareira para escrever sobre os temas que mais lhe interessam - literatura, filosofia, religião.
As referências literárias de Antonio são as melhores: Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Vladimir Nabokov, Machado de Assis, Ian MacEwan, Ortega y Gasset, Aristóteles e Otto Maria Carpeaux, entre muitos outros. Os leitores que entrarem em seu blog poderão encontrar textos com certa erudição, mas cheios de humor; ensaios sobre alguns temas atuais e, claro, uma escrita de quem sabe usar a Língua Portuguesa da melhor maneira.
Poesia - Bruno Tolentino, W. H. Auden, T. S. Eliot, W. B. Yeats ou Manuel Bandeira são nomes consagrados da poesia mundial e que têm espaço no blog de Pedro Sette Câmara ( www.pedrosette.com). O jovem carioca, de 30 anos, já morou nos Estados Unidos, e também escreve no blog O Insurgente, este de origem portuguesa e que trata sobre política. “A literatura é o que mais me agrada e interessa, desde criança. Mas praticamente só me interesso por poesia e teatro. Não é que eu não goste de prosa. É mais como se eu até esquecesse que ela existe”, diz Pedro que é professor de tradução.
O que este blog tem de especial são mesmo as traduções. Os leitores que gostam de poesia, mas não dominam outras línguas, principalmente o inglês, poderão aproveitar a paixão de Pedro Câmara pelo inglês e encontrar poemas de Auden, Yeats ou Geoffrey Hill na língua de Camões, outro poeta que, segundo o blogueiro, nunca sai da sua cabeceira.
Perfis - Uns se vão, outros continuam na ativa, mas alguns já ganharam um completo perfil no blog do jornalista Bruno Garschagen. Este tipo de postagem, onde são reunidos vários textos coletados pela internet ou da própria cabeça do autor, são o principal atrativo deste espaço virtual (www.brunogarschagen.com). Já passaram por este blog a vida literária de Paulo Francis, Bruno Tolentino - este último no dia da sua morte, e que repercutiu em outros importantes blogs, como o do colunista da Veja, Reinaldo Azevedo.
Os clássicos também não são esquecidos: P. G. Wodehouse e Mortimer Adler foram igualmente revistos e analisados. Garschagen começou no mundo dos blogs de forma despretensiosa até ser convidado para fazer parte dos Wunderblogs (um conjunto de blogs fechados) que conta com referências como o escritor e tradutor Alexandre Soares Silva. Alimentava o seu blog, que se intitula “Vertigens”, raramente, até que há um ano a história mudou. “Só no fim do ano passado comecei a ser tentado a criar um blog com uma identidade definida. Quem me levou a fazê-lo foi o jornalista Reinaldo Azevedo, primeiro com o blog independente, depois já no portal de Veja”, conta.
Bruno está de malas prontas para Portugal, onde vai iniciar um mestrado em Ciências Políticas na Universidade Católica Portuguesa. Mesmo assim, os posts continuam constantes e sempre recheados de literatura.Além, claro, de alguns excertos de seus livros preferidos.
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Blogs surgem como alternativa
Os blogs literários são vistos por muitos como alternaticas aos cadernos de cultura dos jornais. “Acho que alguns blogs podem ser uma alternativa - a princípio não de informação, mas de prazer de leitura, de estímulo, pelo calor do texto, pelo valor da opinião”, diz Bruno Garschagen.
Antonio Fernando Borges concorda com essa posição e acredita que a modernidade empurrou o artista para o terreno do entretenimento. “Hoje a reflexão mais profunda sobre literatura e arte migrou para o território livre dos blogs”, alfineta o escritor
Pedro Sette Câmara não foge à regra e acredita que os blogs são uma alternativa por causa da variedade, da qualidade e da extensão dos textos. “Os cadernos culturais publicam textos muitas vezes poucos profundos e sobre os mesmos autores de sempre”.
PS: Só uma correção: o nome do meu primeiro blogue é Vertigem, no singular.
4 commentsO mercado somos nós, não é Bovary?

Sobre o mesmo assunto, Leonardo Bernardes fez, na época, o seguinte comentário:
Bruno, você sugere que deixemos a cargo do mercado a plena determinação da pauta cultural? Eu afino com a posição de Celso Furtado, o déficit da produção cultural interna produz grande parte da defasagem que ampara a hegemonia das grandes potências. No Brasil isso é especialmente verdadeiro. Em Salvador, por exemplo, (tenho notícias também de Recife) é recente a forte penetração da cultura norte-americana, pois aqui sempre vigorou o domínio das culturas étnicas. Essas culturas cumpriam o papel de antídoto natural. O governo, porém, com o financiamento, cumpre a função artificial. Concordo plenamente com a crítica ao aparato e talvez, aos critérios de contemplação, mas não acho que ele seja dispensável, apesar de tudo. (O que eu acho é que o financiamento deveria privilegiar alguns setores da cultura nacional). Um certo protecionismo é mesmo, como você notou, comum entre os paises europeus, especialmente a França, que chega a determinar cotas de entrada de filmes estrangeiros.
Agora, é evidente que se você pensa que a balança que pesa a relação entre cultura nacional e internacional não nos diz nada de relevante, de fato estamos longe de ter constituído um terreno comum para o debate, pois aqui discordamos por completo.
Em todo caso, abraços
Quando penso no mercado me vem à cabeça meu pai que tem uma pequena empresa ou uma ex-vizinha da infância que fazia picolé para vender e sustentar a casa. Me vem à cabeça eu mesmo quando compro uma gravata. O problema é que quando a maioria das pessoas fala do mercado refere-se a banqueiros, mega-empresários etc, enfim, toda a turma vista como o grande satã. O mercado somos nós, não é Bovary?
Mas é claro que é o mercado, na maioria das vezes, que determina a pauta cultural. O que se faz na Brodway não é por amor à arte, tenho certeza, é porque há um público consumidor para aquele tipo de espetáculo. Em São Paulo tem feito sucesso musicais daquele seara. Se o consumidor quer, haverá produtores ou empresas dispostos a bancar o custo daquilo.
Mas o que o Leonardo queria saber era se eu achava justo que um diretor de uma empresa decidisse qual produção deveria ser contemplada com verbas. O “mercado” seria a tal empresa, que decidiria a pauta cultural de acordo com os interesses da empresa. Bom, a partir do momento que um produtor procura uma empresa para vender seu peixe, se valendo ou não de lei de incentivo cultural, sabe que pode levar um não na fuça. Qual o problema? O sujeito que vende picolé em Copacabana, tenho certeza, já ouviu mais “nãos” nesta vida do que qualquer produtor cultural. Pergunte ao vendedor de picolé se ele acha que deveria ser priorizado porque vende um produto essencial no calor dos diabos das praias cariocas?
Bom, o leitor se afina com o pensamento de Celso Furtado. Dizer o quê? Só tenho a lamentar. Uma palavra de incentivo? Talvez ainda haja cura. Como vou comentar tal coisa: “o déficit da produção cultural interna produz grande parte da defasagem que ampara a hegemonia das grandes potências”? Quer dizer que mesmo que a produção cultural interna seja uma grande miséria, mesmo assim, é preciso resistir? Grandes potências, em se tratando de Celso Furtado, são os Estados Unidos, não é mesmo? Eu, hein! Afasta de mim esse cálice!
O leitor diz mais, que “em Salvador, por exemplo, (tenho notícias também de Recife) é recente a forte penetração da cultura norte-americana, pois aqui sempre vigorou o domínio das culturas étnicas” e que essas “culturas cumpriam o papel de antídoto natural”. Pera lá! A penetração (ui!) não é recente. O problema é que antes ficava reduzida a guetos. Graças a Deus, a ditadura do axé vem sendo amainada desde a década de 1990. Não fosse isso, a cultura de Salvador estaria reduzida àqueles tambores chatérrimos e sons tribais de ritmo monocórdio. E, na verdade, foram as influências externas que passaram a cumprir o “papel de antídoto natural”.
Além de tudo, o leitor ainda acha que “o financiamento deveria privilegiar alguns setores da cultura nacional”. Faça-me o favor! Se há financiamento, que seja para todo mundo. Privilégio só é bom quando se conquista por meritocracia. Se a decisão ficar a cargo de um chefe de gabinete, estamos lascados. Bom, já é o que acontece, pois não?
Ah, sim, discordo por completo do leitor.
Em todo o caso, um abraço.
4 commentsMais lei de incentivo cultural, ou onde fui amarrar minha égua

Tenho me atido a alguns temas chatos, mas necessários. Em vez de escrever sobre Thomas Bernhard, lá vai eu falar de lei de incentivo cultural (Ato I: Garschagen faz cara de asco e torce a boca levemente para o lado direito, claro). Quando escrevi um post a respeito da atitude do compositor Zé Rodrix, que abandonou um espetáculo ao descobrir que era financiado com dinheiro de lei de incentivo cultural, recebi o seguinte comentário do sempre arguto Guilherme Quandt:
Salvo engano meu, o dinheiro da lei Rouanet é dinheiro que deixa de ser arrecadado pelo fisco, é renúncia fiscal. É verba que não chega a entrar nos cofres públicos, dinheiro da empresa mesma que investiu no projeto “cultural”; mas nós aqui o tratamos como se já fosse dinheiro público, pois ele TERIA IDO para o fisco se não fosse investido no projeto.
Se vemos a verba privada que DEIXA DE IR para o fisco como se fosse dinheiro público perdido, já estamos de fato pensando feito socialistas, não estamos? Como se fosse direito legítimo do Estado haver aquela quantia que ele pretendia extorquir da empresa. E na verdade o que leis como essa permitem é que o tributado se livre do intermediário inepto, a Receita, e gaste logo a verba extorquida (que, afinal, é dele) num projeto de sua escolha — como deveria acontecer desde sempre.
Fui estudar o assunto. Li as leis de incentivo e os conceitos jurídicos que envolvem as deduções do imposto, a doação desinteressada e o patrocínio, que é a forma mais usada, pois permite que a empresa apareça como financiadora. O fato é que Guilherme está certo e eu estava errado. Se eu reclamo sempre da carga tributária, é um contrasenso eu defender que o dinheiro de uma empresa escorchada pelo estado entregue esse dinheiro ao estado e não à parte da sociedade que fará melhor uso dele, ou não. Aliás, há mau uso dos dois lados e não é raro vermos produtores e cineastas acusados de não terminarem um filme, mas terminarem a compra do tão sonhado apartamento. Do lado de lá, do governo, sabemos que nunca antes na história deste país houve uma turma tão, digamos, gulosa.
Para explicar a parte chata, é o seguinte: há dois tipos de doadores, empresas e pessoas físicas. As empresas podem optar em direcionar uma parte do Imposto de Renda para projetos culturais na forma de doação desinteressada e patrocínio. Nas duas formas é possível deduzir integralmente as contribuições feitas na base de cálculo do imposto a ser pago. Mas há limites. No caso do patrocínio, a empresa tem direito a abater 30% do valor diretamente do imposto a ser pago. No caso da doação desinteressada, o percentual de abatimento sobe para 40%. Mas a dedução final não pode ultrapassar o limite de 4% do total do imposto devido pela empresa ou indivíduo.
Se for pessoa física, admite-se a dedução de 80% do valor da doação, ou o equivalente a 60% do patrocínio. Mas a lei estabelece o limite de 6% de dedução do total do imposto devido.
Já que o governo não vai nos dar a contrapartida mínima pelo que pagamos de impostos é o caso de defender o aumento da dedução do IR para tudo: escola, cursos, planos de saúde, previdência privada, água e esgoto, pedágio, cinema, teatro, dentaduras, perfumes, fraldas.
Uma coisa, mantenho: se algum dos produtos culturais for financiado em parte com nosso dinheirinho, deve oferecer desconto na mesma medida.
2 commentsComo era doce o meu petróleo…


Na Folha (assinante):
A dona da cultura
Eliane Costa gerencia as fartas receitas de patrocínio da Petrobras, que dão suporte às idéias do ministro Gilberto Gil
LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIONunca na história deste país a cultura esteve entregue a alguém tão conhecido quanto Gilberto Gil. Mas, em vários pontos do Brasil em que chega para dar palestras ou participar de eventos, Eliane Costa é chamada de “a verdadeira ministra da Cultura”.
Só em 2006 a gerente de patrocínios da Petrobras contou com R$ 288 milhões para apoiar projetos, sendo R$ 90 milhões para bancar iniciativas do Ministério da Cultura. No ano passado, o MinC teve dotação de R$ 661 milhões, valor que não dá para muito mais do que manter sua estrutura. Sem a Petrobras, Gil pouco faria.
É fato, há anos, que a Petrobras é grande financiadora da cultura nativa. A Petrobras é estatal. Lucra os tubos. Minha indagação, agora, nem é mais se é justo uma empresa pública financiar projetos privados, mas se é justo projetos privados financiados com dinheiro público cobrarem do espectador (de cinema, música, teatro) o mesmo que se cobraria se fosse integralmente feito com capital privado. É justo?
1 commentA insurgência que ascende
Se queres saber o que acontece de relevante na política de Portugal não há melhor lugar do que O Insurgente. André Azevedo Alves certeiro na seleção e comentários.
1 commentOs vizinhos de João Pereira Coutinho

Você já deve ter lido na Folha Online o sempre excelente João Pereira Coutinho. Chego atrasado, mas reproduzo sempre com alegre empolgação, rindo bastante com frases como essa: “O pai entra em cena, acaba com a discussão e, pela violência dos tapas, acaba com os filhos. São segundos de silêncio, segundos de suspense, quebrados finalmente pelo choro das crianças, que começa em crescendo, como nas aberturas de Wagner” (itálico meu). Ao texto:
1 commentO inferno são os outros
da Folha OnlineNão uso relógio. Nem sequer para despertar. Despesa inútil. Os meus vizinhos tratam do assunto por mim, todos os dias, nos sete dias da semana. Mudei de casa uns meses atrás e fiquei abismado com a pontualidade dos bichos. Comecei por tirar apontamentos. Interesse científico, não mais. Hoje, conheço a rotina deles, e a minha, que recito de memória como os Gregos Antigos recitavam as canções de Homero.
Durante a semana, tudo começa com o vizinho de cima que usa o banheiro às seis da manhã. A mulher usa às seis e quinze. Sei distinguir os gêneros pelo fluxo urológico: intermitente, o dele; contínuo, o dela. Problemas de próstata, aposto. Depois, a água do lavatório corre, ele provavelmente faz a barba. Não sei quem usa o secador. Pela expressão industrial do som, é ela. A julgar pela dimensão do penteado, que me assaltou certo dia no elevador, é definitivamente ela. Às sete, abrem a porta do apartamento. Usam as escadas (de manhã), porque é mais rápido. Ela fala muito. Ele não fala nada. The end?
Longe disso. É pelas sete que os vizinhos do lado continuam a sinfonia inacabada. Confesso que não são tão pontuais como os vizinhos de cima. Às vezes, com indisfarçável preguiça, acordam às sete e dez, sete e quinze; depois acordam as crianças, dois anjos que começam imediatamente a destruir a casa e as minhas últimas réstias de sanidade. Das sete e vinte às oito e pouco, os pais tomam banho; os filhos já tomaram na noite anterior e aproveitam a ausência dos pais para deitar fogo à casa.
Brinco. Ou quase. Os desenhos animados passam agora na TV com potência sonora que daria para alimentar um estádio. O prédio treme. Perante o excesso, a mãe grita com os filhos. Os filhos, num belo retrato da educação moderna, gritam com a mãe. Aposto que batem na mãe. E eu, como qualquer cinéfilo amador perante as torpezas do vilão, pergunto com unhas roídas: “E o pai? Onde está o pai, meu Deus?”
O pai entra em cena, acaba com a discussão e, pela violência dos tapas, acaba com os filhos. São segundos de silêncio, segundos de suspense, quebrados finalmente pelo choro das crianças, que começa em crescendo, como nas aberturas de Wagner. Fenômeno fascinante: elas nunca choram ao mesmo tempo. A orquestra está suficientemente afinada para que uma avance quando a outra se cansa. Às oito e meia, a família abandona o lar. Aplausos, aplausos.
Tenho duas horas de descanso. Até as dez e meia, altura em que o vizinho de baixo entende ser seu dever moral contribuir para a minha educação nas áreas do metal, trash, black metal, doom metal e manicômio metal. Em matéria de radioatividade, não há diferenças entre Lisboa e Chernobyl. Pelas onze, avançam os Sepultura. Pelas onze e dez, eu peço para ser sepultado. E começo a redigir o meu testamento para o caso de me encontrarem na banheira, o único sítio da casa onde posso dormir e até escrever sossegado. Como Vinicius de Moraes, sim, que seguramente tinha vizinhança igual.
Pena que a banheira nem sempre resulte: aos fins-de-semana, por exemplo, os meus vizinhos aproveitam as manhãs livres para fazerem o que Adão e Eva começaram depois do episódio da maçã. O meu banheiro, não perguntem por que, amplifica as intimidades.
Os de cima são silenciosos e rápidos. Em dez minutos, e como diria Glauber Rocha, é a terra a transar. Das onze às onze e dez, existe uma cama e existe o triste ranger da cama. Não trocam palavra. Ou trocam - mas eu não consigo ouvir. Pena. Quando a água chapinha no bidé, sabemos que a paixão também corre pelo cano. Até ao sábado seguinte.
Mas estranho são os vizinhos do lado. Com duas crianças, eles conseguem repetir a dose e a senhora leva o prêmio Meg Ryan da Semana. Com a diferença de que Meg Ryan fingia o orgasmo. Aqui, não, violão. É impossível, humanamente impossível, fingir uma coisa destas: gritos sincopados, como a sirene de uma ambulância, que termina com um vigoroso rugido selvático, na melhor tradição Metro-Goldwyn-Mayer.
Felizmente, o amor do vizinho de baixo pelo rock metálico já o deixou surdo há muito para os chamamentos de Cupido. Nenhum sexo por aquelas bandas. Exceto se o ladrar do cão, que se prolonga por 24 horas, for a cobertura perfeita para um verdadeiro Casanova dos infernos. Prometo investigar.
A dúvida é inevitável: chegou o momento de eu trocar de casa? Não creio. Não apenas porque o cenário seria provavelmente pior, ou igual. Mas porque existe em toda esta sinfonia um fundo familiar, e até teatral, que simplesmente me encanta. Teatral? Nem mais. Deitado na escuridão da cama e com o sono desfeito em farrapos, eu sou uma espécie de encenador por antecipação, que dá ordens mentais aos meus atores privados.
“Correr a água.”
Eles correm a água.
“Bater nas crianças.”
Eles batem nas crianças.
“Rugir como um leão.”
Rrrrrrrrrrrrrrr…
Além disso, seria duvidoso que eu encontrasse em qualquer outro bairro da cidade leitores desta “Folha” tão fiéis como os vizinhos de cima, de baixo e do lado.
Se Bill Clinton teve Monica, quem Hillary terá?

Ainda no assunto capa, a da The economist desta semana é boa porque tira um sarro dos Clinton. Reproduzo trecho da matéria de capa que pode ser lida aqui:
No commentsAmerican politics
The comeback kids
Oct 4th 2007
From The Economist print edition
The American presidency is Hillary Clinton’s to lose. But that doesn’t make her a shoo-in just yetIF GREAT writers have a special insight into the souls of their countrymen, Hillary Clinton ought to be pleased. Philip Roth, one of the grandest old men of American letters, said last year that if anyone could lose 50 states for the Democrats, she could. This week he said he is no longer sure.
Mr Roth is hardly alone, either in his previous hatred for the former first lady or in his grudging new acceptance of her. It is still more than three months until the votes are cast in the first primaries, and over a year until the election. With no incumbent president or vice-president running, this should be the most open race for 80 years—but it certainly doesn’t feel that way. Never mind the oddness, in a republic, of having Bushes and Clintons in charge for, possibly, 28 years on the trot: at the moment, the return of Hillary and Bill Clinton to the White House looks likelier than any alternative
É preciso que letra de música seja poesia?

Um tempo atrás, a respeito da discussão sobre se letra de música é poesia, recebi o seguinte comentário do Edson:
Infelizmente esta discussão vai continuar por muito tempo. E concordo com você, letra de música não é poesia. Mas não seria o caso de perguntar por que essa confusão acontece? A minha opinião é a de que a poesia brasileira anda tão em baixa, mas tão em baixa, ainda mais depois que Bruno Tolentino se foi, que neguinho anda chamando urubu de meu louro. Ou melhor, anda chamando até funkeiro de poeta.
A confusão acontece porque a maioria das pessoas acha que letra de música precisa ser poesia para ter valor. É como se letra de música só por ser letra de música não fosse suficiente. É como se dissessem: letra de música não é arte, mas sendo poesia, aí sim, é arte.
Antes de avançar, uma indagação que precede a discussão. Por que tanta gente se ofende ao ouvir ou ler que letra de música não é poesia? Porque a discussão deixa de ser classificatória e passa a ser valorativa. Numa conversa por e-mail semana passada, Pedro me disse o seguinte:
Para mim a questão é simplíssima e resolvidíssima: letra de música segue partitura, poesia não. Essa é uma questão de classificação, não de valor.
Essa diferença é um achado porque resolve a questão. Resolve de que forma, Garschagen? Ao ser feita seguindo a música (partitura), ou imaginando uma que ainda será feita, o letrista precisa seguir certo método completamente diferente da feitura de um poema. O fato de estar presa à partitura faz toda a diferença no resultado final. Repare que em várias músicas a melodia serve como complemento da letra, e vice-versa. Muitas vezes a letra não precisa ter um fecho, ou uma ligação coerente entre os versos. Há trechos soltos no ar que são, digamos, embalados pela melodia e nos deixamos levar pela beleza da construção do que exatamente pela letra. E estou aqui apontando diferenças. E você pode me perguntar: mas Garschagen, diante disso, você muda de idéia e acha possível letra de música ser poesia? Nananinanão! Uma poesia pode muito bem ser usada como letra de música, mas uma letra de música nunca se tornará uma poesia. Se ainda tem dúvida, coteje uma letra de música que você adora e que, até então, achava que era poesia. Agora pegue uma poesia que você adora. Leia, claro, uma de cada vez. Você perceberá instantaneamente a diferença. E não estou afirmando aqui que poesia é superior à letra de música. Não faço isso justamente por achar que não podem ser comparadas coisas diferentes. Pedro lembrou bem: uma letra de Cartola traz um prazer muito maior na leitura do que muitos poetas editados e celebrados. Mas não é o caso de alçar Cartola à categoria de poeta. É o caso, sim, de considerá-lo um excelente letrista e compositor (e o poeta ruim de mau poeta).
PS: Que a discussão avance.
5 commentsOs papos no Café

Lembra que prometi reproduzir hoje trechos do livro Conversas no café - uma seleção de entrevistas do Café Colombo, do pessoal de Pernambuco? Pois é. Selecionei aqui respostas das entrevistas de que mais gostei. Dá uma olhada:

Entrevista com Reinaldo Azevedo
À medida que o pensamento politicamente correto foi importante para o Brasil, à medida que o PT foi se criando, foi se formando e foi se infiltrando nas redações, então a isenção virou o biombo atrás do qual se esconde a manipulação política e a adesão descarada de boa parte dos jornalistas ao PT.
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Durante um certo tempo e ainda hoje, o Concretismo impõe uma leitura da poesia brasileira, fez algumas reputações absolutamente lamentáveis do ponto de vista do trabalho e do objetivo que tinham, ganhou a crítica dos jornais. E poetas que não pensavam segundo aquela cartilha eram banidos.
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Bruno Tolentino é um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, talvez o nosso maior poeta vivo e, no entanto… Aí são duas patrulhas que se somam, no caso dele. Tem a patrulha ideológica, porque o Bruno Tolentino não é um cara de esquerda e nunca foi; e tem a patrulha feita pelo Concretismo, porque o Bruno Tolentino se colocou na frente, na vanguarda do combate ao Concretismo já quando ele existia. Eu acho que ele é o grande continuador da obra de Mário Faustino no Brasil.
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Quando eu digo que (Guimarães Rosa) é de uma metafísica rasteira é porque eu não reconheço nenhum dos grandes conflitos que me interessam na literatura; seja o conflito do homem com a sua consciência; seja o conflito do homem com Deus; seja o conflito do homem com o seu destino, no sentido de que ele está vivendo um período histórico importante, que muitas vezes ele não se dá conta. São sempre essas circunstâncias que dão os grandes romances. Eu acho que o que Guimarães faz não me satisfaz nesse sentido. Eu acho tudo muito pouco e eu acho que ele acabou se impondo mais pelo texto “rocambolesco”, mais por uma escolha vocabular que causa espécie e que fez com que os exegetas e os intérpretes corressem atrás pra tentar entender o que diavos, afinal de contas, era aquilo do que propriamente uma filosofia.

Entrevista com Olavo de Carvalho
Eu acho uma coisa infame que qualquer sujeito que tire um diploma de bacharel em filosofia no Brasil se denomine filósofo. Quer dizer, você se torna filósofo pelo exercício da filosofia, por uma obra filosófica. O fato de você estudar, ter uma cultura filosófica, mesmo supondo que tenha, o que não é o caso na maioria das vezes, isso não os torna filósofos de maneira alguma.
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O Brasil chegou a um ponto em que o sujeito para ser filósofo no país tem que ser especialista em algum outro filósofo. Filósofo especialista? Isso só existe no Brasil. (…) Quer dizer, estão confundindo o que é o exercício da filosofia e o que é a simples cultura filosófica, a informação filosófica.
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A juventude, como conjunto, é sempre considerada a pior parcela de qualquer sociedade. Onde os movimentos mais assassinos do século recrutaram a maior parte da sua militância? Dos jovens. Porque velhinhos não saem por aí fazendo quebra-quebra, criancinha também não, então tem que ser adolescente, é o que sobra. (…) Quer dizer, o indivíduo, por falta de identidade pessoal, se junta a um partido, a uma patota, um grupo, uma gangue para se sentir igual aos outros, se sentir aprovado. É um pessoa muito inseguro, na verdade, e como compensação desta insegurança, tem que entrar nesses movimentos coletivos. Daí, torna-se cúmplice de toda espécie de crime.
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Eu não acredito que um moleque tenha condições de decidir o que é certo e o que é errado. A nossa sociedade é muito baseada na idéia de um mito de que a juventude tem uma sabedoria especial, que a geração anterior não tem. Quer dizer, o sujeito que nasceu depois parece ser mais inteligente. Eu não entendo o por quê. Se isso fosse certo, então o século 20 não teria sido essa desgraça que foi. O excesso de participação política da juventude, o excesso de atenção dada à juventude é uma das raízes do genocídio. Quem você acha que saía nas ruas de Berlim matando judeus? Os velhinhos?
PS: Há uma explicação do Olavo sobre o estudo que ele está desenvolvendo sobre paralaxe, algo interessantíssimo, que eu prefiro abordar separadamente. E ainda tentarei entrevistá-lo sobre o assunto. Aguarde que dou notícias.
PS2: Eu ia inserir trechos da entrevista de Eduardo Bueno, mas, ao reler, vi duas coisas que me desagradaram profundamente: elogios a Kenneth Maxwell e a Bob Dylan. Intolerável. Razão pela qual ficou de fora.
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