Elites, literatura, silêncio e indiferença

A elite virou uma entidade contra a qual são debitadas na conta até terremoto, furacão e tsunami. Tudo de errado “neste país” é, claro, culpa da elite. A ignorância atinge o pico da escala Richter, pois até quem é da elite dá pau na elite; basta algo dar errado. Mas há um problema de conceito e entendimento gravíssimo. Se a elite é “o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social”, como informa o Houaiss, como pode o melhor produzir o pior? Caberia a essa elite a responsabilidade e a culpa por todos os males do mundo? Seria a elite o grande satã?
Acho perfeito o conceito sociológico de elite elaborado pelo italiano Vilfredo Pareto: indivíduos que se destacam dos demais por suas qualidades superiores em todas as áreas de ação humana e, por isso, compõem uma minoria distinta do resto da sociedade. O interessante desse conceito é que carrega consigo uma mistura de sentidos classificatório e valorativo, desembocando numa aristocracia. Assim, temos os melhores, que são a elite, na política, na economia, nos esportes, na literatura.
E aí você me pergunta: mas, Garschagen, aristocracias não são perenes, o que impediria a mobilidade social? É aí que a teoria de Pareto fica ainda mais interessante. Ele não entende aristocracia como algo eterno, analisando a história como um cemitério de aristocracias. Bom, não? A esse movimento, Pareto batizou de circulação das elites, capaz de assegurar o equilíbrio e a longevidade do corpo social.
E a coisa vai adiante. Como? Se não houver circulação das elites, ou se o processo ocorrer lentamente, há uma degeneração porque quem assume o topo das esferas de ação humana são indivíduos de qualidade inferior. Em contrapartida, nas camadas inferiores da sociedade vão se acumulando indivíduos de qualidade superior. A conta, como se vê, não fecha, provocando crises, perturbações e violência. Geralmente, há revoluções para derrubada violenta da elite governante, elite essa que não é formada pelos melhores.
Pareto, de trivela, ainda dá um chute na teoria marxista da luta de classes, o que é sempre saudável e faz bem pra pele. O que diz o moço? Há uma luta constante entre a elite no poder e quem está de fora, independente da classe social. As classes sociais, aliás, poderiam ser extintas que a luta para a circulação da elite continuaria sem cessar.
A teoria de Pareto dá um outro cacete nos esquerdinhas adeptos de um levante: a revolução socialista é, apenas, a tomada de poder pela elite burguesa socialista. Só. Acaba, dessa forma, toda a construção ideológica do discurso segundo o qual seria possível um governo das massas. Não há como um governo, que é dominado por uma elite, uma minoria, pretender ser igualitário com o discurso vazio da soberania popular. Como explica sensatamente Mario Grynszpan, no instrutivo ensaio A teoria das elites e sua genealogia consagrada.
Voltando à vaca fria, como, então, conciliar esse discurso tolo que há no Brasil contra as elites se o conceito consagrado de elite rechaça tal pantomima? Não há como o melhor produzir o pior; e o pior, quando chega ao poder, é derrubado pelo melhor, eis o resumo da teoria de Pareto, que, claro, não pode ser aplicada ao Brasil, especialmente com esse governo do “nunca antes neste país”.
É possível fazer uma defesa das elites enquanto conceito. Mas ao imaginar sua aplicação e defesa no Brasil fico um tanto quanto atordoado. Quem está no poder político é elite por ter conquistado e deter o poder. Mas seriam esses que vemos aí os melhores da sociedade brasileira? Se sim, estamos lascado; o nível é baixíssimo e não há salvação. Se não, onde estão os melhores? Na literatura, sabemos, eu e você, caro leitor: a turma que aparece comumente celebrada não é a melhor. É claro que existem os bons celebrados, mas são minoria. E não seria a minoria a elite per se? Se essa horda é celebrada não temos a celebração da elite, mas da legião, que é maioria, e, por essa condição, está excluída da elite.
Talvez o problema central da vulgarização da literatura pátria e da má qualidade dos escritores de auditório seja a celebração da maoiria em detrimento da minoria, a nossa elite literária que, por ser elite, e, por isso mesmo, discriminada, vive à margem e é tratada, não a pontapés, mas com um silêncio igualmente nefasto e ensurdecedor. No Brasil, mata-se o talento pela indiferença.
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Dê uma olhada, depois, nos verbetes da Wikipedia (em inglês, of course) referentes a “nobreza” e “aristocracia”. As definições são bastante escrupulosas e, creio, exatas; servem para dissipar muitos mal-entendidos que vemos por aí.
Abraços.