Produção cultural, medidas protecionistas, atribuição de valor

Avançando na discussão sobre medidas de proteção na área cultural, respondo ao leitor Leonardo Bernardes, que me mandou outro comentário, que intercalo com comentários:
“Quer dizer que mesmo que a produção cultural interna seja uma grande miséria, mesmo assim, é preciso resistir?”
Nem tudo na nossa cultura é miséria, como você parece sugerir. A idéia de tirar do mercado as rédeas da pauta cultural, pelo menos em alguns setores, tem como consequência apenas o estabelecimento explícito de critérios de valor a serem preservados (o mercado não se enfraquece com isso, tampouco sai do jogo). Implica no reconhecimento de um déficit, como eu disse desde o início. Se um segmento importante da economia está ameaçado pela presença estrangeira, é natural que se estabeleçam medidas de proteção. A minha pergunta foi quanto a possibilidade do mesmo na área de cultura. Como aliás acontece na França em relação ao cinema.
Eu não pareço sugerir nada. Fiz um exercício retórico ao perguntar: se a produção cultural interna fosse uma grande miséria, mesmo assim, seria melhor resistir? Independente de uma discussão sobre o mercado, não reconheço esse “estabelecimento explícito de critérios de valor a serem preservados”. Assim como não reconheço esse déficit que você cita desde a primeira mensagem. E se não reconheço esse déficit, e achei ter deixado claro isso no primeiro post que fiz, não há base para avançarmos nessa discussão. Não acho natural que sejam estabelecidas medidas protecionistas para nada, seja na esfera econômica ou cultural. Acho abjeto qualquer tipo de protecionismo. Trata-se de uma anomalia em qualquer esfera. A França tem um estado que tenta lançar seus tentáculos para todos os lados. Não considero a França um bom exemplo nesse sentido, como não acho que países desenvolvidos como Estados Unidos deva manter subsídios para o setor de algodão.
A expressão “hegemonia das grandes potências” não está carregada de valor, apenas reconhece o papel da cultura de outros paises num jogo determinado por variáveis econômicas. Por isso o emprego de termos tais como “império do mal”, segundo Lefebvre, não decorre das minhas palavras, apenas as distorce. (as referências a invasão da cultura americana não se referem ao jazz e ao blues, eu não imaginei que deveria explicitar algo tão patente)
Você pode até achar que essa expressão não está carregada de valor, mas está. E não é de hoje. Se você queria expressa apenas uma constatação deveria usar uma expressão que não tivesse sido historicamente usada com uma carga valorativa. Não houve distorção de suas palavras, mas tão-somente uma variante carregada de valor que sempre acompanhava a expressão que vocêerroneamente julgava desprovida de. Para quê citar jazz e blues? Você não deveria mesmo explicitar algo tão patente. Por qual razão tehta fazê-lo agora?
Obviamente, nada de novo importa do deslocamento da pauta do mercado internacional para o mercado nacional — razão pela qual sua hesitação é justa quando trata da grande miséria da produção cultural interna. A produção cultural interna é mercado. E o mercado sempre existirá. No entanto há cultura “interna” que não está no mercado, que “não é mercado”, e que deveríamos valorizar — para a qual o incentivo financeiro seria um estímulo. Esse é o ponto controverso do que eu disse.
Há um problema conceitual no debate entre mim e o leitor. Ele vê o mercado como algo fora da vida comum. Tomando como base os tempos atuais, vejo como algo que não pode ser visto de forma desvinculada às manifestações culturais. Essa cultura interna de que fala o leitor ela também faz parte do mercado, e de nada adianta a tentativa de tentar deslocá-la. O que ocorre é que algumas manifestações são vendáveis e outras não. E não estou dizendo que as vendáveis são melhores do que as não-vendáveis. Senão seria preciso referendar bobagens monumentais que vendem como peças da Gucci na Daslu.
Portanto não me distanciei de tudo que você expõe nesse post. O mercado determina grande parte das pautas culturais — e não poderia ser diferente. Minha pergunta é quanto ao déficit, a legitimidade desse conceito e sobre a possibilidade de incentivo financeiro como resposta ao reconhecimento desse déficit, em termos de validade e viabilidade. Isso, aliás, OBVIAMENTE exige meritocracia. Não sei em que lugar eu sugeri algo diverso, afinal, concordei com a crítica aos critérios de contemplação. Os pontos centrais, portanto, da minha posição restaram intocados.
Veja bem, Leonardo, não tome todas as minhas palavras como uma sugestão de algo diverso do que você disse. A maioria das coisas que eu escrevi no meu post são reflexões minhas lançadas ali a pretexto do seu comentário. Nada mais.
Pra mim, a propósito, esses pontos são tão “pra começo de conversa”, que destaquei ao final: “se você pensa que a balança que pesa a relação entre cultura nacional e internacional não nos diz nada de relevante, de fato estamos longe de ter constituído um terreno comum para o debate”. Independente, é claro, da leitura que você faz desse desequilibrio, se é que o reconhece.
Há um outro problema. Você citou o tal desequilíbrio, mas não o explicou. Para não fazer exercício de imaginação e depois correr o risco de tomar um puxão de orelhas por ter dito o que você não queria ter dito, espero uma explicação para só depois comentá-la, reconhecendo ou não o “desequilíbrio”.
Bem, quanto a cultura de Salvador, se você joga tudo na vala comum, de fato não há o que discutir.
Abraços
Reli o que escrevi e não vi nada parecido com jogar toda a cultura de Salvador na vala comum. Aliás, qual vala comum?
PS: Só estou avançando nessa discussão porque o leitor, desde o início, se propôs a debater. Discordamos sobre quase tudo, mas ele é articulado e educado. Então, vamos nessa.
3 Comments so far
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Primeiro, essa questão manifestação cultural com valor absoluto me parecesse uma bobagem..
Sempre haverá coisas que damos valor e o resto da população não, mas não vejo fundamento na afirmação de que o governo saberá, melhor do que o mercado, apontar o que é “boa cultura” e o que deixa de ser.. No fim, nenhum destes mecanismos é perfeito, o único bom juiz para isso é a história. E, a longo prazo, o mercado acerta muito mais que o governo.
Agora, na minha opinião, existe um efeito ainda mais perverso nessa “reserva de mercado” cultural.
O mercado é a ferramenta que permite ao público escolher e estimular o produto que ele deseja e, conforme os consumidores conseguem o que eles querem, eles se tornam mais exigentes.
Assim que os produtores forneceram carros, os consumidores passaram a exigir carros velozes, os produtores fornecem os carros velozes e os consumidores querem carros seguros.. A própria idéia do que é ou deixa de ser um bom carro mudou, se aperfeiçoou.
Quando o governo intervém, essa cadeia é quebrada, o fornecedor não tem estímulo para melhorar o produto e os consumidores se desinteressam por ele.
Isso é verdade para qualquer produto, inclusive para a cultura.
A nossa “reserva de mercado” faz com que os produtores não precisem buscar o interesse dos consumidores e isso exclui diversos potenciais consumidores de cultura do mercado.
A consciência dos consumidores não melhora e a qualidade dos produtos também não.
Cultura, mercado e valores…
…
Bruno,
Saiba que eu só iniciei o debate porque também antevi sua disposição para ele. Não digo isso por cortesia, até porque não enxergo essa disposição como mérito. É apreciável, decerto; apreciável porque rara.
Tantos parecem confiar no sucesso de uma linguagem solipsista, escrevem apenas si e para os seus, que se deve aprender a apreciar aqueles que se dispõem a escrever para os outros.
Repliquei no meu blog para não atulhar sua caixa de comentários com um texto demasiadamente extenso.
Carlo,
Você expôs algumas questões que gostaria muito de abordar, mas me falta tempo. Acredito, porém, que todos os “acertos” do mercado são meramente circunstanciais e não podemos contar com algo tão contingente. Assim que dispor de algum tempo, escreverei algo pautado por essas questões.
Abraços