Archive for Outubro, 2007

Garschagen atravessa o Atlântico

Finalmente, embarco esta semana para Portugal. Para quem ainda não sabe, vou fazer mestrado em ciência política na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Vida nova no velho continente. Assim que as coisas estiverem ajeitadas por lá, volto a postar. Já estou com saudades de vocês, caros leitoras e leitores. Abraços a todos e até breve.

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Copa de Literatura Brasileira: quem ganhou?

Minha resenha na Copa de Literatura Brasileira foi publicada hoje. Quer saber quem ganhou? Se não for nenhum incômodo, por favor, dê uma passada lá. Reproduzo, aqui, apenas um trecho:

Oitavas de final - jogo 8

Os vendilhões do Templo, de Moacyr Scliar x Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves

Jurado: Bruno Garschagen

Definir literatura como uma variedade da arte, a arte literária, acepção usada por José Veríssimo, esclarece o tom da crítica. Se literatura é arte o padrão de julgamento é o mais alto; a cobrança, portanto, é muito maior. Mas a literatura não pode ser encerrada simplesmente no julgamento frio comparativo com os cânones. A emoção está para a literatura como a melodia para a música. E na relação da emoção com a palavra que a diz, estou com o escritor e ensaísta português Vergílio Ferreira (1916-1997), para quem o seu movimento é inverso ao que acontece com a música ou a pintura. “A emoção de um quadro resolve-se numa palavra terminal. Mas a literatura parte dessa palavra para se chegar à emoção. Assim, pois, a ‘idéia’ é o seu elemento nuclear, ainda que uma associação imprevisível de palavras a disfarce.”

Toda essa peroração para falar de dois livros: Os vendilhões do Templo, de Moacyr Scliar, e Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Ambos têm background histórico e não são bem sucedidos ao tratar a passagem do tempo. Scliar faz uma aproximação malsucedida com o presente ao tentar estabelecer uma crítica ao capitalismo na figura caricatural do vendilhão do Templo, o personagem principal de seu romance, que, não sem propósito, não tem nome. No caso de Ana Maria, há um problema técnico grave: sua personagem-narradora, Kehinde, se mostra a mesma tanto criança quando velha. A passagem do tempo só é percebida pelas datas, não pela maturidade do pensamento.

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Copa de Literatura Brasileira: oitavas de final quase no fim

A Copa de Literatura Brasileira avança pela oitavas de final. Até agora, os resultados são esses:

Oitavas de final

Jogo 1
Mãos de cavalo x Por que sou gorda, mamãe?
Jurada: Renata Miloni

Vencedor: Por que sou gorda, mamãe?, de Cíntia Moscovich

Jogo 2
Memorial de Buenos Aires x O adiantado da hora
Jurado: Jefferson Maleski

Vencedor: Memorial de Buenos Aires, de Antonio Fernando Borges

Jogo 3
O segundo tempo x Música perdida
Jurada: Olivia Maia

Vencedor: Música perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Jogo 4
As sementes de Flowerville x Corpo estranho
Jurado: Doutor Plausível

Vencedor: As sementes de Flowerville, de Sérgio Rodrigues

Jogo 5
O paraíso é bem bacana x O que contei a Zveiter sobre sexo
Jurado: Antonio Marcos Pereira

Vencedor: O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna

Jogo 6
Bóris e Dóris x Pelo fundo da agulha
Jurado: Eduardo Carvalho

Vencedor: Bóris e Dóris, de Luiz Villela

Jogo 7
O movimento pendular x Leda
Jurado: André Gazola

Vencedor: Leda, de Roberto Pompeu de Toledo

Só falta um jogo para decidir as quartas de final: Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, enfrenta Os vendilhões do templo, de Moacyr Scliar. Este que vos escreveu sobre ambos e decidiu qual passaria para a próxima fase. Quer saber qual? Segunda-feira estará disponível no site da Copa.

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Algum ente pode ditar a pauta cultural?

Comentário muito bom enviado por Carlo Rocha:

Primeiro, essa questão manifestação cultural com valor absoluto me parecesse uma bobagem..

Sempre haverá coisas que damos valor e o resto da população não, mas não vejo fundamento na afirmação de que o governo saberá, melhor do que o mercado, apontar o que é “boa cultura” e o que deixa de ser.. No fim, nenhum destes mecanismos é perfeito, o único bom juiz para isso é a história. E, a longo prazo, o mercado acerta muito mais que o governo.

Agora, na minha opinião, existe um efeito ainda mais perverso nessa “reserva de mercado” cultural.

O mercado é a ferramenta que permite ao público escolher e estimular o produto que ele deseja e, conforme os consumidores conseguem o que eles querem, eles se tornam mais exigentes.

Assim que os produtores forneceram carros, os consumidores passaram a exigir carros velozes, os produtores fornecem os carros velozes e os consumidores querem carros seguros.. A própria idéia do que é ou deixa de ser um bom carro mudou, se aperfeiçoou.

Quando o governo intervém, essa cadeia é quebrada, o fornecedor não tem estímulo para melhorar o produto e os consumidores se desinteressam por ele.

Isso é verdade para qualquer produto, inclusive para a cultura.

A nossa “reserva de mercado” faz com que os produtores não precisem buscar o interesse dos consumidores e isso exclui diversos potenciais consumidores de cultura do mercado.

A consciência dos consumidores não melhora e a qualidade dos produtos também não.

O que acho fundamental nesse processo é que os indivíduos conheçam as artes e, assim, possam escolher o que ler, ouvir, assistir. A grande desgraça é quando o sujeito não tem opção de escolha. Já vi gente defender que cabe ao governo oferecer essas opções, o mesmo governo que não consegue sequer administrar bem as próprias finanças. É esse ente incompetente que muitas pessoas têm certeza que pode, além de construir estradas ruins, ditar a pauta cultural de um país. Deus seja louvado…

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Produção cultural, medidas protecionistas, atribuição de valor

Avançando na discussão sobre medidas de proteção na área cultural, respondo ao leitor Leonardo Bernardes, que me mandou outro comentário, que intercalo com comentários:

“Quer dizer que mesmo que a produção cultural interna seja uma grande miséria, mesmo assim, é preciso resistir?”
Nem tudo na nossa cultura é miséria, como você parece sugerir. A idéia de tirar do mercado as rédeas da pauta cultural, pelo menos em alguns setores, tem como consequência apenas o estabelecimento explícito de critérios de valor a serem preservados (o mercado não se enfraquece com isso, tampouco sai do jogo). Implica no reconhecimento de um déficit, como eu disse desde o início. Se um segmento importante da economia está ameaçado pela presença estrangeira, é natural que se estabeleçam medidas de proteção. A minha pergunta foi quanto a possibilidade do mesmo na área de cultura. Como aliás acontece na França em relação ao cinema.

Eu não pareço sugerir nada. Fiz um exercício retórico ao perguntar: se a produção cultural interna fosse uma grande miséria, mesmo assim, seria melhor resistir? Independente de uma discussão sobre o mercado, não reconheço esse “estabelecimento explícito de critérios de valor a serem preservados”. Assim como não reconheço esse déficit que você cita desde a primeira mensagem. E se não reconheço esse déficit, e achei ter deixado claro isso no primeiro post que fiz, não há base para avançarmos nessa discussão. Não acho natural que sejam estabelecidas medidas protecionistas para nada, seja na esfera econômica ou cultural. Acho abjeto qualquer tipo de protecionismo. Trata-se de uma anomalia em qualquer esfera. A França tem um estado que tenta lançar seus tentáculos para todos os lados. Não considero a França um bom exemplo nesse sentido, como não acho que países desenvolvidos como Estados Unidos deva manter subsídios para o setor de algodão.

A expressão “hegemonia das grandes potências” não está carregada de valor, apenas reconhece o papel da cultura de outros paises num jogo determinado por variáveis econômicas. Por isso o emprego de termos tais como “império do mal”, segundo Lefebvre, não decorre das minhas palavras, apenas as distorce. (as referências a invasão da cultura americana não se referem ao jazz e ao blues, eu não imaginei que deveria explicitar algo tão patente)

Você pode até achar que essa expressão não está carregada de valor, mas está. E não é de hoje. Se você queria expressa apenas uma constatação deveria usar uma expressão que não tivesse sido historicamente usada com uma carga valorativa. Não houve distorção de suas palavras, mas tão-somente uma variante carregada de valor que sempre acompanhava a expressão que vocêerroneamente julgava desprovida de. Para quê citar jazz e blues? Você não deveria mesmo explicitar algo tão patente. Por qual razão tehta fazê-lo agora?

Obviamente, nada de novo importa do deslocamento da pauta do mercado internacional para o mercado nacional — razão pela qual sua hesitação é justa quando trata da grande miséria da produção cultural interna. A produção cultural interna é mercado. E o mercado sempre existirá. No entanto há cultura “interna” que não está no mercado, que “não é mercado”, e que deveríamos valorizar — para a qual o incentivo financeiro seria um estímulo. Esse é o ponto controverso do que eu disse.

Há um problema conceitual no debate entre mim e o leitor. Ele vê o mercado como algo fora da vida comum. Tomando como base os tempos atuais, vejo como algo que não pode ser visto de forma desvinculada às manifestações culturais. Essa cultura interna de que fala o leitor ela também faz parte do mercado, e de nada adianta a tentativa de tentar deslocá-la. O que ocorre é que algumas manifestações são vendáveis e outras não. E não estou dizendo que as vendáveis são melhores do que as não-vendáveis. Senão seria preciso referendar bobagens monumentais que vendem como peças da Gucci na Daslu.

Portanto não me distanciei de tudo que você expõe nesse post. O mercado determina grande parte das pautas culturais — e não poderia ser diferente. Minha pergunta é quanto ao déficit, a legitimidade desse conceito e sobre a possibilidade de incentivo financeiro como resposta ao reconhecimento desse déficit, em termos de validade e viabilidade. Isso, aliás, OBVIAMENTE exige meritocracia. Não sei em que lugar eu sugeri algo diverso, afinal, concordei com a crítica aos critérios de contemplação. Os pontos centrais, portanto, da minha posição restaram intocados.

Veja bem, Leonardo, não tome todas as minhas palavras como uma sugestão de algo diverso do que você disse. A maioria das coisas que eu escrevi no meu post são reflexões minhas lançadas ali a pretexto do seu comentário. Nada mais.

Pra mim, a propósito, esses pontos são tão “pra começo de conversa”, que destaquei ao final: “se você pensa que a balança que pesa a relação entre cultura nacional e internacional não nos diz nada de relevante, de fato estamos longe de ter constituído um terreno comum para o debate”. Independente, é claro, da leitura que você faz desse desequilibrio, se é que o reconhece.

Há um outro problema. Você citou o tal desequilíbrio, mas não o explicou. Para não fazer exercício de imaginação e depois correr o risco de tomar um puxão de orelhas por ter dito o que você não queria ter dito, espero uma explicação para só depois comentá-la, reconhecendo ou não o “desequilíbrio”.

Bem, quanto a cultura de Salvador, se você joga tudo na vala comum, de fato não há o que discutir.

Abraços

Reli o que escrevi e não vi nada parecido com jogar toda a cultura de Salvador na vala comum. Aliás, qual vala comum?

PS: Só estou avançando nessa discussão porque o leitor, desde o início, se propôs a debater. Discordamos sobre quase tudo, mas ele é articulado e educado. Então, vamos nessa.

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Mais uma pedrada de Diogo Mainardi

Você já deve ter lido em algum lugar que Diogo Mainardi está lançando mais uma coletânea de artigos feitos para a Veja. O livro foi batizado de Lula é minha anta. Nada mais aproriado. Desta vez, só com textos a respeito dos escândalos do governo de Lulábia. Estará nas livrarias, segundo informa a editora Record, no sábado, dia 13. Terá 250 páginas e preço sugerido de R$ 35. Antecipo aqui a orelha do livro, escrita por Diogo:

Lula é meu. Eu vi primeiro. Agora todo mundo quer tirar uma lasca dele. Até os jornalistas que sempre o apoiaram. Chamam-no de ignorante. Chamam-no de autoritário. Como assim? Lula tem dono. Só eu posso chamá-lo de ignorante e autoritário. O resto é roubo. Roubaram Lula de mim.

Falei tanto de Lula nos últimos anos que quase me sinto seu amigo. Tão amigo quanto Roberto Teixeira, acusado de favorecer uma empresa que fraudava as prefeituras petistas. Tão amigo quanto Mauro Dutra, acusado de desviar verbas do programa Primeiro Emprego. Tão amigo quanto Francisco Baltazar, acusado de negociar com o doleiro Toninho da Barcelona. Tão amigo quanto Paulo Okamoto, acusado de montar o esquema de arrecadação paralela do PT. Duvido que todas essas denúncias sejam verdadeiras. José Dirceu garantiu que os petistas não roubam. Ou melhor, ele garantiu que os petistas não “róbam”, roubando, inadvertidamente, a língua portuguesa.

Quem melhor definiu Lula foi o próprio Lula. Ele disse: “Não fui eleito presidente por méritos pessoais ou como resultado da minha inteligência”. Eu, que sempre falei mal dele, fui obrigado a aplaudir. Ele realmente não foi eleito por méritos pessoais ou como resultado de sua inteligência. Há quem me acuse de ter motivos pessoais para amolar Lula. Bobagem. Tenho tanto interesse por Lula quanto pelo zelador do meu prédio. O motivo de minha implicância é público. Acho que os brasileiros, por falta de experiência democrática, atribuem uma importância exagerada ao presidente da República. Um presidente é só um burocrata medíocre que a gente contrata por quatro anos para desempenhar uma tarefa que nenhuma pessoa minimamente sensata estaria disposta a desempenhar. Ele não é nosso chefe: nós é que somos chefes dele.

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É feio mas é limpinho

Um leitor me pede para dar um jeito nesse cinza clarinho dos textos que reproduzo. Pois é. Também acho feio e problemático esse estilo do b-quote inserido no template do Wordpress. Não sei mudar. Se alguém souber e, caridosamente puder me ajudar, agradeço.

PS: A gentil Raquel Sallaberry me deu as dicas e já alterei o negócio. Agora está bem melhor. Obrigadíssimo, Raquel!

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Brincadeira com livros? Existe, mas fiquei triste

Fábio Danesi Rossi, escritor de primeira a quem devo uma visita e o uísque, me convida para “uma brincadeira com livros”. Achei que a coisa envolvia strippers, malte escocês e alguns estupefacientes dentro de uma biblioteca, mas daí lembrei que Fábio é um moço muito bem casado e eu também sou comprometido, além do quê não consumo estupefacientes (mas gosto muito dessa palavra, razão pela qual você vai vê-la aqui com certa constância). Mas uísque eu consumo. E bem. Mas aí vi que a coisa também não envolvia uísque e, confesso, fui tomado por uma tristeza desoladora. O fato é que a tal “brincadeira com livros” resume-se a cometer seis ações. E lá vou eu:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);

GARSCHAGEN: O livro é Robert Parker - O imperador do vinho. Livro com excelente profundidade e madureza; quase deleitoso, suculento no meio-palato e com finos taninos no final.

2ª) Abra-o na página 161;

GARSCHAGEN: Abri.

3ª) Procurar a 5ª frase completa;

GARSCHAGEN: Deixa ver… Hmmm. Peraê! Ah, bom, é essa: “O negócio de vinhos finos nos Estados Unidos estava se tornando rapidamente uma indústria de relações públicas e de alavancagem jornalística, mas muitos na França, bem como no resto da Europa, ainda não tinham entendido muito bem como era feito esse jogo nos Estados Unidos”.

4ª) Postar essa frase em seu blog;

GARSCHAGEN: Já postei. Olha aí em cima, ó.

5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;

GARSCHAGEN: respeitei ambas as proibições. O fato é que tenho usado meu laptop do escritório do meu pai em nossa casa. E graças ao bom Deus o livro mais perto de mim era essa biorafia do Parker - que dei a meu pai no ano passado - e não, como vejo aqui, No calor da paixão, de Harold Robbins. Um palmo me salvou.

6ª) Repassar para outros 5 blogs.

Ah, bom, lá vai: Antonio Fernando Borges, Pedro Sette Câmara, João Filho, Matias Ayres e Eduardo Carvalho.

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O diário, as cortes e Paulo Francis

Alexandre Soares Silva fazendo um imenso favor a todos nós que gostamos de Paulo Francis. Está colocando em seu blogue as colunas Diário da Corte que guardou ao longo dos anos. Numa entrevista que fiz a respeito do Francis para Primeira Leitura, disse-me Ivan Lessa que o homem só ia ficar pela temperatura do texto, sendo lembrado apenas aqui e ali. Digo eu: não só por isso. Vai ficar pela exigência highbrow, pela crítica honesta, pela guinada de trotskista à liberal, pelas opiniões (mesmo que muitas delas furadas).

Gozado. Os dois Cabeça, um tanto quanto desvairados, não se sustentam enquanto romances, mas são ótimos se você pegar páginas ou trechos para reler. Parecem excertos de suas colunas para jornal. Todas as coletâneas de textos do Francis são muito boas, como o são sua semi-biografia O afeto que se encerra e suas memórias do regime militar em Trinta anos esta noite.

E lembro algo curioso: minha monografia de fim de curso na pós-graduação foi sobre Francis. Levava o pomposo título de “Paulo Francis contra os vendilhões do templo: a defesa da alta cultura”. Ehehehe!

Para quem chegou a este blogue bem depois de sua inauguração, reproduzo aí embaixo o texto que publiquei aqui sobre o Francis no dia 11 de junho, mas que foi publicado na finada revista Primeira Leitura (da versão original, está levemente alterado e ampliado). Espero que goste:

Crítico e debochado - homenagem tardia aos 10 anos de morte do Francis

É possível imaginar um blog recomendável sem liberdade, agressividade, sarcasmo, ironia, destemor, frivolidades? No, I presume. Na década de 80 do século passado, internet, no Brasil, era Isaac Asimov, ficção científica (Asimov, claro, nunca falou sobre internet). Blog é coisa do início deste século. Mas, que cousa, já tínhamos em terras de Vera Cruz o jornalista Paulo Francis, cuja morte, lá se foram 10 anos em fevereiro passado (a homenagem é tardia, mas este blog é devedor e não poderia deixar de falar sobre Francis em sua inauguração). Morreu aos 66 anos, no melhor de sua forma e como o jornalista mais influente do país. Antecipou em sua coluna Diário da Corte o estilo que se consagraria nos melhores blogs brasileiros. Lapidou o estilo. Fez escola no território livre da www.

(Vou repetir aqui informações que muita gente está careca de saber, mas não sei se os eventuais leitores deste blog saberão, então, bola pra frente. Qualquer coisa, grite).

A coluna surgiu em 1977, na Folha de S. Paulo, e migrou depois para o Estadão e o Globo. Frases curtas, com recheio, molho e cobertura. Um espaço nos jornais que alguns tomavam como Gólgota, outros como jardim das aflições, outros como muro das lamentações e muitos poucos como uma relíquia do Santo Graal. Entre os criticados, atacados e elogiados, a mesma sensação de terem sido alvejados por alguém que, realmente, importava. Repercussão dos diabos. O incômodo da crítica impiedosa; a alegria do elogio franco.

Mas, diabos, quem era Paulo Francis, ó gajo? Digo-lhes, meus patrícios das Terras de Vera Cruz: um dos jornalistas mais provocadores, polêmicos, inteligentes, instigantes e abrangentes que este país já produziu. Pouquíssimos profissionais alcançaram seu prestígio profissional e social. Conseguiu ser lido e respeitado como dono de si mesmo, não como representante de uma ideologia, grupo, partido político, seita ou torcida organizada.

Não é pouco. Especialmente para quem teve sua história ligada a ideologias. Foi trotskista, flertou com paixão um tipo de nacionalismo genuinamente brasileiro para depois abraçar entusiasmado a democracia de livre mercado. Foi, por assim dizer, um libertário-conservador. Noblesse oblige:

“Passei de criança a adulto. Eu era uma criança que confundia desejo com realidade. Eu tinha certos desejos ? que eram fraternais com relação à minha situação privilegiada e à situação desprivilegiada de outras pessoas. Mas descobri, ao ver o mundo aí fora, que a maneira de resolver esses problemas não é a maneira pregada pelos principais grupos populares aqui do Brasil. A grande transformação foi esta. Vi que os países ricos são paises que se abrem para o capital e fazem iniciativa privada. Como é que você vai empregar os brasileiros sem iniciativa privada? Vai fazer de todo mundo funcionário público? As repartições públicas já estão falindo! E com esses milhões que estão aí o que é que você vai fazer? É preciso abrir desde botequim a fábrica. Isso só com capital privado!”, disse em 1994, numa entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto Referência, para admiradores e desafetos, continua a provocar debates apaixonados, estimulantes e imbecis. Mais na rede do que na imprensa escrita.

Mas o que, afinal, Francis tinha para que sua postura diante dos acontecimentos se mantenha provocadora? Seu texto era vibrante, um arame farpado verbal. Combinava suas declaradas influências: Bernard Shaw, H. L. Mencken, George Jean Nathan, Karl Kraus ? polemistas de primeira. A previsibilidade do debate de idéias pelos jornais e o crescimento do número de blogs interessantes também explica a freqüente invocação de seu nome. Para o bem e para o mal. A quantidade de citações espatafúrdias é enorme. Igualmente, as avaliações equivocadas sobre o que escrevia e pensava.

Uma simples googlada nos dá muitos exemplos: Achava o Francis um chato, superpretensioso e eivado por preconceitos vis. Como bem lembra o Rafa, ainda tinha o mau hábito de não checar sobre o que escrevia. Para mim, Francis não faz falta alguma (Ricardo M).

Lia PF na Folha. Seus preconceitos me acabrunhavam, mas não deixava de admirar sua “abrangência” pedante. Contraditório? (Cláudio Costa)

Francis era genial e essa coisa de plágio é uma grande bobagem. Picasso era gênio mas plagiava também. Tom Jobim era genial e plagiou Águas de Março. (Miguel Cordeiro)

Quando Paulo Francis (1930-1997) morreu, em fevereiro de 1997, morria com ele uma de minhas maiores diversões, que era a de procurar erros em sua coluna Diário da Corte. (Milton Ribeiro)

Há aspectos que saltam dessas opiniões: os preconceitos, os supostos plágios, os erros de informação, a influência que criou imitadores, a intolerância. Na era pré-internet, quando não era possível checar informações em segundos, Francis errava por confiar demais na própria memória. Muitos de seus erros foram coletados no diáfano e vulgar livro Vida e obra do plagiário Paulo Francis, de Fernando Jorge. O rigor de informação que Francis cobrava como um leão, já não o tinha para si. Seus erros, se identificados por ele em outro jornalista ou intelectual, o fariam ficar furibundo. Parecia não ter mais saco para verificar. But who cares? Divertia até quando comentava os próprios erros.

Outro dia cismei de escrever sobre Hemingway e me enganei no nome da jornalista que o descreveu indelevelmente no “New York”. Chamei a mulher de Lillian Smith. É Lillian Ross. Mas, pelo menos, não havia outros erros que eu possa perceber. O que não é mau para um cabra da minha idade que escreve quase tudo de cabeça. Aos 32 anos tive um colapso nervoso e esqueci duas semanas da minha vida. Um dos sintomas foi um ensaio sobre o mesmo Hemingway que escrevi para a revista “Senhor” antiga. Carlos Drummond de Andrade me telefonou dizendo que estava muito bom o artigo mas que o nome dos livros e das personagens pareciam todos trocados. Daí à longa noite das trevas. O “colapso” durou alguns dias. Lembrei tudo, rapidamente. Contei isso num livro (Folha, 08/02/90).

Para ele, a análise e o tom eram tudo. Não errava por desonestidade, mas por imprecisão, o que, no direito penal, equivale à imprudência e negligência. Mas um erro, é um erro, é um erro. Fica na pele feito marca de gado. Francis nunca ambicionou, de verdade, ser um scholar. Gostava de ser jornalista, um generalista que mergulhava, de forma não sistemática, nos assuntos mais diversos. Amava o conhecimento. E queria dividir isso com seus leitores. Assim o fez; assim tornou-se o que era num tempo em que o acesso à informação cultural estrangeira no Brasil era coisa para poucos.

Na sua coluna, com alguns dos trechos citados aqui reunidos pelo jornalista Daniel Piza no livro Waaal, o Dicionário da Corte de Paulo Francis, tratou de temas que lhe eram caros:

Literatura:

Escrever um romance, bom ou mau, é uma experiência altamente narcisista. O romancista é um deus, grande ou pequeno, dependendo do talento, mas os deuses também são panglossianos e se acham todos do tamanho do próprio nariz. O romancista organiza o mundo como quer, o que nenhum de nós consegue sequer na nossa vida particular (Folha de São Paulo, 25/08/77).

Cinema:

O cinema de Huston é macho, como ele. O homem é realizador, mas predatório, autodestrutivo. A mulher adoça, civiliza, a vida do homem. Mas não há confusão de sexo em seus filmes. Até quando ele retrata um homossexual, Marlon Brando em Os pecados de todos nós, Reflections in a golden eye (1967), a masculinidade de Brando é explosiva. O máximo em que Huston consente é a aventura romântica, o forte dele, diga-se de passagem, como em Uma aventura na África, The African queen, em que a mulher desempenha um papel acessório (Folha, 30/08/87).

Branca de Neve e os sete anões deu na primeira semana de reprise US$ 12 milhões. É do escambal. O talento de Walt Disney. Tinha um senso de pavor, de maldade, que raros artistas que se pretendem adultos neste país expressam. Ezra Pound e Edmund Wilson, dois dos cérebros de primeira produzidos pelos EUA, tiveram seu tempo de veneração à criatividade de Disney. Pound adorava Bambi… (Estadão, 18/07/93)

Teatro:

Acho que arte engagée não dá pé. O que é tópico deixa rápido de ser e morremos de tédio com as mensagens velhas. Artistas como Bertolt Brecht tomaram todo o cuidado de isolar suas pregações em partes extirpáveis sem dano de suas peças ou de simplesmente ignorar a mensagem, certos cinicamente de que suas reputações de esquerdistas fariam os críticos imaginarem que eles estavam propondo qualquer coisa. Dou um doce a quem extrair uma mensagem das duas melhores peças de Brecht, Galileo Galilei e mãe Coragem (Folha, 24/06/89).

Escritores:

Turgueniev é um dos raros escritores russos que não é histérico. Seus contemporâneos intelectuais russos o detestavam. Sentiam, sem definir precisamente como, que ele tinha quebrado a fôrma em Pais e filhos, que não era como eles (Folha, 04/04/88).

Acho hoje que o buraco de Proust é mais embaixo do que aquele esgotamento de tudo que é possível sentir, de todas as maneiras possíveis, tornando um tanto supérfluos outros romances ou obras quaisquer de ficção. Há um imenso prazer na vida em Proust, apesar de todos os desapontamentos, frustrações e “filosofações” (Folha, 11/01/90).

Música:

Há momentos, no jardim mágico de Klingsor, em que as mulheres assediam Parsifal. Se havia música no paraíso é o que elas cantam (Estadão, 2/5/1993).

Cidade:

O Rio parece uma praça de guerra. Com soldados armados perturbando o tráfego. Todos têm cara de jacu. Com espingarda na nossa direção, quando passei de carro pensei que iam atirar em mim. Imagine os estrangeiros. A marca registrada do subdesenvolvimento, para quem vem do Primeiro Mundo, é ver tropas armadas pelas ruas. Apesar disso o Rio surpreende (OESP,28/05/92).

Se essas frases não são precursoras dos atuais blogs de qualidade, ô. Mas, afinal, o que queria Francis? Mais do que jornalista, certamente, ser um escritor reconhecido. “Escrevo romances para me perpetuar, para ter fama, glória, dinheiro, amor, essas coisas comezinhas da vida”. E os preconceitos? Todos os temos, admitamos ou não. Ele dava vazão. O que há a lamentar? O que há de mais saboroso em H. L. Mencken se não seus Prejudices?

É comum, no Brasil, apontar Francis como plagiário porque, em muitas citações, ele não dava o crédito. Ele as incorporou ao seu cabedal da forma mais pura e sublime. De tanto repeti-las, julgava seus leitores capazes de identificá-las. O leitor devia ser um dos seus. Devia saber o que era dele, o que era dos outros. Às favas com as aspas.

Lendo as citações sobre ele na internet percebe-se que o jornalista foi transformado em caricatura de si mesmo, um personagem histriônico sem alma. Desumanizaram Francis para atender a análises de seu caráter que, para tantos, define sua obra. A redução é uma forma tosca de má leitura ou desonestidade. O trabalho de Francis na TV Globo, como comentarista de assuntos internacionais, ajudou a formar essa imagem. Mas, sabemos, um barril de carvalho armazena, dá gosto e aroma ao melhor single malt. Cavalheiros não consideram, nunca, beber o barril.

Francis foi injusto, equivocou-se; foi justo, acertou; foi generoso, implacável. Como jornalista, seus erros e acertos ganharam a exata dimensão de seu prestígio e popularidade. Eram imensos.

É aqui que chego ao ponto, não o G, infelizmente. Francis nasceu Franz Paul Trannin Heilborn em 3 de setembro de 1930, no Rio de Janeiro, em família tipicamente alemã. Morreu em 4 de fevereiro de 1997. A partir daí a imbecilidade nacional e a empulhação intelectual ganharam um alento. Diário da Corte teria sido, certamente, um dos poucos refúgios dos leitores neste momento em que Lula, o presidente de Vera Cruz, inicia o segundo ato da tragédia tupiniquim. No primeiro mandato do demiurgo, poucos se atreviam a questionar o governo do “Menas”, como ele chamava Lula. E daí, Baudelaire? Daí que o legado de Francis se mantém, ora, ora, na internet, esse meio pulverizado e pulsante que ele nem chegou a trabalhar ou ver estabelecido.

No Diário da Corte, conjugava liberdade, agressividade e destemor. Foi a precursora do que vemos atualmente em blogs e sites pessoais no Brasil. A liberdade de movimento e pensamento desfrutada na internet foi conquistada por Francis numa indústria (periódicos) que precisava lucrar para pagá-lo. Já a liberdade irrestrita da world wide web cobra o preço da colaboração, na maioria esmagadora dos casos, não remunerada.

Francis, animado leitor dos diários do almirante inglês Samuel Pepys (precursor mundial dos blogs de qualidade), pavimentou o terreno para vários blogueiros, que assumem a dívida. Blague deste signatário? Não, conselheiro Acácio. Fiquemos com dois nomes: o conhecido e notável colunista da Folha, o português João Pereira Coutinho (acusado na internet de plagiar Francis); e o cada vez melhor Alexandre Soares Silva.

Voltando à vaca fria: foi na coluna que Francis encontrou o tom exato de seu jornalismo. Os textos curtos tinham a temperatura sempre elevada, e seus comentários eram embalados com arame farpado. Se, na imprensa de hoje, poucos têm coragem de lutar contra o consenso, o que faz com que seus amigos não apostem muito na duração de seu legado, é no território livre da Internet, especialmente em dezenas de blogs, que a herança do jornalista inconformado e inconformista, resiste com vigor e mordacidade. O estilo é o homem, já dizia Buffon. Na blogosfera brasileira, o estilo, o melhor estilo, tem um quê de Francis, Paulo Francis, o histriônico ateu que adorava eminências católicas, como o bispo Richelieu.

É curioso notar que a herança de Francis tenha se dissipado na imprensa escrita e esteja viva na internet. Isso não é suficiente, porém, para que amigos seus acreditem em herança. Numa entrevista que fiz no fim de 2005, Ivan Lessa, jornalista da BBC radicado em Londres há 30 anos e leitor atento de blogs, não deu a menor bola para essa conversa de herdeiro. “Como tudo mais, Francis ficará esquecidão em grande parte e lembradinho aqui e ali”. Na mesma época, o colunista da revista Veja e amigo, Diogo Mainardi, foi mais fundo. Disse que Francis havia perdido a batalha contra a mediocridade. “O país ficou pior. A herança se perdeu”.

As análises soam catastróficas, mas o quadro geral da imprensa brasileira e do farisaísmo intelectual que se permitem publicar torna compreensível a avaliação do fim próximo. Francis talvez vá além do que revelam as aparências, e é possível que a moderna tecnologia atualize a sua contribuição ao pensamento. Os jornais, que, até outro dia, torciam o nariz para os blogs e a opinião marcadamente pessoal, hoje estimulam seus analistas políticos a criar seus respectivos blogs, onde podem ensaiar uma liberdade de expressão que o formato tradicional do jornalismo ainda não lhes dá. É como se o tempo, finalmente, estivesse chegando mais perto de Francis…

Mas, apesar do prestígio conquistado pelos blogs enquanto ferramenta tecnológica, o que se vê é a repetição do que se faz no formato tradicional. São raríssimos aqueles que conjugam informação, análise, poder de fogo e bom humor. Quem, diz aí? No Brasil, anotem, o jornalista Reinaldo Azevedo. Seu blog está hospedado no site da revista Veja.

Paulo Francis era, ademais, um provocador. Escrevia como se estivesse conversando, falando ao pé do ouvido do leitor. Forjou seu texto com a desenvoltura da fala e a velocidade das idéias, que jorravam diretamente no papel. Respeitava o leitor, embora dissesse o contrário nos momentos de raiva e não tinha medo de puxar-lhe as orelhas:

“Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. (…) Acho que quem ofende os outros e os leitores é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma”.

Não deixo de pensar, como o senhor François René de Chateaubriand, que irritamo-nos menos por causa da ofensa recebida do que por causa da idéia que fizemos de nós próprios.

Quando Francis começou a trabalhar na imprensa, em 1957, como crítico de teatro, aos 27 anos, primeiro na Revista da Semana e depois no Diário Carioca, o ambiente cultural, intelectual e jornalístico no país tinha muitas cabeças de vantagem sobre este início de século 21. Debates intelectuais e políticos duravam dias pelas páginas dos matutinos. A vida no Rio era estimulante, e Francis deleitou-se na boemia carioca. Bebeu bem. “Não me lembro de uísque que não fosse excelente”. Dos que escolho, nem eu.

O apelido Paulo Francis, aliás, foi dado por um diretor de teatro quando participou de um grupo como ator. Foi dessa experiência que saltou para a crítica teatral numa época, anos 1950, em que havia mais uma ação entre amigos de jornal e teatro do que propriamente crítica. Juntos com mais três críticos, incluindo a ainda hoje atuante e vibrante Bárbara Heliodora, de 82 anos, Francis passou a escrever textos violentíssimos contra o que de pior se apresentava no Rio. Sua grande influência nessa época era o virulento crítico teatral americano George Jean Nathan.

Tanto na crítica teatral como nos textos políticos e culturais, Francis, passional até a medula, mostrou a que veio: colocar as coisas em seus devidos lugares. Arranjou brigas, desafetos, admiradores, algo que continuou durante a vida profissional nas várias publicações onde trabalhou: Revista da Semana (1957), Diário Carioca (1957-1959), Senhor (1959-63), Diners (1963), Última Hora (1959-64), Correio da Manhã (1967-68), Realidade (1968), O Pasquim (1969-1975), Visão (1978), Folha de S. Paulo (1975-1990), TV Globo (1981-1997), Estadão e O Globo (1990-1997).

O jornalismo político consumiu sua carreira. As decepções políticas também. O golpe de 1964, o AI-5, as quatro prisões por combater a ditadura militar no Brasil e a mudança para os Estados Unidos, em 1971, fizeram com que reavaliasse suas antigas crenças. Em solo americano, deu um bico no trotskismo da juventude para tornar-se um liberal-libertário.

A guinada lhe valeu acusações de ter se tornado conservador, reacionário até. Sempre foi, só que à maneira do escritor Jorge Luis Borges, para quem o ideal é que as coisas boas fossem conservadas, e as ruins, eliminadas. Parece só uma tautologia ou uma evidência escandalosa. No Brasil, pode ser uma pequena revolução. Suas colunas mantinham a circulação de idéias no país, onde o debate havia sido suprimido pela ditadura.

Elitista da melhor cepa, Francis não via como a alta cultura pudesse se manter de pé se não houvesse quem a defendesse do hibridismo e da pasteurização próprias da indústria cultural. Lido, respeitado e temido, viu-se transformado em celebridade ? e capitalizou isso a seu favor ? após se tornar comentarista da TV Globo em 1981.

A projeção que Francis conseguiu estava muitas escalas acima daquela a que estava acostumado escrevendo para os jornais. Passou a falar a milhões de pessoas e soube se valer da imagem e da opinião como poucos. “Raras pessoas souberam usar o sucesso como Paulo Francis”, escreveu o jornalista Telmo Martino num texto para O Globo, em 5 de fevereiro de 1997, dia seguinte à morte do amigo. “Para quem esperava o Jornal da Globo, sua presença provocava uma espécie de suspense. Qual cabeça rolaria naquela noite com um indispensável estrondo?”

Em 1993, Francis foi convidado por Lucas Mendes a formar o time do Manhattan Connection, do qual também faziam parte os jornalistas Caio Blinder e Nelson Motta. O programa desfez a imagem azeda que o público tinha do jornalista. Ali ele se permitia rir, contar piadas, cantar trechos de ópera. Mas não deixou de lado as provocações, a sátira, a acidez dos comentários. Foi assim que acusou diretores da Petrobras, estatal brasileira de petróleo, de terem contas em paraísos fiscais. Foi processado. O valor da causa era de US$ 100 milhões. Para alguns, a causa do seu enfarte fatal.

A fama aumentou. A remuneração idem. O jornalista não precisava mais contar centavos de dólar. Podia comprar livros, lasers, discos, sapatos, gravatas inglesas, ternos da Brook Brothers, beber os melhores vinhos, jantar nos melhores restaurantes e viajar pela Europa. Aproveitar, enfim, o que ele chamava de “coisas comezinhas da vida”.

Francis publicou nove livros - dois ensaios, quatro coletâneas, dois memorialísticos, dois romances e um de novelas. Uma de suas frustrações foi não ter achado a embocadura como escritor. Seus dois romances nem sequer suscitaram um debate de idéias. Cabeça de Papel (1977) e Cabeça de Negro (1979) não são fáceis. As duas novelas reunidas no livro As Filhas do Segundo Sexo são mais palatáveis e tratam do comportamento da mulher na era pós-feminismo. Ao contrário da ficção, suas coletâneas e semibiografias foram bem-sucedidas.

O jornalista transcendeu os limites de seu ofício, segundo Mainardi. “Ele rompeu com esse tipo de jornalismo antijornalístico, baseado na cultura de cavalheiros”, disse Mainardi. Talvez isso ajude a explicar a quantidade de jovens espalhados por blogs e sites na internet que o citam como o jornalista que lhes abriu uma diversificada vereda cultural. Virou lugar comum dizer que ele faz falta.

Paulo Francis morreu de ataque cardíaco há 10 anos. Era o mais influente jornalista do país, embora reclamasse de certa acídia, de estar “tecnicamente morto” por não ter mais os amigos e o vigor de sua geração. Mas, a exemplo de Benjamin Disraeli, o que parecia lhe dar a impressão de não haver totalmente falhado na vida era a admiração dos jovens, com os quais foi generoso em vida e, com sua obra, após a morte. O que fica é o que fica. Bem disse Ovídio: tudo em nós é mortal, menos os bens do espírito e da inteligência.

LIVROS DO FRANCIS

Opinião pessoal. Civilização Brasileira, 1966.

Certezas da dúvida. Paz e Terra, 1970.

Nixon x McGovern: As duas Américas. Francisco Alves, 1972.

Paulo Francis nu e cru. Codecri, 1976.

Cabeça de papel. Civilização Brasileira, 1977; 2ª edição, editora Francis, 2003.

Paulo Francis – Uma coletânea de seus melhores textos já publicados. Editora Três, 1979.

Cabeça de negro. Nova Fronteira, 1979; 2ª edição, editora Francis, 2003.

O afeto que se encerra. Civilização Brasileira, 1980.

As filhas do Segundo Sexo. Nova Fronteira, 1982; 2ª edição, editora Francis, 2004.

O Brasil no mundo. Paz e Terra, 1985.

Trinta anos esta noite – 1964, o que vi e vivi. Companhia das Letras, 1994; 2ª edição, editora Francis, 2004.

SOBRE FRANCIS

O Dicionário da Corte de Paulo Francis. Companhia das Letras, 1996, organizado por Daniel Piza.

O soldado fanfarrão, Objetiva, 1996, de George Moura

Vida e obra do plagiário Paulo Francis, Geração Editorial, 1996, de Fernando Jorge

Paulo Francis. Editora Relume Dumará, 2004, de Daniel Piza

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Garschagen fora da trincheira

Estou ausente da minha trincheira, razão pela qual não consegui escrever ontem e hoje. Ainda fico alguns dias fora. Volto assim que puder, ok?

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