Aristóteles estava certo: nem todo verso é poesia

A respeito do post Letra de música NÃO é poesia!, recebi o seguinte comentário de Antonio Miranda:
Meu caro Bruno,
não vou entrar na polêmica, até porque não fui convidado. Por certo, o que tinha a dizer, já disse (ou escrevi). A questão agora é outra, como insinuei ao final da crônica: e o que é então poesia? Várias pessoas me escreveram dando “suas” (deles) opiniões. Respeitáveis mas discutíveis como a sua invectiva: “algumas letras de música são poéticas, mas não são poemas.’ Válvula de escape… Não dá para dizer sim nem não… Ou seja são “poéticas” no sentido adjetivos mas não seriam “poemas” no sentido substantivo. E daí?
Antonio Miranda
Um amigo me contou uma conversa que teve com um sujeito que, lá pelas tantas, para não se mostrar vencido na discussão sobre caráter e moral, soltou essa pérola: “Mas o que é um homem de bem para você?” Meu amigo agiu rápido: “Se você não sabe o que é um homem de bem, então, rapaz, não há como ter diálogo”.
Lembrei dessa história ao reler o texto de Antonio Miranda e seu comentário neste blogue. Se ele não sabe o que é poesia, como pode querer entrar no debate? É claro que dá para afirmar categoricamente que letra de música não é poesia. Ele diz que minha frase “algumas letras de música são poéticas, mas não são poemas” é uma válvula de escape. Não há escape. Afirmei e repito: letra de música não é poesia. O fato de algumas letras terem elementos poéticos não quer dizer que são poemas. Válvula de escape é dizer que “não dá para dizer sim nem não”.
Algumas letras têm versos, mas só ter versos não as transformam em poemas. Aristóteles já afirmava que nem todo verso é poesia. Como exemplo, tomava as obras de Homero e Empedocles, ambas escritas com métrica, que era o único ponto em comum, pois Homero fez poesia e Empedocles, um tratado de ciências natural escrito em versos.
Numa letra de música você pode encontrar alguns elementos de poesia, como ritmo, ou rima, ou sonoridade, ou sintaxe, ou métrica, mas você nunca verá numa letra todos esses elementos mais o significado, que é um elemento importante de um poema. Reunindo esses elementos, o poeta constrói imagens, expressa sentimentos, dissemina idéias, e o melhor poema é o que consegue transmiti-los. E o fato de transmitir algumas dessas idéias não transforma o letrista em poeta, a letra em poesia. Wilson Martins, num de seus achados intelectuais, disse “que o verso não foi dado por acréscimo a muitos que receberam o sentimento da poesia”. É comum o vulgo ver numa letra e num letrista esse sentimento de que fala Martins, mas daí o sentimento, em letra, ser convertido em poema…
Thibaudet foi preciso: há poetas apenas por escreverem versos, não escrevem versos por serem poetas. É possível dizer que todos esses compositores/letristas saudados como poetas são poetas apenas por escreverem um simulacro de poesia, mas não são poetas por não escreverem poesia.
Como já observou T. S. Eliot num ensaio sobre Pound, a música da poesia é mais próxima da retórica, a arte do orador, do que do instrumento. “Palavras são talvez os mais duros de todo o material da arte: porque elas devem ser usadas para expressar beleza visual e beleza sonora, como também comunicar uma declaração gramatical”.
Um poema pode ser usado como letra de música, como a conhecidíssima Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes, mas uma letra de música, feita com essa finalidade, nunca será um poema.
PS: O assunto não se esgota. Voltarei.
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