O mercado somos nós, não é Bovary?

Sobre o mesmo assunto, Leonardo Bernardes fez, na época, o seguinte comentário:
Bruno, você sugere que deixemos a cargo do mercado a plena determinação da pauta cultural? Eu afino com a posição de Celso Furtado, o déficit da produção cultural interna produz grande parte da defasagem que ampara a hegemonia das grandes potências. No Brasil isso é especialmente verdadeiro. Em Salvador, por exemplo, (tenho notícias também de Recife) é recente a forte penetração da cultura norte-americana, pois aqui sempre vigorou o domínio das culturas étnicas. Essas culturas cumpriam o papel de antídoto natural. O governo, porém, com o financiamento, cumpre a função artificial. Concordo plenamente com a crítica ao aparato e talvez, aos critérios de contemplação, mas não acho que ele seja dispensável, apesar de tudo. (O que eu acho é que o financiamento deveria privilegiar alguns setores da cultura nacional). Um certo protecionismo é mesmo, como você notou, comum entre os paises europeus, especialmente a França, que chega a determinar cotas de entrada de filmes estrangeiros.
Agora, é evidente que se você pensa que a balança que pesa a relação entre cultura nacional e internacional não nos diz nada de relevante, de fato estamos longe de ter constituído um terreno comum para o debate, pois aqui discordamos por completo.
Em todo caso, abraços
Quando penso no mercado me vem à cabeça meu pai que tem uma pequena empresa ou uma ex-vizinha da infância que fazia picolé para vender e sustentar a casa. Me vem à cabeça eu mesmo quando compro uma gravata. O problema é que quando a maioria das pessoas fala do mercado refere-se a banqueiros, mega-empresários etc, enfim, toda a turma vista como o grande satã. O mercado somos nós, não é Bovary?
Mas é claro que é o mercado, na maioria das vezes, que determina a pauta cultural. O que se faz na Brodway não é por amor à arte, tenho certeza, é porque há um público consumidor para aquele tipo de espetáculo. Em São Paulo tem feito sucesso musicais daquele seara. Se o consumidor quer, haverá produtores ou empresas dispostos a bancar o custo daquilo.
Mas o que o Leonardo queria saber era se eu achava justo que um diretor de uma empresa decidisse qual produção deveria ser contemplada com verbas. O “mercado” seria a tal empresa, que decidiria a pauta cultural de acordo com os interesses da empresa. Bom, a partir do momento que um produtor procura uma empresa para vender seu peixe, se valendo ou não de lei de incentivo cultural, sabe que pode levar um não na fuça. Qual o problema? O sujeito que vende picolé em Copacabana, tenho certeza, já ouviu mais “nãos” nesta vida do que qualquer produtor cultural. Pergunte ao vendedor de picolé se ele acha que deveria ser priorizado porque vende um produto essencial no calor dos diabos das praias cariocas?
Bom, o leitor se afina com o pensamento de Celso Furtado. Dizer o quê? Só tenho a lamentar. Uma palavra de incentivo? Talvez ainda haja cura. Como vou comentar tal coisa: “o déficit da produção cultural interna produz grande parte da defasagem que ampara a hegemonia das grandes potências”? Quer dizer que mesmo que a produção cultural interna seja uma grande miséria, mesmo assim, é preciso resistir? Grandes potências, em se tratando de Celso Furtado, são os Estados Unidos, não é mesmo? Eu, hein! Afasta de mim esse cálice!
O leitor diz mais, que “em Salvador, por exemplo, (tenho notícias também de Recife) é recente a forte penetração da cultura norte-americana, pois aqui sempre vigorou o domínio das culturas étnicas” e que essas “culturas cumpriam o papel de antídoto natural”. Pera lá! A penetração (ui!) não é recente. O problema é que antes ficava reduzida a guetos. Graças a Deus, a ditadura do axé vem sendo amainada desde a década de 1990. Não fosse isso, a cultura de Salvador estaria reduzida àqueles tambores chatérrimos e sons tribais de ritmo monocórdio. E, na verdade, foram as influências externas que passaram a cumprir o “papel de antídoto natural”.
Além de tudo, o leitor ainda acha que “o financiamento deveria privilegiar alguns setores da cultura nacional”. Faça-me o favor! Se há financiamento, que seja para todo mundo. Privilégio só é bom quando se conquista por meritocracia. Se a decisão ficar a cargo de um chefe de gabinete, estamos lascados. Bom, já é o que acontece, pois não?
Ah, sim, discordo por completo do leitor.
Em todo o caso, um abraço.
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Que besteira. A cultura americana não penetra pq é “o império do mal”. Ela faz coisas que as pessoas gostam, simples assim. Os negros americanos criaram o Jazz e o Blues. O que é que Salvador nos deu? Carlinhos Brown? E depois a culpa é da cultura americana?
Só discordo de ti, Bruno, num aspecto, a cultura da Bahia é reduzida a sons tribais de ritmo monocórdio.
Bruno, sobre Salvador, não acho que haja uma “ditadura do axé”, isso é tão-somente frase de efeito. No fundo, e na superfície também, a axé music dominou pelo mercado. Ademais, ela é fruto da cultura norte-americana, é música pop, pasteurizada, assumidamente formulada para o entretenimento. E eles conseguem entreter de fato. Não existe domínio de supostas “culturas étnicas”. O que seria isso? Tudo o que possa ainda estar arraigado a uma essência africana – o que não acho possível – permanece periférico. A tal música afro só emerge na Bahia retrabalhada pelo mercado musical soteropolitano. Não tenhamos medo do mercado ou preconceito por ele – sei que você não tem -, privilegiemos a competência de quem busca profissionalismo. Infelizmente, a competência musical não coincide necessariamente com a competência empresarial. Não será com bolsa-chorinho que se criar um bom mercado musical ou cultural.
Abraço.
Rodrigo
“Quer dizer que mesmo que a produção cultural interna seja uma grande miséria, mesmo assim, é preciso resistir?”
Nem tudo na nossa cultura é miséria, como você parece sugerir. A idéia de tirar do mercado as rédeas da pauta cultural, pelo menos em alguns setores, tem como consequência apenas o estabelecimento explícito de critérios de valor a serem preservados (o mercado não se enfraquece com isso, tampouco sai do jogo). Implica no reconhecimento de um déficit, como eu disse desde o início. Se um segmento importante da economia está ameaçado pela presença estrangeira, é natural que se estabeleçam medidas de proteção. A minha pergunta foi quanto a possibilidade do mesmo na área de cultura. Como aliás acontece na França em relação ao cinema.
A expressão “hegemonia das grandes potências” não está carregada de valor, apenas reconhece o papel da cultura de outros paises num jogo determinado por variáveis econômicas. Por isso o emprego de termos tais como “império do mal”, segundo Lefebvre, não decorre das minhas palavras, apenas as distorce. (as referências a invasão da cultura americana não se referem ao jazz e ao blues, eu não imaginei que deveria explicitar algo tão patente)
Obviamente, nada de novo importa do deslocamento da pauta do mercado internacional para o mercado nacional — razão pela qual sua hesitação é justa quando trata da grande miséria da produção cultural interna. A produção cultural interna é mercado. E o mercado sempre existirá. No entanto há cultura “interna” que não está no mercado, que “não é mercado”, e que deveríamos valorizar — para a qual o incentivo financeiro seria um estímulo. Esse é o ponto controverso do que eu disse.
Portanto não me distanciei de tudo que você expõe nesse post. O mercado determina grande parte das pautas culturais — e não poderia ser diferente. Minha pergunta é quanto ao déficit, a legitimidade desse conceito e sobre a possibilidade de incentivo financeiro como resposta ao reconhecimento desse déficit, em termos de validade e viabilidade. Isso, aliás, OBVIAMENTE exige meritocracia. Não sei em que lugar eu sugeri algo diverso, afinal, concordei com a crítica aos critérios de contemplação. Os pontos centrais, portanto, da minha posição restaram intocados.
Pra mim, a propósito, esses pontos são tão “pra começo de conversa”, que destaquei ao final: “se você pensa que a balança que pesa a relação entre cultura nacional e internacional não nos diz nada de relevante, de fato estamos longe de ter constituído um terreno comum para o debate”. Independente, é claro, da leitura que você faz desse desequilibrio, se é que o reconhece.
Bem, quanto a cultura de Salvador, se você joga tudo na vala comum, de fato não há o que discutir.
Abraços
[…] a roda Outubro 12th, 2007 Discussão interessante sobre política cultural aqui e a continuação aqui. Mas nenhuma, nenhuma míserazinha citação […]