Quando a versão é tornada maior do que o fato

A versão, para o governo Lula e todos que fizeram ou fazem parte dele, é maior do que o fato. Se o fato não interessa, jogue-o aos jacarés. Há muitas historinhas no livro Golpe ao Planalto, de Ricardo Kotscho, petista de carteirinha que foi assessor de Lula, que me cheiram muito mal. Uma delas dava conta de uma visita do Língua-presa à Folha. Era, soube agora, uma versão. Quer saber o fato? Olha só um trecho da entrevista do editor Otávio Frias Filho na revista Imprensa:
No livro do “Golpe ao Planalto”, o jornalista Ricardo Kotscho conta um episódio que foi muito comentado nos bastidores: o almoço do candidato Lula com a cúpula da Folha, nas eleições de 2002. Naquela ocasião, Lula levantou-se abruptamente no meio do almoço e foi embora, irritado com algumas perguntas feitas por você. Especula-se que isso teria abalado a relação do Lula com a Folha, especialmente no primeiro mandato. Qual a sua versão para essa história?
Essa pergunta me dá a oportunidade para retificar a versão que o Kotscho apresenta no livro. Minha versão é bastante diversa. Nunca interpelei o então candidato Lula a respeito da falta de formação escolar ou universitária. Pelo contrário. O preâmbulo da pergunta foi dizer que, na minha opinião, não faz a menor diferença que uma pessoa chegue a presidência sem ter antes feito uma faculdade. O ponto que levantei foi outro. Eu queria saber do Lula que tipo de preparação ele vinha fazendo nos últimos 20 anos, tempo em que ele teve condições materiais para estudar. Foi a natureza dessa pergunta que o deixou alterado, a ponto de ter abandonado o encontro. Interessava ao PT e ao Lula apresentar esse episódio como se a minha pergunta se referisse a falta de formação universitária. Foi justamente o contrário disso. Eu queria saber a que estudos e preparação ele vinha se dedicando nesse período mais recente, quando ele teve tempo se sobra e dinheiro para fazer um curso de economia, até para estudar no exterior se quisesse. Citei até o exemplo do Vicentinho, que tinha entrado na faculdade de direito. A reação foi muito emocional da parte dele. E respondi também com muita veemência. Meu pai ainda teve a cortesia de acompanhá-lo até a porta do jornal, como fazia com qualquer visitante.
A versão que interessava era de que Otávio havia feito troça do fato de Lula não ter curso universitário. Mas o fato é que o editor da Folha queria saber se Lula havia se preparado para ser presidente. Uma pergunta só ofende se o interpelado não tiver resposta ou faltar-lhe humildade para reconhecer as próprias deficiências. Lula será um eterno ofendido.
1 Comment so far
Leave a reply
Triste é o Vicentinho ser bom exemplo perto do Efeletífimo. A que ponto chegamos.