É tudo culpa das elites? E quem somos a elite?

Pois é, Garschagen, não é qualquer um que pode envergar uma roupa dessas não, ouviu?

Não conheço grupo social mais vilipendiado do que a elite. De um tempo para cá, finalmente, está havendo uma reação instrutiva contra todas as bobagens ditas a respeito da elite. Destaco, dos textos que li, dois, um do sempre bom Demétrio Magnoli, em O Globo, outro de Marcelo Otávio Dantas, na Folha. Reproduzo os textos e comento no post lá de cima:

N’O Globo (23/08/2007):

O STF diante da história

Por Demétrio Magnoli

A elite está na moda. Na fábula mil vezes repetida por Lula, todo o mal provém da “elite que governa este país há 500 anos”. No discurso dos intelectuais que se imaginam “orgânicos”, há uma permanente “conspiração das elites” contra o governo.

Foi sob a influência de Vilfredo Pareto (1848-1923) que, nos anos 30, uma corrente da sociologia substituiu o conceito marxista de divisão da sociedade em classes pelo paradigma entre “elites” e “massas”. No Brasil, a obsessão pela elite coincide com a chegada de Lula ao poder. Antes, fiéis à linguagem marxista, os petistas invocavam os “trabalhadores”. Depois, sem o saber, tornaram-se “paretianos” e passaram a invocar o “povo” ou os “pobres” - isto é, as “massas”. O discurso reinventado reflete adequadamente a novidade de fundo: a ascensão de uma nova elite política.

“Elite”, assim no singular, que se reproduz ao longo de séculos, sempre igual a si mesma, só existe na matreira delinqüência intelectual de Lula. Na sociologia, existem elites políticas, econômicas, intelectuais, religiosas. Há, sobretudo, uma “circulação das elites” - um fenômeno cujos indícios, entre nós, abrangem o elegante declínio dos quatrocentões paulistas, a decadência ruidosa dos usineiros nordestinos e, também, a configuração de uma “classe política” que faz do cargo público uma plataforma para a ascensão social. Renan Calheiros, um homem de origem humilde, é a ilustração mais atual desse último processo.

A dissociação entre a elite política e a elite econômica se acentuou no Brasil após o fim do regime militar, ainda que a segunda continue capaz de veicular seus interesses por meio da primeira. A trajetória de Calheiros não é a exceção, mas a regra, no Congresso Nacional. Sob esse aspecto, não há novidade na ascensão da nova elite petista. Formada por indivíduos de classe média, com raízes no sindicalismo e na universidade, essa elite adventícia pratica o tradicional intercâmbio de poder e conexões políticas por carreira, renda e patrimônio. As suas invectivas contra a “mídia”, que revela essas estratégias, mal escondem um sentimento de revolta diante do que se lhes afigura como “preconceito”: afinal, não fazem o mesmo que tantos outros, antes deles?

Elites tendem a aderir às regras de funcionamento do sistema no qual se processou sua ascensão. A nova elite da estrela vermelha renunciou há muito à idéia de transformação social e, nos seus hábitos, não se distingue das demais frações da elite política brasileira. A sua singularidade é pertencer ao PT.

“Certa ou errada, é a minha pátria” - a divisa clássica dos nacionalistas, reinterpretada pelos comunistas, produziu incontáveis abjurações: “Não se pode estar certo contra o partido”, diziam os militantes que “retificavam” seu pensamento para alinhá-lo às móveis verdades do Comitê Central. O silêncio dos petistas acusados no episódio do “mensalão” se inscreve nessa lógica, mas tem motivações diferentes. Os velhos comunistas acreditavam que o partido era o instrumento indispensável de salvação da humanidade; os dirigentes e quadros petistas acreditam que só o partido pode salvar a si próprios.

O PT é o alicerce sobre o qual se ergue a rede de relações sociais que propicia a ascensão da nova elite política. É por meio do partido, com sua hierarquia e suas correntes internas, que se processam as indicações para os cargos públicos e se tecem as conexões com o mundo empresarial. Não se rompe com o partido, nem mesmo depois da expulsão, como atesta o caso de Delúbio Soares. Em contrapartida, o partido vela pelos seus na hora da desgraça, oferecendo-lhes demonstrações de solidariedade e legenda eleitoral ou, pelo menos, advogados e ajuda financeira oculta, como atestam os casos de José Dirceu, José Genoino e Silvio Pereira.

A denúncia oferecida pelo procurador-geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF) tem relevância histórica, pois é a primeira peça judicial que desvenda o novo padrão de corrupção política engendrado por essa elite. As redes de corrupção tradicionais operam ao redor de uma camarilha política informal, que controla um segmento do aparelho de Estado. A rede do “mensalão” operou sob a égide de uma máquina partidária centralizada, dirigida a partir do âmago do Poder Executivo e ramificada em diversos órgãos públicos e empresas estatais. A operação não estava a serviço do enriquecimento imediato de um grupo de pessoas, mas da consolidação e reprodução futura da nova elite.

O plenário do STF deliberará, nos próximos dias, sobre a abertura da ação penal. Juridicamente, o que está em jogo é apenas a conversão em réus de 40 indivíduos. Mas, no plano político, começam a ser definidas as regras do jogo da “circulação das elites” no Brasil.

Na Folha ( 03/09/2007):

Excelência, defina ‘elite’

Quando alguém me pergunta qual o principal problema do Brasil atual, não hesito em responder: a falta de precisão vocabular.

Vivemos sob o império dos sofismas, em que toda ilegalidade tem direito a um eufemismo, todo impostor, livre acesso à honradez, e toda bravata, o status de argumento. Num ambiente semelhante, o debate público, sério e fundamentado, se torna inviável.
Exemplos existem aos montes, mas talvez nenhum deles seja tão grave quanto a utilização que se vem fazendo do termo “elite”.

Toda vez que um de nossos dirigentes precisa livrar-se de acusações, desqualificar opositores ou simplesmente neutralizar qualquer crítica, a palavra “elite” surge como o pecado feito verbo. Ela encarna tudo o que há de ruim e malvado, o dolo em essência, o egoísmo mais nocivo, a traição sempre à espreita.

Curiosamente, essa “elite” não tem rosto. Ela é sempre o outro -o inimigo, o desafeto, o adversário, o opositor. Em suma: o dissenso.

Diz-se pertencer à “elite” o indivíduo ou instituição que ouse questionar os atos do poder.

Em qualquer língua do planeta, esse substantivo afrancesado -”elite”- inclui o estamento dirigente da nação. Salvo no idioma falado pelos próceres de nossa República.

Aqui, ministros de Estado, secretários de governo, parlamentares, magistrados, diretores de bancos e empresas estatais, nenhum se julga parte da “elite”. Tampouco são vistos como integrantes da “elite” usineiros heróicos, empreiteiros amigos, marqueteiros audazes ou banqueiros satisfeitos.

Já o cidadão de classe média que manifesta publicamente o seu desagrado com o Estado de anomia do país é, de imediato, acusado de tramar o eterno retorno das desigualdades sociais e da concentração de renda. A ofensa é absurda, mas poucos se dão conta disso.

Ora, quem paga os elevadíssimos impostos que, já de algum tempo, são cobrados no Brasil não pode ser acusado de responsável pelo atraso da nação. Os verdadeiros culpados são aqueles que tomam esses impostos sem investir corretamente na educação do povo e no desenvolvimento de nossas forças produtivas.

As “bandas podres” existem, disso não resta a menor dúvida. Mas hoje, tal como ontem, elas vivem em conúbio com o Estado. O atual governo não moveu uma palha para mudar tal quadro. Pelo contrário, especializou-se em lotear cargos e apadrinhar o fisiologismo. Além disso, encampou a ortodoxia monetária tucana, continuando a desperdiçar o arrocho fiscal no enriquecimento dos grandes investidores nacionais e estrangeiros.

Como pode então que os dirigentes continuem a ver nas vaias de alguns ou nas críticas da imprensa a mão conspiratória da “elite”? Dá vontade de dizer: “Excelência, defina elite!”.

O uso sofístico do conceito de “elite” teve sua origem em nossa intelectualidade. Foi ela quem ensinou aos atuais homens de poder a conveniente manipulação da antinomia elite-povo e quem primeiro se auto-excluiu da tão odiosa “elite brasileira”.

Ao passar décadas tratando a “elite” como um bloco monolítico e, sobretudo, ao fazer de conta que um país justo se possa estruturar sem elites técnicas, científicas, intelectuais, políticas, burocráticas, artísticas e econômicas, nossa intelectualidade transformou o conceito em um mero clichê ao dispor das lideranças populistas de viés autoritário.

Basta-lhes agora dizer “eu sou o povo” e todo questionamento passa a estar identificado com a insatisfação da “elite reacionária”. Basta-lhes repetir “o povo chegou ao poder” e o papel histórico da democracia se cumpre, tornando-se ela um instrumento obsoleto. Para que alternância de partidos se quem está de fora é a “elite”?

O atual debate sobre a crise aérea espelha à perfeição os efeitos nefastos desse pântano conceitual. Todas as críticas são ditas “provenientes da elite”. O próprio tema dos aeroportos em pane e do caos regulatório do setor é tratado como um assunto menor, de exclusivo interesse da “elite”.

Dois aviões já caíram. Quantos mortos a mais serão necessários para que os governistas de plantão acordem de seu transe?

Nenhum povo jamais foi redimido pelo sucateamento dos setores de ponta da economia. Em um debate público sério, estaríamos agora discutindo a crônica incapacidade de nossos governos em assegurar a modernização da infra-estrutura do país. Ao insistirmos na utilização oportunista de conceitos, continuaremos enfrentando crise após crise. O Brasil ficará para trás. A pobreza se eternizará. E a democracia descerá pelo ralo.

4 Comments so far

  1. Sasa Julho 28th, 2008 7:37 pm

    isso porque o Demétrio Magnoli e o Marcelo Otávio Dantas, nunca foram culpados por terem nascido pobres e despejados da casa em que moravam porque o aluguel atrasou dois meses porque estavam desempregados, e que para piorar, não foi o filho deles que morreu de dengue, porque moravam em um lugar cheio de criadouros do mosquito porque a prefeitura disse não ter como limpar o terreno vazio ao lado do barraco que um dia eles moraram, e tiveram que sair e pedir ajuda para para os outros e ver um monte de gente rica e muito bem vestida, com carro do ano,desviar deles na rua e dizer “sai de perto seu marginal! Vai estragar a minha imagem aqui!”

  2. […] escrevi sobre o assunto nos seguintes posts: É tudo culpa das elites? E quem somos a elite?, Elites, literatura, silêncio e indiferença e Ainda a teoria das elites: na roda, Ortega y Gasset […]

  3. […] escrevi sobre o assunto nos seguintes posts: É tudo culpa das elites? E quem somos a elite?, Elites, literatura, silêncio e indiferença e Ainda a teoria das elites: na roda, Ortega y Gasset […]

  4. Lionheart Agosto 30th, 2008 11:37 pm

    Sasa, eu te pergunto: qual a relação de tudo o que você citou e o que está escrito nos dois textos? Eles não estão “defendendo a elite” mas sim tentando esclarecer qual o verdadeiro significado de “elite” e como o termo vem sendo usado erroneamente por pessoas mal-informadas e/ou mal-intencionadas…

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