É preciso que letra de música seja poesia?

Um tempo atrás, a respeito da discussão sobre se letra de música é poesia, recebi o seguinte comentário do Edson:

Infelizmente esta discussão vai continuar por muito tempo. E concordo com você, letra de música não é poesia. Mas não seria o caso de perguntar por que essa confusão acontece? A minha opinião é a de que a poesia brasileira anda tão em baixa, mas tão em baixa, ainda mais depois que Bruno Tolentino se foi, que neguinho anda chamando urubu de meu louro. Ou melhor, anda chamando até funkeiro de poeta.

A confusão acontece porque a maioria das pessoas acha que letra de música precisa ser poesia para ter valor. É como se letra de música só por ser letra de música não fosse suficiente. É como se dissessem: letra de música não é arte, mas sendo poesia, aí sim, é arte.

Antes de avançar, uma indagação que precede a discussão. Por que tanta gente se ofende ao ouvir ou ler que letra de música não é poesia? Porque a discussão deixa de ser classificatória e passa a ser valorativa. Numa conversa por e-mail semana passada, Pedro me disse o seguinte:

Para mim a questão é simplíssima e resolvidíssima: letra de música segue partitura, poesia não. Essa é uma questão de classificação, não de valor.

Essa diferença é um achado porque resolve a questão. Resolve de que forma, Garschagen? Ao ser feita seguindo a música (partitura), ou imaginando uma que ainda será feita, o letrista precisa seguir certo método completamente diferente da feitura de um poema. O fato de estar presa à partitura faz toda a diferença no resultado final. Repare que em várias músicas a melodia serve como complemento da letra, e vice-versa. Muitas vezes a letra não precisa ter um fecho, ou uma ligação coerente entre os versos. Há trechos soltos no ar que são, digamos, embalados pela melodia e nos deixamos levar pela beleza da construção do que exatamente pela letra. E estou aqui apontando diferenças. E você pode me perguntar: mas Garschagen, diante disso, você muda de idéia e acha possível letra de música ser poesia? Nananinanão! Uma poesia pode muito bem ser usada como letra de música, mas uma letra de música nunca se tornará uma poesia. Se ainda tem dúvida, coteje uma letra de música que você adora e que, até então, achava que era poesia. Agora pegue uma poesia que você adora. Leia, claro, uma de cada vez. Você perceberá instantaneamente a diferença. E não estou afirmando aqui que poesia é superior à letra de música. Não faço isso justamente por achar que não podem ser comparadas coisas diferentes. Pedro lembrou bem: uma letra de Cartola traz um prazer muito maior na leitura do que muitos poetas editados e celebrados. Mas não é o caso de alçar Cartola à categoria de poeta. É o caso, sim, de considerá-lo um excelente letrista e compositor (e o poeta ruim de mau poeta).

PS: Que a discussão avance.

5 Comments so far

  1. Guilherme Roesler Outubro 5th, 2007 9:33 am

    Quando eu leio Coleridge não vejo muita diferença entre ele e o mano Veloso.

    Acho que Milton, que não é o Nascimento, influenciou algumas musicas do Tom Zé. Só não vê que não quer.

  2. Murilo Outubro 5th, 2007 11:34 am

    “E não estou afirmando aqui que poesia é superior à letra de música.”

    Ah, mas eu sou chato e faço isso por você. Do início do seu último parágrafo, tem-se:

    música = letra + partitura (1)

    Como demonstram fartamente L.V.Camões e W.Shakespeare:

    poesia = arte (2)

    Mas sabe-se que música também é arte:

    música = arte (3)

    De (2) e (3) depreende-se que:

    música = poesia (4) [aqui está o “pulo do gato”]

    Então, de (4) e (1) tem-se:

    poesia = letra + partitura (5)

    Reescrevendo (5):

    letra = poesia - partitura (6)

    Como demonstram fartamente S.V.Rachmaninoff e A.L.Dvorak,

    partitura > 0 (7)

    Logo:

    LETRA LETRA

    Quod erat demonstrandum

    Inté,

    Murilo

  3. Murilo Outubro 5th, 2007 11:38 am

    “E não estou afirmando aqui que poesia é superior à letra de música.”
    Ah, mas eu sou chato e faço isso por você. Do início do seu último parágrafo, tem-se:

    música = letra + partitura (1)
    Como demonstram fartamente L.V.Camões e W.Shakespeare:
    poesia = arte (2)
    Mas sabe-se que música também é arte:
    música = arte (3)
    De (2) e (3) depreende-se que:
    música = poesia (4) [aqui está o “pulo do gato”]
    Então, de (4) e (1) tem-se:
    poesia = letra + partitura (5)
    Reescrevendo (5):
    letra = poesia - partitura (6)
    Como demonstram fartamente S.V.Rachmaninoff e A.L.Dvorak,
    partitura > 0 (7)
    Logo:
    Letra Letra
    Quod erat demonstrandum

    Inté,

    Murilo

  4. Guilherme Q. Outubro 9th, 2007 1:39 pm

    Ou, para dizer de outro modo o que o Murilo disse: a letra é só uma parte da canção, logo não se compara à poesia, que basta sem partitura. De fato; e visto assim parece injusto tentar compará-las, uma arte inteira à metade da outra.

  5. Solange Maio 28th, 2008 1:58 pm

    Sou professora de português e achei interessante essa discussão, mas para ajudar a entender por que essa paridade entre música e poesia é só recorrer a história.
    A música e a poesia sempre andaram juntos, por exemplo, a poesia lírica nada mais é que uma poesia acompanhada de um instrumento musical (lira),talvez por isso tanta proximidade, mas concordo que hoje em dia as duas se distanciaram, a tecnoloia, os tipos de linguagens, etc
    a tornaram diferentes, mas não podemos negar que ainda elas tem alguma coisas a ver com a outra…

    Solange

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